Um ano

Eu nunca tive TimeHop, não gosto da ideia de algo que eu voluntariamente pedi para me devolver lembranças. Há coisas que eu não quero ver nunca mais. Há um pedaço inteiro da minha vida que eu gostaria de poder fingir que não existiu. Mas agora o Facebook tem esse recurso automático de te devolver algumas lembranças de anos anteriores e me incomoda menos, já que só vai parar lá aqueles poucos momentos da vida realmente dignos de nota, que realmente eu gostaria da lembrança.

E hoje ele me lembrou que faz exatamente um ano que eu defendi meu mestrado.

Nesse um ano, minha vida mudou radicalmente e, ao mesmo tempo, foi parar no exato mesmo lugar.

Foi irônico e quase reconfortante receber essa lembrança. Ontem mesmo, eu passei metade da noite em uma espiral sem fim de impotência,  insegurança e paralisia. De sensação de que estou sendo apenas tonta de achar que tenho capacidade para algo do que quero.

Eu quero entrar no doutorado e eu venho em preparando pra isso. Por questões de circunstância, eu saí da Academia e tenho gravitado de volta para ela devagar, gradualmente. Uma pesquisa aqui, um artigo ali, um projeto de doutorado para dar rumo a tudo. E eu digo para mim mesma que tudo bem se não der, se não der semestre que vem eu tento de novo, em mais lugares, eu preparo melhor esse projeto, eu peço mais ajuda. Tudo bem se não der, eu tinha um mestrado com apenas 25 anos, eu não tenho pressa de nada.

Mas não está tudo bem. Não está tudo bem porque eu não sei separar minha habilidade de fazer tudo certo, de nunca falhar, com meu merecimento das coisas do mundo. E é lógico que eu falho, então é lógico que eu não mereço nada.

Sempre chega um momento nos meus relacionamentos em que eu tenho que contar minha história, listar o tipo de coisa pelo que passei, confirmar a conclusão óbvia de que fiquei cheia de marcas e buracos e pedir que por favor, não vá embora, me dê pelo menos uma chance de conseguir fazer isso. Antes de começar a contar, eu peço uma promessa de que quem me escuta não pode ter dó, por favor, não tenha dó. Eu estou viva e, relativamente, inteira e não importa o quanto tudo pareça horrível, não me olhe como uma pobre garotinha de quem você precisa cuidar, porque isso vai estragar tudo.

Não tenha dó porque isso vai te levar a, inevitavelmente, querer consertar, ou compensar. E eu não tenho conserto. E a ideia de que algo em mim está intrinsecamente quebrado, errado e precisa de conserto é exatamente o que não me tira de onde estou. Sim, algo em mim está errado, sempre esteve, quanto mais eu sei que está, menos eu me sinto merecedora de todas as coisas do mundo. Talvez seja por isso que os anos em consultório de psicanalista nunca fizeram nada por mim: a ideia de conserto de algo que está errado em mim só me faz virar e dizer “viu, tem algo errado em mim, eu sou um monstro e não adianta”.

Eu abandonei as teorias de conserto. Um belo dia eu cansei de me enredar nisso porque parecia cruel demais, parecia apenas uma câmera de tortura feita para confirmar com diagnóstico o que eu sempre soube: há algo errado comigo e eu não mereço nada enquanto isso seguir errado. Gostaria de fundar uma associação dos pacientes que de cada consulta saiam se sentindo piores, mais sem saída, sem conserto e sem direitos do que quando entraram.

Eu não quero que me olhem como algo que precisa de conserto, eu quero aprender a conviver como algo falho, mas que pode existir.

A tentativa de compensação estraga tudo da mesma forma. Porque você não conseguiria me proteger de novas dores, porque você certamente não poderia me proteger de mim mesma. Porque a culpa não foi sua e qualquer tentativa de amor, cuidado ou presença nascida apenas do desejo de amenizar a minha dor seria artificial. Essas coisas não existem para tapar o buraco de ninguém.

