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Sobre promessas e narrativas. Ou sobre crianças prodígio

Tem essa cena na minha cabeça desde que eu vi Gone Girl, quase um mês atrás. Não tem a ver com viradas supostamente geniais ou o discurso da cool girl, que sim, eu gosto muito, mas não, não é a cena que ficou na minha cabeça quando eu saí do cinema. Não é sobre ela que eu sabia que viria falar aqui assim que decidisse voltar pra cá.

É sobre a parte que a Amy e o Nick vão a festa para comemorar o casamento da Amazing Amy, a personagem que os pais da Amy criaram inspirados nela. “Amazing Amy era um prodígio do cello, eu larguei aos 10 anos. Amazing Amy jogou voley com bolsa na faculdade, eu saí no primeiro ano do ensino médio”, Amy vai contando enquanto passa pelas figuras. Amazing Amy está sempre um passo a frente, um lugar acima, ela é sempre melhor que a Amy real. Porque ela é uma promessa que se cumpriu.

Promessas muito raramente se cumprem. A realidade se recusa muito teimosamente e nos dar o que esperamos, a condizer com o cenário criado nas nossas cabeças. A frieza do real é algo que nossos cérebros meio que se recusam a conceber.

Ser uma criança talentosa, por exemplo, é um negócio horroroso. Eu fui uma criança particularmente talentosa. Eu tocava piano bastante bem, eu jogava tenis lindamente, eu dirigia e escrevia peças, eu pintava quadros, eu antes dos 15 já falava francês. Não importa se eu queria fazer alguma dessas coisas minha vida, importava a considerável facilidade com que eu ia tomando cada coisa que decidia fazer. Aos olhos da mini-Isadora não havia muito que ela não pudesse fazer, o mundo era só esse lugar que eu escolheria tomar do jeito que quisesse.

E ninguém se deu ao trabalho de me dizer que não era assim. Todas as pessoas em volta incentivaram, elogiaram, promoveram todas as capacidades artísticas da criança talentosa. Todas as promessas.

Acontece que a potencial pianista que eu fui aos 8 anos será sempre melhor que a pianista que não fui. Os livros que nunca escrevo são melhores que aqueles que de fato escreverei. O relacionamento que eu acho que poderia ter dado tão certo é muito mais bonito do que o que arriscamos realmente ter.

Não é que crianças prodígio sempre falhem. Eu me sentiria muito ingrata se dissesse que falhei, me sentiria terrivelmente egoísta se não concordasse que consegui levar com certa proeza quase todas as coisas que me propus a fazer. Mas eu vivo no eterno medo da potencialidade das coisas. Na eterna consciência de que a realidade nunca pode atender o que se espera dela.

Eu escrevo muito pouco, comparado com o que eu gostaria. Eu nunca, jamais, em hipótese alguma, penso duas vezes antes de publicar algo aqui. Eu encaro dois parágrafos seguidos de páginas em branco e não me convenço a continuá-los. Porque eu não consigo lidar de uma forma serena suficiente com a escritora que eu queria ser, com a expectativa, o desejo a, quem sabe, promessa na minha mente.

Eu tive esse relacionamento que durou um ano e às vezes as pessoas me perguntam porque ele nunca virou algo de concreto, estabelecido, por que nunca se chamou nada. Por vários motivos, um deles o medo que eu tinha da realidade e do cotidiano se aquilo virasse algo de verdade. Como era, era como caminhar no ar. Exatamente como caminhar no ar. Incômodo, perigoso, mas de uma poesia intensa. De possibilidade pura. Sabem desenhos do Pernalonga que só cai no penhasco se perceber que já está sobre o penhasco? Quando eu percebi que caminhava no ar eu caí, feio. Mas o melhor relacionamento da minha vida continua existindo só na minha cabeça.

Eu não preciso de lições de mora sobre arriscar as coisas, sobre aceitar a possibilidade da dor para ter felicidade, bla, bla, bla, etc, etc, etc. Não falo disso. Acredito nisso até, de certa forma, em algum grau, supondo que eu acreditasse me felicidade. Não, o que quero dizer é que sempre postulamos mais felicidade do que há no mundo. E mais talento. Mais sorte. Nada nunca é do jeito que prometido.

Em Gone Girl a criança prodígio não é a única promessa não cumprida. Há diversas promessas. De amor, de cumplicidade, de relacionamento, de identidade. Ninguém é quem gostaria de ser, no filme ou fora dele.

Parece simples de aceitar. Parece melhor do que tantas coisas que eu já consegui enfiar na minha cabeça. Mas não consigo. De todos os meus mesmos, talvez o da coisa que poderia ser seja o maior. Das promessas que murcham como aqueles balões de hélio depois de alguns dias.

Mas não consigo. Porque narrativas são sedutoras. Porque as histórias que contamos dentro das nossas cabeças são boas demais para deixar passar. Eu tenho um medo gigantesco dessa ilusão, do tombo que eu tomo quando salto em uma promessa irreal.

Mas nunca é demais repetir que todas as promessas são irreais.

 

(voltamos aos pouquinhos com um texto que, simbolicamente, não é tão bom quanto poderia ser)

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Talvez, só talvez, a arte ainda salve alguém

Logo que eu publiquei o último texto aqui a maioria das pessoas que vieram falar comigo me chamaram de corajosa. Admiraram ou agradeceram a coragem que era necessária para se expor assim, para contar sem muitos disfarces as merdas por que passei. Eu agradeci a todos, mas eu não me sentia corajosa.

