Don’t look back in anger

Eu não olhei para trás. Simplesmente não olhei. Disse tchau, me virei e fui embora. É o único jeito de ir embora. Sem olhar para trás.

Quando ele foi embora, ele olhou para trás. Por trás de uma fila de adolescentes que, imagino, iam para a Disney. Eu o perdoei por muita coisa, o perdoei por ir embora, mas não perdoei por olhar para trás. Por ter me feito sorrir uma última vez, quando eu já achava que finalmente poderia chorar.

Se é para ir embora, não se pode olhar para trás.

Em um dos muitos términos dos últimos dois anos eu olhei para trás. Achei que fazia sentido, uma vez que todo aquele relacionamento era um grande olhar para trás. Olhei para trás e nunca fui embora de fato. Ameaço ligar depois de cada garrafa de vinho, depois de cada decepção, depois de cada dia que estou exausta demais para ter instinto de auto-preservação.

Não se pode olhar para trás.

Eu não reviso os textos desse blog. Eles entram cheios de erros, cheios de coisas que eu sei que, se pensasse duas vezes, desistiria de dizer. Há algum tempo, eu decidi que esse era meu projeto artístico. Não o blog, mas não olhar pra trás, não pensar duas vezes, transformar minhas entranhas em arte, escrever com sangue, dor, com tudo que é confissão, inquietude, tudo que ainda está vivo dentro de mim. É a única literatura que eu sei fazer.

Eu poderia ter olhado para trás. Eu poderia ter desistido. Às vezes acho que não desisti porque queria exatamente isso, queria dor para poder transformar em arte. Eu e essa mania de querer ser Fiona Apple.

Eu não olhei para trás. Senti um beijo no ponto entre meu pescoço e minhas costas, onde o casaco encontrava meu vestido. Eu usava um vestido azul, com um decote muito profundo. Eu gosto daquele vestido, eu estava bonita naquele dia. Talvez eu tenha pensado cuidadosamente na imagem que ele teria quando olhasse para trás. Era um ponto esquisito para se dar um beijo, como o último beijo depois de eu ter me virado, rápido, naquele último segundo antes de eu me afastar demais.

Quis olhar para trás nesse momento. Quis encontrar esse beijo no caminho. Quis abraça-lo de novo e ficar ali por mais uma pequena eternidade. Mas já tínhamos nos abraçado por tempo demais. Acho que, mais do que tudo, quis ver a expressão dele quando decidiu me dar esse beijo tão estranho.

Acho que foi o beijo mais triste que já recebi. Tudo aquilo foi tão tremendamente triste. Porque não foi. Porque ninguém teve raiva, ninguém quis olhar para trás. Só nos abraçamos por um tempo terrivelmente longo. Terrivelmente. E eu dei aqueles conselhos terrivelmente óbvios :”não morra”. Se eu fosse ele teria rido, logo eu, eu que tem um verão inteiro que foi uma longa bad trip. “Não faço mais essas coisas”, digo. Eu teria rido disso também.

Não deixar que eles olhem para trás. Não deixar que eles vejam quem você foi naquele verão. Quem ficou naquela cidade. Tudo bem beber demais. Só não olha para trás. Você nem gosta tanto dessas coisas afinal de contas. Mentira.

Ele argumenta que é um bom menino. Rio, sei disso. Digo isso. Depois de ter esperado o sinal fechar, atravessado lentamente e acendido um cigarro. Então olhei para trás. A porta tinha acabado de se fechar.

Não achei o amor da minha vida em um trem na Turquia

Eu só estava ali, do outro lado da sala, bebendo vinho. Naquela hora você não sabia que eu ia acabar bebendo vinho demais. Eu já sabia. Eu só estava ali, com aquele vestido que eu gosto e me faz parecer mais magra, meu cabelo preso por causa do calor, bebendo vinho e conversando com alguém que eu não conhecia.

Eu estava falando sobre a Turquia, sobre como eu iria passar três semanas na Turquia e passar meu aniversário em um balão. Eu tinha 24 anos ainda. Acho que envelheci notavelmente só por fazer 25. Eu ainda tinha 24 e meu estômago já dava os sinais de que não ia se comportar. Eu sabia. Eu não ajudei com as diversas taças de vinho, mas meu estômago tem essa mania detestável de levar tudo para o lado pessoal, é extremamente egocêntrico meu estômago, sempre acha que é trabalho dele demonstrar o descontentamento que eu tinha, racional e deliberadamente, decidido esconder.

