diarinho

Bomba relógio

Eu gostaria de confiar em você. Eu gostaria de conseguir ficar ali, com a cabeça no seu colo, quieta, feliz. Um pouco feliz pelo menos. Mas eu não consigo. Eu não sei. Eu nunca aprendi.

Você me diz que, enquanto estiver aqui, eu não preciso fazer sozinha nada que não queira. Mas você não sabe. Você não tem ideia da minha solidão, de como ela escorre pelas rachaduras, de como ela se emaranhou no meu cabelo, de como ela é tudo que eu já conheci. Você não tem ideia da minha dor e você não sabe o que está oferecendo, você não sabe onde está entrando.

E eu não acredito.

Na impossibilidade da felicidade, eu tento um substituto: leveza. Eu aceito a declaração com um sorriso, mesmo que eu não acredite. Eu me deixo pegar no sono com seus dedos traçando as sardas das minhas costas. Mas eu não acredito.

Eu poderia adormecer do mesmo jeito se você seguisse as cicatrizes nos meus tornozelos? Por quanto tempo você pode fingir que não viu? Quanto tempo até reparar que eu não durmo durante a noite? Quanto tempo até ver minhas mãos tremerem? Até sentir meus cabelos caindo nas suas mãos? Quanto tempo até eu gritar, enlouquecer, transformar sua vida em um inferno? Quanto tempo até você ver nos meus olhos tudo, menos o que te fez ficar?

Mas eu tento não pensar.

Você me diz que foram meus olhos. A transparência deles, mais que a cor. Eu lembro bem como te olhei a primeira vez, como eu percebi em um milésimo de segundo que eu precisava de menos do que um sorriso para te ter. De como eu me senti quase como um gato brincando com uma presa que não pretende comer. No máximo oferecer de presente para o dono.

Mas eu sou menos horrível do que gosto de crer. Menos horrível do que te disseram. Eu nunca tive medo do que aconteceria se eu seguisse brincando, se eu não ficasse. Meu medo sempre foi outro. E se eu realmente entrasse na sua vida, toda a escuridão, toda a dor, toda a corrupção que eu traria? Eu não quero te dar nada disso.

Então eu tento evitar.

Leveza.

Eu estou bem agora, então você não precisa de nada disso. Eu não preciso de nada disso. Não agora. Não por enquanto. Eu não preciso fazer sozinha nada que não queira, mas você não sabe as coisas que `as vezes eu quero fazer. Mas não agora.

Eu me sinto como alguém que foi espancada por gangsters russos drogados de cocaína e sobreviveu. Eu sobrevivi e o que quer que tenha me levado a isso não está mais aqui. Mas meu corpo sente as marcas. Eu ainda estou coberta de manchas roxas e cicatrizes e elas doem quando tocadas. Meu corpo, já pequeno, com frequência se encolhe na esperança de ocupar ainda menos lugar no espaço, de desaparecer, de não precisar passar tanto tempo olhando essas feridas, esperando que elas sumam, sabendo que se tornarão cicatrizes. Maiores e mais visíveis que as linhas finas que eu tenho nos tornozelos.

De tudo, eu odeio a autopiedade. Eu odeio quando de repente, sem motivo, eu lembro. Eu odeio quando acho que o vejo numa esquina. Ou quando de onde eu vim segue sendo de onde eu vim. E eu lembro. E de repente eu me sinto no direito de toda a dor, todo o fracasso. Você não sabe o quanto eu me sinto no direito de desistir. Mas eu não quero.

Não hoje. Não ainda.

Não ainda.

Eu queria confiar em você, mas eu não posso. Eu queria fazer planos, mas eu não sei. Eu queria poder prometer tudo que se promete nessas horas. Mas não eu. Eu não consigo.

Por enquanto eu gosto de achar que você pode ficar sem promessas. Eu sei que não pode, não por muito tempo. Mas eu tento não me importar. Leveza no lugar de felicidade. Tentar não me importar com tudo que não pode ser, pelo menos por enquanto, por agora.

 

Don’t look back in anger

Eu não olhei para trás. Simplesmente não olhei. Disse tchau, me virei e fui embora. É o único jeito de ir embora. Sem olhar para trás.