Quando eu apertei em publicar, as minhas mãos tremiam. As minhas mãos tremem quando eu fico nervosa, quando eu fico com medo, quando eu tenho muita dor, física ou psicológica. Quando eu falo em público eu torço as mãos, quando eu defendi o mestrado, eu as escondi embaixo da mesa. Quando eu percebi o leve tremor naquela festa eu fiz questão de beber o suficiente para que ele parasse.

Eu não sei quando começou. Eu lembro de uma vez em que minhas mãos começaram a tremer e aquilo foi subindo, quando eu percebi, eu estava sentada no chão, abraçando meus joelhos e meu corpo todo tremia. Foi assim que eu descobri que podia perder o controle.

É um ciclo vicioso. Meu corpo responde ao meu medo, meu medo aumenta porque vejo meu corpo respondendo e ele responde ainda mais e quanto mais eu perco o controle físico, mais medo eu tenho. Você só precisa de uma crise de pânico para passar a vida com pânico de crises de pânico.

Você só precisa de um relacionamento deturpado para ter medo de todos os relacionamentos.

Em Short Term 12, quando Grace fica nervosa, ou se sente ameaçada, ela inconscientemente corta a lateral do seu polegar com a unha de seu indicador. Ela não percebe, sua unha só se movimenta repetidamente enquanto ela fala, a câmera sabe, seu namorado sabe, mas ela se fere sem perceber até que aquilo se abre e sangra.

Ao menor nível de stresse, a reação automática do organismo de Grace é se ferir. Foi nesse pequeno plano detalhe, muito rápido, quase imperceptível, em que a câmera mostra ao espectador esse gesto, em que conta pra ele que há algo de significativo nas mãos de sua protagonista, que eu entendi a que profundezas aquele filme desceria.

Quando eu olhei para minhas mãos sobre o computador e elas tremiam, eu sabia que minha única chance era apertar publicar naquele momento.

A maioria dos posts desse blog é agendado. Eu escrevo, agendo, depois de alguns dias entro aqui e reviso. Às vezes percebo que se eu revisar demais vou desistir, então deixo. Aceito alguns erros de português e frases mal escritas em favor da honestidade, o bom de ter um blog é que leva só algumas horas para um texto virar papel de peixe.

Eu não sei bem do que eu tive medo.  Eu tive um medo definido, claro e honesto de que ele viesse tirar satisfações. De que quisesse discutir que o difamei, que não era assim, ele fez isso por um comentário qualquer no twitter tempos atrás. Tive medo do meio de comunicação que eu ainda não tivesse pensado em bloquear. Não pela presença, mas porque ter que defender o que eu senti seria sofrido, eu não queria argumentar um abuso, não existem argumentos.

Mas meu maior medo foi a percepção dos outros, acho. Cada vez que alguém expressou preocupação ou tristeza por mim, eu corri em assegurar que estava tudo bem agora. Que eu estou bem, que passou. Meu maior medo era ser vista como alguém a quem se deve cuidado e preocupação, alguém cuja história pode ser olhada com pena.

Grace, voltando a Short Term 12, esteve na frente de um tribunal e contou as diversas formas pelas quais o pai abusava dela. Mandou-o para cadeia por dez anos. Mas nunca contou ao namorado. Nunca deixou que ele compartilhasse com ela da profundidade da sua dor e seus traumas, nunca dividiu com ele o espaço infernal dentro da sua cabeça. O filme estabelece um paralelo entre ela e Jayden, uma das garotas de que toma conta. É muito mais fácil expor de forma sistemática, oficial e organizada o que fizeram com você, difícil é pedir ajuda.

Eu não me senti corajosa ao postar o texto anterior porque tudo que eu fiz foi expor, acusar. É como se eu também me levantasse na frente de um tribunal e recitasse, como um rosário, o que foi feito comigo. A diferença é que eu não queria punição, eu queria deixar isso ali para que quem sabe, alguém, no meio de tanta gente que leu aquele texto, se identificasse, percebesse padrões e reconhecesse o que estava sofrendo. Eu queria declarar minha liberdade de falar disso, a impossibilidade dele de me mandar mensagens questionando o que eu dizia.

Short Term 12 é um filme sobre um tipo de abuso muito pior do que o meu. Um tipo de abandono muito pior do que o meu. Sobre crianças realmente violentadas, espancadas, colocadas para vender drogas com dez anos. Crianças cujas vidas familiares eram tão ruins que precisavam ser retiradas de suas casas.

Ninguém nunca teria me retirado da minha casa. Nenhuma assistente social teria achado que um pai ausente e uma mãe neurótica eram motivos para se retirar uma criança. Eu tive babá, fiz aulas de ballet e piano, estudei em escola construtivista, tive um gato, joguei tênis, fui umas 4 vezes para a Disney, no meu primeiro passaporte eu nem era alfabetizada e minha bicicleta era roxa brilhante com pneus brancos.

Mas o sentimento de profundo abandono daquelas crianças me tocou. Eu percebi o quanto eu desejava que alguém agisse comigo como Grace agia com elas, que alguém tivesse tido a paciência de sutilmente arrancar de mim mesma o que eu queria dizer. É fácil recitar a lista de seus abandonos e injustiças, é fácil contar acuradamente a narrativa de cada uma das vezes que minha mãe me chamou de monstro. Muito mais difícil é assumir que preciso de ajuda por causa disso.

Eu fiz naquele texto o que era mais fácil e fiz porque para algumas pessoas talvez ainda não seja, porque eu só tomei consciência de mim mesma através da arte.