Eu comentei por qualquer motivo que tinha 24 anos e a moça conversando comigo se espantou. Acho que ela não esperava estar com alguém que tivesse 24 anos. Ela não sabia que eu estava com você, um pouco depois, quando você me abraçou, ela olhou envergonhada, talvez um pouco arrependida da conversa que nós começamos a ter nesse momento em que eu estava do outro lado da sala, perto da mesa, e você estava ali sentado na escada. Ela perguntou se eu não tinha medo de ir sozinha, eu disse que ia com uma amiga, mesmo assim, ela comentou, por sermos mulheres, não, não, não tinha, era parte da aventura, acho. Ela perguntou como eu iria viajar, de avião e carro, acho. Ela perguntou sobre os turcos, será que rola uma one night stand com um turco? Meu deus, eu não tinha ideia que ia acabar tendo uma one night stand com um turco na Capadócia. Mas enfim, ela perguntou e eu respondi que talvez, mas são muçulmanos, ah, mas é um país liberal.

Porque ela tinha assistido Antes do Amanhecer um dia desses e desde então teve essa ideia de que um dia ia estar em um trem e encontrar o amor da vida dela e, quando alguém contava que ia viajar, ela ficava imaginando se a pessoa não encontraria o amor da vida em um trem. Eu sorri meio triste. Disse que às vezes, quem sabe, poderia acontecer. Então olhei de lado para você. Não que você fosse o amor da minha vida, mas só porque achei engraçado que eu estava lá, obviamente como seu anexo, aquela menina que seus amigos talvez nem saibam o nome, só sabem que é a menina que você às vezes levava na casa deles, e ela me perguntava sobre outro. Fazia sentido, é claro, fazia um tremendo sentido que eu nem queria ver, mas achei engraçado.

Quando te olhei de lado percebi que você me olhava. Durante esse tempo todo em que eu estava do outro lado da sala, conversando com alguém que eu não conhecia, sendo simpática e sorridente e descolada: o que você faz? eu sou crítica de cinema. Ah, uau, onde? Às vezes eu publico na França. Uma vez você estava muito bêbado (ninguém pode dizer que não combinávamos em tendência a consumir um pouco de álcool demais) e repetiu diversas vezes que eu publicava na França, em um tom tão orgulhoso que eu não pude deixar de rir. Você me olhava como se eu fosse a coisa mais legal do mundo, sempre detestei esse olhar, e com aquele meio sorriso orgulhoso de ter levado a menina mais legal da festa. Ninguém ali era tão legal quanto uma cineasta que publica na França e nem fez 25 anos ainda. 

Na tarde desse dia eu tinha visto Frances Ha. Em determinado momento ela diz que tudo que quer de um relacionamento é aquele momento em que você, e a pessoa que está com você, estão em uma festa e seus olhares se cruzam e há, por um segundo, uma outra dimensão, uma comunicação muda de que essa é a sua pessoa na vida. Eu olhei de lado e te vi me olhando e me lembrei disso. Não que fossemos isso um para o outro. Que você fosse minha pessoa na vida ou eu para você. Mas naquele momento você me olhou com um misto de carinho e orgulho e como se tivesse me assistindo ali, sendo encantadora com pessoas que eram suas, e eu sorri. Já não lembro mais se fui até você, se você veio até mim ou se simplesmente deixamos isso no ar. Sei que em algum momento, eu estava perto da mesa, você passou por ali e me puxou para você, foi quando a moça que me perguntou sobre estranhos no trem reparou que ali, naquele lugar, naquela noite, eu era de alguma forma sua.

O que eu quis dizer e não consegui é que não sou do tipo que entende mil significados ocultos em um olhar, que faz perguntas já sabendo respostas. O que eu quis dizer e tenho achado tão difícil é que eu não invento o mundo como quero que ele seja, eu não posso me dar ao luxo de fazer isso, expectativas são para quem não costuma perder tudo o tempo todo. Imagina o que seria de mim se, ainda por cima, eu criasse expectativas? Eu não entendi nada desse olhar, apenas o fato que ali, naquele lugar e naquele minuto, eu era sua pessoa, que naquele segundo, e não necessariamente em nenhum outro, você tinha carinho suficiente para me olhar daquele jeito.

