Não achei o amor da minha vida em um trem na Turquia

Eu só estava ali, do outro lado da sala, bebendo vinho. Naquela hora você não sabia que eu ia acabar bebendo vinho demais. Eu já sabia. Eu só estava ali, com aquele vestido que eu gosto e me faz parecer mais magra, meu cabelo preso por causa do calor, bebendo vinho e conversando com alguém que eu não conhecia.

Eu estava falando sobre a Turquia, sobre como eu iria passar três semanas na Turquia e passar meu aniversário em um balão. Eu tinha 24 anos ainda. Acho que envelheci notavelmente só por fazer 25. Eu ainda tinha 24 e meu estômago já dava os sinais de que não ia se comportar. Eu sabia. Eu não ajudei com as diversas taças de vinho, mas meu estômago tem essa mania detestável de levar tudo para o lado pessoal, é extremamente egocêntrico meu estômago, sempre acha que é trabalho dele demonstrar o descontentamento que eu tinha, racional e deliberadamente, decidido esconder.

Eu comentei por qualquer motivo que tinha 24 anos e a moça conversando comigo se espantou. Acho que ela não esperava estar com alguém que tivesse 24 anos. Ela não sabia que eu estava com você, um pouco depois, quando você me abraçou, ela olhou envergonhada, talvez um pouco arrependida da conversa que nós começamos a ter nesse momento em que eu estava do outro lado da sala, perto da mesa, e você estava ali sentado na escada. Ela perguntou se eu não tinha medo de ir sozinha, eu disse que ia com uma amiga, mesmo assim, ela comentou, por sermos mulheres, não, não, não tinha, era parte da aventura, acho. Ela perguntou como eu iria viajar, de avião e carro, acho. Ela perguntou sobre os turcos, será que rola uma one night stand com um turco? Meu deus, eu não tinha ideia que ia acabar tendo uma one night stand com um turco na Capadócia. Mas enfim, ela perguntou e eu respondi que talvez, mas são muçulmanos, ah, mas é um país liberal.

Porque ela tinha assistido Antes do Amanhecer um dia desses e desde então teve essa ideia de que um dia ia estar em um trem e encontrar o amor da vida dela e, quando alguém contava que ia viajar, ela ficava imaginando se a pessoa não encontraria o amor da vida em um trem. Eu sorri meio triste. Disse que às vezes, quem sabe, poderia acontecer. Então olhei de lado para você. Não que você fosse o amor da minha vida, mas só porque achei engraçado que eu estava lá, obviamente como seu anexo, aquela menina que seus amigos talvez nem saibam o nome, só sabem que é a menina que você às vezes levava na casa deles, e ela me perguntava sobre outro. Fazia sentido, é claro, fazia um tremendo sentido que eu nem queria ver, mas achei engraçado.

Quando te olhei de lado percebi que você me olhava. Durante esse tempo todo em que eu estava do outro lado da sala, conversando com alguém que eu não conhecia, sendo simpática e sorridente e descolada: o que você faz? eu sou crítica de cinema. Ah, uau, onde? Às vezes eu publico na França. Uma vez você estava muito bêbado (ninguém pode dizer que não combinávamos em tendência a consumir um pouco de álcool demais) e repetiu diversas vezes que eu publicava na França, em um tom tão orgulhoso que eu não pude deixar de rir. Você me olhava como se eu fosse a coisa mais legal do mundo, sempre detestei esse olhar, e com aquele meio sorriso orgulhoso de ter levado a menina mais legal da festa. Ninguém ali era tão legal quanto uma cineasta que publica na França e nem fez 25 anos ainda. 

Na tarde desse dia eu tinha visto Frances Ha. Em determinado momento ela diz que tudo que quer de um relacionamento é aquele momento em que você, e a pessoa que está com você, estão em uma festa e seus olhares se cruzam e há, por um segundo, uma outra dimensão, uma comunicação muda de que essa é a sua pessoa na vida. Eu olhei de lado e te vi me olhando e me lembrei disso. Não que fossemos isso um para o outro. Que você fosse minha pessoa na vida ou eu para você. Mas naquele momento você me olhou com um misto de carinho e orgulho e como se tivesse me assistindo ali, sendo encantadora com pessoas que eram suas, e eu sorri. Já não lembro mais se fui até você, se você veio até mim ou se simplesmente deixamos isso no ar. Sei que em algum momento, eu estava perto da mesa, você passou por ali e me puxou para você, foi quando a moça que me perguntou sobre estranhos no trem reparou que ali, naquele lugar, naquela noite, eu era de alguma forma sua.

O que eu quis dizer e não consegui é que não sou do tipo que entende mil significados ocultos em um olhar, que faz perguntas já sabendo respostas. O que eu quis dizer e tenho achado tão difícil é que eu não invento o mundo como quero que ele seja, eu não posso me dar ao luxo de fazer isso, expectativas são para quem não costuma perder tudo o tempo todo. Imagina o que seria de mim se, ainda por cima, eu criasse expectativas? Eu não entendi nada desse olhar, apenas o fato que ali, naquele lugar e naquele minuto, eu era sua pessoa, que naquele segundo, e não necessariamente em nenhum outro, você tinha carinho suficiente para me olhar daquele jeito.

Eu não sei, mas acho que matei parte desse carinho nesse mesmo dia, enquanto eu ajoelhava no seu banheiro e ainda que dá maneira errada, colocava pra fora toda a sujeira que eu nunca pude te dizer.

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