Enquanto eu conto essas coisas, meu cérebro corre em uma lista enorme de porque é ridículo meu apelo de que alguém fique, quando eu acabei de lhe dar todos os motivos pra ir. Ele engloba tudo e costura a malha de todas as coisas que eu não consigo, de tudo que seria melhor abrir mão logo e me poupar ao trabalho, até a hora em que eu paraliso e ele respira. Pronto, missão cumprida.

E daí a internet me devolve de volta um dia em que eu consegui tantas coisas.

Um dia em que eu entreguei algo enorme que eu tinha escrito. Algo que ninguém havia feito antes. Um dia em que eu escutei que estava caminhando por um terreno novo, sem ajuda, e lógico que haveria falhas, mas eu estava fazendo parte do desenho de uma linguagem nova. Um dia em que me apontaram que coisas delicadas, complexas e elegante, que um sistema inteiro pode sair da minha mente.

E que, mais que isso, um grupo enorme de pessoas se dispôs a passar frio e chuva para beber comigo. Pessoas que eram minhas amigas há anos, pessoas que tinham entrado na minha vida a pouquíssimos meses, mas uma quantidade gigante de pessoas. Que eu não merecia.

Quando eu peço que alguém fique apesar de tudo que lhe contei é porque justamente eu não mereço. Não há motivos. Não há qualquer motivo. Mas as vezes as coisas subvertem a lógica.

A pequena devolução da internet me lembra que às vezes eu sou capaz de muita coisa.  O que não quer dizer que eu serei de novo. E que eu realmente não mereço nada do que eu tenho.

Mas que às vezes eu tenho.

 

Bomba relógio

Eu gostaria de confiar em você. Eu gostaria de conseguir ficar ali, com a cabeça no seu colo, quieta, feliz. Um pouco feliz pelo menos. Mas eu não consigo. Eu não sei. Eu nunca aprendi.

Você me diz que, enquanto estiver aqui, eu não preciso fazer sozinha nada que não queira. Mas você não sabe. Você não tem ideia da minha solidão, de como ela escorre pelas rachaduras, de como ela se emaranhou no meu cabelo, de como ela é tudo que eu já conheci. Você não tem ideia da minha dor e você não sabe o que está oferecendo, você não sabe onde está entrando.

E eu não acredito.

Na impossibilidade da felicidade, eu tento um substituto: leveza. Eu aceito a declaração com um sorriso, mesmo que eu não acredite. Eu me deixo pegar no sono com seus dedos traçando as sardas das minhas costas. Mas eu não acredito.

Eu poderia adormecer do mesmo jeito se você seguisse as cicatrizes nos meus tornozelos? Por quanto tempo você pode fingir que não viu? Quanto tempo até reparar que eu não durmo durante a noite? Quanto tempo até ver minhas mãos tremerem? Até sentir meus cabelos caindo nas suas mãos? Quanto tempo até eu gritar, enlouquecer, transformar sua vida em um inferno? Quanto tempo até você ver nos meus olhos tudo, menos o que te fez ficar?

Mas eu tento não pensar.

Você me diz que foram meus olhos. A transparência deles, mais que a cor. Eu lembro bem como te olhei a primeira vez, como eu percebi em um milésimo de segundo que eu precisava de menos do que um sorriso para te ter. De como eu me senti quase como um gato brincando com uma presa que não pretende comer. No máximo oferecer de presente para o dono.

Mas eu sou menos horrível do que gosto de crer. Menos horrível do que te disseram. Eu nunca tive medo do que aconteceria se eu seguisse brincando, se eu não ficasse. Meu medo sempre foi outro. E se eu realmente entrasse na sua vida, toda a escuridão, toda a dor, toda a corrupção que eu traria? Eu não quero te dar nada disso.

Então eu tento evitar.

Leveza.

Eu estou bem agora, então você não precisa de nada disso. Eu não preciso de nada disso. Não agora. Não por enquanto. Eu não preciso fazer sozinha nada que não queira, mas você não sabe as coisas que `as vezes eu quero fazer. Mas não agora.

