enrolação

Memento mori

Eu sempre tive medo de envelhecer, medo do tempo que passa e medo, principalmente, de não ter tempo de fazer tudo que a minha pressa desenfreada deseja.

Eu me lembro bem de ter 11 anos e estar deitada na minha cama, encarando aquelas estrelinhas que brilham no escuro e tendo todo um memento mori estilo Jane Eyre no quarto vermelho porque afinal, estava logo ali o primeiro ritual que me tornaria velha.

Eu me apavorei aos 11, aos 16, aos 20, aos 26. Eu torço as mãos e viro noites e me angustio porque está tudo tão fora do lugar, eu estou tão fora do caminho e o tempo, ele passa tão cruel.

Eu tenho medo dele. Eu tenho medo de tudo que eu não vou ter feito aos 30 anos, eu tenho medo de cada desvio como se houvesse algo a ganhar nessa correria e não há, não há lugar nenhum para chegar e esse pavor me surpreende quando eu penso que tudo tem ficado solidamente melhor a cada ano que passa.

Nesses últimos quatro anos, eu reconstruí a minha vida. Esse ano tira um peso de mim porque fará mais tempo que estou sem ele do que estive com, porque finalmente isso pode parecer distante, esquecido.

A segunda metade dos meus vinte anos tem sido consideravelmente melhor que a primeira. Quando eu o deixei tudo era deserto, estéril, vazio. Quando eu fui embora, eu não tinha ninguém para andar comigo. Nos últimos anos, eu tinha cortado todas as cordas, fechado todas as portas, testado até o limite o amor de quem disse que estaria comigo até nas portas do inferno. Então eu comecei de novo.

Nesse processo eu saí do caminho várias vezes. Eu me perdi, eu quis morrer, eu me arrastei por dias fantasmagóricos. Eu abandonei sonhos, eu passei meses sem escrever uma linha. Eu achei que nunca ia sair daqui. Eu me perguntei todos os dias onde eu estava, o que eu estava fazendo, quem eu queria ser.

Quatro anos depois, eu encontrei respostas. Quatro anos depois, fugir deixou de ser tão importante. Em algum momento, sem nem perceber, eu decidi que só iria quando tivesse porque voltar.

Eu sou, talvez, uma das pessoas mais ambiciosas que andou por essa terra. Eu quero todas as coisas e eu as quero grandes, intensas, enormes. Eu quero tanto que eu me paraliso. Eu sonho tão longe que desisto antes pela impossibilidade de chegar lá. E eu passo um tempo enorme amargurada por tudo que não fiz.

Mas eu fiz sim. Eu fiz uma vida toda. Eu fiz gente demais para caber em um apartamento, ou melhor, gente que topa tentar se enfiar em um apartamento.

Eu perdi tudo e eu ganhei tudo e a primeira coisa que me pego pensando sobre ficar velha é toda essa bagagem acumulada, é toda essa bagagem, minha e do outro, que precisa ser coordenada.

Quanto mais eu trago comigo, quanto mais vezes eu vi relacionamentos acabarem, quanto mais vezes eu fui ferida, abandonada, traída, mais insustentável fica começar de novo? É possível que todas as pessoas que eu deixei entrar tenham me feito trancar a porta?

Ou quanto do que ele já viveu o torna arisco a mim? Quanto do passado o faz perceber que ele até poderia lidar com o que eu trago, mas não quer?

Tenho achado curioso esse momento, como se tivesse cruzado uma espécie de ponto de virada em que tudo é recomeço, todo relacionamento já foi feito antes, por mim e por ele. É como ganhar uma segunda chance e, ao mesmo tempo, sentir despencar na cabeça  a bigorna da condição humana e a certeza de repetir os mesmos erros até o fim.

Há muita coisa atrás de mim agora, há vidas inteiras. Já é tão complicado, tão impossível, coordenar apenas duas vidas, que dirá todas as outras que vem encaixotadas? E o medo?

Meu medo é como a fotografia esmaecida que não se joga fora, como o rastro de perfume de alguém que acabou de deixar o quarto. Como lençois amassados e cheiro de cigarro no dia seguinte. Pessoas foram embora, histórias acabaram, coisas sem fim terminaram, mas o medo fica, a lembrança irracional, do toque, da dor, da loucura, fica.

E vai ficando insustentável. Onde guardo tanto acúmulo? Eu sei que essa foi só a primeira vez que eu perdi tudo, outras virão e outros virão e onde eu coloco cada um deles? Com que coragem eu mostro tudo isso? Como posso realmente pedir para que alguém fique quando eu sei muito bem o que estou trazendo, quando eu sei que é algo que ninguém deveria querer?