Esse ano tem sido um processo de descobrir o direito que eu tenho a minha dor. As faltas enormes e a raiva. E que tudo bem, elas tem um motivo para estar ali, eu passei por coisas terríveis, talvez não terríveis a ponto de uma assistente social me tirar de casa, mas terríveis a ponto de eu viver com um constante ruído branco de dor e medo. Medo de mim mesma.

Foi na arte que eu aprendi sobre mim mesma. Muito mais do que em divãs de terapeuta, mais do que em qualquer lugar. Foi Bergman que me ensinou o quanto é devastadora a indiferença, Henry James que me mostrou o tamanho do desejo de ser amada de uma garotinha. Em Short Term 12 eu vi nas crianças a criança que eu fui e o desejo imenso, enorme, devorador, de ter simplesmente alguém que sentasse ao seu lado e te esperasse você levar seu tempo.

Eu também vi no tique de Grace o tremor das minhas mãos.

Short Term 12 é um filme terrível, daqueles que mostram o quão fodido é esse mundo. Ao mesmo tempo é um filme de um otimismo profundo, um filme que reconhece que o difícil não é falar, é assumir as consequências do que é falado. Eu posso contar sobre quatro anos de sofrimento, mas não posso dizer que esses quatro anos deixaram marcas e que sim, estou bem, mas não tão bem quanto gostaria, não totalmente bem, melhor, mas não curada e sim, eu gostaria de ajuda.

Não é preciso coragem para contar sobre abuso na frente do tribunal. É preciso coragem para assumir para um namorado que aquilo deixou marcas e por isso é difícil confiar nele e ainda se tem pesadelos e ainda se corta a lateral do polegar sem perceber.

Eu não me senti corajosa quando aquele texto entrou e tanta gente disso isso pra mim. A cada preocupação que eu afastava eu me sentia mais fraca, tanto por não aceitar mãos amigas quanto por precisar delas. E eu precisei de um filme para entender o que eu estava fazendo.

Em um texto sobre o Bergman, Woody Allen diz “in the end your art doesn’t save you” ele fala da mortalidade, de como ser lembrado não é em nada parecido com realmente viver para sempre. Uma vez que estou morto, foda-se que lembram de mim. Faz sentido. Fazer arte também não cura ninguém das próprias dores, dos próprios transtornos, das próprias mãos que tremem. Fazer arte é só fazer arte, é só por pra fora, pode ajudar, mas não salva.

Talvez a sua arte não te salve, mas a dos outros sim. Sua arte não salva a você mesmo, mas a alguém. Vir aqui e falar de um namoro horrível não conserta o tempo que passei nele, não conserta minha distância, minha hesitação, meu medo. Mas talvez ajude outra pessoa e entender os seus. Talvez eu possa salvar alguém pela arte, talvez ela seja a única forma de me salvar.

Não é repetição, é obsessão artística

Acho que se algum dia, no universo pós apocalipse zumbi, invasão alienígena e epidemia generalizada de ebola (que eu tenho cá para mim que é o vírus zumbi e as autoridades estão escondendo para não causar pânico) alguém for falar sobre o que eu escrevi, acho que eu seria caracterizada com um daqueles autores obcecados que falam sempre das mesmas coisas e voltam sempre nos mesmos temas e de alguma fora contam sempre a mesma história. Não é de estranhar que meus preferidos sejam assim também.

Bergman e Woody Allen são dois grandes obcecados voltando sempre nos mesmo temas e contando sempre a mesma história. É sempre sobre a mortalidade, o universo sem sentido, a crueldade de ser jogado em um mundo de sofrimento e ainda ter que ser retirado dele quando parece cedo demais. Os dois também parecem dizer que a questão que realmente importa, aquela capaz de preencher os dias, de fornecer algum sentido ou retira-lo por completo, é a respeito de nós e dos outros. É possível viver com alguém ou não é. É possível que exista amor ou não.

Já ouço todos os milhões gritando “a questão que importa é a fome, a guerra, o aquecimento global”. Não me importa isso aqui, eu escrevi uma dissertação de 120 páginas, em algum ponto de capítulo 1 eu falo sobre isso. Aqui eu vou assumir que o que importa sim é a questão entre eu e o outro. A possibilidade de alguma comunicação, a possibilidade de amor.

O Woody Allen jovem acreditava no amor como paixão revestida de medo e egocentrismo. Desejo sexual, mais medo de morrer e, pior, de morrer sozinho, levava as pessoas a tentarem conviver umas com as outras em relacionamentos essencialmente desencontrados, impossíveis, truncados. Alvin e Annie nos anos 70 não acabaram juntos, não poderiam acabar juntos, porque ele era essencialmente um pessimista enquanto ela parecia surda ao grito angustiado do universo. E ela nunca poderia entender a angústia dele, nem ele poderia responder a sede de vida dela. Para mim, Annie Hall é um ensaio maravilhoso sobre a impossibilidade de boa parte das relações humanas.

Mas o Woody Allen velho acredita diferente. Ele acredita um pouco mais na possibilidade de mudança. Na possibilidade de abandonar as questões um pouco e ir viver, de tornar a vida menos miserável enquanto ela dura. No filme novo (eu não vou falar nada dele além desse comentário muito geral) isso fica muito claro. É claro que o universo é só um amontoado aleatório e possivelmente cruel de átomos e matéria e não existe consolo ou sentido. Mas qual a necessidade de reafirmar isso o tempo todo? Ou melhor, qual o sentido de fazer questão de viver de acordo com isso? Ele não quer dizer que seja fácil esquecer ou abandonar esse terror e essa sentença, mas não há necessidade de fazer esforço para não abandonar.