Eu me sinto como alguém que foi espancada por gangsters russos drogados de cocaína e sobreviveu. Eu sobrevivi e o que quer que tenha me levado a isso não está mais aqui. Mas meu corpo sente as marcas. Eu ainda estou coberta de manchas roxas e cicatrizes e elas doem quando tocadas. Meu corpo, já pequeno, com frequência se encolhe na esperança de ocupar ainda menos lugar no espaço, de desaparecer, de não precisar passar tanto tempo olhando essas feridas, esperando que elas sumam, sabendo que se tornarão cicatrizes. Maiores e mais visíveis que as linhas finas que eu tenho nos tornozelos.

De tudo, eu odeio a autopiedade. Eu odeio quando de repente, sem motivo, eu lembro. Eu odeio quando acho que o vejo numa esquina. Ou quando de onde eu vim segue sendo de onde eu vim. E eu lembro. E de repente eu me sinto no direito de toda a dor, todo o fracasso. Você não sabe o quanto eu me sinto no direito de desistir. Mas eu não quero.

Não hoje. Não ainda.

Não ainda.

Eu queria confiar em você, mas eu não posso. Eu queria fazer planos, mas eu não sei. Eu queria poder prometer tudo que se promete nessas horas. Mas não eu. Eu não consigo.

Por enquanto eu gosto de achar que você pode ficar sem promessas. Eu sei que não pode, não por muito tempo. Mas eu tento não me importar. Leveza no lugar de felicidade. Tentar não me importar com tudo que não pode ser, pelo menos por enquanto, por agora.

 

Casa Vazia

Quanto tempo nós demoramos para morrer? Quanto tempo até eu e você deixarmos de sermos nós, de sermos algo? Quanto tempo até sua decisão se transformar em distância e minha angústia se transformar na tristeza calma e conformada dos finais?

É possível que uma civilização inteira surja e desapareça apenas no tempo em que levamos para terminar.

E quando foi que eu percebi? Quando você me perguntou se eu tinha alguém novo? Quando você se referiu a nós dois tão naturalmente, como algo que foi, algo que, pela naturalidade, com certeza já não é. Foi quando você me puxou para você e eu afastei meu corpo duro, tenso, para o qual seu toque se tornou estranho, pouco familiar, estrangeiro? Foi quando eu percebi que nunca mais entraria na sua casa, deitaria na sua cama, passaria meus dedos pelos seus livros? Foi nesse momento que eu entendi. Foi com esse pensamento exato que eu senti uma pontada e então eu soube. E finalmente deixei o lugar onde eu já estava sozinha há muito tempo.

Eu gostaria de saber quando você me deixou. De verdade, não fisicamente. Porque você também esteve aqui, andando por esse limbo por muito mais tempo do que admitiria para mim. Você não me deixou quando foi embora. Então quando foi? Quando eu fiquei aqui, completamente sozinha, sentada no chão de uma sala vazia, abraçando meus joelhos, incapaz de ir embora? Por que você não me avisou? Um bilhete teria bastado: “saí para comprar cigarros, não volto mais”.

Exceto que você não fuma, essa sou eu.

Acho quase engraçado como agora, que já não somos, finalmente se torna claro que algo era. Todo o tempo em que estivemos juntos, nós não sabíamos se éramos algo, se éramos nós, agora existe um cadáver. Agora, frente ao morto, tenho a evidência inegável da existência, de que existiu algo ali, de que existiu nós, de alguma maneira.

No entanto, eu não saberia dizer se ele morreu naturalmente ou eu desliguei os aparelhos. Se eu, finalmente consciente da falta de esperanças, puxei o fio. Escrevendo agora, me parece uma ótima metáfora: faz meses que eu sabia que isso não tinha mais volta, meses que eu sabia que não éramos mais. Mas e se você mudasse de ideia? E se me quisesse de volta? Eu prendia a respiração cada vez que você me puxava para você, cada vez que me abraçava para se despedir. Até o momento em que eu soube. E desliguei os aparelhos, apaguei a luz e finalmente saí dali.