Eu não sei, mas acho que matei parte desse carinho nesse mesmo dia, enquanto eu ajoelhava no seu banheiro e ainda que dá maneira errada, colocava pra fora toda a sujeira que eu nunca pude te dizer.

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Memento mori

Eu sempre tive medo de envelhecer, medo do tempo que passa e medo, principalmente, de não ter tempo de fazer tudo que a minha pressa desenfreada deseja.

Eu me lembro bem de ter 11 anos e estar deitada na minha cama, encarando aquelas estrelinhas que brilham no escuro e tendo todo um memento mori estilo Jane Eyre no quarto vermelho porque afinal, estava logo ali o primeiro ritual que me tornaria velha.

Eu me apavorei aos 11, aos 16, aos 20, aos 26. Eu torço as mãos e viro noites e me angustio porque está tudo tão fora do lugar, eu estou tão fora do caminho e o tempo, ele passa tão cruel.

Eu tenho medo dele. Eu tenho medo de tudo que eu não vou ter feito aos 30 anos, eu tenho medo de cada desvio como se houvesse algo a ganhar nessa correria e não há, não há lugar nenhum para chegar e esse pavor me surpreende quando eu penso que tudo tem ficado solidamente melhor a cada ano que passa.

Nesses últimos quatro anos, eu reconstruí a minha vida. Esse ano tira um peso de mim porque fará mais tempo que estou sem ele do que estive com, porque finalmente isso pode parecer distante, esquecido.

A segunda metade dos meus vinte anos tem sido consideravelmente melhor que a primeira. Quando eu o deixei tudo era deserto, estéril, vazio. Quando eu fui embora, eu não tinha ninguém para andar comigo. Nos últimos anos, eu tinha cortado todas as cordas, fechado todas as portas, testado até o limite o amor de quem disse que estaria comigo até nas portas do inferno. Então eu comecei de novo.

Nesse processo eu saí do caminho várias vezes. Eu me perdi, eu quis morrer, eu me arrastei por dias fantasmagóricos. Eu abandonei sonhos, eu passei meses sem escrever uma linha. Eu achei que nunca ia sair daqui. Eu me perguntei todos os dias onde eu estava, o que eu estava fazendo, quem eu queria ser.

Quatro anos depois, eu encontrei respostas. Quatro anos depois, fugir deixou de ser tão importante. Em algum momento, sem nem perceber, eu decidi que só iria quando tivesse porque voltar.

Eu sou, talvez, uma das pessoas mais ambiciosas que andou por essa terra. Eu quero todas as coisas e eu as quero grandes, intensas, enormes. Eu quero tanto que eu me paraliso. Eu sonho tão longe que desisto antes pela impossibilidade de chegar lá. E eu passo um tempo enorme amargurada por tudo que não fiz.

Mas eu fiz sim. Eu fiz uma vida toda. Eu fiz gente demais para caber em um apartamento, ou melhor, gente que topa tentar se enfiar em um apartamento.

Eu perdi tudo e eu ganhei tudo e a primeira coisa que me pego pensando sobre ficar velha é toda essa bagagem acumulada, é toda essa bagagem, minha e do outro, que precisa ser coordenada.

Quanto mais eu trago comigo, quanto mais vezes eu vi relacionamentos acabarem, quanto mais vezes eu fui ferida, abandonada, traída, mais insustentável fica começar de novo? É possível que todas as pessoas que eu deixei entrar tenham me feito trancar a porta?

Ou quanto do que ele já viveu o torna arisco a mim? Quanto do passado o faz perceber que ele até poderia lidar com o que eu trago, mas não quer?

Tenho achado curioso esse momento, como se tivesse cruzado uma espécie de ponto de virada em que tudo é recomeço, todo relacionamento já foi feito antes, por mim e por ele. É como ganhar uma segunda chance e, ao mesmo tempo, sentir despencar na cabeça  a bigorna da condição humana e a certeza de repetir os mesmos erros até o fim.

Há muita coisa atrás de mim agora, há vidas inteiras. Já é tão complicado, tão impossível, coordenar apenas duas vidas, que dirá todas as outras que vem encaixotadas? E o medo?