Quando eu ainda estudava o Bergman, me lembro de ter percebido que no universo do Bergman, Deus (ou o sentido) é silencioso, afastado, ou mesmo cruel. No universo do Woody Allen não há Deus. Ou sentido. Ou misericórdia. Ou bússola moral. É só acaso. Existe amor, mas ele responde as mesmas leis irônicas e impossíveis. É acaso, é milagre. No filme novo usam a palavra milagre algumas vezes.

Eu acho sinceramente que a maioria das pessoas lidam com o amor como algo que simplesmente acontece, simplesmente está ali, algo natural da vida, algo a que todo mundo tem direito. Take for granted é expressão que me vem a mente. E eu, que acho que é algo extremamente raro, frágil e em nada gratuito, tenho a fama de pessimista.

Eu entendo, acho. Para a maior parte das pessoas amor é essa coisa que elas tinham pela família e que fluia tão facilmente em casa e em casas vizinhas e estar razoavelmente feliz e não desejando que no fundo seus pais de verdade fossem piratas que um dia vem te levar embora era a situação comum. Eu não vou fazer terapia e tragédia da infância infeliz aqui, mas a verdade é que amor sempre me pareceu algo que custava muito caro. Que custava muito esforço, muita devoção, muita perfeição. No fundo, tudo isso obviamente não é amor, eu entendi depois. Mas o que eu também entendi é que ele não flui assim de fontes infinitas como querem me fazer acreditar.

Me lembro muito claramente de estar na quarta ou quinta série fazendo um exercício de interpretação de texto com uma amiga. Era uma crônica sobre filhos que queriam que seus pais se divorciassem de um jeito horroroso, queriam sofrer e ser crianças problema porque isso era “cool”. Era, claro, um texto extremamente irônico sobre o que era de fato ser uma criança problema. Eu ri, eu entendi, eu me identifiquei. Então, no exercício havia uma pergunta se você gostaria que seus pais se separassem. Achei engraçado, achei que em pleno 1998 ou o que fosse, a pergunta deveria ser “seus pais estão casados? se sim…” mas não liguei, me pus a responder com a coleguinha que me apresentou a seguinte resposta “não, gostaria que minha família continuasse feliz como é hoje”. Eu apenas aceitei.

Eu sei que já disse isso aqui (eu falei que era obcecada), mas eu sempre tenho a sensação de que não sou tão pessimista quando gostam de me pintar. Ou melhor, meu pessimismo não vem de um desprezo do amor, ou da ideia de que ele não serve para nada, ou só traz infelicidade. Vem da consciência da raridade da coisa de verdade. Daquele que realmente faz as coisas terem algum sentido, que torna a existência um pouco melhor. Eu reverencio algo que me parece extremamente poderoso e, como todas as coisas poderosas, instável e difícil.

E nem é só amor romântico. O que eu aprendi nessa vida é que todo tipo de amor é difícil. É de uma dificuldade absurda aceitar o outro, acolher, compreender de verdade. Eu enlouqueço de tempos em tempos. Eu perco o controle, eu deixo meu cérebro correr em uma torrente sem fim de palavras crueis, ódio e auto-destruição. Eu viro um bicho selvagem detestável, incapaz de não ser agressiva com qualquer tentativa de aproximação, insensível a qualquer palavra de apoio. E nessa hora eu vejo o quão limitada é a compreensão e a capacidade de suporte do mundo em volta. Não é culpa de ninguém, não estou (DE JEITO NENHUM) cobrando ou acusando ou ressentida de qualquer pessoa que não conseguiu me amar em um momento desses. É o que acontece porque somos humanos e somos limitados e somos terríveis.

É o momento em que meu ex-analista infinitamente paciente e tão determinado quanto eu em me manter fora de qualquer remédio fica sem recursos e me pergunta “você não quer uma receita? você não quer pelo menos dormir?” Se ele, aquele homem médico e psicólogo, mestre na USP e doutor na França, já não sabia o que me dizer, já não aguentava mais me ver entrando lá semana após semana pra dizer a mesma coisa, imagina as pessoas que não são pagas e não são treinadas profissionalmente para isso?

Amor é condicional, sempre é. Sempre podemos quebra-lo ou perde-lo, a mágica é quando ele é elástico suficiente para aguentar uma série de golpes. Eu gosto desse Woody Allen otimista, eu gosto que ele vem permitindo que seus filmes terminem bem porque ele nunca ignora a parcela de milagre envolvida.

Já que tenho nome de bailarina

Na Mostra do ano passado, vi um filme grego chamado Todos os Gatos São Brilhantes (melhor nome, sim, eu sei) que era sobre uma moça com um pouco menos de 30 anos, um diploma de artes de uma faculdade importante, mas que não sabia bem o que queria da vida. Não que ela não pudesse ir estudar fora, ou ser indicada pra um trabalho na faculdade ou em alguma galeria pelos pais, professores universitários, ela só não sabia se era isso que queria.

Ela vai flutuando pelo filme, vagando pela vida dela, sendo  babá de um garotinho fofo, encontrando pessoas e desencontrando como se estivesse apenas se deixando levar. Na cena final, que eu procurei no youtube, mas não consegui encontrar, ela está em uma festa e começa a dançar, um pouco tímida, um pouco desconfortável, olhando para fora e tentando entender o que os outros estão fazendo. Até que ela entra por completo em si mesma. Fecha os olhos e balança a cabeça e dança, só dança, sozinha, imersa na música e nela mesma.

Gosto muito desse final e dessa metáfora sobre encontrar seu próprio ritmo.

