Em 2014, eu perdi muitas coisas. Não foi um ano ruim. De modo algum. Foi um ano incrível, mas justamente porque eu perdi muita coisa.

Em 2014, eu fui um pouco como Jó: eu perdi tudo para perder a arrogância de que mereço algo, de que qualquer coisa nessa vida é dada por lógica, merecimento, mesmo bondade. Eu perdi tudo para poder aprender a forma certa de lidar com a vida.

Que é uma certa temencia, um certo medo. A consciência constante de que ela pode te tirar tudo, assim, do nada. A gente deveria lidar com os ganhos e as perdas da vida como se lida com o mar, com energia atômica, com feras selvagens. Algo impossível de se controlar, uma força desconhecida, perigosa, algo a se tratar com cautela e respeito, sabendo que você nada pode fazer se a maré decidir te varrer.

Talvez seja curioso me ver dizendo que no ano passado eu perdi muita coisa. Afinal, eu passei quase três meses pelo mundo afora, eu defendi um mestrado, eu consegui empregos. Mas tudo isso, mesmo nos momentos mais felizes, tinha um gosto de perda, me dava a sensação que tudo me escapava que nada daquilo era meu de fato.

Pode ser porque antes de tudo isso eu perdi a mim mesma. 2014 foi um eterno esforço de me segurar nas últimas franjas de mim que restavam, no último ponto que poderia me manter sendo eu.

Antes mesmo do ano começar, eu perdi alguém. Ele me deixou sem cerimônias, sem grandes adeus, sem lágrimas. Só foi. E é engraçado como nós só percebemos o espaço que alguém ocupa quando isso se torna um buraco. Eu não sabia quão grande seria o buraco até a hora que ele estava lá. Eu achei que poderia levar facilmente, chorar por algumas semanas e seguir em frente, ninguém morre porque um relacionamento acabou. Até a hora que eu me vi naquele vazio.

O problema não é só alguém que foi embora e a falta que ele faz. O problema é que você é jogado em um vazio imenso, em uma escuridão sem fim. Ser deixada daquela forma abriu um buraco que me acusava o tempo todo de não ser amável, nem um pouco. Deixou o buraco de que mesmo depois de meses perto de mim, não havia nada ali que ele pudesse gostar.

E a primeira coisa que eu perdi, foi a sensação de que qualquer um poderia querer estar perto de mim.

Acontece que essa sensação não fica restrita ao pequeno âmbito amoroso. Ele se espalha e vai devagarzinho te fazendo perder todo mundo. Porque não importa que eles ainda estejam ali, você não consegue mais sentir essa presença. Perder a si mesma é em grande parte perder a capacidade de perceber o mundo objetivamente. Não importa que as pessoas ainda estivessem ali, eu as havia perdido.

E ir embora foi uma grande tentativa de retomá-las. Enquanto eu estava longe, eu perdi aniversários, formaturas, defesas e eu lamentei cada um desses momentos. As pessoas às vezes pensam que te importa uma festinha de aniversário quando você está em Viena? Mas importa, importa muito. Porque a vida não é feita de viagens a Viena, ela é feita de festinhas de aniversário. Mas eu tinha perdido a capacidade de estar naqueles lugares e eu precisei intensificar a ausência, perde-los concretamente, para poder retomar.

Outra coisa que ninguém nunca me disse é que defender o mestrado seria, de alguma maneira, uma perda. Eu não escolhi meu tema por acaso, eu não escolhi meu autor friamente. Eu era apaixonada por ele. Eu sou ainda, mas de outra maneira. Por três anos minha pesquisa foi a paixão da minha vida, nada me trazia mais felicidade e beleza do que assistir aqueles filmes, destrinchar aquele universo. E aquilo acabou. Naturalmente. Como um casamento que chega ao seu fim natural, porque as pessoas cresceram em direções diferentes e ainda seguem amigas, se amando de outra forma. Eu sabia que era hora, aqueles filmes haviam me dado tudo que poderiam me dar. Mas doeu mesmo assim.

No dia que eu defendi, eu lotei um bar ao ar livre em uma noite de frio e chuva. Eu não recebi uma única crítica ao que eu tinha feito, apenas elogios. E ainda assim, eu me sentia estranhamente melancólica. Porque eu estava me despedindo de algo muito querido. E porque eu não conseguia trazer para mim todas aquelas pessoas queridas.