Com dor, mas sem amargura. Não é que não me doa renunciar a você, ao que achei que pudéssemos ser. Não é que eu já esteja curada da rejeição, da angústia, de todo o redemoinho que eu entrei porque você não me quis. Veja bem, eu não te culpo, ao menos não pelo tamanho do buraco que eu entrei por sua causa, esse era só meu, mas mesmo assim… Eu quase perdi a cabeça por sua causa e agora eu estou aqui, calmamente indo embora, depois de tudo.

Há uma melancolia enorme em tudo isso. Há uma tristeza profunda nos fins. Não importa que eles ocorram sem brigas, não importa que seja aquelas vezes que o amor simplesmente levanta e vai embora. Há tristeza demais na morte, na morte de tudo. Há tristeza de mais no momento em que eu finalmente abandono o lugar que foi de nós dois.

Agora, enquanto eu arrumo as últimas coisas que sobraram, passo uma vassoura no chão, eu percebo que havia coisas aqui. Que afinal mobiliamos essa sala, parcamente, é verdade, mas com algumas coisas bonitas. Guardo livros que não lerei de novo em uma caixa, tiro o pó dos filmes, ajeito os cartões postais na parede. Muito você já levou. Eu não quero nada. A essa altura, eu só quero ir embora.

E vou. Terrivelmente triste, mas finalmente um pouco em paz.

 

Maré alta

Tem alguns dias em que só resta desistir.

Alguns dias em que você chega em casa, chora um pouco sentada no chão, abre uma garrafa de vinho e desiste.

Desistir é uma gentileza comigo mesma que eu levei muito tempo para adotar. Em outros tempos, eu chegaria em casa e ainda tentaria ler, ver um filme, pelo menos um episódio de série. Eu tentaria fazer jantar, dobrar as roupas, limpar a caixa de areia do gato. E eu falharia em todas essas coisas.

Tem dias em que preciso desistir para não desistir de tudo.

Há dias bons e dias ruins.

Eu repito essa frase para mim quase como um mantra. Eu lembro de todos os diagnósticos em todos os consultórios de psicanalistas. Haverão dias bons e dias ruins, sempre, dias bons e dias ruins. Para sempre dias em que minha química cerebral me passará uma rasteira, em que a solidão vai se alojar no fundo do meu estômago, em que a dor vai corroer meus ossos. Dias em que eu vou desistir. Dias em que existir vai se tornar insustentável.

Nada me incomoda mais do que a inércia, a impossibilidade de fazer qualquer coisa. Eu sempre quero tanto, eu sempre tenho tanto a fazer, livros para serem lidos, textos para serem escritos, novas teorias revolucionárias sobre a análise fílmica a serem criadas. E eu não consigo fazer nada. Minhas mãos tremem, meu cérebro me escapa, minha respiração é mais curta, a comida perde o gosto e tudo que eu coloco dentro de mim parece veneno.

De tudo, acho que o que mais assusta é o efeito no corpo, a neurônios da coisa. Talvez, e eu acredito nisso, tudo tenha a ver com o que eu senti, com minhas memórias e meus pais e a formação de estruturas completamente abstratas na minha mente. Mas nessas horas você percebe perfeitamente que seu cérebro é composto de células, impulsos elétricos e neurotransmissores desregulados. E que isso cai na sua corrente sanguínea e todo seu corpo para de te obedecer porque você não consegue tomar as rédeas do próprio cérebro.

E é um círculo. O descontrole gera pânico que gera mais descontrole que gera mais pânico. A inércia gera culpa, que gera mais inércia, que gera auto punição que gera mais inércia e a bola de ódio e insegurança e medo vai crescendo e rolando, com você, ladeira abaixo.

Até agora que eu grito chega.