Me lembra a cena da festa em Azul É a Cor Mais Quente  que resume tudo que eu mais gosto no filme: um espectador da vida, a câmera que observa, silenciosa, a Adele. Eu disse algumas vezes que gosto mais do título francês, La Vie D’Adele, porque resume mais o que é o filme, o estudo, o registro miuncioso e obsessivo, da vida de alguém. Não é sobre a relação das duas moças, é sobre perseguir obsessivamente uma delas.

Eu gosto dessa cena mais do que de todo o resto do filme (que, não me levem a mal, eu gosto muito!) porque resume esse espírito que me interessa muito. Ela está sozinha, em um misto de feliz e desconfortável, sexy, entregue. Consigo imaginar a Adele Exarchopoulos ignorando a câmera, as luzes infernais, o set de filmagem, tudo, e só dançando.

Poucas coisas te permitem um isolamento tão grande do mundo exterior quanto dançar.

Eu faço aulas de dança moderna e enquanto improvisamos, a professora pede diversas vezes para que a gente tome consciência umas das outras ou, ao contrário, para que cada uma se desligue da sala. `As vezes fechamos os olhos e temos que ter consciência do movimento externo. É uma sensação muito estranha de estar presente e ausente, junta e sozinha. Quando ela pede por uma composição, que cada bailarina preste atenção na outra, responda e interaja com a outra, sem perder sua vontade de movimento, eu tenho a sensação que queria meus relacionamentos assim.

Queria meus relacionamentos como aulas de dança moderna em que meu movimento é meu, só meu, expressão do que eu quero, sinto e penso naquele momento, mas ao mesmo tempo preciso olhar para as outras meninas na sala. Às vezes vou em direção a elas, as vezes recuo, respondo, encaro, às vezes rodamos uma em volta da outra, brincamos de seduzir. Tem na aula uma menina que deve ter seus dezessete anos, é alta, magrinha e tem os cabelos muito compridos e eu acho terrivelmente sexy. Imagino que ela nem saiba, que quando ela descobrir talvez se torne menos, mas fico completamente fascinada com a elegância dos movimentos dela, com a entrega, com o mundo só dela em que ela entra quando dança.

Sempre saio das aulas de dança moderna me sentindo também terrivelmente sexy. Algo a ver com a consciência do próprio corpo, com utiliza-lo como expressão, com a busca por uma organicidade. “Vocês tem que ser meio bicho”, não cansa de repetir minha professora. Tenho achado essas aulas a melhor decisão que já tomei, poucas coisas me ensinaram tanto sobre o que é a arte (ouviu bem Argan???)

Domingo fui sozinha ao show do Au Revoir Simone e em algum momento me peguei dançando como Elektra (a protagonista de Todos os Gatos São Brilhantes) ou Adele. Sozinha, jogando meu cabelo de um lado para o outro me importando pouco, na verdade, me importando nada, com tudo que não fosse eu. Foi um dos shows mais felizes, mais adoráveis que já estive. Três meninas lindas, fazendo dancinhas queridas e aquele som um pouco de sonho. O que eu mais gosto em sintetizadores é o som que não parece de verdade, que não vem de nenhum instrumento de “verdade”.

Me lembro quando era criança e tinha aulas de música na escola, uma vez tivemos aulas sobre instrumentos e eu aprendi o que era um sintetizador. As crianças insistiam em dizer que o sintetizador estava imitando algum som: “agora é som de piano/agora de gato/agora de chuva” e a professora dizia “não é som de nada, é som de sintetizador”.

Quero uma banda de synth pop. Quero uma banda de som que não é de verdade e que faça shows onde as pessoas podem balançar a cabeça, dançarem sozinhas e esquecerem que há um mundo em volta.

A entrega da dança é diferente de quando me trancafio em mim mesma. A entrega da dança é entrega mesmo, é como se eu me puxasse pela mão, suave, gentilmente, e me levasse para dentro de mim com suavidade. O eu que encontro na dança é um eu que eu gosto, é um eu que se move com graça, que cria algo interessante, que pode ser olhado sem repulsa. Acho curioso que durante toda a vida, o ballet da infância, o sapateado, o ballet agora, a dança moderna, eu ouço das professoras que tenho leveza. Que posso errar, não ser tecnicamente tão boa, mas que salto sem fazer barulho, que me movo como se não pesasse nada e isso tem pouco a ver com peso corpóreo. Muitas vezes, a professora de moderna me pede para ter peso, porque não tenho.

Nunca quis ter peso, não é mesmo? Vou tatuar uma âncora próxima ao pé para me lembrar de ter, para me lembrar de voltar.

Eu não quero voltar.

Eu estou indo embora em 9 dias. Sozinha. Estou indo ver o mundo, mas mais que isso, estou indo ver a mim mesma. Estou indo passar tanto tempo comigo mesma que não vou ter opção a não ser parar de me odiar. É um tratamento de choque. Não sei se vai dar certo, não sei se posso sair por aí tendo a mesma sensação que quando danço sozinha. Acho tão irônico que eu me odeie tanto e ao mesmo tempo me recuse tanto em perder, queira me agarrar tão fortemente ao que eu sou, quero meu movimento, minha dança, mesmo que ela olhe para o outro, quero que seja minha.

Acho que o arranjo mais delicado do universo, mais que qualquer jogo de moléculas, ou átomos que forme uma nebulosa, é esse entre eu e o outro. Entre minha dança e do outro. É saber que há alguém ali, compondo comigo, mas ser minha mesmo assim. Três anos atrás eu achei que era minha outra vez, mas não era. Estou indo ver se descubro como se faz. Estou indo ver ser aprendo a ser sozinha o suficiente para poder ser com outro.