Esse ano foi muito menos cheio de eventos grandiosos até agora. E ao mesmo tempo, eu não fiz nada além de ganhar. E é estranho a sensação de calma, mas uma calma cheia, agradável, como o ar parado, mas fresco de tardes de outono.

Primeiro, eu ganhei alguém. O tipo de alguém capaz de me fazer sair de pânicos, o tipo de presença insistente e constante que evita que você se sinta sozinha. Em seguida, eu perdi um emprego que curiosamente me devolveu à carreira que eu quero, que me fez ganhar de volta a certeza do que eu deveria fazer.

E sistematicamente, mas sem alarde, eu fui ganhando. Um apartamento novo que finalmente me fez sentir em casa. Amigas novas. Questões novas para as quais eu quero respostas, apaixonadamente mais uma vez.

É engraçado notar o quanto as tragédias vem sempre em grandes entradas. Elas se anunciam e destroem tudo, epicamente. E se você quer sobreviver não resta nenhuma escolha a não ser tornar os altos tão altos quanto foram os baixos. Mas esse tipo de ganho é como aquele choque de adrenalina, como a primeira sensação de uma droga no seu corpo. É bom, mas não se durar por mais que alguns segundos.

Eu não estou acostumada a ganhar. Eu não estou acostumada a confiar que as coisas que vêm com calma muitas vezes permanecem. Então eu me pego aqui, observando tudo, com medo de que um movimento brusco vá mudar a corrente do vento e me tirar tudo de novo. Eu toco nas coisas que ganho como se fossem animais raros e fugidios e eu me recuso a acreditar que possa ganhar ainda alguma coisa. A estabilidade é tão estranha a mim quanto palavras sérvias e eu me vejo um pouco aflita, sem saber onde guardar as coisas.

Por outro lado, eu sei que eu vou perder tudo de novo, eventualmente. Talvez por isso eu relute tanto em aprender a ganhar.

Caçada

Houve muito pouco sangue quando nós acabamos.

Talvez, eu devesse ter atirado seus livros no chão, ou atirado-os contra você. Eu deveria ter amaldiçoado sua contenção, sua ingenuidade, sua hipocrisia. Eu deveria ter gritado quando você me disse que não queria machucar ninguém. Gritado o quanto aquilo não era possível.

E você deveria ter acusado meu cinismo, minha distância, minha crueldade. Você deveria ter desenhado para mim o jogo que eu perdi, a teia que eu mesma não soube fazer. Você deveria ter jogado em mim a minha farsa.

E eu teria rido. Sentado no chão e rido. Sardonica. Histérica. Rido sem parar. Rido do seu idealismo, da sua incapacidade de escolha. Eu teria dito coisas horríveis. Teria eviscerado sua covardia. E você ficaria ali, preso entre o homem que é e a vontade de me fazer parar, de me puxar pelo braço, de me machucar.

Eu sou muito pior do que você, mas você nunca soube. Meu medo de te perder era tanto que eu guardei pra mim a minha língua, a minha mal-criação, o meu hábito de criança mimada de testar até o limite, de dizer coisas que são vazias, mas cruéis, para medir o quanto você acreditaria em mim. E você acreditaria.

Ou talvez houve muito pouco sangue enquanto nós éramos algo.

Se eu fosse outra pessoa, eu teria chorado na sua frente. Eu teria te pedido para ficar. Eu teria pedido uma garantia. Eu teria perguntado o que eu era. Eu nunca quis saber o que eu era, tamanho era meu medo de não ser nada.

Se você fosse outra pessoa, você teria sido menos contido. Menos cauteloso. Você talvez tivesse visto por trás de mim, por trás do jogo. Mas você não era capaz.

Você talvez tivesse me puxado pela cintura e arrancado a minha indiferença. Mas você não o fez.

Outro fez.

Deveria ter havido sangue quando terminamos porque ele segue aqui. Pisado, arroxeado, podre. Eu, pelo menos, chorei, parei de comer, rasguei minha pele, bebi, fui parar na cama de tanta gente que já nem me lembro. E pedi que me batessem. Que me xingassem. Fui para cama de tanta gente que eu nem queria ir. Eu sangrei sozinha, mas sangrei. Eu sangrei você todo, para fora da minha vida.

Mas você não.