Meu momento preferido de toda a literatura mundial é quando Ivan Karamazov conversa com o demônio. Oi demônio, senta aqui, pega um chá, vamos bater um papo. Eu adoraria conversar com os meus demônios. Eu adoraria que eles sentassem no meu sofá, aceitassem uma taça de vinho e falassem comigo. Oi querido, quanto tempo né? Quer dizer, não, na verdade não, ontem mesmo você apareceu aqui e agora não quer mais ir embora, qual o problema? Você não tem uma casa? Por que você precisa ficar aqui?

Às vezes, mesmo que eu saiba que não é assim que funciona, eu preciso fingir que meus demônios são algo diferente de mim, algo separado. Algo que realmente me possuí, como um diabo de filme de terror. Ainda falando em Dostoievsky, o título original de Os Demônios é algo como Os Endemoniados. Os endemoniados, aqueles tomados por um niilismo profundo e a mais completa falta de fé.

Eu gosto dessa ideia.

E se eu simplesmente aceitasse a posessão? Sentasse e esperasse que  o pequeno satã se cansasse de mim e decidisse abandonar esse corpo que não lhe pertence? Será que ele não acharia que está bastante confortável e nunca mais fosse embora?

Esse é meu medo nos dias em que desisto. É esse o pavor que minha inércia traz consigo. De que eu nunca vá me mexer de novo, de que nada disso nunca vai passar.

E não vai.

Porque os dias continuarão sendo bons e ruins e bons e ruins e os ruins são sempre mais intensos que os bons. Então a outra alternativa não seria respeitar meus próprios ritmos? Me conformar com minha tábua de marés?

Quando eu estava em Pipa, fiquei em um hotel na areia da praia. Eu acordava com as ondas na minha janela e estava sempre com meus pés na areia. Contudo, por 4 ou 5 horas todos os dias, eu ficava ilhada. Não podia sair, nem entrar, porque a maré subia e tomava tudo. Aquilo era de uma beleza incomparável, mas como todas as coisas profundamente belas, havia algo de primitivo ali, de indomável.

Eu gostaria tanto de poder domar a mim mesma. Eu gostaria tanto de estar no controle. De não em sentir trancada para fora de mim mesma assim tantas vezes. Mas talvez não me reste mais nada a não ser aceitar? Que os dias bons serão bons e os dias ruins serão horríveis e sempre, sempre existirão dias ruins. Mas talvez eles diminuam e talvez os dias bons se tornem melhores e talvez, só talvez, exista alguma beleza em tudo isso?

Ou eu posso simplesmente desistir.

Don’t look back in anger

Eu não olhei para trás. Simplesmente não olhei. Disse tchau, me virei e fui embora. É o único jeito de ir embora. Sem olhar para trás.

Quando ele foi embora, ele olhou para trás. Por trás de uma fila de adolescentes que, imagino, iam para a Disney. Eu o perdoei por muita coisa, o perdoei por ir embora, mas não perdoei por olhar para trás. Por ter me feito sorrir uma última vez, quando eu já achava que finalmente poderia chorar.

Se é para ir embora, não se pode olhar para trás.

Em um dos muitos términos dos últimos dois anos eu olhei para trás. Achei que fazia sentido, uma vez que todo aquele relacionamento era um grande olhar para trás. Olhei para trás e nunca fui embora de fato. Ameaço ligar depois de cada garrafa de vinho, depois de cada decepção, depois de cada dia que estou exausta demais para ter instinto de auto-preservação.

Não se pode olhar para trás.

Eu não reviso os textos desse blog. Eles entram cheios de erros, cheios de coisas que eu sei que, se pensasse duas vezes, desistiria de dizer. Há algum tempo, eu decidi que esse era meu projeto artístico. Não o blog, mas não olhar pra trás, não pensar duas vezes, transformar minhas entranhas em arte, escrever com sangue, dor, com tudo que é confissão, inquietude, tudo que ainda está vivo dentro de mim. É a única literatura que eu sei fazer.

Eu poderia ter olhado para trás. Eu poderia ter desistido. Às vezes acho que não desisti porque queria exatamente isso, queria dor para poder transformar em arte. Eu e essa mania de querer ser Fiona Apple.