Quão irônico é que quanto melhor tudo fica, mais medo eu tenho o tempo todo?

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Fausto aprendeu no que dá querer demais

Não precisa de um passeio muito longo pela literatura pra perceber que nós estamos constantemente sendo punidos por querer demais. Prometeu, Fausto, alguém do Shakespeare que eu suspeito seja Macbeth (desculpa, meu repertório de Shakespeare é um negócio BEM falho, pretendo resolver algum dia), Raskolnikóv, até o Swede em Pastoral Americana.

Digo até o Swede porque parece que mesmo em um universo completamente aleatório, dominado pelo acaso que é um animal cruel (já falei disso aqui) se é punido por querer demais. Ele quis ser americano, ao invés de judeu, o que é um passo maior que as pernas, mas possível. Mas ele não quis apenas ser americano, quis ser a América de certa forma e daí a tragédia é inevitável.

A maior lição do personagem, e uma das melhores passagens da literatura contemporânea, é que a vida não faz sentido. Mas ainda assim, será que toda a tragédia ali é aleatória mesmo? Sem nenhuma conexão com o que ele quis, quem ele é, com o fato de ele querer demais?

Nós queremos relacionamentos que deem certo com alguém por quem sejamos perdidamente apaixonados. Queremos empregos que não sejam detestáveis e queremos um milhão de outras coisas como roupas, móveis, viagens, etc, etc, então tem que pagar bem também. Eu quero ler todos os livros, ver todos os filmes, assistir todas as séries, escrever todo dia, uma indicação de publicação pro mestrado, um doutorado em Paris, uma passagem pra Índia e ter minhas unhas feitas.

Eu quero ser amada por pessoas e quero ir embora. Tudo ao mesmo tempo. Como se fosse possível.

Eu quero laços e quero a liberdade suprema da ausência deles. Eu quero ir e quero estar aqui, eu quero o mundo todo e ainda quero pessoas em volta de mim. Não dá, ou se ganha o mundo e se perde o aqui, ou ao contrário. Eu estou em um caminho bem claro de ser punida por querer demais.

Eu me assusto muito cada vez que quero algo. Deve ser algum tipo de culpa judaica bizarra ou só minha cabeça um pouco defeituosa, mas eu tenho muito medo quando quero algo porque meu instinto é dizer a mim mesma que não mereço. Que não posso ter. Que a existência é só essa condenação de desejar coisas, eternamente.

Acho que algum filósofo grego comparou homens com cavalos com a cenoura na frente. Schopenhauer (rolou um google pra saber como escreve, um beijo pra acadêmica disléxica) falou muitas coisas, muito deprimentes, sobre ser escravo da própria vontade. Eu tenho pouca tendência a achar que devemos para de desejar, não me atrai em nada a ideia de que algum tipo de felicidade possa estar na ausência de coisas, não gosto da ideia de equilíbrio, meio termo. Sou mais fatalista que isso: acho que estamos condenados a desejar coisas, sempre, a querer demais e sofrer por isso.

E querer coisas e querer mais coisas assim que conseguimos essas primeiras. Lembro daquele moço que eu saia que gostava de dizer que todo objetivo é ouro de tolo porque uma vez que você chega lá passa a querer outra coisa. Achava isso extremamente sábio da parte dele, que sempre me pareceu ao mesmo tempo em paz e atormentado com o fato de que ele também queria demais.

Eu não sei se tenho mais medo de conseguir o que quero ou de não conseguir. Não sei se meu medo é pura e simplesmente da intensidade com que quero as coisas, quando quero. É engraçado que eu já ganhei algumas vezes a interpretação de ser fria, ou distante, ou pouco interessada em sentimentos por conta desses anos solteira. Ao contrário, acho, eu acabo querendo tanto e me apaixonando tanto e ao mesmo tempo eu quero tanto a mim mesma, ao mundo que não se pode querer tanto duas duas coisas sem enlouquecer.

Talvez não se possa querer nada nesse tanto sem enlouquecer.

Tem aquela frase da Sylvia Plath também que diz que quando queremos desesperadamente coisas demais, estamos muito próximos de não querer nada. Talvez. Acho que faz algum sentido. Isso de querer tudo, querer o mundo, querer todas as coisas é só uma forma de lidar com esse desejo todo quando não se quer nada, especificamente. Eu detesto a maneira como me sinto esvaziada quando passo a querer demais uma mesma coisa, eu detesto quando esse querer todo se concentra em alguma coisa. Detesto e tenho medo.