Você, às vezes, ainda acha um fio de cabelo loiro, muito fino, enroscado nos seus lençóis. Tanto tempo depois. Você ainda encontra um grampo caído embaixo da cama. As manchas que eu deixei nos seus livros. E eu sigo ali. Assombrando. E você não sangrou.

Primeiro eu me perguntei por que, se era eu que tinha acabado abandonada, nua, ferida e chorando no chão. Você me deixou como quem deixa uma planta, um peixinho dourado, qualquer coisa insignificante da qual não se sente falta. Você me deixou tão facilmente, então por que?

Porque você me levou com você de alguma maneira, não foi? Nas moças loiras e pequenas. Nas moças com desenhos na pele. Nas moças que falavam francês fazendo graça, definidas apenas por aquele adjetivo tão antigo: coquete. Nas unhas que arranharam suas costas.

Porque você foi traído por você mesmo, creio. Porque não foi tão fácil. Mas você não queria não é? Você foi embora como se nada fosse, você sabia que não era nada, você, que sabe tanta coisa.

Você não sabe, como eu, que a razão trai sempre. Sempre. A razão trai a humanidade criando fornos de gente. Ela te traiu com a minha presença nos seus sonhos, nas suas noites em claro, nas suas transas. Ela te traiu em punhetas apressadas que você bateu lembrando de mim.

E agora você me odeia. Porque eu não te deixei. Porque talvez você ainda lembre do meu perfume quando uma menina senta ao seu lado no metrô, mas eu já não me lembro do seu. Você agora me odeia porque eu te arranquei de mim, porque eu, finalmente, te abandonei. Por outro.

Você me odeia porque não pode me odiar. Porque eu nunca te fiz nada. Porque eu não gritei, não esperneei, não fui mimada, irônica, cruel, violenta. Você me odeia pela minha ausência de violência. Eu sei, eu te odiei por isso também.

Se tivesse havido sangue, tudo teria acabado, morrido. Nós teríamos nos ferido até a morte e poderíamos partir, os dois, vazios de tudo isso. Mas só eu me feri, só eu sangrei, só eu expurguei isso tudo de mim. Você não. Você não sofreria por mim. Você foi traído pela sua vontade de sofrer por mim.

Mas eu fui embora. E o que você está fazendo é farejar uma trilha velha, de um animal bem mais selvagem que você.

 

Roleta

O quanto nós podemos confiar em nós mesmos? O quanto podemos confiar em nossos sentidos, nossas impressões, no que quer que tenhamos aprendido com a vida?

Epistemologia sempre foi a parte que eu mais detestei da filosofia, todos aqueles textos sobre a possibilidade, ou não, de aprendermos algo através dos sentidos. O mundo é uma ilusão? Vivemos em uma armadilha feita dentro de nossas cabeças? Ou não, podemos confiar na realidade externa como ela nos é apresentada? Daí Platão fala dos jovens corpos besuntados em óleo correndo ao sol e eu perco totalmente a linha de raciocínio.

Mas, como toda questão filosófica clássica, há algo ali. Até que ponto posso confiar em mim mesma para aprender? Até que ponto posso confiar no que sei para fazer escolhas melhores dos que as que já fiz?

Porque eu já fiz muitas escolhas ruins. E algumas dessas eu fiz plenamente consciente, mas outras eu acreditei de verdade que estava fazendo a coisa certa. E não estava.

Eu escolhi ficar, por anos, com um homem que corroía toda minha sanidade mental acreditando durante a maior parte desse tempo que ele me fazia bem, que a escolha era acertada. Como eu posso saber que não estou fazendo isso de novo? Maturidade, me dizem, tempo, eu aprendi com meus erros. Mas como eu posso ter certeza da minha, ou de qualquer um, habilidade de realmente aprender com os erros? Com a vida, com a realidade externa, com o que quer que seja? Como eu posso confiar em mim mesma para não estar cega ou distorcendo a realidade ou simplesmente muito, muito enganada?

Meu cérebro é algo frágil, além de tudo. Algo assustado e frágil e, como um animal selvagem, quase maligno nesses momentos. E ele me prega peças e coloca armadilhas. As últimas semanas têm sido pouco mais que uma tentativa de navegar as ratoeiras que ele me coloca, de ignorar cada demônio me tentando no caminho. Não dessa vez. Não hoje.

Mas e se alguma dessas armadilhas for, no fundo, a verdade? E se o que eu ouço é intuição, é segurança e não apenas medo e neurose?

