Sylvia Plath

Para olhar minhas cicatrizes

Quando você chega em um estúdio para uma tatuagem é, invariavelmente, apresentado a uma ficha de cadastro. Seu nome, rg, endereço. Você tem mais de 18 anos? sim; É diabética? Não; Tabagista? sim; Alcoolatra? hum… não; Tem problemas de coagulação? não; Toma algum medicamento? Anticoncepcional, glifage, frontal eventualmente, quando não consigo dormir, o que é meio que sempre. Segue-se um pequeno parágrafo explicando que as agulhas são esterilizadas, o estabelecimento obedece a normas de segurança e higiene e o tatuador te orientará quanto aos cuidados necessários. Caso você faça algo diferente do que foi orientado, a consequência é por sua própria e risco e então você assina.

O que eles realmente deveriam perguntar é: “você está pronto para que a partir desse momento sua pele passe a ser vista como propriedade pública?”

Eu sou mulher e, portanto, estou bastante acostumada com meu corpo ser item público. Já fui chamada infinitas vezes de gorda, gostosa, baranga, linda, convidada a chupar todinho o cara da esquina. Vou para o ballet de bicicleta duas vezes na semana e já perdi a conta dos comentários envolvendo selim ouvidos enquanto subo a Augusta. Esses anos todos tratada como uma pessoa que não tem direito a recusar o toque ou observação do próprio corpo deveriam ter me preparado para a violência de absolutos desconhecidos pegando em mim em uma fila do aeroporto e perguntando “o que sua tatuagem significa?”, mas não prepararam.

E absoluto desconhecido na fila do aeroporto não foi um exagero. Uma vez eu estava na fila do check-in da Gol, quando um homem de terno tocou no meu ombro, leu a frase estampada nas minhas costas e me perguntou o que ela significava. Em um misto de atordoamento e ultraje eu respondi como quem acorda de um sonho “eu não te conheço” e voltei a me focar no celular. Parece estúpido, parece bobo, por que raios eu não quero explicar para ele o que está escrito nas minhas costas? Mas a verdade é que eu me senti invadida com violência.

Eu tenho seis tatuagens. Duas delas são grandes e coloridas, outra cruza toda a parte de cima das minhas costas. Todas elas tem uma explicação razoavelmente simples: é uma boneca russa, é o mundo, é um verso da Sylvia Plath. Eu não sou daquelas que acha que toda tatuagem tem que ter um significado complexo e uma história sentimental a la Miami Ink, ela pode simplesmente ser algo bonito. O gato no meu pulso é só um gato. Acontece da matryoska no meu braço ser só uma matryoska e ser também uma lembrança de Dostoievski e Tarkovsky e uma parte da minha identidade de certa forma perdida na diáspora judaica. Mas eu não acho que ninguém tem nada a ver com o fato de que eu tenha problemas com minha identificação nacional. Muito menos o ser humano que nunca vi mais gordo em uma fila de ponte aérea no aeroporto de Congonhas.

O mais curioso é que o homem que encontrei quando desci do avião, e que tinha autorização para tirar minha roupa e tocar minhas tatuagens e perguntar sobre elas, nunca o fez. Nenhum homem com quem eu transei nunca perguntou a respeito das minhas tatuagens. E eu teria respondido. Provavelmente, se eu te dei a intimidade para entrar no meu quarto e me ver nua, eu responderei sobre qualquer tatuagem e qualquer cicatriz. Elas são parte daquele contexto, elas são parte de mim e da minha pele e eu gosto particularmente quando alguém beija minhas costas e eu sei que foi por cima do verso inscrito, mesmo que sensorialmente isso não faça diferença nenhuma. Mas todos eles assumiram que minhas marcas eram minhas marcas. Recentemente eu contei espontaneamente, quando já estava quase pegando no sono e após uma longa conversa sobre Sylvia Plath, que aquilo nas minhas costas era um verso de Lady Lazarus. Ele nunca tinha perguntado, embora tivesse olhado para essas palavras por um tempo relativamente longo.

