Casa Vazia

Quanto tempo nós demoramos para morrer? Quanto tempo até eu e você deixarmos de sermos nós, de sermos algo? Quanto tempo até sua decisão se transformar em distância e minha angústia se transformar na tristeza calma e conformada dos finais?

É possível que uma civilização inteira surja e desapareça apenas no tempo em que levamos para terminar.

E quando foi que eu percebi? Quando você me perguntou se eu tinha alguém novo? Quando você se referiu a nós dois tão naturalmente, como algo que foi, algo que, pela naturalidade, com certeza já não é. Foi quando você me puxou para você e eu afastei meu corpo duro, tenso, para o qual seu toque se tornou estranho, pouco familiar, estrangeiro? Foi quando eu percebi que nunca mais entraria na sua casa, deitaria na sua cama, passaria meus dedos pelos seus livros? Foi nesse momento que eu entendi. Foi com esse pensamento exato que eu senti uma pontada e então eu soube. E finalmente deixei o lugar onde eu já estava sozinha há muito tempo.

Eu gostaria de saber quando você me deixou. De verdade, não fisicamente. Porque você também esteve aqui, andando por esse limbo por muito mais tempo do que admitiria para mim. Você não me deixou quando foi embora. Então quando foi? Quando eu fiquei aqui, completamente sozinha, sentada no chão de uma sala vazia, abraçando meus joelhos, incapaz de ir embora? Por que você não me avisou? Um bilhete teria bastado: “saí para comprar cigarros, não volto mais”.

Exceto que você não fuma, essa sou eu.

Acho quase engraçado como agora, que já não somos, finalmente se torna claro que algo era. Todo o tempo em que estivemos juntos, nós não sabíamos se éramos algo, se éramos nós, agora existe um cadáver. Agora, frente ao morto, tenho a evidência inegável da existência, de que existiu algo ali, de que existiu nós, de alguma maneira.

No entanto, eu não saberia dizer se ele morreu naturalmente ou eu desliguei os aparelhos. Se eu, finalmente consciente da falta de esperanças, puxei o fio. Escrevendo agora, me parece uma ótima metáfora: faz meses que eu sabia que isso não tinha mais volta, meses que eu sabia que não éramos mais. Mas e se você mudasse de ideia? E se me quisesse de volta? Eu prendia a respiração cada vez que você me puxava para você, cada vez que me abraçava para se despedir. Até o momento em que eu soube. E desliguei os aparelhos, apaguei a luz e finalmente saí dali.

Com dor, mas sem amargura. Não é que não me doa renunciar a você, ao que achei que pudéssemos ser. Não é que eu já esteja curada da rejeição, da angústia, de todo o redemoinho que eu entrei porque você não me quis. Veja bem, eu não te culpo, ao menos não pelo tamanho do buraco que eu entrei por sua causa, esse era só meu, mas mesmo assim… Eu quase perdi a cabeça por sua causa e agora eu estou aqui, calmamente indo embora, depois de tudo.

Há uma melancolia enorme em tudo isso. Há uma tristeza profunda nos fins. Não importa que eles ocorram sem brigas, não importa que seja aquelas vezes que o amor simplesmente levanta e vai embora. Há tristeza demais na morte, na morte de tudo. Há tristeza de mais no momento em que eu finalmente abandono o lugar que foi de nós dois.

Agora, enquanto eu arrumo as últimas coisas que sobraram, passo uma vassoura no chão, eu percebo que havia coisas aqui. Que afinal mobiliamos essa sala, parcamente, é verdade, mas com algumas coisas bonitas. Guardo livros que não lerei de novo em uma caixa, tiro o pó dos filmes, ajeito os cartões postais na parede. Muito você já levou. Eu não quero nada. A essa altura, eu só quero ir embora.

E vou. Terrivelmente triste, mas finalmente um pouco em paz.

 

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