Você precisa arriscar estar errada, é a resposta post de autoajuda sobre paisagem bonita no tumblr. Eu tenho vontade de rolar no chão rindo histericamente cada vez que alguém me diz que não se deve ter medo dos relacionamentos, que não se deve ter medo de sofrer, que tudo bem se eu estiver errada. Porque você não sabe o tamanho da aposta.

Eu sou, eu sempre fui, uma grande partidária de que há algo fundamentalmente errado na forma como as pessoas hoje em dia fogem do sofrimento. Eu me chocava e me irritava com as amiguinhas da minha adolescência que achavam que se algo terminava e alguém sofria aquilo era ruim e tinha dado errado. A vida nada mais é do que um monte de sofrimento. E umas coisas boas jogadas ali no meio pra você achar que vale a pena não desistir. Não faz sentido tentar blindar o sofrimento, tentar apenas entrar em apostas certeiras de felicidade, não é sequer possível fazer isso.

Mas também é preciso medir o quanto se pode pagar.

Eu, hoje, não saberia essa resposta para mim. Ano passado eu não podia. Ano passado, eu paguei muito caro por uma aposta muito pequena porque eu simplesmente não podia lidar, não havia sobrado nada em mim. Eu fui como um jogador de pôquer na última partida perdida depois de meses de azar. Tudo já havia sido perdido e penhorado e vendido e foi um deslize mínimo que me fez perder tudo.

Eu poderia ter medido isso, mas eu não soube. Era uma aposta tão pequena, como poderia me custar tanto? O quanto nós podemos saber de nós mesmos, da forma como reagiremos às coisas? E, mais importante, o quanto podemos saber do outro para ser capaz de medir a aposta, para se capaz de escolher?

Eu levei bastante tempo, e infinitas perdas, para entender que pessoas são uma escolha. As pessoas que mantenho comigo, aquilo que elas sabem de mim, é tudo uma escolha. Mas é solitário demais escolher sempre. É solitário e árido controlar, filtrar, manter todo mundo do lado de fora de certas partes. E há um tipo de escolha que para mim só faz sentido se for tudo ou nada.

Mas eu já escolhi errado vezes demais. Eu demorei para entender que aquilo que me levava, aquilo que me fazia querer ficar era também uma escolha. Não é uma escolha fácil de ser mudada, mas é uma escolha. Meu instinto me faz escolher pelo perigo, pelo jogo, pela instabilidade. Meu instinto gosta demais do jogo. E eu gosto demais de me punir. Eu gosto demais de entrar em uma disputa que sei que vou perder, com eles, comigo mesma. Quais minhas chances tentando escolher diferente?

E qual a possibilidade de que eu perca para mim mesma de novo? Eu venho testando essa escolha há meses. Cruelmente. Implacavelmente. E eu ganho. Todas elas. Mas até quando? Até quando eu posso testar alguém até que justamente esse teste esgarce tudo? Qual o ponto em que eu simplesmente tenho que assumir que é um salto de fé e confiar em mim mesma? Já que estamos falando em filosofia.

Dos anos que eu passei imersa em suecos deprimidos e filosofias, eu aprendi que a escolha é sempre cega. Essa escolha, especialmente, é sempre cega. E sempre contra as probabilidades. Mas é preciso fazê-la. Porque o preço de não fazê-la é alto de mais. Mas e se o preço de fazer também for?

Um ano

Eu nunca tive TimeHop, não gosto da ideia de algo que eu voluntariamente pedi para me devolver lembranças. Há coisas que eu não quero ver nunca mais. Há um pedaço inteiro da minha vida que eu gostaria de poder fingir que não existiu. Mas agora o Facebook tem esse recurso automático de te devolver algumas lembranças de anos anteriores e me incomoda menos, já que só vai parar lá aqueles poucos momentos da vida realmente dignos de nota, que realmente eu gostaria da lembrança.

E hoje ele me lembrou que faz exatamente um ano que eu defendi meu mestrado.

Nesse um ano, minha vida mudou radicalmente e, ao mesmo tempo, foi parar no exato mesmo lugar.

Foi irônico e quase reconfortante receber essa lembrança. Ontem mesmo, eu passei metade da noite em uma espiral sem fim de impotência,  insegurança e paralisia. De sensação de que estou sendo apenas tonta de achar que tenho capacidade para algo do que quero.