Parece, porque eu escrevo um blog desses, que estou sempre muito disposta a contar a história da minha vida e toda e qualquer mazela para qualquer um que pergunte. É uma tremenda mentira. Pode soar irônico, mas eu sou uma pessoa extremamente reservada e que guarda coisas por muito tempo mesmo da minha melhor amiga. Esse blog é uma exibição nos meus termos, do que eu desejo por para fora, da maneira como eu desejo e, já falei sobre isso aqui, nem tudo é verdade. Há camadas infinitas de ilusionismo e proteção no que é exposto aqui, mesmo que pareça tão cru. Eu não escrevo porque quero que o mundo saiba o que eu passei, eu escrevo por um milhão de motivos e por um milhão motivos minha escrita é essa. Eu tatuo da mesma forma.

Eu não faço tatuagens para quem olha. Eu as faço para mim mesma. Eu já falei aqui mais de uma vez sobre isso. Para tentar ficar mais confortável na minha própria pele, para ressignificar minha própria história, para ser quem eu sou, porque eu quero, pura e simplesmente. Mas parece que quando você estampa algo na pele, algo do lado de fora, aquilo é instantaneamente para o outro, para o espectador. A pele desenhada não pode de jeito nenhum ser sua, ela é pública, senão por que você desenharia nela?

Nas minhas costas diz, em inglês claro e simples, que para olhar minhas cicatrizes há um preço. Eu desconfio que o senhor de terno na fila da ponte aérea falasse inglês, ele era capaz de ler o que estava ali. Por que então ele me pergunta o que ela significa? O que ele espera que eu responda? É um verso de um poema que uma autora que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos escreveu sobre as tentativas de suicídio anteriores dela. Significa que se você chegar perto de alguém, perto o suficiente para realmente ver as cicatrizes, isso te muda para sempre, isso vem com um peso, um preço, que relacionamentos e conexões nunca são gratuitos e livres de consequência. Significa que eu venho de um histórico familiar, vamos dizer assim, complicado, que eu não falo com meu pai e minha mãe é completamente louca e a pessoa que eu mais amei no mundo foi embora de mim anos atrás e eu não posso nunca me livrar de tudo isso. Que eu sou extremamente ferida e quebrada e essas feridas estão prontas para abrir e quebrar de novo a qualquer momento. Que eu já me odiei tanto e sofri tanto que quis morrer, quis muito literalmente morrer, quis morrer a ponto de fazer planos na minha cabeça para isso, que eu já apaguei cigarros em mim mesma e fiz pequenos cortes no meu tornozelo de propósito porque quando dói tanto você tem essa esperança burra de que a dor do lado de fora vai fazer passar. E deixaram cicatrizes. E para vê-las há um preço.

Me pergunto qual seria a expressão do homem de terno na fila do check-in se eu tivesse dito tudo isso.

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There’s too much love to go around these days

Há pouco mais de duas semana longe de casa, há nem sei quanto tempo longe daqui, eu começo a querer escrever nos meus postais: “me desculpem, eu fugi”

É uma fuga glamurosa, sem dúvidas. Escrevo isso sentada em um trem italiano e por uma janela vejo campos de trigo, pela outra o Adriático (ou seria o mediterrâneo? Mediterrâneo é meu mar preferido, em parte porque ele não tem a mesma cor dos meus olhos e não me lembra da minha própria inconstância). Mas uma fuga é sempre uma fuga e há sempre um gosto amargo lá no fundo da boca.

Estou feliz, claro. Estou mais feliz do que me lembro de ter estado nos últimos 9 anos.

Não, mentira. Estive tão feliz assim em praias da Turquia e estive tão feliz assim mais perto de casa também, é dessa lembrança que eu fugi.

Eu fui embora porque podia ir, foi fácil ir embora, pouca coisa (para não dizer absolutamente nada) me prendia em casa. Mas eu teria ido mesmo que precisasse revirar tudo e desmontar minha vida. Era isso ou ficar louca.

Ainda não sei se vai me impedir de ficar louca, a razão é algo muito frágil, afinal. Há essa frase em Através de um Espelho que gosto muito “é horrível ver sua própria confusão e entendê-la.” Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald, Virginia Woolf falaram disso: pior do que perder a razão é o momento anterior, a consciência muito aguda, perfeitamente clara e lúcida de estar perdendo o controle.