Meu medo é como a fotografia esmaecida que não se joga fora, como o rastro de perfume de alguém que acabou de deixar o quarto. Como lençois amassados e cheiro de cigarro no dia seguinte. Pessoas foram embora, histórias acabaram, coisas sem fim terminaram, mas o medo fica, a lembrança irracional, do toque, da dor, da loucura, fica.

E vai ficando insustentável. Onde guardo tanto acúmulo? Eu sei que essa foi só a primeira vez que eu perdi tudo, outras virão e outros virão e onde eu coloco cada um deles? Com que coragem eu mostro tudo isso? Como posso realmente pedir para que alguém fique quando eu sei muito bem o que estou trazendo, quando eu sei que é algo que ninguém deveria querer?

Quão irônico é que quanto melhor tudo fica, mais medo eu tenho o tempo todo?

De mãos dadas com o desastre

Cada vez que eu conto uma história desastrosa eu posso prever a reação: “isso só acontece com você!” ou “nossa, mas você tem tanto azar!” Pode ser sobre perder o passaporte, sobre o dia que o cobrador arrancou os cabos do ônibus elétrico, ou sobre algum homem que foi cuidar dos órfãos da Madre Teresa de Calcutá, ou decidiu se alistar no front rebelde da Ucrânia. Não importa muito. A reação é sempre de uma certa incredulidade misturada a espanto que um único ser humano consiga concentrar tanto azar.

O que muitas vezes meu ouvinte não nota, é que todas essas histórias tem um ponto comum muito óbvio: eu mesma.

Há uma parcela de azar totalmente fora do meu controle e independente da minha pessoa. Eu não teria como causar a greve de maleteiros em Barcelona que me fez dormir no aeroporto e comer sanduíches da cruz vermelha. Eu não poderia impedir o cobrador de ter um dia de fúria em plena véspera de carnaval e parar o funcionamento do ônibus. Mas acho que terminam aí as situações em que o desastre foi totalmente livre da minha influência.

Eu tenho o enorme e incomparável talento de estragar absolutamente tudo em que coloco as minhas mãozinhas.

Eu mesma perdi meu passaporte, isso é óbvio. Eu estava andando pelas ruazinhas de uma cidade cubana depois de ir a um cabaré de travestis, isso também é óbvio. Eu decidi ir passear alegremente por Israel quando o país estava em guerra. Eu que encho a cara e saio largando o celular em bancos de táxi aleatórios. Eu que escolho os homens com quem me envolvo. E sou eu, em última instância, que me envolvo com eles.

Tem isso que já acabou. Ou que já deveria ter acabado. Esse cara que já me disse que não sabe o que quer de mim e eu que já estou nessa vida há muito tempo para saber que se ele não sabe o que quer de mim eu deveria juntar as minhas coisinhas, amarrar minha trouxa e ir embora viver minha vida. Mas eu não consigo. Eu volto e eu volto e eu desencavo e eu analiso na esperança de entender o que deu errado. Na esperança de entender o que eu fiz errado.

Em todas as milhares de aulas de filosofia que eu já tive na vida, eu aprendi que o ser humano tem uma dificuldade imensa em lidar com sua falta de autonomia. Frente a Deus, frente ao destino, frente ao acaso, o que você preferir. O que mais nos angustia, nós, seres pequenos e trágicos, é a falta de controle, é saber que não importa o quanto a gente se bata, tente fugir, se recuse a completar profecias, nós acabamos matando o próprio pai e comendo a própria mãe porque nossos caminhos não nos pertencem.

“He had learned the worst lesson that life can teach – that it makes no sense.” Eu entendo Philip Roth, eu amei Pastoral Americana com toda a força do meu coração, eu entendi seu ponto. Não importa o que se faça, não importa os planos e as tentativas, o acaso morde seu rabo e você cai no abismo que passou a vida tentando fugir.

Mas eu acho mais fácil lidar com tudo aquilo que não fui em mesma que causei.

Não é que o acaso e a falta de autonomia não sejam assustadores. Mas são menos do que a culpa. Menos do que a consciência de que eu sou sempre portadora do meu próprio desastre e, ainda assim, não posso impedi-lo.