Eu quero entrar no doutorado e eu venho em preparando pra isso. Por questões de circunstância, eu saí da Academia e tenho gravitado de volta para ela devagar, gradualmente. Uma pesquisa aqui, um artigo ali, um projeto de doutorado para dar rumo a tudo. E eu digo para mim mesma que tudo bem se não der, se não der semestre que vem eu tento de novo, em mais lugares, eu preparo melhor esse projeto, eu peço mais ajuda. Tudo bem se não der, eu tinha um mestrado com apenas 25 anos, eu não tenho pressa de nada.

Mas não está tudo bem. Não está tudo bem porque eu não sei separar minha habilidade de fazer tudo certo, de nunca falhar, com meu merecimento das coisas do mundo. E é lógico que eu falho, então é lógico que eu não mereço nada.

Sempre chega um momento nos meus relacionamentos em que eu tenho que contar minha história, listar o tipo de coisa pelo que passei, confirmar a conclusão óbvia de que fiquei cheia de marcas e buracos e pedir que por favor, não vá embora, me dê pelo menos uma chance de conseguir fazer isso. Antes de começar a contar, eu peço uma promessa de que quem me escuta não pode ter dó, por favor, não tenha dó. Eu estou viva e, relativamente, inteira e não importa o quanto tudo pareça horrível, não me olhe como uma pobre garotinha de quem você precisa cuidar, porque isso vai estragar tudo.

Não tenha dó porque isso vai te levar a, inevitavelmente, querer consertar, ou compensar. E eu não tenho conserto. E a ideia de que algo em mim está intrinsecamente quebrado, errado e precisa de conserto é exatamente o que não me tira de onde estou. Sim, algo em mim está errado, sempre esteve, quanto mais eu sei que está, menos eu me sinto merecedora de todas as coisas do mundo. Talvez seja por isso que os anos em consultório de psicanalista nunca fizeram nada por mim: a ideia de conserto de algo que está errado em mim só me faz virar e dizer “viu, tem algo errado em mim, eu sou um monstro e não adianta”.

Eu abandonei as teorias de conserto. Um belo dia eu cansei de me enredar nisso porque parecia cruel demais, parecia apenas uma câmera de tortura feita para confirmar com diagnóstico o que eu sempre soube: há algo errado comigo e eu não mereço nada enquanto isso seguir errado. Gostaria de fundar uma associação dos pacientes que de cada consulta saiam se sentindo piores, mais sem saída, sem conserto e sem direitos do que quando entraram.

Eu não quero que me olhem como algo que precisa de conserto, eu quero aprender a conviver como algo falho, mas que pode existir.

A tentativa de compensação estraga tudo da mesma forma. Porque você não conseguiria me proteger de novas dores, porque você certamente não poderia me proteger de mim mesma. Porque a culpa não foi sua e qualquer tentativa de amor, cuidado ou presença nascida apenas do desejo de amenizar a minha dor seria artificial. Essas coisas não existem para tapar o buraco de ninguém.

Enquanto eu conto essas coisas, meu cérebro corre em uma lista enorme de porque é ridículo meu apelo de que alguém fique, quando eu acabei de lhe dar todos os motivos pra ir. Ele engloba tudo e costura a malha de todas as coisas que eu não consigo, de tudo que seria melhor abrir mão logo e me poupar ao trabalho, até a hora em que eu paraliso e ele respira. Pronto, missão cumprida.

E daí a internet me devolve de volta um dia em que eu consegui tantas coisas.

Um dia em que eu entreguei algo enorme que eu tinha escrito. Algo que ninguém havia feito antes. Um dia em que eu escutei que estava caminhando por um terreno novo, sem ajuda, e lógico que haveria falhas, mas eu estava fazendo parte do desenho de uma linguagem nova. Um dia em que me apontaram que coisas delicadas, complexas e elegante, que um sistema inteiro pode sair da minha mente.

E que, mais que isso, um grupo enorme de pessoas se dispôs a passar frio e chuva para beber comigo. Pessoas que eram minhas amigas há anos, pessoas que tinham entrado na minha vida a pouquíssimos meses, mas uma quantidade gigante de pessoas. Que eu não merecia.

Quando eu peço que alguém fique apesar de tudo que lhe contei é porque justamente eu não mereço. Não há motivos. Não há qualquer motivo. Mas as vezes as coisas subvertem a lógica.