Eu perdi o controle.

Sobre mim mesma, sobre a minha mente, sobre o efeito que os outros tem sobre mim, sobre o que era real ou não.

É como se eu vivesse muito perto das portas do inferno e elas estivessem muito mal fechadas. As vezes eu simplesmente não tenho mais forças e deixo abrir.

No museu Rodin eu vi as portas do inferno. Um milhão de pequenas figuras de bronze torturadas, retorcidas, seus rostos repletos de agonia. Gosto da palavra agonia, acho preciso e interessante o conceito de algo que está em processo de morrer, sentindo a vida se esvair de tal forma que a morte parece uma benção. Uma misericórdia ao menos.

A agonia é pior do que a morte. Pior do que a loucura completa.

Acho irônico quando esses textos surgem, quando eu deixo de lado a ironia e as gracinhas e torno público algo brutalmente honesto. Eu faço tanto esforço para esconder a agonia. Já citei Bergman, então estou liberada para citar Game of Thrones, existe um episódio em que o Tyrion vira para o Jon Snow e o aconselha a vestir a falha como uma armadura. Ninguém nunca vai esquecer quem você é, dói menos se você lembra primeiro.

Eu não posso me livrar do tormento da minha própria cabeça, então eu a visto como uma armadura. Eu faço tipo, eu rio irônica, eu faço um charme de fazer péssimas escolhas e ter uma tendência a pouca autropreservação como se fosse uma escolha. Não é. Eu bebo como se não tivesse medo da minha relação com o álcool. Eu tenho.

Eu fujo pra Europa quando minha vontade era fugir pro fundo do mar. Muito literalmente, mais de uma vez.

Eu fujo sozinha, não passo mais de 5 noites no mesmo lugar, saio de manhã muito cedo sem me despedir. Eu preciso fechar feridas que a proximidade com os outros alimenta. Eu preciso do isolamento para costurar devagar os meus pontos. Pelo menos eu costuro bastante bem, se me dão o tempo.

Eu falei sobre isso aqui já, sobre a tendência que temos de esquecer que cicatrizar é um processo, da mesma forma que eu talvez não deva beber após uma intoxicação alimentar, eu não deveria ter chegado perto antes das coisas fecharem.

Sendo sincera, tenho poucas esperanças de realmente fecha-las, mas se pararem de soltar sangue e pus amarelo repugnante, já é alguma coisa.

Ao mesmo tempo me sinto egoísta, me sinto quase culpada que eu precise me afastar de todo tipo de proximidade, não só daquela que é nociva. There’s too much love to go around this days. Há muito amor, eu nunca consegui agradecer com a sinceridade merecida a todo mundo que realmente foi ser feliz comigo no frio e na chuva.

É por isso que minha vontade é pedir desculpas. Desculpas por não sentir falta, não ainda, por não querer voltar pra casa, embora eu ache que vá. Guardo a pequena possibilidade de não no fundo do meu cérebro como um torturado que guarda um pouco de veneno.

No fundo ele não quer morrer, no fundo eu não quero ir embora assim. Não fugida, não dessa forma. Não como quem se levanta e se veste muito silenciosamente e parte deixando para o outro apenas uma cama ainda quente.

Quando eu for, eu não quero fugir. Há uma tremenda teimosia nessa decisão, a teimosia de prova-los errados e de não ser como ele, não ter tanto medo, não ser tão covarde. Nós somos terrivelmente parecidos, é claro, nós fomos almas gêmeas, mas eu não quero.

Em algum lugar, deuses gregos riem de mim. Moira, eles dizem. O quinhão que me cabe. Se o quinhão que me cabe é fugir, então eu vou apenas rodar e rodar e acabar como Édipo. Cego por ter tentado fugir da própria tragédia.

As vezes acho que quero me consolar da dor transformando-a em tragédia. Outras, creio que todo ser humano é trágico e pego um livro do Philip Roth em busca de confirmação do velho amargurado e misógino. A literatura dele é exatamente sobre isso, o que há de trágico no que é cotidiano e ordinariamente humano.