Eu não olhei para trás. Senti um beijo no ponto entre meu pescoço e minhas costas, onde o casaco encontrava meu vestido. Eu usava um vestido azul, com um decote muito profundo. Eu gosto daquele vestido, eu estava bonita naquele dia. Talvez eu tenha pensado cuidadosamente na imagem que ele teria quando olhasse para trás. Era um ponto esquisito para se dar um beijo, como o último beijo depois de eu ter me virado, rápido, naquele último segundo antes de eu me afastar demais.

Quis olhar para trás nesse momento. Quis encontrar esse beijo no caminho. Quis abraça-lo de novo e ficar ali por mais uma pequena eternidade. Mas já tínhamos nos abraçado por tempo demais. Acho que, mais do que tudo, quis ver a expressão dele quando decidiu me dar esse beijo tão estranho.

Acho que foi o beijo mais triste que já recebi. Tudo aquilo foi tão tremendamente triste. Porque não foi. Porque ninguém teve raiva, ninguém quis olhar para trás. Só nos abraçamos por um tempo terrivelmente longo. Terrivelmente. E eu dei aqueles conselhos terrivelmente óbvios :”não morra”. Se eu fosse ele teria rido, logo eu, eu que tem um verão inteiro que foi uma longa bad trip. “Não faço mais essas coisas”, digo. Eu teria rido disso também.

Não deixar que eles olhem para trás. Não deixar que eles vejam quem você foi naquele verão. Quem ficou naquela cidade. Tudo bem beber demais. Só não olha para trás. Você nem gosta tanto dessas coisas afinal de contas. Mentira.

Ele argumenta que é um bom menino. Rio, sei disso. Digo isso. Depois de ter esperado o sinal fechar, atravessado lentamente e acendido um cigarro. Então olhei para trás. A porta tinha acabado de se fechar.

Não achei o amor da minha vida em um trem na Turquia

Eu só estava ali, do outro lado da sala, bebendo vinho. Naquela hora você não sabia que eu ia acabar bebendo vinho demais. Eu já sabia. Eu só estava ali, com aquele vestido que eu gosto e me faz parecer mais magra, meu cabelo preso por causa do calor, bebendo vinho e conversando com alguém que eu não conhecia.

Eu estava falando sobre a Turquia, sobre como eu iria passar três semanas na Turquia e passar meu aniversário em um balão. Eu tinha 24 anos ainda. Acho que envelheci notavelmente só por fazer 25. Eu ainda tinha 24 e meu estômago já dava os sinais de que não ia se comportar. Eu sabia. Eu não ajudei com as diversas taças de vinho, mas meu estômago tem essa mania detestável de levar tudo para o lado pessoal, é extremamente egocêntrico meu estômago, sempre acha que é trabalho dele demonstrar o descontentamento que eu tinha, racional e deliberadamente, decidido esconder.

Eu comentei por qualquer motivo que tinha 24 anos e a moça conversando comigo se espantou. Acho que ela não esperava estar com alguém que tivesse 24 anos. Ela não sabia que eu estava com você, um pouco depois, quando você me abraçou, ela olhou envergonhada, talvez um pouco arrependida da conversa que nós começamos a ter nesse momento em que eu estava do outro lado da sala, perto da mesa, e você estava ali sentado na escada. Ela perguntou se eu não tinha medo de ir sozinha, eu disse que ia com uma amiga, mesmo assim, ela comentou, por sermos mulheres, não, não, não tinha, era parte da aventura, acho. Ela perguntou como eu iria viajar, de avião e carro, acho. Ela perguntou sobre os turcos, será que rola uma one night stand com um turco? Meu deus, eu não tinha ideia que ia acabar tendo uma one night stand com um turco na Capadócia. Mas enfim, ela perguntou e eu respondi que talvez, mas são muçulmanos, ah, mas é um país liberal.