Quando ele foi embora, ele olhou para trás. Por trás de uma fila de adolescentes que, imagino, iam para a Disney. Eu o perdoei por muita coisa, o perdoei por ir embora, mas não perdoei por olhar para trás. Por ter me feito sorrir uma última vez, quando eu já achava que finalmente poderia chorar.

Se é para ir embora, não se pode olhar para trás.

Em um dos muitos términos dos últimos dois anos eu olhei para trás. Achei que fazia sentido, uma vez que todo aquele relacionamento era um grande olhar para trás. Olhei para trás e nunca fui embora de fato. Ameaço ligar depois de cada garrafa de vinho, depois de cada decepção, depois de cada dia que estou exausta demais para ter instinto de auto-preservação.

Não se pode olhar para trás.

Eu não reviso os textos desse blog. Eles entram cheios de erros, cheios de coisas que eu sei que, se pensasse duas vezes, desistiria de dizer. Há algum tempo, eu decidi que esse era meu projeto artístico. Não o blog, mas não olhar pra trás, não pensar duas vezes, transformar minhas entranhas em arte, escrever com sangue, dor, com tudo que é confissão, inquietude, tudo que ainda está vivo dentro de mim. É a única literatura que eu sei fazer.

Eu poderia ter olhado para trás. Eu poderia ter desistido. Às vezes acho que não desisti porque queria exatamente isso, queria dor para poder transformar em arte. Eu e essa mania de querer ser Fiona Apple.

Eu não olhei para trás. Senti um beijo no ponto entre meu pescoço e minhas costas, onde o casaco encontrava meu vestido. Eu usava um vestido azul, com um decote muito profundo. Eu gosto daquele vestido, eu estava bonita naquele dia. Talvez eu tenha pensado cuidadosamente na imagem que ele teria quando olhasse para trás. Era um ponto esquisito para se dar um beijo, como o último beijo depois de eu ter me virado, rápido, naquele último segundo antes de eu me afastar demais.

Quis olhar para trás nesse momento. Quis encontrar esse beijo no caminho. Quis abraça-lo de novo e ficar ali por mais uma pequena eternidade. Mas já tínhamos nos abraçado por tempo demais. Acho que, mais do que tudo, quis ver a expressão dele quando decidiu me dar esse beijo tão estranho.

Acho que foi o beijo mais triste que já recebi. Tudo aquilo foi tão tremendamente triste. Porque não foi. Porque ninguém teve raiva, ninguém quis olhar para trás. Só nos abraçamos por um tempo terrivelmente longo. Terrivelmente. E eu dei aqueles conselhos terrivelmente óbvios :”não morra”. Se eu fosse ele teria rido, logo eu, eu que tem um verão inteiro que foi uma longa bad trip. “Não faço mais essas coisas”, digo. Eu teria rido disso também.

Não deixar que eles olhem para trás. Não deixar que eles vejam quem você foi naquele verão. Quem ficou naquela cidade. Tudo bem beber demais. Só não olha para trás. Você nem gosta tanto dessas coisas afinal de contas. Mentira.

Ele argumenta que é um bom menino. Rio, sei disso. Digo isso. Depois de ter esperado o sinal fechar, atravessado lentamente e acendido um cigarro. Então olhei para trás. A porta tinha acabado de se fechar.

Memento mori

Eu sempre tive medo de envelhecer, medo do tempo que passa e medo, principalmente, de não ter tempo de fazer tudo que a minha pressa desenfreada deseja.

Eu me lembro bem de ter 11 anos e estar deitada na minha cama, encarando aquelas estrelinhas que brilham no escuro e tendo todo um memento mori estilo Jane Eyre no quarto vermelho porque afinal, estava logo ali o primeiro ritual que me tornaria velha.

Eu me apavorei aos 11, aos 16, aos 20, aos 26. Eu torço as mãos e viro noites e me angustio porque está tudo tão fora do lugar, eu estou tão fora do caminho e o tempo, ele passa tão cruel.

Eu tenho medo dele. Eu tenho medo de tudo que eu não vou ter feito aos 30 anos, eu tenho medo de cada desvio como se houvesse algo a ganhar nessa correria e não há, não há lugar nenhum para chegar e esse pavor me surpreende quando eu penso que tudo tem ficado solidamente melhor a cada ano que passa.