Querer alguma coisa, uma coisa real e concreta e possível de ser apontada, é arriscar perder. Eu tenho dificuldades enormes de admitir, pra mim mesma, o quanto quero algumas coisas, o quanto não ter pode puxar meu tapete, eu detesto olhar de frente quando essa intensidade de querer se transforma na intensidade da dor de não ter. Provavelmente por essa certeza de que não posso ter o que quero, ou por medo de ter e não ser aquilo, não estar satisfeita.

Eu passei anos querendo algo, alguém, achando que as coisas fariam mais sentido, eu faria mais sentido, uma vez que conseguisse. E quando eu consegui já não fazia mais sentido, nenhum, eu já não queria aquilo. E de alguém que tinha metade eu passei a ser alguém que não tem nada. Já perdi muita coisa nessa vida, nada nunca doeu como isso, nenhuma dor nunca foi tão quieta e tão persistente, nunca houve uma falta mais torturante.

Então melhor não querer nada.

Querer algo e fazer coisas a respeito disso requer um mínimo de fé que se vai conseguir. Quando a Capes me faz aquela pergunta muito idiota de por que eu mereço uma bolsa, eu só posso responder se achar, pelo menos um pouco, que mereço. Acho razoavelmente possível quando sou capaz de listar critérios objetivos, sou completamente incapaz quando preciso dar um salto de fé em mim mesma.

Por exemplo, quando se quer uma outra pessoa. Ir atrás requer um mínimo de fé que algo em você é interessante, desejável, que é possível querer estar com você. Kierkegaard que me perdoe, mas tenho achado mais fácil saltar na fé em deus do que acreditar nisso. E eu definitivamente não acredito em deus.

Talvez eu tenha lido literatura demais e tenha aprendido muito bem que sempre se é punido por querer demais. Eu certamente li livros do Philip Roth o suficiente para saber o quanto somos escravos do desejo e o quanto a verdadeira comunhão humana é impossível. Bergman pode até dizer o contrário, eu posso até ter escrito todo um mestrado sobre saltar no outro independente de garantias, mas isso é muito mais uma versão da coisa que eu quero comprar, mas não consigo. Mais do que qualquer desejo, querer uma outra pessoa vai inevitavelmente atrair uma punição.

Falei ali em cima que tenho muito pouco interesse por quem vem dizer que abandonar vontades ou achar uma espécie de equilíbrio no desapego gera felicidade. Não acho, mesmo, sou daquelas que acredita em intensidades, em sofrer muito e ser muito feliz por espaços curtos. Mas nem sempre é uma aposta que se pode bancar, eu acho cada vez mais que não posso. Que preferia não querer absolutamente nada e a abrir mão dos dois lados da moeda, preferia a imagem de distante e inatingível que de vez em quando fazem de mim. Eu queria mesmo partir corações sem remorso como as vezes acham que eu faço. E eu queria realmente parar de partir o meu.

E não só com pessoas. Com textos, com tudo. Com a pessoa que eu sou. Eu queria realmente parar de atrair a fúria do universo sem sentido para mim porque quero demais. Mas eu li literatura suficiente pra saber que isso é impossível.

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Todo desapego de se ter um reader

É muito desapego ter um reader. Eu tenho um kobo, comprei mês passado porque decidi parar de entupir meu não tão grande apartamento com livros: eu já tenho duas estantes abarrotadas, alguns livros exilados no quartinho de empregada, outros na casa da minha mãe e tinha acabado de comprar uma terceira estante que já estava quase cheia, fora a prateleira que fica no meu quarto que abriga as HQs e a coleção Mulheres Modernistas que mora separada por motivos estéticos. Chega, eu quis gritar uma noite! Alguma hora vou chegar em casa e meus gatos terão morridos soterrados por livros, chega, chega, chega. Comprei um kobo.

Meu primeiro livro no kobo foi Barba Ensopada de Sangue (muito bom livro, aliás) durante a Flip. Foi meio coincidência, mas achei apropriado, já estava levando uma porção de livros para serem autografados, sabia que ia voltar com mais algum, podia economizar esse espaço. Em dezembro eu viajei para Israel e Itália com 5 livros na mala! Rory Gilmore c’est moi, era uma viagem de um mês, em Israel eu fico enfiada no kibbutz do meu tio sem ter o que fazer e sempre leio pra caramba, blá, blá, blá. Foi lindo, li todos eles, mas na volta precisei carregar Anna Karenina na mão porque já não tinha espaço na mala (eu sei né, ok levar cinco livros, mas não podia ser nada menos tijolo?).