Eu talvez conseguisse deixar ir alguém que simplesmente não me quer. Eu não consigo soltar alguém que eu fiz não me querer. Eu não consigo parar de voltar em todas as falas, todos os gestos, todas as vezes em que eu contraí meu corpo para fora dos braços dele e o afastamento lento, gradual que eu nunca poderia julgar. Eu nunca poderia acusá-lo da autopreservação, eu nunca poderia dizer que ele estava errado de se fechar para mim quando eu parecia tão fechada para ele.

Mas eu não consigo parar de me culpar. Meses depois, eu não consigo parar de me acusar de tudo que eu causei, tudo que eu fiz ir embora.

Não é porque eu queira ele de volta. Isso me dói muito menos do que a responsabilidade. O que eu perdi é mais facilmente aceitável do que como eu perdi.

Eu baixo a guarda então. Eu hoje noto cada vez que minha mão quer fugir de um toque, cada vez que quero escapar aos dedos nos meus cabelos. Não escapo. Todos os dias eu escolho não fugir e não fujo. Não minto. Eu vou ficando porque eu só não quero ser a culpada.

Mas quais as chances de que eu não estrague? Se eu percorri minhas mãos por você, eu transformei tudo isso em um desastre.

Eu sei desde já dos gritos, do choro e da dor. Da destruição que eu vou deixar pra trás quando eu for embora. Da corrupção e da loucura que ele nunca pensou em ter e eu trouxe para sua vida. Da impossibilidade de que ele saia disso inteiro, inocente.

Eu finjo que não sei. Eu finjo que posso fazer diferente. Eu falo da amargura brincando, como se eu estivesse sendo irônica. Eu aviso, mas nunca a sério, do desastre que posso causar.

Eu não quero ir embora. Mas eu devia.

Sangue na parede

Quando eu cheguei nesse apartamento, eu não tinha nada. Eu tinha caixas de livros e malas de roupa, mas eu não tinha sequer a coragem de dizer para ele que não, ele não ia colocar minhas prateleiras, não ia ter uma chave, não ia voltar lá nunca mais. Eu não tinha sequer a coragem de pedir que ele saísse da minha vida.

Eu cheguei nesse apartamento depois de dois anos morando com um homem. Depois de dois anos em que qualquer sugestão de um quadro na parede era chamada de “expressão da minha futilidade burguesa” ou qualquer coisa parecida. Depois de dois anos em um apartamento que não era meu, da mesma forma que minha vida não era minha.

Eu cheguei aqui praticamente sem amigos, levando um mestrado com o fio de energia que me restava, sem escrever há meses, sem ler um livro direito eu já nem sabia há quanto tempo. Na minha primeira noite sozinha nesse lugar, eu sentei no chão, abracei meus joelhos e encarei minha gata. Ela ainda era minha, ela, eu tivera coragem de dizer que seria só minha. Minha gata, em uma coincidência estranha do mundo, tem os olhos exatamente da mesma cor que os meus. Eu fiquei uns minutos muito longos encarando os olhos dela, que são iguais aos meus, e respirando devagar o ar que já não estava tão envenenado dele.

Eu sempre tive essa mania de transformar lugares internos em externos. Eu estabeleço esses paralelos e esses reflexos entre onde estou e como estou. Ano passado, quando o que eu sentia era insustentável, eu fui embora. Eu saí daqui como se isso pudesse significar sair de mim mesma. O clichê diria que isso é inútil, que você leva a você mesma onde quer que vá, mas eu discordo. Lá fora, eu realmente saí de mim mesma e pude rearrumar as coisas o suficiente pra poder voltar.

Esse ano, depois de meses em que eu dormia razoavelmente bem, não bebia mais todos os dias e não apagava mais cigarros na minha própria pele, eu percebi que precisava sair daqui. Que dessa vez, quem tinha envenenado o ar era eu mesma, quem tinha manchado as paredes de sangue e vísceras era eu mesma. Que o ar aqui dentro era viciado da minha própria dor e da minha loucura e cada pedaço desse chão estaria pronto para me assombrar. Por meses, esse apartamento foi meu próprio inferno particular. Foi aqui que eu me entrincherei quando já não podia aguentar o mundo e gradualmente eu fui deixando que as portas se abrissem e o fogo, a agonia, a loucura, consumissem cada centímetro de parede, impregnassem em cada estofamento de sofá.

Então, eu precisava embora. Mas enquanto eu lacro caixas e embrulho quadros, a minha sensação é radicalmente diferente da última vez que eu fiz isso. Agora, eu tenho tudo. Ou pelo menos, eu tenho a mim.