Nesses últimos quatro anos, eu reconstruí a minha vida. Esse ano tira um peso de mim porque fará mais tempo que estou sem ele do que estive com, porque finalmente isso pode parecer distante, esquecido.

A segunda metade dos meus vinte anos tem sido consideravelmente melhor que a primeira. Quando eu o deixei tudo era deserto, estéril, vazio. Quando eu fui embora, eu não tinha ninguém para andar comigo. Nos últimos anos, eu tinha cortado todas as cordas, fechado todas as portas, testado até o limite o amor de quem disse que estaria comigo até nas portas do inferno. Então eu comecei de novo.

Nesse processo eu saí do caminho várias vezes. Eu me perdi, eu quis morrer, eu me arrastei por dias fantasmagóricos. Eu abandonei sonhos, eu passei meses sem escrever uma linha. Eu achei que nunca ia sair daqui. Eu me perguntei todos os dias onde eu estava, o que eu estava fazendo, quem eu queria ser.

Quatro anos depois, eu encontrei respostas. Quatro anos depois, fugir deixou de ser tão importante. Em algum momento, sem nem perceber, eu decidi que só iria quando tivesse porque voltar.

Eu sou, talvez, uma das pessoas mais ambiciosas que andou por essa terra. Eu quero todas as coisas e eu as quero grandes, intensas, enormes. Eu quero tanto que eu me paraliso. Eu sonho tão longe que desisto antes pela impossibilidade de chegar lá. E eu passo um tempo enorme amargurada por tudo que não fiz.

Mas eu fiz sim. Eu fiz uma vida toda. Eu fiz gente demais para caber em um apartamento, ou melhor, gente que topa tentar se enfiar em um apartamento.

Eu perdi tudo e eu ganhei tudo e a primeira coisa que me pego pensando sobre ficar velha é toda essa bagagem acumulada, é toda essa bagagem, minha e do outro, que precisa ser coordenada.

Quanto mais eu trago comigo, quanto mais vezes eu vi relacionamentos acabarem, quanto mais vezes eu fui ferida, abandonada, traída, mais insustentável fica começar de novo? É possível que todas as pessoas que eu deixei entrar tenham me feito trancar a porta?

Ou quanto do que ele já viveu o torna arisco a mim? Quanto do passado o faz perceber que ele até poderia lidar com o que eu trago, mas não quer?

Tenho achado curioso esse momento, como se tivesse cruzado uma espécie de ponto de virada em que tudo é recomeço, todo relacionamento já foi feito antes, por mim e por ele. É como ganhar uma segunda chance e, ao mesmo tempo, sentir despencar na cabeça  a bigorna da condição humana e a certeza de repetir os mesmos erros até o fim.

Há muita coisa atrás de mim agora, há vidas inteiras. Já é tão complicado, tão impossível, coordenar apenas duas vidas, que dirá todas as outras que vem encaixotadas? E o medo?

Meu medo é como a fotografia esmaecida que não se joga fora, como o rastro de perfume de alguém que acabou de deixar o quarto. Como lençois amassados e cheiro de cigarro no dia seguinte. Pessoas foram embora, histórias acabaram, coisas sem fim terminaram, mas o medo fica, a lembrança irracional, do toque, da dor, da loucura, fica.

E vai ficando insustentável. Onde guardo tanto acúmulo? Eu sei que essa foi só a primeira vez que eu perdi tudo, outras virão e outros virão e onde eu coloco cada um deles? Com que coragem eu mostro tudo isso? Como posso realmente pedir para que alguém fique quando eu sei muito bem o que estou trazendo, quando eu sei que é algo que ninguém deveria querer?

Quão irônico é que quanto melhor tudo fica, mais medo eu tenho o tempo todo?

Sangue na parede

Quando eu cheguei nesse apartamento, eu não tinha nada. Eu tinha caixas de livros e malas de roupa, mas eu não tinha sequer a coragem de dizer para ele que não, ele não ia colocar minhas prateleiras, não ia ter uma chave, não ia voltar lá nunca mais. Eu não tinha sequer a coragem de pedir que ele saísse da minha vida.

Eu cheguei nesse apartamento depois de dois anos morando com um homem. Depois de dois anos em que qualquer sugestão de um quadro na parede era chamada de “expressão da minha futilidade burguesa” ou qualquer coisa parecida. Depois de dois anos em um apartamento que não era meu, da mesma forma que minha vida não era minha.