Pastoral Americana é a tragédia de querer ser normal. Complexo de Portnoy a tragédia (uma tanto engraçada) do desejo.

Me pergunto se estou condenada a um velho detestável e mocinhas que escreveram sobre estar nas raias da loucura.

Depois de pouco mais de duas semanas de fuga, eu sinto o controle voltar. Minhas mãos pararam de tremer, eu parei de chorar de forma convulsiva, eu voltei a dormir, eu diminui os cigarros, eu bebo um pouco menos. Eu fui capaz de dizer para mim mesma que não entraria em pânico e não entrei. Sentir que cérebro e corpo são uma coisa só é uma sensação reconfortante, nunca a subestimem.

Eu falo devagar porque tenho medo das minhas palavras. Eu ainda tenho meu corpo tenso porque tenho medo dele, da determinação em se ferir que ele tem as vezes.

Sobre uma metáfora estranha entre estrelas e obsessões

Não sei por que, como, por que motivo ou alinhamento cósmico, enquanto alimentava um câncer de pele  tomava sol estendida na areia nesse feriado, me lembrei que, há dois anos atrás, eu estava naquele primeiro Lollapalooza, aquele que teve Foo Fighters.

Foo Fighters foi um show que eu esperei. Um show de uma banda que eu já não ouvia muito naquela época, já não ouço tanto hoje em dia, mas que era importante, por causa de outros tempos, outras histórias, outra vida. Foi um show que me fez feliz e que me fez sair dali para encontrar alguém que entendia, entendia a importância de tudo aquilo, a felicidade, a nossa obsessão com aquela banda e aquelas músicas e as bandas e as músicas em si.

Eu acho que um bom jeito de conhecer uma pessoa seria traçar um mapa das suas obsessões.

Nós todos somos um pouco obcecados com alguma coisa. Não necessariamente obcecados de um jeito doentio personagem de filme do Aronofsky, mas todos nós temos qualquer coisa que desperta uma paixão teoricamente não proporcional ao que é.

A música foi assim para mim por muito tempo. A minha versão adolescente abarrotava o quarto de cds e esperava por downloads que demoravam dias de bandas de hardcore da Armênia. Eu tinha orgulho, de um jeito nojentinho porém simpático meio Alta Fidelidade, de ter um ipod bem mais cheio que a maioria dos meus amigos, mas não todos. Tinha aqueles dois ou três obcecados que compartilhavam o mesmo tipo de obsessão. Tinha ele, que compartilhava o mesmo tipo de obsessão.

O tempo passa, nossas obsessões mudam, eu troquei a música pelo cinema e as bandas de hardcore da armênia por filmes da nouvelle vague tcheca, mas ainda assim, me parece um movimento profundamente importante esse de aceitar, entender, abraçar, as paixões irracionais do outro.

(a frase anterior foi possivelmente um pleonasmo, porém se eu sair falando disso vai ser todo um outro post e deixa pra depois até porque ideias estão raras preciso fracionar a coisa pra manter o blog andando)

Eu tive um namorado por muitos anos. Dito cujo namorado já foi citado aqui algumas vezes como um grande erro. De fato foi e às vezes eu me pergunto por que não consigo parar de falar nele, meio que deveria parar de falar nele antes que um processo por difamação (calúnia não porque nada é mentira) chegue aqui em casa. Por sorte tenho muitos amigos advogados, tenho até uns casos por aí que acho que só cultivo para ter advogados que posso pagar com o corpo. ESQUECE, VAMOS VOLTAR AO ASSUNTO DO POST.

Enfim, dito cujo namorado que foi um erro aparece aqui com frequência porque erros são muito bons para te fazer pensar sobre alguma coisa. Não naquela história clichê de “ai, você aprende com os erros”. Aprende bosta nenhuma tá? Estou aqui, fielmente cometendo os mesmos erros repetidamente sem nenhuma sabedoria para me impedir, porém, sempre se pode parar para pensar sobre eles e fazer um texto pseudo engraçadinho como forma de achar que o erro não foi tão em vão quanto parece.