Fui com o kobo e em parte foi a melhor coisa que eu fiz. Na Flip você já carrega caderno, câmera, livro pro autografo e assim levar o livro que eu estava lendo não acrescentava peso. Também era útil de ler nas filas, uma mão só, levinho. Imagina ler Ulysses na fila? (eu leio muito em filas, em pé no ônibus e tal, Ulysses quase me matou). Foi útil, foi lindo e maravilhoso, mas quando eu acabei e voltei para um livro de papel quase quis chorar de emoção.

Esse mês eu li meu segundo livro no kobo por conta de uma matéria que estou fazendo e ouvinte na Usp, como é uma matéria de literatura e bem, eu já tenho muitos livros, decidi ler todos os livros dela digitalmente. Também ajudou, eu mantinha um livro pesado em casa (O Museu da Inocência no caso, do qual falarei em um mês) e saia por ai livre e leve com meu reader. Eu já estava mais adaptada e foi aí que entendi o que me incomoda nele: é muito desapego.

Eu marco livros, grifo, anoto, risco, deixo recadinhos para mim mesma nas margens, emprestar livros é, para mim, um exercício de overshare. E eu sinto falta disso. Porque o kobo me deixa grifar e até fazer algumas notas, mas não é a mesma coisa que riscar, circular muitas vezes uma palavra, encher de !!!! aquela passagem que me define. Eu gosto da concretude do livro, eu gosto de me derramar no livro. Eu praticamente gosto de abraçar livros.

Acho que tem algo no peso do livro. Segurar Ulysses aberto era um sacrifício quase tão grande quanto ler o negócio. Você sofre com Ulysses, sofre lendo, sofre de dor nas costas, dor no punho, falta de posição, mas meu deus como vale a pena! Midnight’s Children, por outro lado, é grande mas leve. Minha edição pelo menos é. E o livro também é longo, um tanto difícil e sofrido, ocupa um puta espaço na bolsa, mas é leve.

Meus livros são quase meu lastro, eu não posso ir embora de vez, sabe? eu tenho meus livros! Como eles vão viver sem mim? Quem vai amar essa edição listrada de NW tanto quanto eu? Tenho planos de um doutorado fora e vou gastar uma fortuna enviando caixas de livros para a França.Mentira, não vou, porque desapego até dói, mas eu desapego fácil.

Estou fazendo mala para viajar de novo e nela vai uma edição relativamente leve de Catch 22, porque preciso devolver ao proprietário em um futuro próximo e só por isso, e o kobo. Não foi bem uma escolha voluntária, mas forçada pelos meus vôos de Pegasus Airline que só permitem 15kg de bagagem e são três semanas, quero estar bonita nas fotos, então vou gastar esse limite com roupas. Estou sofrendo, estou abraçando meus livros e querendo levar um Bashevis Singer de 760 páginas, mas não vou. Pretendo ler The Ocean at the End of the Lane e sei que vai ser sofrido, sei que vou querer riscar e sujar e amar, mas também sei que vou superar depois do primeiro capítulo. Eu não gosto do kobo, como não gosto de ser desapegada, mas é preciso se acostumar.

Esses dias alguém me contou que ia embora, que tinha até comprado um kindle. Foi nesse momento, quando ele me disse isso, que eu acreditei que ele realmente ia, não estava fazendo como eu, que anuncio toda semana que vou me mudar para a Índia com a roupa do corpo (aliás, pode ser que eu realmente vá para a Índia, de verdade verdadeira, mas conto isso depois). Alguém que chega a comprar um kindle é certamente alguém que se desapegou o suficiente para ir embora.

Eu comprei meu kobo faz um mês, nem sei do que raios eu estava me desapegando. Eu já sabia dessa viagem, já sabia dos 15 kg de bagagem, não sabia que talvez vá para a Ásia de mochila. Mas nem sei se foi por isso. Eu não gosto dele, mas uso cada vez mais. Do mesmo jeito eu não gosto do meu desapego, mas uso cada vez mais.

 

(mas é claro que continuo comprando livros e entupindo meu apartamento com eles)

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Como não fazer sentido nenhum, experimento prático número I

Morreu esse blog.