Esse apartamento foi o primeiro espaço meu. O primeiro lugar em que minhas decisões, e apenas elas, passaram a contar. Eu chorei nesse chão mil vezes por escolhas que eu tinha feito, eu trouxe dezenas de homens pra essa cama porque eu os queria, eu enchi as estantes com os meus livros, os armários com os meus chás, as paredes com os meus quadros. Eu deixei meus sapatos espalhados e meus batons no porta lápis da escrivaninha. Eu escrevi um mestrado aqui. Eu dei incontáveis festas. Eu virei quem eu sou, enquanto morava nesse apartamento.

E eu mesma causei a hora de ir embora.

Não me escapa a minha capacidade de envenenar as coisas, o meu papel como alguém que vai sempre trazer junto uma partícula de desastre, de corrupção, de fim do que parecia funcionar tão bem. Eu tenho batido meu pé e argumentado que não, eu não vou estragar a vida de ninguém dessa vez, que eu estou calma, eu estou quieta, que eu estou tão pronta quanto jamais poderia para sossegar o rabo em algo confortável. Mas a verdade é que eu vou, por mais que eu não queira.

Eu vou porque comigo vem uma quantidade de dor e falta de sentido, uma falta de ordem das coisas como se espera que elas sejam. Porque vem comigo, sempre, uma consciência de quanto tudo pode ser tão cruel e difícil e dolorido para quem talvez não saiba disso. Eu posso ser a pessoa mais doce que possível, eu posso amar alguém, um lugar, o que quer que seja. No final, eu sempre vou embora deixando o ar intoxicado e as paredes recobertas dos pedaços de mim mesma que eu nunca paro de arrancar.

A verdade é sempre mais interessante

Em Birdman, a Emma Stone é o personagem clichê que mais tenho no meu coração. Loira, enormes olhos verdes arregalados, tatuagens, um guarda roupa de peças pretas e botinhas de tachas e um problema com drogas e álcool.

Alegar qualquer senso de identificação no meu carinho é sem dúvida mentiroso. Óbvio. Claro.

Emma Stone pendura as pernas para a fora do terraço não porque pretenda pular, mas pela adrenalina. Eu gosto de uma frase em inglês que nunca consigo traduzir com exatidão: “for the rush”. O que eu acho engraçado é que o filme de alguma forma tenta escapar ao clichê da garota problemática caindo no próximo clichê da garota problemática: ela não é vazia, ela é tão repleta de coisas que precisa do vazio como defesa.

Em dado momento, o personagem do Edward Norton (que ela irá, óbvio, seduzir) diz algo como ela ser uma bagunça tão grande, tão incapaz de lidar com ela mesma ou fazer com que as coisas funcionem um mínimo que ela é como uma vela queimando nos dois lados. Mas que isso é algo lindo de assistir.

Um dia desses, alguém me disse: “ele tem obviamente medo de até onde você pode levá-lo”. Não era uma mentira, acho. Talvez seja algo de profundamente verdadeiro. Mas é uma afirmação que eu não posso processar, porque eu não tenho ideia de até onde poderia levar alguém, porque eu não tenho ideia de até onde poderia ir. Porque eu tenho um medo desgraçado de mim mesma.

Eu já estive diante de alguém que dizia que estava me deixando porque era incapaz de lidar com a incerteza, a inconstância, o furacão constante de coisas e a minha necessidade indomável da adrenalina. Do novo. Ele ficaria velho eventualmente. Toda a paixão louca que eu sentia ficaria velha. O sexo ficaria velho. E eu ia acabar deixando-o ou tentando me equilibrar entre amor e um mundo lá fora e ele não sabia lidar com isso, por mais ridiculamente hipócrita que essa afirmação fosse.

Muitas vezes eu sinto que foram essas as palavras tatuadas nas minhas costas. Ou embaixo da minha pele. Na minha carne, meu sangue, meus ossos.

Já me disseram que eu faço um tipo da minha dor. Que eu era encantada comigo mesma e a imagem que eu vejo de mim. Eu concordei silenciosamente nos dois casos. O que eu mais gosto nesses diálogos entre a Emma Stone e o Edward Norton em Birdman é que ele percebe cada centímetro do show, cada milímetro de falsidade e ao mesmo tempo a sinceridade profunda e a necessidade vital de tudo aquilo.