(minha ironia está com fogo no rabo hoje, perdoem as piadas cretinas, voltaremos a programação normal de melancolia no próximo post)

Me pergunto quantos textos sobre o ex namorado preciso escrever para parar de sentir que desperdicei quatro anos.

Tenho esse gosto muito amargo de anos perdidos, de tempo desperdiçado quando ele passa tão rápido. Não é porque acabou (imaginem se eu começo a achar que desperdicei todo tempo que passo em relacionamentos que acabam? só imaginem!), nem porque acabou mal, mas porque, enquanto ainda não tinha acabado, ele não conseguia abraçar minhas obsessões.

Ele nunca conseguiria entender porque estar naquela plateia do Foo Fighters era tão importante para mim. Ele nunca conseguiu, e mais do que isso, nunca quis, entender as caixas de cd que na época eu ainda carregava de um apartamento para o outro. Enquanto eu estive com ele, eu parei de ouvir música. Não parei, parei, mas parei de descobrir coisas novas, de investigar, de saber o que acontecia. Eu não fui a um show do Smashing Pumpkins que, mesmo sabendo que era só o Billy Corgan e uns caras aleatórios, queria muito ir; quase não fui ao show do Radiohead.

Não fui porque cada ingresso comprado requeria que eu me explicasse, que eu tentasse expressar porque aquela experiência era válida, porque eu “podia” ir em shows, porque aquilo não era uma simples expressão do culto burguês mercantil da personalidade (eu JURO que esse termo foi usado, provavelmente desse jeitinho mesmo). E é algo muito exaustivo e muito violento tentar explicar suas obsessões.

É violento porque é quase como uma justificativa de quem você é. Tentar explicar racionalmente uma obsessão é tentar fazer seu ser caber em explicações de causa e efeito que respondam a um conceito abstrato. Eu passei anos fazendo isso e não recomendo nem a esse mesmo ex namorado.

É possível conhecer alguém pelo mapa das coisas que a fazem feliz sem motivo, que a fazem começar a falar sem parar quando outros nem imaginavam que havia tanto a se dizer.

Eu passei a preferir os confessadamente obcecados.

É uma investigação interessante essa das obsessões. Por que Bergman? Por que Sylvia Plath? Por que Nine Inch Nails? Por que Pollock? Eu não sei responder para mim mesma, mas tenho uma vaga ideia, uma intuição. Eu consigo intuir algo dos outros quando eles me contam as coisas pelas quais são obcecados. É quase como montar constelações.

Gosto tanto de constelações que penso em tatuar uma.

Mas é quase como pegar pequenos fragmentos do que nos move e tentar ligar os pontos, formar uma imagem, dar algum significado. Uma obsessão é significativa porque fala a uma parcela instintiva, ela te pega pela mão e leva sem que isso passe pelo cérebro, sem que você saiba dizer por que aquilo te fascina tanto.

Fascinar é uma das minhas palavras preferidas, justamente porque diz respeito a algo que não se pode explicar, uma atração de uma ordem estranha, meio mágica, meio onírica. E tudo que atrai alguém como mágica, como sonho, deve dizer muito a respeito dele.

Eu gosto de conhecer as pessoas. De montar esses quebra-cabeças com o que elas me mostram. Acho que uma das minhas fases preferidas de relacionamentos é aquele início muito início em que as conversas ainda não tem fim porque estamos brincando de dar ao outros as estrelas da constelação. Justamente por isso é tão dolorido quando essas estrelas não são aceitas.

É profunda a dor de de dar peças a alguém e as ter devolvidas. Não, isso não serve, essas coisas que você ama não servem, você não serve. Não quero discorrer sobre o porque de alguém continuar com alguém mesmo depois de devolver tudo aquilo que o forma, tenho hipóteses, mas não me interessa falar sobre isso agora. Mas das poucas decisões confiáveis da minha vida, uma é essa:permanecer onde possam estar minhas obsessões.

 

 

You’re so vain, you’re probably think this post is about you

Me interessa muito a mentira na literatura.

Não a ficção, a invenção óbvia das histórias, o “faz de conta”, a mentira mesmo. Como quando a Marguerite Duras diz que O Amante é absolutamente biográfico e depois escreve O Amante da China do Norte em que detalhes são diferentes. Como os diários da Anaïs Nin que seriam diários, mas mesmo? o Franzen falando que mais de um diálogo nos ensaios do David Foster Wallace são inventados.