Na verdade, o que morreu mesmo foi a minha criatividade. A minha capacidade de escrever, as in, o ato mecânico de colocar uma frase depois da outra de forma que elas tenham um som e fluidez que relativamente me agrada, está doente terminal, mas ainda funciona em dias bons, com os remédios certos.

Mas a criatividade morreu.

Eu abro páginas em branco do word. Posts novos no wordpress. E nada. Eu não tenho nada a ser dito.

Não se enganem, meu cérebro continua funcionando daquele jeito ridículo a 200 km/h girando em volta dele mesmo igualzinho a estúpida da minha gata perseguindo o próprio rabo. Auto-sabotagem e masoquismo continuam bem e vivos por aqui, preenchendo páginas e páginas de diário com um pânico absurdo de que tudo vai explodir na minha cara pelo simples fato de que eu sou incapaz de não fazer tudo explodir na minha cara.

Mas eu cansei de falar disso.

Eu cansei de falar da minha inadequação pra mil coisas e cansei de falar sobre escrever e a dificuldade de escrever (oh! a ironia!). De novo: não é que eu não queira falar sobre tudo isso. Eu sempre tive claro pra mim mesmo que o tipo de arte que me interessa é aquela confessional até os ossos. É A Redoma de Vidro, A Fazenda Africana.

Mas eu não tenho o dom da Karen Blixen de envolver de magia aquele relato tão direto, tão dela, tão quase um diário. Se meu tema sou só eu, esse tema não me interessa. Ou pelo menos eu não consigo pensar em uma forma que ele me interesse.

No fundo eu não quero que esse blog morra, então eu to me propondo a vir falar de filmes, de livros, de coisas objetivas sobre as quais eu imagino que consiga tirar algo de interessante pra dizer. Mas esse blog como lugar dos textos sobre tudo e qualquer coisa, desses pequenos vômitos líricos que algumas pessoas gostavam e eu até consigo entender porque morreu.

Depois de tanto falar sobre não ter nada pra dizer parece que afinal eu percebi que não tenho mesmo

nada pra dizer.

 

Oi, bom dia, mudei.

Oi, mudei.

Quer dizer, mudei o layout. Cansei de preto no branco, me atrapalha pra ler e cansei. As vezes eu canso das coisas assim, só porque sim.

Mas quero mudar mais coisas (não na vida, bom, na vida também, mas no blog). Já faz um tempo que eu ensaio um post de como esse blog começou e o que ele acabou virando e o que no fundo eu quero com ele.

Bom, esse blog começou quando eu ainda fazia figurino e direção de arte. Quando eu achava que escolher roupas que contassem quem meu personagem era o que eu realmente queria fazer. Por isso ele começou um pouco como um blog de moda, começou como minha forma de compartilhar e digerir tudo que eu via e lia e tinha que aprender a usar.

Mas eu não trabalho mais com figurinos e por mais que eu ainda goste bastante de moda eu passo menos tempo lendo sobre isso, seja em revistas, seja em blogs. E naturalmente esse blog virou aquele blog diarinho, que eu falava um pouco de mim e ao mesmo tempo onde eu falava de filmes e livros. Acontece que recentemente eu arranjei lugares pra fazer isso de um jeito mais sério. Eu escrevo críticas com uma certa frequência, eu gravo podcasts, eu escrevo artigos acadêmicos e aí eu não preciso do blog pra isso.

Nos últimos tempos eu voltei a escrever. Eu decidi tornar isso um hábito e uma obrigação. Se eu quero ser escritora, eu preciso escrever. E aqui vieram parar os textos mais overshare (dado que eu tenho uma escrita toda meio confessional, isso quer dizer os textos MUITO overshare), mais fluídos, que não são bem nada. São posts de blog. E muitos textos refletindo sobre o que, afinal, é escrever.

Eu pretendo continuar com isso. Eu pretendo continuar escrevendo aqui coisas que não cabem em outro lugar. Eu não quero esse blog como um veículo para coisas que eu gostaria de ver em outros meios, eu quero esse blog como portador dos próprios textos.

Mas eu quero um pouco mais que isso. Tem tantas coisas nessa internet e nessa vida. Tantos fragmentos, tantas coisas bonitas que eu vejo, tantas coisas que eu cozinho, tanta música que eu ouço. E até agora eu me convenci que pra isso eu tenho um twitter, um tumblr, um last.fm, mas não é a mesma coisa. E então essas coisas vão vir parar aqui.