Na minha pele

Quantas vezes seguidas eu posso ouvir Lost Cause? Quantos dias eu posso passar sem ler uma única página de literatura? Quantas semanas sem ver um filme? Quanto tempo encarando sem parar páginas que eu mesma escrevi?

Eu tenho dito que é muito difícil escrever um mestrado. Que é mentalmente exaustivo e que me dá um medo enorme isso de elaborar algo que saiu da minha própria cabeça. Eu não confio na minha cabeça, sabem? Então de vez em quando eu paro para assistir Girls, porque preciso de meia hora de ar. E aí a mãe da Hannah me solta sobre o Adam: “he’s unconfortable in his own skin”.

Eu fecho o computador correndo, escorrego pro chão outra vez e fico ali, muito quieta, por muitos minutos, esperando para ver se essa frase vai embora. Ela não vai. Desconfortável na própria pele. Como algo que não cabe, não entra, como se a camada que cobrisse o que eu tenho por dentro fosse fina demais para realmente esconder e o medo gigantesco de que ela se torne transparente.

Eu sempre tive essa impressão de uma espécie de monstro escondido em 1,57, olhos verdes e rosto de boneca. Eu já lamentei muito ter rosto de boneca. Não porque não goste dele, mas porque acho injusto que a gente acabe com um rosto tão pouco representativo do que acontece do lado de dentro, acho tão injusto que “my pretty mouth will frame the phrases that will disprove your faith in men”.

Mas a gente acaba sendo quem é e tendo o rosto que a vida, e a genética, resolveram que teríamos. Eu tenho certeza que tenho menos rosto de boneca hoje do que aos 15, agora que eu já achei que ia morrer de sofrimento, que já passei mal no elevador dos outros, que já decidi que não me importo muito em ser gentil com meu corpo. Talvez envelhecer seja um pouco isso, talvez a gente vá passando por processos de fazer encontrar o de dentro e o de fora.

E nesses processos, em uma tentativa de se sentir melhor na própria pele, eu desenhei nela.

Lembro de quando fui assistir Alabama Monroe e pensei que nunca tinha me sentido tão sexy por ter tatuagens. Ou nunca tinha achado alguém tão sexy por ter tatuagens. Eu gosto muito de como a câmera do filme passeia pelo corpo dela, pelas imagens, da luz amarelada e bem difusa que eles usam nesses momentos. Gosto de como a narrativa constrói a personagem mostrando o quão disposta ela é a vestir a própria vida na pele e ao mesmo tempo a consciência  de que a vida muda, as coisas passam, não é por isso que os desenhos não podem ficar.

Até pouco tempo atrás eu não era das pessoas visivelmente tatuadas. Eu contava 4, mas não acho que seria aquelas meninas que alguém diz no bar: “ah, o banheiro é a porta do lado daquela garota tatuada”. Hoje em dia acho que sou. E de certa forma, conforme eu desenho nela, minha pele se torna mais confortável para mim.

Quanto mais eu visto nela o que me dói, as frases de alguém que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos, a minha inquietude extrema e alguma delicadeza, mas ela me parece casar, cobrir o que eu quero que cubra, se adaptar. Aos poucos, eu vou cabendo na minha própria pele, embora ela ainda me seja bastante desconfortável.

Às vezes eu gostaria que o Universo pudesse ser apenas um pouco menos cruel. Veja, não precisa ser legal, podia ser só indiferente. Podia só não me enfiar em uma situação em que não ficar louca dependeria de estar um pouco mais confortável com quem eu sou, que eu não precisasse lidar o tempo todo com o fato de que algo aqui não está certo e eu não consigo esconder, não consigo iludir uma outra pessoa de que está.

Não precisa mandar amor da vida, já disse aqui que nem quero, só não precisava me mandar direto para a cama de alguém que alimenta o animalzinho que eu tenho do lado de dentro. Só não precisava levantar o espelho em que eu vejo minha pele sem desenhos, sem remendos, transparente, com tudo que eu quero esconder e não posso, com tudo que é monstruoso e terrível e mora do lado de dentro.

Não precisava.

Mas eu não quero ficar louca. Não sei bem quando foi que eu tomei essa decisão, mas tenho a impressão de tê-la tomado em algum ponto da vida. Deve ter sido quando eu cheguei muito perto de perder quem eu sou e decidi que não quero.

Hoje em dia eu pareço sufocar. Não é escrever um mestrado. Não é ter que elaborar algo dentro de um cérebro no qual eu não confio. Não é ele também. Eu não sei o que é, mas a metáfora da redoma de vidro parece apropriadíssima. Você vê o lado de fora, mas não pode chegar lá e o ar do lado de dentro é viciado, antigo, sufocante.

Você se esforça tanto para viver dentro da própria pele que acaba presa dentro dela, mas não é confortável. E você recebe todo dia o tapa na cara de que, de fato, não é agradável olhar para o que é possível ver através da sua pele. Então eu sigo desenhando nela, não porque desenhos tornem qualquer coisa mais opaca, mas porque no processo de fazer isso, como no processo de escrever, eu tenho a chance de achar beleza no que coloco para fora.

Também minha escrita vem de tudo isso que eu acho monstruoso, mas é uma chance de me apropriar, de domar, de olhar bem no rosto de um lobo e ver que no fundo ele é um animal bastante bonito e aprender a lidar com aquilo.

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Frances Ha, porque é muito difícil ser uma pessoa

Minha vida é uma coisa que costuma dar errado. Em um sábado a noite em que estou contemplando toda minha falta de timing me sinto como a Frances Ha quando volta de Paris e finalmente tem mil mensagens no celular daquela amiga para quem ela ligou tantas vezes, contando que poderia lhe apresentar sua alma gêmea.