Porque ela tinha assistido Antes do Amanhecer um dia desses e desde então teve essa ideia de que um dia ia estar em um trem e encontrar o amor da vida dela e, quando alguém contava que ia viajar, ela ficava imaginando se a pessoa não encontraria o amor da vida em um trem. Eu sorri meio triste. Disse que às vezes, quem sabe, poderia acontecer. Então olhei de lado para você. Não que você fosse o amor da minha vida, mas só porque achei engraçado que eu estava lá, obviamente como seu anexo, aquela menina que seus amigos talvez nem saibam o nome, só sabem que é a menina que você às vezes levava na casa deles, e ela me perguntava sobre outro. Fazia sentido, é claro, fazia um tremendo sentido que eu nem queria ver, mas achei engraçado.

Quando te olhei de lado percebi que você me olhava. Durante esse tempo todo em que eu estava do outro lado da sala, conversando com alguém que eu não conhecia, sendo simpática e sorridente e descolada: o que você faz? eu sou crítica de cinema. Ah, uau, onde? Às vezes eu publico na França. Uma vez você estava muito bêbado (ninguém pode dizer que não combinávamos em tendência a consumir um pouco de álcool demais) e repetiu diversas vezes que eu publicava na França, em um tom tão orgulhoso que eu não pude deixar de rir. Você me olhava como se eu fosse a coisa mais legal do mundo, sempre detestei esse olhar, e com aquele meio sorriso orgulhoso de ter levado a menina mais legal da festa. Ninguém ali era tão legal quanto uma cineasta que publica na França e nem fez 25 anos ainda. 

Na tarde desse dia eu tinha visto Frances Ha. Em determinado momento ela diz que tudo que quer de um relacionamento é aquele momento em que você, e a pessoa que está com você, estão em uma festa e seus olhares se cruzam e há, por um segundo, uma outra dimensão, uma comunicação muda de que essa é a sua pessoa na vida. Eu olhei de lado e te vi me olhando e me lembrei disso. Não que fossemos isso um para o outro. Que você fosse minha pessoa na vida ou eu para você. Mas naquele momento você me olhou com um misto de carinho e orgulho e como se tivesse me assistindo ali, sendo encantadora com pessoas que eram suas, e eu sorri. Já não lembro mais se fui até você, se você veio até mim ou se simplesmente deixamos isso no ar. Sei que em algum momento, eu estava perto da mesa, você passou por ali e me puxou para você, foi quando a moça que me perguntou sobre estranhos no trem reparou que ali, naquele lugar, naquela noite, eu era de alguma forma sua.

O que eu quis dizer e não consegui é que não sou do tipo que entende mil significados ocultos em um olhar, que faz perguntas já sabendo respostas. O que eu quis dizer e tenho achado tão difícil é que eu não invento o mundo como quero que ele seja, eu não posso me dar ao luxo de fazer isso, expectativas são para quem não costuma perder tudo o tempo todo. Imagina o que seria de mim se, ainda por cima, eu criasse expectativas? Eu não entendi nada desse olhar, apenas o fato que ali, naquele lugar e naquele minuto, eu era sua pessoa, que naquele segundo, e não necessariamente em nenhum outro, você tinha carinho suficiente para me olhar daquele jeito.

Eu não sei, mas acho que matei parte desse carinho nesse mesmo dia, enquanto eu ajoelhava no seu banheiro e ainda que dá maneira errada, colocava pra fora toda a sujeira que eu nunca pude te dizer.

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Memento mori

Eu sempre tive medo de envelhecer, medo do tempo que passa e medo, principalmente, de não ter tempo de fazer tudo que a minha pressa desenfreada deseja.

Eu me lembro bem de ter 11 anos e estar deitada na minha cama, encarando aquelas estrelinhas que brilham no escuro e tendo todo um memento mori estilo Jane Eyre no quarto vermelho porque afinal, estava logo ali o primeiro ritual que me tornaria velha.

Eu me apavorei aos 11, aos 16, aos 20, aos 26. Eu torço as mãos e viro noites e me angustio porque está tudo tão fora do lugar, eu estou tão fora do caminho e o tempo, ele passa tão cruel.