“Você quer se tornar invisível”, ele diz, “mas você não consegue”. Eu não sei se eu já tentei ser invisível, mas eu tento, com frequência, vestir a verdade de drag queen. Vesti-la em uma aparência tão falsa e extravagante que você não pode fazer nada além de olhar para ela e perder, ou esquecer,  o que é perfeitamente visível por trás dos quilos de cílios postiços.

Alguns dias, quando eu penteio meu cabelo, arrumo o batom e calço botas com minissaia para ir trabalhar, eu rio sozinha do cuidado da minha imagem. Da tentativa estúpida de seduzir todo mundo para que o encantamento esconda a parte de trás , ao mesmo tempo que me permite comprar esse encantamento como afeto real, proximidade. Eu posso ser gostavel, essa não sou eu tanto quanto todo o resto? Ou se eu anunciar o quanto sou detestável ao mesmo tempo que não sou, minha consciência fica mais em paz?

Tem um mundo inteiro dentro de mim que pode me levar a distâncias inimáginaveis. Um mundo do qual eu morro de medo. Porque é uma vela que queima nas duas pontas e é muito difícil, cada vez mais difícil, me equilibrar na parte que sobra. Se eu perder o medo tudo queima mais rápido? Se eu perder o medo, eu espalho essa fumaça tóxica para a vida dos outros?

Eu não gosto do medo. Eu não gosto das distâncias enormes que eu percorro justamente para não percorrer distância nenhuma.

Eu não gosto do dia em que eu bebi até você precisar me carregar para sua casa porque isso evitava meu choro. Evitava o abandono nos meus olhos e evitava que eu suavemente me encostasse em você e dissesse que eu sentiria sua falta, que eu estava completamente vulnerável e que nos próximos meses eu perderia completamente a cabeça por sua causa.

Ela me diz que você tem medo de até onde eu posso te levar. Minha vontade é gritar que eu mesma tenho esse medo e que, portanto, não é justo que você também o tenha. Que eu não quero ser nada de especial, que eu não quero o talento, ou a escrita, ou essa entrega absurda as coisas, eu não quero mais a ironia ou o sorriso que eu sei que tenho quando algo faz surgir aquela corrente de eletricidade pelo meu corpo. Eu não queria nada disso se o preço é tanto medo, se o preço é a distância constante minha e dos outros.

Álcool te afasta da realidade. Drogas te afastam da realidade. Horas insones são uma espécie de realidade alternativa. E a máscara de indiferença, a resposta arisca, a ironia que defende e a defesa mais irônica ainda de vestir a capa da garota problema para evitar que percebam que você realmente tem problemas.

Vício

“O problema é que você tem tendência demais a alguns vícios. Que você gosta demais deles.” Você me diz isso enquanto reviro a cama atrás dos cigarros que certamente estão no bolso das suas calças. Encontro. Acendo um lentamente e te ofereço o maço com um olhar de insolência, minha forma de dizer que você não é nenhum pouco, nenhum nada, melhor do que eu.

Talvez meu problema seja, na verdade, que eu travo batalhas demais com os homens. Que eu transformo camas demais em campos de guerra.

Você aceita minha oferta, sorri, concorda com a cabeça. “Eu também, mas, nesse caso, eu sou melhor que você.”

Quero rir, mas não rio. Quero rir batendo nas minhas pernas cruzadas e deixando cair no meu rosto a massa enorme de cabelos loiros. Mas não rio. Porque o desdém seria só a confirmação de que você está certo. Porque você está.

Então não falo nada. Arregalo meus olhos e te encaro, esperando. Seus olhos são quase verdes, mas não realmente. Como você quase fica comigo, mas não realmente. Parecidos com os olhos do meu gato, meio amarelos.

“Eu sou o alcoólatra reabilitado, aquele que não toca em uma gota de álcool. Você ainda gosta demais da adrenalina, da espera, do jogo. Você gosta demais do jogo.”

O Jogador. Aleksei Ivánovitch em algum momento conta que o que vicia o jogador não é o ganho. Nem a perda, a vontade de reverter a perda. É o momento anterior. Aquele segundo em que tudo é possível, quando a bolinha roda com um barulho irritante pela roleta.