Eu cheguei aqui praticamente sem amigos, levando um mestrado com o fio de energia que me restava, sem escrever há meses, sem ler um livro direito eu já nem sabia há quanto tempo. Na minha primeira noite sozinha nesse lugar, eu sentei no chão, abracei meus joelhos e encarei minha gata. Ela ainda era minha, ela, eu tivera coragem de dizer que seria só minha. Minha gata, em uma coincidência estranha do mundo, tem os olhos exatamente da mesma cor que os meus. Eu fiquei uns minutos muito longos encarando os olhos dela, que são iguais aos meus, e respirando devagar o ar que já não estava tão envenenado dele.

Eu sempre tive essa mania de transformar lugares internos em externos. Eu estabeleço esses paralelos e esses reflexos entre onde estou e como estou. Ano passado, quando o que eu sentia era insustentável, eu fui embora. Eu saí daqui como se isso pudesse significar sair de mim mesma. O clichê diria que isso é inútil, que você leva a você mesma onde quer que vá, mas eu discordo. Lá fora, eu realmente saí de mim mesma e pude rearrumar as coisas o suficiente pra poder voltar.

Esse ano, depois de meses em que eu dormia razoavelmente bem, não bebia mais todos os dias e não apagava mais cigarros na minha própria pele, eu percebi que precisava sair daqui. Que dessa vez, quem tinha envenenado o ar era eu mesma, quem tinha manchado as paredes de sangue e vísceras era eu mesma. Que o ar aqui dentro era viciado da minha própria dor e da minha loucura e cada pedaço desse chão estaria pronto para me assombrar. Por meses, esse apartamento foi meu próprio inferno particular. Foi aqui que eu me entrincherei quando já não podia aguentar o mundo e gradualmente eu fui deixando que as portas se abrissem e o fogo, a agonia, a loucura, consumissem cada centímetro de parede, impregnassem em cada estofamento de sofá.

Então, eu precisava embora. Mas enquanto eu lacro caixas e embrulho quadros, a minha sensação é radicalmente diferente da última vez que eu fiz isso. Agora, eu tenho tudo. Ou pelo menos, eu tenho a mim.

Esse apartamento foi o primeiro espaço meu. O primeiro lugar em que minhas decisões, e apenas elas, passaram a contar. Eu chorei nesse chão mil vezes por escolhas que eu tinha feito, eu trouxe dezenas de homens pra essa cama porque eu os queria, eu enchi as estantes com os meus livros, os armários com os meus chás, as paredes com os meus quadros. Eu deixei meus sapatos espalhados e meus batons no porta lápis da escrivaninha. Eu escrevi um mestrado aqui. Eu dei incontáveis festas. Eu virei quem eu sou, enquanto morava nesse apartamento.

E eu mesma causei a hora de ir embora.

Não me escapa a minha capacidade de envenenar as coisas, o meu papel como alguém que vai sempre trazer junto uma partícula de desastre, de corrupção, de fim do que parecia funcionar tão bem. Eu tenho batido meu pé e argumentado que não, eu não vou estragar a vida de ninguém dessa vez, que eu estou calma, eu estou quieta, que eu estou tão pronta quanto jamais poderia para sossegar o rabo em algo confortável. Mas a verdade é que eu vou, por mais que eu não queira.

Eu vou porque comigo vem uma quantidade de dor e falta de sentido, uma falta de ordem das coisas como se espera que elas sejam. Porque vem comigo, sempre, uma consciência de quanto tudo pode ser tão cruel e difícil e dolorido para quem talvez não saiba disso. Eu posso ser a pessoa mais doce que possível, eu posso amar alguém, um lugar, o que quer que seja. No final, eu sempre vou embora deixando o ar intoxicado e as paredes recobertas dos pedaços de mim mesma que eu nunca paro de arrancar.

Mas ano que vem eu não morro

Existem anos épicos na vida. Anos que, se um gráfico de intensidade fosse feito, extrapolariam qualquer medida e seriam aquele cume muito bem delineado, o everest da história dos anos. 2014 foi esse ano para mim.

Eu sei que tenho dezembro quase todo. Sei que é cedo para esses posts clichês de balanço. Mas foi tanta coisa que eu não posso mais com esse ano e tudo que me sobra é puxar o freio um pouco antes, entender que para mim ele já acabou.