A pequena devolução da internet me lembra que às vezes eu sou capaz de muita coisa.  O que não quer dizer que eu serei de novo. E que eu realmente não mereço nada do que eu tenho.

Mas que às vezes eu tenho.

 

Bomba relógio

Eu gostaria de confiar em você. Eu gostaria de conseguir ficar ali, com a cabeça no seu colo, quieta, feliz. Um pouco feliz pelo menos. Mas eu não consigo. Eu não sei. Eu nunca aprendi.

Você me diz que, enquanto estiver aqui, eu não preciso fazer sozinha nada que não queira. Mas você não sabe. Você não tem ideia da minha solidão, de como ela escorre pelas rachaduras, de como ela se emaranhou no meu cabelo, de como ela é tudo que eu já conheci. Você não tem ideia da minha dor e você não sabe o que está oferecendo, você não sabe onde está entrando.

E eu não acredito.

Na impossibilidade da felicidade, eu tento um substituto: leveza. Eu aceito a declaração com um sorriso, mesmo que eu não acredite. Eu me deixo pegar no sono com seus dedos traçando as sardas das minhas costas. Mas eu não acredito.

Eu poderia adormecer do mesmo jeito se você seguisse as cicatrizes nos meus tornozelos? Por quanto tempo você pode fingir que não viu? Quanto tempo até reparar que eu não durmo durante a noite? Quanto tempo até ver minhas mãos tremerem? Até sentir meus cabelos caindo nas suas mãos? Quanto tempo até eu gritar, enlouquecer, transformar sua vida em um inferno? Quanto tempo até você ver nos meus olhos tudo, menos o que te fez ficar?

Mas eu tento não pensar.

Você me diz que foram meus olhos. A transparência deles, mais que a cor. Eu lembro bem como te olhei a primeira vez, como eu percebi em um milésimo de segundo que eu precisava de menos do que um sorriso para te ter. De como eu me senti quase como um gato brincando com uma presa que não pretende comer. No máximo oferecer de presente para o dono.

Mas eu sou menos horrível do que gosto de crer. Menos horrível do que te disseram. Eu nunca tive medo do que aconteceria se eu seguisse brincando, se eu não ficasse. Meu medo sempre foi outro. E se eu realmente entrasse na sua vida, toda a escuridão, toda a dor, toda a corrupção que eu traria? Eu não quero te dar nada disso.

Então eu tento evitar.

Leveza.

Eu estou bem agora, então você não precisa de nada disso. Eu não preciso de nada disso. Não agora. Não por enquanto. Eu não preciso fazer sozinha nada que não queira, mas você não sabe as coisas que `as vezes eu quero fazer. Mas não agora.

Eu me sinto como alguém que foi espancada por gangsters russos drogados de cocaína e sobreviveu. Eu sobrevivi e o que quer que tenha me levado a isso não está mais aqui. Mas meu corpo sente as marcas. Eu ainda estou coberta de manchas roxas e cicatrizes e elas doem quando tocadas. Meu corpo, já pequeno, com frequência se encolhe na esperança de ocupar ainda menos lugar no espaço, de desaparecer, de não precisar passar tanto tempo olhando essas feridas, esperando que elas sumam, sabendo que se tornarão cicatrizes. Maiores e mais visíveis que as linhas finas que eu tenho nos tornozelos.

De tudo, eu odeio a autopiedade. Eu odeio quando de repente, sem motivo, eu lembro. Eu odeio quando acho que o vejo numa esquina. Ou quando de onde eu vim segue sendo de onde eu vim. E eu lembro. E de repente eu me sinto no direito de toda a dor, todo o fracasso. Você não sabe o quanto eu me sinto no direito de desistir. Mas eu não quero.

Não hoje. Não ainda.

Não ainda.

Eu queria confiar em você, mas eu não posso. Eu queria fazer planos, mas eu não sei. Eu queria poder prometer tudo que se promete nessas horas. Mas não eu. Eu não consigo.

Por enquanto eu gosto de achar que você pode ficar sem promessas. Eu sei que não pode, não por muito tempo. Mas eu tento não me importar. Leveza no lugar de felicidade. Tentar não me importar com tudo que não pode ser, pelo menos por enquanto, por agora.