O Jogador não é um dos meus livros favoritos, certamente não é um dos meus Dostoievskis favoritos, mas eu me pego voltando a ele de novo e de novo. Eu não volto a Irmãos Karamazov como volto a O Jogador.

“Por que você não pediu a ele, se queria alguma coisa? Por que você não foi embora? Por que você simplesmente deixou que as coisas ficassem como uma bolinha girando na roleta por tanto tempo?”

Por tanto tempo. Por um tempo insuportavelmente longo. 12 meses. 365 dias. Exatos. Precisos. Até a bolinha cair fora da minha aposta.

Por que eu gostava da espera? Porque eu gostava do lugar de suspensão em que eu poderia ganhar ou perder? Por tudo era possível? Por que eu gostava do jogo e da adrenalina e dos infinitos detalhes e sutilezas que se perdem quando as coisas se estabelecem?

Eu dei uma conferência sobre Amor à Flor da Pele um outro dia. “Não é um filme sobre amor, é um filme sobre desejo”, eu comecei dizendo. É um filme como um tango, em que personagens se aproximam e se afastam e rodopiam e por fim se afastam porque a música acabou, “aquele tempo passou, tudo que era dele não existe mais.”

Me pergunto muito se nosso tempo passou. Se o que vamos fazer agora, porque sei que faremos, é um ensaio ralo de algo que já morreu. Me pergunto também se foi tudo um problema de timing. Se eu tivesse te conhecido agora, seria tudo diferente? Nós poderíamos ter trocado as mãos e você quem teria perdido tudo?

“Eu perdi tudo”, eu falo, sem responder as perguntas. Você assente. “Mais de uma vez”, completa.

“Você aposta sua sanidade com homens e pra que? Nem é algo que você quer tanto assim, você só não consegue ficar sem.”

Então eu finalmente rio. Em parte sardônica, em parte doce, quase compreensiva. “É por isso que você nem joga. Você tem medo demais de gostar desse momento, da espera, da dor, da possibilidade. Eu nem nego. Talvez se ele tivesse ficado comigo eu tivesse cansado em dois meses. Talvez se você tivesse ficado comigo eu teria cansado em uma semana. Talvez eu realmente goste da eletricidade que passa a cada sinal de alguém que você não sabe o que sente por você. Talvez eu esteja aqui procurando por uma coisa que eu vá desistir assim que ganhar. Pode ser. Mas qual a alternativa?”

Qual a alternativa?

Eu tentei. Eu fechei as portas, as janelas. Eu não respondi mensagens. Eu não fui atrás. Eu ignorei a forma como o cabelo escuro dele caía no rosto por mais que minhas mãos parecessem magneticamente grudadas a eles. Eu resisti a química. E eu morri de tédio.

Eu me propus a ser mestre do meu corpo, a não seguir fascinada a cada arrepio que sobe pelas minhas pernas. Eu até considerei parar de beber.

Curioso é que você não me alerta, nunca, sobre o quanto eu bebo. Só sobre os homens. Sobre o amor e o sexo e o como eu uso ambos como uma droga. Jamais sobre o álcool, ele, é claro, não te preocupa.

Não me lembro se disse isso alto. Devo ter dito porque você me responde “o álcool não vai ser o seu fim. Ou melhor, vai. Por causa de algum homem. Você não bebe porque é o que você prefere, você bebe porque é o que você tem.” Eu aponto que nunca bebi tanto quanto como estava com você e nunca usei o amor mais como uma droga também. Você dá de ombros. Eu não preciso dessa resposta e você sabe.

Eu temo quando você for embora. Eu temo as noites em que não vou brigar comigo mesma para não te ligar. Na maioria das noites eu realmente não te ligo, mas na maioria das noites eu bebo. Algumas noites eu reviro hábitos que eu disse que tinha parado. A adrenalina. A eletricidade que sobe pela espinha antes da dor. Você está terrivelmente certo, é claro, eu não posso largá-la.

Eu flerto abertamente, intensamente, sempre. Eu nunca neguei que gostasse do jogo, mas eu me conheço melhor do que você pensa. Eu tomo o isqueiro da sua mão e começo aquela brincadeira que há tanto tempo te irrita: eu acendo e aproximo meu dedo, o máximo possível sem me queimar. Nunca, nem uma única vez, eu errei a medida.