Por isso o layout mudou. Ele ficou mais leve, porque eu quero esse blog um pouco mais leve. Ele ainda é meu e os textos ainda são meus, e eles ainda vão ser mais melancólicos do que felizes, mas eu gosto de achar que tudo que eu escrevo, por mais dolorido que seja, é também sempre um pouco doce. E eu quero trazer pra cá um pouco disso tudo que é doce.

One more time with feeling

your stitches are all out
but your scars are healing wrong

O Salinger diz que ele tem cicatrizes de tocar certas pessoas, eu li e reli essa frase muitas vezes, eu a tomei pra mim e tenho certeza que tenho sim cicatrizes das pessoas que me tocaram, principalmente onde eu tive que tampar os pedaços de mim que elas levaram junto quando foram embora.

Mas eu acho que poderia ter menos. Claro, eu sou tão clara que qualquer coisa me marca: tenho infinitas cicatrizes de arranhões da gata, marcas que não sei de onde vieram, hematomas no quadril porque alguém me segurou mais forte. Mas eu também tenho aquelas que não estariam aqui se eu tivesse deixado cicatrizar.

Eu tenho uma ferida na boca. Ontem, enquanto lia sobre qualquer coisa, percebi que eu não a estava cutucando, que não a circulava com a língua, ou prendia nos dentes até sentir, de novo, o gosto de sangue. Eu simplesmente a deixava lá. Achei estranho.

Eu abro feridas. Desde criança eu arrancava a casquinha de machucados quase bons, só para ver o sangue sair de novo. Eu relembro, eu volto em dias doloridos para escrever sobre eles e quando já não posso captar exatamente qual era a dor, não hesito em pegar uma faca e abrir de novo aquilo que já deveria ter passado.

Mas eu não fiz dessa vez. Eu cheguei na mesma cidade, na mesma festa, pela qual ano passado eu vaguei sem saber quem era, o que tinha perdido, o que queria de volta. Só agora, feliz pelos doces no carrinho, o sol no meu rosto e os vira-latinhas que me seguem abanando o rabo eu percebi que ano passado eu estava em outro lugar. Só agora eu entendi porque tudo me parecia estranho. Mas eu não abri a cicatriz, eu vou me contentar em olhar para essa semi-morta com os olhos de agora, de menina viva e feliz, ainda que amarga.

Talvez a diferença seja as cicatrizes que ganhamos por acidentes em dias alegres e aquelas que resultaram de uma doença longa e horrível. Não sei. Eu sempre tive a impressão que minhas feridas fecham do jeito errado, que elas tentam fazer osso por cima do que deveria ser pele, que eu cutuco tanto que elas tentam endurecer.

Eu endureci. Sei que vai me custar caro, mas por enquanto eu gosto disso.

the little scratch on the roof of your mouth that would heal if only you could stop tonguing it, but you can’t.

No espelho

Quando eu era criança (ou quando eu tinha uns 9, 10 anos até talvez os 15) meus livros preferidos eram tudo menos parecidos comigo. Eu amava  Ilha do Tesouro, Nárnia, histórias de detetives e Julio Verne. Quando meninas entravam na história elas eram mandadas para colégios internos em Londres ou viajavam por qualquer tipo de mundo fantástico. Eu não queria me ver naqueles livros, eu não queria nada que fosse parecido com a minha vida, ela era chata suficiente e eu era estranha suficiente sozinha.

Minha mãe tentou: eu ganhei O Diário de Anne Frank aos 12 anos, eu detestei. Polyana aos 10, não passei da página 40. Algum livro sobre uma garotinha filha de pais divorciados aos 6 ou 7 que eu lembro de ter achado meh. Eu entendo que ela achasse que livros com os quais eu me identificava talvez me ajudassem de alguma forma, mas eu discordava absolutamente.

Hoje de repente eu me vi acumulando sem parar coisas que de alguma forma falam de mim. Girls, diários da Sylvia Plath, vontade de reler O Amante, Fiona Apple, Lana del Rey, Oh Land e The Like sem parar e acabei de comprar um livro que é uma espécie de auto-biografia irônica de uma menina judia que cresceu sendo estranha no Nebraska.

Eu tenho hipóteses para isso: eu me perdi tanto nos últimos anos que preciso de um mapa pra me lembrar quem eu sou, onde eu estou e, mais importante, quem eu quero ser. Mas acho que a verdade é que, por mais que eu meio que não queira, eu estou começando a escrever uma coisa dessas eu mesma e as referências se acumulam sem parar. Tenho um pouco de medo, ao mesmo tempo acho que já passou da hora.