 

Casa Vazia

Quanto tempo nós demoramos para morrer? Quanto tempo até eu e você deixarmos de sermos nós, de sermos algo? Quanto tempo até sua decisão se transformar em distância e minha angústia se transformar na tristeza calma e conformada dos finais?

É possível que uma civilização inteira surja e desapareça apenas no tempo em que levamos para terminar.

E quando foi que eu percebi? Quando você me perguntou se eu tinha alguém novo? Quando você se referiu a nós dois tão naturalmente, como algo que foi, algo que, pela naturalidade, com certeza já não é. Foi quando você me puxou para você e eu afastei meu corpo duro, tenso, para o qual seu toque se tornou estranho, pouco familiar, estrangeiro? Foi quando eu percebi que nunca mais entraria na sua casa, deitaria na sua cama, passaria meus dedos pelos seus livros? Foi nesse momento que eu entendi. Foi com esse pensamento exato que eu senti uma pontada e então eu soube. E finalmente deixei o lugar onde eu já estava sozinha há muito tempo.

Eu gostaria de saber quando você me deixou. De verdade, não fisicamente. Porque você também esteve aqui, andando por esse limbo por muito mais tempo do que admitiria para mim. Você não me deixou quando foi embora. Então quando foi? Quando eu fiquei aqui, completamente sozinha, sentada no chão de uma sala vazia, abraçando meus joelhos, incapaz de ir embora? Por que você não me avisou? Um bilhete teria bastado: “saí para comprar cigarros, não volto mais”.

Exceto que você não fuma, essa sou eu.

Acho quase engraçado como agora, que já não somos, finalmente se torna claro que algo era. Todo o tempo em que estivemos juntos, nós não sabíamos se éramos algo, se éramos nós, agora existe um cadáver. Agora, frente ao morto, tenho a evidência inegável da existência, de que existiu algo ali, de que existiu nós, de alguma maneira.

No entanto, eu não saberia dizer se ele morreu naturalmente ou eu desliguei os aparelhos. Se eu, finalmente consciente da falta de esperanças, puxei o fio. Escrevendo agora, me parece uma ótima metáfora: faz meses que eu sabia que isso não tinha mais volta, meses que eu sabia que não éramos mais. Mas e se você mudasse de ideia? E se me quisesse de volta? Eu prendia a respiração cada vez que você me puxava para você, cada vez que me abraçava para se despedir. Até o momento em que eu soube. E desliguei os aparelhos, apaguei a luz e finalmente saí dali.

Com dor, mas sem amargura. Não é que não me doa renunciar a você, ao que achei que pudéssemos ser. Não é que eu já esteja curada da rejeição, da angústia, de todo o redemoinho que eu entrei porque você não me quis. Veja bem, eu não te culpo, ao menos não pelo tamanho do buraco que eu entrei por sua causa, esse era só meu, mas mesmo assim… Eu quase perdi a cabeça por sua causa e agora eu estou aqui, calmamente indo embora, depois de tudo.

Há uma melancolia enorme em tudo isso. Há uma tristeza profunda nos fins. Não importa que eles ocorram sem brigas, não importa que seja aquelas vezes que o amor simplesmente levanta e vai embora. Há tristeza demais na morte, na morte de tudo. Há tristeza de mais no momento em que eu finalmente abandono o lugar que foi de nós dois.

Agora, enquanto eu arrumo as últimas coisas que sobraram, passo uma vassoura no chão, eu percebo que havia coisas aqui. Que afinal mobiliamos essa sala, parcamente, é verdade, mas com algumas coisas bonitas. Guardo livros que não lerei de novo em uma caixa, tiro o pó dos filmes, ajeito os cartões postais na parede. Muito você já levou. Eu não quero nada. A essa altura, eu só quero ir embora.

E vou. Terrivelmente triste, mas finalmente um pouco em paz.

 

Maré alta

Tem alguns dias em que só resta desistir.

Alguns dias em que você chega em casa, chora um pouco sentada no chão, abre uma garrafa de vinho e desiste.

Desistir é uma gentileza comigo mesma que eu levei muito tempo para adotar. Em outros tempos, eu chegaria em casa e ainda tentaria ler, ver um filme, pelo menos um episódio de série. Eu tentaria fazer jantar, dobrar as roupas, limpar a caixa de areia do gato. E eu falharia em todas essas coisas.

Tem dias em que preciso desistir para não desistir de tudo.