Aliás, me interessa muito a mentira e pronto.

Mas na literatura me interessa essa linha da autobiografia, esse dizer que algo é verdade, mas tomar a licença de alterar a verdade porque afinal é literatura. Como O Museu da Inocência.

E eu esqueci de avisar, mas é um pouco o que acontece aqui.

Eu esbarro muito com ter que explicar esses textos. Não exatamente o que eu quis dizer, mas se estou bem, o que aconteceu pra ter escrito, etc, etc e algumas vezes dei a resposta “eu estou melhor do que quis parecer ali”. Não do que pareceu, do que eu quis parecer.

Esse blog é autobiográfico? Sim, sem dúvidas. Tudo que eu escrevo é. E eu quero escrever, ensaios, roteiros. Mas não sou dada a muita ficção, a invenções, a vernizes sobre aquilo que eu quero dizer. Em parte por pura incapacidade, em parte porque a literatura que mais me tocou na vida é essa sem muito verniz, Sylvia Plath é minha escritora favorita, mas Marguerite Duras, Hemingway, o tanto que eu fiquei fascinada com a Anaïs Nin. De todo o Philip Roth, o que achei mais interessante foi a delicadeza da sinceridade de Patrimony e a crueldade de nem trocar os nomes em Deception.

Mas não sou Philip Roth (aliás, judaísmo, ouvi dizer que você vinha com uma porcentagem aumentada de genialidade, onde está a minha? vamos acelerar?) e isso é um blog, não um livro. E a chance (e a óbvia habilidade, mas acho que não preciso ficar repetindo isso) que ele tem se se fundir na história e ser esquecido como homem, existir só como escritor, eu não tenho. E as vezes eu preciso justificar os textos.

Acho justo, acho principalmente justo que eu precise pagar pelo que exponho. Eu já tive essa briga comigo mesma muitas vezes, porque, ironicamente, eu sou uma das pessoas mais fechadas desse mundo. Eu nunca digo para alguém o como eu me sinto em relação a ele, mas escancaro em um texto sem maiores problemas e sim, isso me causa problemas. Mas é um preço que eu resolvi pagar(ou não resolvi, mas não consegui não arriscar, como nunca consigo não arriscar).

Às vezes, por incrível que pareça, eu deleto textos, decido não postar. Às vezes também, eu minto. Para me proteger, para proteger algum outro, ou simplesmente porque a vida, mesmo a minha toda cheia dos acidentes dramáticos, não é lá muito literária e nem sempre o como eu me sinto dá um bom texto. Muitas vezes o texto adquire o próprio ritmo, a própria fluidez e para que o raciocínio feche melhor o que está expresso não é exatamente o que eu sinto e tudo bem, eu não assinei nenhum termo de compromisso com a sinceridade aqui.

Eu posso começar falando com alguém, mudar de interlocutor no meio do texto e nunca avisar, não preciso avisar, se do ponto de vista da narrativa não faz diferença com quem eu (a pessoa atrás do computador, não a voz narradora do texto) estou falando. Eu posso escrever sobre algo muito antigo como se fosse o presente, porque é mais forte assim, porque eu prefiro. E porque eu gosto desse quebra cabeças. Eu gosto de esconder e mostrar e mentir e jogar uma quantidade enorme de mim aqui e ao mesmo tempo as vezes mentir. Eu gosto da personagem, ela me ajuda a gostar mais de mim.

A personagem com menos filtros e mais neuroses, com mais coragem de viver a dor e que não precisa respirar fundo, recolher os cacos e funcionar. Às vezes esse blog tem uma dor que meu eu real não pode se autorizar a sentir, não sem desmoronar completamente. A personagem, mais obcecada, neurótica e sofredora do que eu, sente para que eu não enlouqueça. Embora seja a mais absoluta verdade que eu viva tentando não enlouquecer, eu muitas vezes estou um tanto melhor do que parece aqui.