Meu sábado poderia ser resumido nessa cena.

Então me lembro que tenho toda uma história, toda uma identificação com Frances Ha. Fui ver o filme no cinema, no fim de semana da estreia. Acordei bêbada em casa, após uma festa, na hora em que deveria estar chegando no aeroporto. Levantei correndo, fiz a mala mais desconexa da história da minha vida e saí correndo para perder a ponte aérea.

Por sorte, como chaves, ou isqueiros, ou amores, pontes aéreas são algo rotineiramente perdido e eu acabei chegando sem grandes problemas. Então fui ao cinema. E chorei silenciosamente durante 120 minutos. Eu poderia escrever um longo texto sobre fazer algo, mas não estar realmente fazendo, sobre ser “undatable” e sobre beber até vomitar porque é o único jeito de lidar com o que se sente. Mas esse texto não é sobre nada disso.

É sobre como, depois de chorar por duas horas inteiras, eu saí do cinema em um misto de depressão e conforto. Eu era aquela pessoa, eu não queria ser aquela pessoa, mas eu estava feliz que mais pessoas no mundo fossem aquela pessoa. Eu não estava sozinha em toda minha desorganização e perda de rumo. Então eu peguei um metrô, para o lado errado. Saí, peguei para o outro lado, cheguei e me sentei em frente a uma menorá.

Eu continuava fazendo esforço para não ver o lado amargo do filme. Eu li diversas críticas sobre a vivacidade de Greta Gerwig e o otimismo irremediável do filme. Concordei, é otimista. É de uma coragem e um otimismo quase estúpidos, porque no fundo tudo é muito deprimente. Porque é muito difícil ser uma pessoa. Porque de forma linda e com fotografia em preto e branco me foi jogado na cara o quão difícil é ser uma pessoa.

Tentando a muito custo ser uma pessoa e não cair no choro no metrô, eu fui encontrar alguém. Todas as minhas forças estavam em não cair no choro e contar para esse alguém o quão difícil era ser uma pessoa. Porque é tão difícil ser uma pessoa, eu não ganhei um beijo de oi, mas a confissão apressada de alguém que vai embora.

Eu fui deixada sem aviso prévio, embaixo de uma menorá, enquanto me segurava porque não queria ser Frances Ha. Mas eu era. E eu acabaria bebendo demais e possivelmente falando besteira em uma festa de pessoas que eram mais adultas do que eu. Mais pessoas do que eu.

Eu esqueci disso. Talvez porque não quisesse estragar o filme, ou talvez porque foi tudo tão abrupto que eu não pude entender na hora a dimensão da minha dor. Quando doeu, eu já estava longe de Frances Ha.

É terrivelmente difícil ser uma pessoa. Ser uma pessoa significa ser deixada sem qualquer cerimônia embaixo de uma menorá e logo em seguida caminhar para uma festa. Significa não necessariamente fazer o que se faz. Significa ter passado dez minutos do filme profundamente irritada porque uma atriz parece a ex da pessoa que irá te deixar embaixo da menorá. Significa deixar os meses passarem e finalmente admitir que se foi deixada de forma tão indolor (para quem deixa) e um dia dizer que já não pode ser tão desimportante.

É precisar parar de ficar com alguém como quem precisa parar de fumar. É precisar parar de fumar também e de beber. E ouvir um pouco mais sua intuição que te dizia para ficar em casa nesse sábado.

É difícil o suficiente ser uma pessoa mesmo nas condições ideias de temperatura e pressão. Mesmo que você se proteja o máximo possível. Na minha vida, qualquer planejamento é contra mim. Qualquer planejamento acaba com uma confissão apressada em que eu levo no mínimo uns cinco minutos para entender o que está acontecendo e que, o que está acontecendo, sou eu sendo deixada.

É começar um texto completamente overshare e não saber muito bem o que fazer com ele.

Ser eu tem sido difícil demais e às vezes eu acho que agradeço muito pouco as pessoas que tornam existir nesse mundo um pouco menos difícil.

Na maior parte do tempo, adianta. Na maior parte do tempo abrir uma porta torna existir menos difícil. Tenho pensado muito nisso essa semana, dos momentos em que ser uma pessoa teria sido insuportável se não fosse por outra pessoa. Das vezes em que eu já chorei em mesas de jantares (não choro só em transportes públicos).

Mas também dá sexta a noite, de estar bêbada na calçada comendo o que (provavelmente não de verdade) foi o melhor cachorro quente da vida. De conversas e hamburgueres, e amar o snapchat e dos melhores cinco euros já gastos em um brownie de maconha. É muito difícil ser uma pessoa em boa parte do tempo, mas às vezes, só às vezes, não é.

Às vezes a vida é risadas em uma mesa e músicas da Britney Spears. Às vezes é só a certeza de não se estar sozinho. Minha dissertação é sobre isso, sobre como o mundo se organiza e faz sentido no minuto em que se percebe que não é necessário estar sozinho. Que nem sempre se está sozinho.

Tem uma outra fala em Frances Ha da qual eu gosto muito, quando ela diz que tudo que ela quer de um relacionamento é a certeza não dita de que aquela é sua pessoa no mundo. A pessoa de Frances acaba sendo sua melhor amiga e eu gosto muito dessa solução narrativa, muito mesmo. Sua pessoa no mundo é aquela que fez existir ser menos difícil.