Há dias bons e dias ruins.

Eu repito essa frase para mim quase como um mantra. Eu lembro de todos os diagnósticos em todos os consultórios de psicanalistas. Haverão dias bons e dias ruins, sempre, dias bons e dias ruins. Para sempre dias em que minha química cerebral me passará uma rasteira, em que a solidão vai se alojar no fundo do meu estômago, em que a dor vai corroer meus ossos. Dias em que eu vou desistir. Dias em que existir vai se tornar insustentável.

Nada me incomoda mais do que a inércia, a impossibilidade de fazer qualquer coisa. Eu sempre quero tanto, eu sempre tenho tanto a fazer, livros para serem lidos, textos para serem escritos, novas teorias revolucionárias sobre a análise fílmica a serem criadas. E eu não consigo fazer nada. Minhas mãos tremem, meu cérebro me escapa, minha respiração é mais curta, a comida perde o gosto e tudo que eu coloco dentro de mim parece veneno.

De tudo, acho que o que mais assusta é o efeito no corpo, a neurônios da coisa. Talvez, e eu acredito nisso, tudo tenha a ver com o que eu senti, com minhas memórias e meus pais e a formação de estruturas completamente abstratas na minha mente. Mas nessas horas você percebe perfeitamente que seu cérebro é composto de células, impulsos elétricos e neurotransmissores desregulados. E que isso cai na sua corrente sanguínea e todo seu corpo para de te obedecer porque você não consegue tomar as rédeas do próprio cérebro.

E é um círculo. O descontrole gera pânico que gera mais descontrole que gera mais pânico. A inércia gera culpa, que gera mais inércia, que gera auto punição que gera mais inércia e a bola de ódio e insegurança e medo vai crescendo e rolando, com você, ladeira abaixo.

Até agora que eu grito chega.

Meu momento preferido de toda a literatura mundial é quando Ivan Karamazov conversa com o demônio. Oi demônio, senta aqui, pega um chá, vamos bater um papo. Eu adoraria conversar com os meus demônios. Eu adoraria que eles sentassem no meu sofá, aceitassem uma taça de vinho e falassem comigo. Oi querido, quanto tempo né? Quer dizer, não, na verdade não, ontem mesmo você apareceu aqui e agora não quer mais ir embora, qual o problema? Você não tem uma casa? Por que você precisa ficar aqui?

Às vezes, mesmo que eu saiba que não é assim que funciona, eu preciso fingir que meus demônios são algo diferente de mim, algo separado. Algo que realmente me possuí, como um diabo de filme de terror. Ainda falando em Dostoievsky, o título original de Os Demônios é algo como Os Endemoniados. Os endemoniados, aqueles tomados por um niilismo profundo e a mais completa falta de fé.

Eu gosto dessa ideia.

E se eu simplesmente aceitasse a posessão? Sentasse e esperasse que  o pequeno satã se cansasse de mim e decidisse abandonar esse corpo que não lhe pertence? Será que ele não acharia que está bastante confortável e nunca mais fosse embora?

Esse é meu medo nos dias em que desisto. É esse o pavor que minha inércia traz consigo. De que eu nunca vá me mexer de novo, de que nada disso nunca vai passar.

E não vai.

Porque os dias continuarão sendo bons e ruins e bons e ruins e os ruins são sempre mais intensos que os bons. Então a outra alternativa não seria respeitar meus próprios ritmos? Me conformar com minha tábua de marés?

Quando eu estava em Pipa, fiquei em um hotel na areia da praia. Eu acordava com as ondas na minha janela e estava sempre com meus pés na areia. Contudo, por 4 ou 5 horas todos os dias, eu ficava ilhada. Não podia sair, nem entrar, porque a maré subia e tomava tudo. Aquilo era de uma beleza incomparável, mas como todas as coisas profundamente belas, havia algo de primitivo ali, de indomável.

Eu gostaria tanto de poder domar a mim mesma. Eu gostaria tanto de estar no controle. De não em sentir trancada para fora de mim mesma assim tantas vezes. Mas talvez não me reste mais nada a não ser aceitar? Que os dias bons serão bons e os dias ruins serão horríveis e sempre, sempre existirão dias ruins. Mas talvez eles diminuam e talvez os dias bons se tornem melhores e talvez, só talvez, exista alguma beleza em tudo isso?

Ou eu posso simplesmente desistir.