E eu gosto tanto da ambiguidade, do quebra cabeça, de ser desestabilizada como leitora sem saber o que é verdade ou mentira, que decidi por esse post. Não é uma justificativa para alguém, é uma semente de desconfiança em tudo que vocês lerem daqui pra frente. Eu falo a verdade, ou blefo? Com quem eu falo? Ele existe? O que você, que provavelmente teve algo comigo que justifique ser personagem de um texto, realmente sabe sobre mim?

Recentemente eu tive muita raiva por alguém que esteve por aqui um bom tempo não saber nada de mim, mas honestamente, o que eu deixei que ele soubesse? O quanto eu não menti? Eu minto no meu próprio diário.

Porque Lady Lazarus, uma não explicação

Dying

Is an art, like everything else.

I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.

I do it so it feels real.

I guess you could say I’ve a call. 

Houve uma época em que eu escrevia pequenas narrativas. Pequenas declarações de um eu lírico que era e não era eu. Era eu, mas eu achava que podia disfarçar atrás de palavras que soassem como ficção. Falei muito aqui de coisas que eram reais, mas se transformaram em fragmentos que já não eram, falei da dor imensa que eu sentia dizendo apenas que sentia falta do gosto de cigarros.

Às vezes ainda sinto.

Recentemente descobri que posso até ser escritora, mas não acho que sou da ficção. Gosto mais dos meus ensaios do que de qualquer roteiro, conto ou poema que tenha escrito e estou aprendendo com a Anaïs Nin que talvez eu escreva diários, talvez minhas coisas mais belas, minhas melhor literatura, esteja no que é confissão pura. Talvez.

Escrever um ensaio e descobrir que aquela era minha forma foi, talvez, um dos momentos de maior autodescoberta dessa vida e poucas coisas me fizeram tão feliz. O problema é que há coisas que não tenho coragem de dizer sem o véu da ficção.

É possível dizer que se sente falta do gosto de cigarros. Construir um pequeno poema em prosa sobre essa mania que eu tenho de brincar com isqueiros, encostar meu dedo até o último segundo antes de me queimar. Ás vezes me queimo. Não é um jogo em que se pode ficar melhor, eu acho. Por muito tempo acreditei que eu eventualmente aprenderia o momento exato em que era preciso afastar a mão, mas não, sigo queimando os dedos.

Às vezes tenho um impulso terrível de apagar o cigarro na minha própria pele.

Em outras épocas eu teria construído um texto todo cifrado e poético sobre o que hoje só posso confessar assim.

Tentei escrever um roteiro, um conto, um poema. Não consegui. Preenchi quase cinquenta páginas de diário e guardei três textos no rascunho desse blog. Então escrevi uma carta e achei que é uma das melhores coisas que já escrevi. Talvez eu não tenha mesmo talento para metáforas, só para uma sinceridade brutal, tão crua, tão carne-viva sangrando que torna-se poética.

Talvez meu maior talento seja apagar o cigarro na minha própria pele.

Nunca fiz isso. Nunca engoli o vidro de remédios. Mas brinco com o isqueiro como se não fosse nada, como se eu pudesse um dia ficar melhor nesse jogo. E faço tatuagens. Faço muitas tatuagens. E fumo muitos cigarros.

Mas não publico os textos. Porque uma coisa é apagar o cigarro na minha própria pele, uma coisa é arrancar minhas vísceras e escrever com elas. Uma coisa é um diário escrito do meu próprio sangue, mas acontece que ficou em mim um pouco do seu. E você definitivamente não apaga cigarros em si mesmo, definitivamente.

Talvez só agora eu tenha começado a entender a diferença entre o meu pessimismo e o seu. A diferença é o abandono de si. A diferença é que eu me suicido mil vezes, brinco com o fogo, talvez eu não crie tantas defesas quanto acho que crio, ele acha que eu não crio defesa nenhuma, que nunca viu alguém com tão pouco senso de auto-preservação quanto eu. Talvez. Perguntou se algum dia eu realmente não paguei para ver onde algo ia dar. Não. Nunca. Sou curiosa demais, inquieta demais. Você não pensou duas vezes antes da faculdade de cinema, antes dele, antes de mim, antes de cada texto, antes do primeiro cigarro. Verdade. Mais do que tudo não penso duas vezes antes de cada texto e às vezes pago caro.