 

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Alabama Monroe, Bergman e círculos quebrados (2 de 194)

Eu tinha um plano em que, por razões de ordem alfabética, o próximo filme seria do Afeganistão. Fui atrás, pesquisei filmes e cineastas e descobri, inclusive, mais de um. Baixei todos, decidi sobre o qual falaria e… ainda não assisti. Sou realmente muito boa em manter planos.

Mas nesse blog somos muito a favor de aceitar o acaso, abraçar o que vier e o que veio foi a Bélgica. Sei que filmes belgas não são a coisa mais comum de mundo de se ver nos cinemas daqui, mas eu a classifiquei como um país fácil: já tinha assistido uns dois filmes belgas falados em flamenco, poderia baixar coisas dos mesmos diretores, e os irmãos Dardenne tem vários filmes maravilhosos. Mas também está em cartaz no cinema um filme cujo poster é uma moça com as costas todas tatuadas.

Alabama Monroe é um drama. Um drama bem drama. Daqueles que eu recomendaria levar a caixa de lencinhos e um pouco de corretivo para consertar a cara depois do filme.  Eu, no entanto, não chorei. 

-Isadora, você é uma insensível

Sem dúvidas que sou, nem argumento. Mas não é que o filme não tenha me tocado, mas justamente porque ele parece tão feito para que eu me emocione, eu não consegui.

Já tive certas discussões de mesa de bar em que afirmei que não me interessava muito a tese do Saramago em Ensaio sobre a Cegueira de que, em situações limites, e retiradas alguns alicerces básicos da civilização, nós viramos bárbaros. Isso me parece extremamente óbvio. Eu gosto mais de quem se propõe a analisar o como o excesso de segurança, de confiança em nossa própria situação, nos transforma em bárbaros. Sade, por exemplo, Lars Von Trier em Dogville.

Falo isso porque em certo momento pensei em chamar Alabama Monroe de “Cenas de Um Casamento com tatuagens” e aí pensei que não, não é isso. Vou tentar evitar spoilers, mas não me comprometo, tenho zero respeito por eles, só avisando os obsessivos. Alabama Monroe acompanha o esfacelamento de um casamento a partir de uma grande tragédia. A forma como o casal passa a se machucar, odiar, ser capaz do pior possível, a partir de uma grande tragédia.

Veja, me parece óbvio que frente a uma dor insuportável isso aconteça. Que alguém perca a fé, ou se agarre a fé, se culpe, culpe o próximo, machuque, agrida, etc, etc, etc. É dramático, sem dúvidas, é terrivelmente triste e acarreta em um filme tocante, do tipo que leva metade da sala ao choro. Mas Cenas de um Casamento é tragédia, a tragédia da inviabilidade da existência.

Usei esse termo em um texto em outro lugar e me apeguei a ele. A existência enquanto inviável, paradoxo em si, seres humanos condenados a estarem em um lugar desencontrado, trincado, pronto a decompor. Cenas de um Casamento, e todo o Bergman, é isso. São personagens que não precisam de uma grande tragédia para serem o pior que podem ser, eles o fazem simplesmente porque são seres humanos. Porque o lugar humano é de desencontro e crueldade, a não ser que alguém decida ativamente sair dele.

Para Alabama Monroe o lugar de partida do ser humano é a felicidade e o amor e uma tragédia o afasta disso. Para Bergman o lugar de partida é a violência, a indiferença e o sofrimento e é preciso fazer a escolha ativa de buscar algo distinto.

Estou com o Bergman nessa e por isso, talvez, tenha saído de Alabama Monroe com a sensação de que é um bom filme, mas falta arrebatamento.

Recentemente tenho visto muitos filmes assim: bons filmes, filmes perfeitamente bem feitos e competentes, mas que não me fazem sair da sala declarando meu amor apaixonado pelo cinema. Com vários defeitos que tem, A Grande Beleza foi o que chegou mais perto disso ultimamente.

Não me levem a mal, Alabama Monroe é um belo filme, belíssimo. Uma decupagem precisa, emocional sem ser melodramática, bem montado, com uma trilha incrível e personagens bem construídos. Mas me pareceu dizer um lugar comum.

Por outro lado, eu gosto muito da relação entre o título e a forma como o filme é construído: the broken circle breakdown. E o filme em estrutura quase circular, mas não exatamente. A princípio parece um filme em que vemos o presente e o passado e em algum momento eles se encontrarão, fechando o ciclo. Mas o ciclo não fecha. Ele está quebrado de início e está tão quebrado que se reflete na estrutura narrativa. Quando a narrativa deveria se fechar, há uma cena no futuro e agora precisaremos chegar até lá e o que se forma no final não é um, mas dois círculos, interligados, abertos, quebrados.

Alabama Monroe é um filme sobre a quebra de um ser humano. Ou de dois seres humanos. É um belíssimo filme, mas que não me ganha porque acredito que seres humanos são quebrados de início. Ao mesmo tempo, e isso me conquistou mais, é um filme sobre a vontade de ser inteiro, sobre o amor por outra terra em que se poderia ser inteiro: o além, ou a América, tanto faz. O bluegrass da banda dos protagonistas é cheio de referências a Deus e um outro lugar, além do Jordão, uma terra prometida. Pode ser o paraíso, como pode ser home of the brave, bla, bla, bla. Gosto desse paralelo entre sonhos, entre vontade de restituição e eternidade.

Achei interessante que se fiz um projeto de ver 194 filmes, de 194 países, porque quero estar em outro lugar, em lugares que não estou, escolhi por enquanto dois filmes que foram feitos em um país mas olham para o outro. Um filme francês africano, um filme belga sobre cowboys.

The-Broken-Circle-Breakdown