Eu tenho medo dele. Eu tenho medo de tudo que eu não vou ter feito aos 30 anos, eu tenho medo de cada desvio como se houvesse algo a ganhar nessa correria e não há, não há lugar nenhum para chegar e esse pavor me surpreende quando eu penso que tudo tem ficado solidamente melhor a cada ano que passa.

Nesses últimos quatro anos, eu reconstruí a minha vida. Esse ano tira um peso de mim porque fará mais tempo que estou sem ele do que estive com, porque finalmente isso pode parecer distante, esquecido.

A segunda metade dos meus vinte anos tem sido consideravelmente melhor que a primeira. Quando eu o deixei tudo era deserto, estéril, vazio. Quando eu fui embora, eu não tinha ninguém para andar comigo. Nos últimos anos, eu tinha cortado todas as cordas, fechado todas as portas, testado até o limite o amor de quem disse que estaria comigo até nas portas do inferno. Então eu comecei de novo.

Nesse processo eu saí do caminho várias vezes. Eu me perdi, eu quis morrer, eu me arrastei por dias fantasmagóricos. Eu abandonei sonhos, eu passei meses sem escrever uma linha. Eu achei que nunca ia sair daqui. Eu me perguntei todos os dias onde eu estava, o que eu estava fazendo, quem eu queria ser.

Quatro anos depois, eu encontrei respostas. Quatro anos depois, fugir deixou de ser tão importante. Em algum momento, sem nem perceber, eu decidi que só iria quando tivesse porque voltar.

Eu sou, talvez, uma das pessoas mais ambiciosas que andou por essa terra. Eu quero todas as coisas e eu as quero grandes, intensas, enormes. Eu quero tanto que eu me paraliso. Eu sonho tão longe que desisto antes pela impossibilidade de chegar lá. E eu passo um tempo enorme amargurada por tudo que não fiz.

Mas eu fiz sim. Eu fiz uma vida toda. Eu fiz gente demais para caber em um apartamento, ou melhor, gente que topa tentar se enfiar em um apartamento.

Eu perdi tudo e eu ganhei tudo e a primeira coisa que me pego pensando sobre ficar velha é toda essa bagagem acumulada, é toda essa bagagem, minha e do outro, que precisa ser coordenada.

Quanto mais eu trago comigo, quanto mais vezes eu vi relacionamentos acabarem, quanto mais vezes eu fui ferida, abandonada, traída, mais insustentável fica começar de novo? É possível que todas as pessoas que eu deixei entrar tenham me feito trancar a porta?

Ou quanto do que ele já viveu o torna arisco a mim? Quanto do passado o faz perceber que ele até poderia lidar com o que eu trago, mas não quer?

Tenho achado curioso esse momento, como se tivesse cruzado uma espécie de ponto de virada em que tudo é recomeço, todo relacionamento já foi feito antes, por mim e por ele. É como ganhar uma segunda chance e, ao mesmo tempo, sentir despencar na cabeça  a bigorna da condição humana e a certeza de repetir os mesmos erros até o fim.

Há muita coisa atrás de mim agora, há vidas inteiras. Já é tão complicado, tão impossível, coordenar apenas duas vidas, que dirá todas as outras que vem encaixotadas? E o medo?

Meu medo é como a fotografia esmaecida que não se joga fora, como o rastro de perfume de alguém que acabou de deixar o quarto. Como lençois amassados e cheiro de cigarro no dia seguinte. Pessoas foram embora, histórias acabaram, coisas sem fim terminaram, mas o medo fica, a lembrança irracional, do toque, da dor, da loucura, fica.

E vai ficando insustentável. Onde guardo tanto acúmulo? Eu sei que essa foi só a primeira vez que eu perdi tudo, outras virão e outros virão e onde eu coloco cada um deles? Com que coragem eu mostro tudo isso? Como posso realmente pedir para que alguém fique quando eu sei muito bem o que estou trazendo, quando eu sei que é algo que ninguém deveria querer?

Quão irônico é que quanto melhor tudo fica, mais medo eu tenho o tempo todo?