É como as tatuagens que eu faço. As cicatrizes que eu escolho e que tem um preço.

Eu nunca achei que fosse dar certo, não foi por isso que eu fiquei. Eu fiquei pelo sangue, pela dor, porque eu acabaria apagando o cigarro na minha própria pele. Não esperava que tanto de você fosse sobrar comigo. Também não esperava ainda gostar de você o suficiente para não querer apagar um cigarro na sua pele.

Herr God, Herr Lucifer

Beware

Beware.

Out of the ash

I rise with my red hair

And I eat men like air.

Esther Greenwood (ou fluxo de consciência sem sentido pra dizer que o blog existe)

Eu tenho saudades do blog. É engraçado ter saudades do seu próprio blog, quase como ter saudades de si mesmo. Eu já tive saudades de mim mesma.

Eu tenho saudades do blog, mas a verdade é que não sei o que escrever, não tenho nada para escrever, eu tenho andado vazia. Vejam bem, não é dor, é só vazio. Vazio, vazio, vazio. Eu procuro as palavras, eu quero escrever, eu quero mexer naquele roteiro, eu quero escrever aquele conto, eu quero vir aqui, mas não tem nada. Vazia.

Eu perdi minha voz e eu perdi minhas histórias. Não há histórias. Mas mais do que isso não há voz para contar as não histórias. É de madrugada, eu terminei um ensaio, eu não reli porque não sei se gosto dele, sinto que ele não tem voz. São 4 da manhã, eu quero dormir desde as duas e só levei 20 minutos para terminar o ensaio, o resto do tempo eu auto-sabotei, procurei o que eu sei que fere minha segurança, que nunca foi muita, fiquei fazendo doer de propósito, mas não doeu muito.

Paralisei. Não é que não gosto do que eu escrevo, é só que parece sem personalidade, sem tom, sem voz, vazio.

É muito clichê se eu citar de novo que I feel very still and very empty, the way the eye of a tornado must feel, moving dully along in the middle of the surrounding hullabaloo?

(nessas horas, eu me sinto muito balão de ar quente leve demais e desgovernado, acho que eu queria uma âncora, alguém que fosse âncora)

(acho também que fiz um post e ele ficou poético, mas não sei se ficou muito bom, acho clichê fazer confissões sem sentido de madrugada. Mas até aí, o que não é clichê?)

Full is not as heavy as empty

Eu tenho ouvido de muita gente que eu deveria escrever alguma coisa. Ele, que me conhece há anos e nesses anos todos eu sempre fui a menina que queria escrever, me diz que o mundo precisa ouvir o que eu tenho a dizer. Eu duvido. Ela, que é amiga das palestras motivacionais e dos dias melhores, diz que se eu acho que algo está errado com como tudo é feito eu deveria ir e fazer como eu acredito. Eu concordo com ela, mas duvido que eu consiga.

Mas outro dia eu dirigia de noite e me peguei repetindo pra mim mesma, várias e várias vezes “I feel very still and very empty, the way the eye of a tornado must feel, moving dully along in the middle of the surrounding hullabaloo”. É o início de A Redoma de Vidro. Eu sei todo o primeiro parágrafo de A Redoma de Vidro de cor e as vezes ele volta pra me assombrar.

As últimas semanas doeram muito, quando passou eu fiquei vazia. Eu fiquei vazia, sentada no chão da sala cercada por livros de cinema, minutando um dos meus filmes favoritos, desesperada com prazos e burocracias e sem sentir absolutamente nada. Eu estudo personagens mortos em vida, eu estudo a dor e a angústia de um universo que não te responde, que não te dá sentido algum e eu estudo o como cabe ver esse sentido em leite e morangos ao por do sol.

Eu segurei o choro quando ouvi que o mundo precisa ouvir o que eu tenho a dizer. Eu chorei quando contava o quão vazia eu me sentia para alguém que não poderia me ver ou ouvir chorando. E eu cansei.

Sinceramente o mundo não precia ouvir o que eu tenho a dizer, mas eu preciso dizer.