2014 foi o ano que começou com alguém dizendo “eu queria uma taça de espumante” e uma taça de espumante magicamente sendo posta na mão dela. Foi o ano dos desejos realizados. Nas primeiras horas de 2014 eu estava no topo de um cortiço/mansão em Havana, vendo a cidade toda lá do alto, completamente bêbada e pensando que eu não tinha a menor ideia de como tinha ido parar lá. Não naquela noite, embora isso também. Mas na vida. A minha vida, de alguma forma, tinha me levado a ser a pessoa no topo de um cortiço/mansão decadente cubano e seja lá como isso tivesse acontecido, eu estava satisfeita.

A primeira lição desse ano foi: eu não sei bem como cheguei aqui, mas eu cheguei em algum lugar e eu gosto dele.

Uma das primeiras coisas que fiz em 2014 foi ser roubada em um país socialista e participar de uma reconstituição criminal. É bastante coisa que um ano que já começou assim tenha só sido ainda mais aleatório ao longo dos outros doze meses.

Em 2014, eu: defendi um mestrado, visitei 14 países, perdi meu passaporte, cruzei a fronteira entre a Sérvia e a Bósnia e sobrevivi, me engracei com um bósnio, um austríaco, um australiano, um mexicano, um luxemburguês e um americano. Eu visitei o túmulo do Bergman. Eu vi a ponte de Praga iluminada sob a chuva e eu me apaixonei quase a primeira vista. Eu tive três empregos. Eu comecei um vlog. Eu decidi entrar no doutorado. Eu me joguei de um penhasco. Eu quase fiquei louca.

Não é um exagero, não é uma figura de linguagem. A dor que eu vinha guardando em mim por 25 anos de repente estourou, me sufocou, envenenou todo meu sangue, minha fala, minha pele. Minhas mãos começaram a tremer sem parar. Eu passei 56 horas sem dormir. Meu cabelo começou a cair. Eu deixei de comer. Eu quis, de verdade, morrer.

E então um dia eu entrei pela sala do meu analista e anunciei que ia embora, que eu ia embora senão ia morrer. Que eu não queria ficar ali para ouvir os diagnósticos dele, que eu queria ir embora. E chorei sem parar por quase uma hora. Ele assentiu com a cabeça, me deu três meses de receitas e me deixou ir embora.

E eu fui. Sozinha. Sozinha com toda a dor e a loucura e o medo que tinha em mim. Foi uma aposta alta. Uma aposta que eu não tinha a menor certeza.

Mas eu voltei. A minha dor voltou comigo. Mas a minha loucura não.

Em algum ponto entre o sul da França e a Escandinávia eu achei meu centro. Eu descobri quem eu queria ser. Eu lembrei das luzes de Havana se espalhando lá embaixo e me lembrei que eu ainda não tinha ido a Índia. Eu não poderia morrer antes de ir pra Índia.

Quando eu voltei eu decidi que metade das minhas roupas eu já não queria, eu cortei o café, eu voltei a dançar, eu mandei consertar minha bicicleta. Eu desenhei na minha pele a lembrança de que eu preciso ficar. E eu lembrei da sensação do lugar onde eu queria estar.

2015 eu começo em casa. Com as pessoas que são minha casa. Com meus pés na areia e todo amor do mundo. Eu quero, embora não saiba se consigo, colocar pontos finais em histórias que eu já não posso mais carregar comigo. O começo de 2015 não me promete o melhor dos mundos, daqui, ele é o ano que já começa com meu coração partido. Mas agora eu acho que tudo entrou no lugar suficiente para que ele não carregue todo o resto de mim junto. Para que ele não rache as estruturas.

Eu não sei disso, eu só acho.

Eu quero viajar de novo. Eu quero ir a Ásia. Eu quero entrar no doutorado. Eu quero escrever um livro. Eu quero o mundo.

Mas mesmo que eu consiga tudo que eu quero, nunca seria um ano como foi esse. 2014 foi meu melhor ano. Porque eu quis morrer, mas não morri. Porque se eu chegar a todas as vinte milhões de coisas que eu ainda quero é porque, nesse ano, eu não morri.

Passados três meses eu não fui buscar outra receita. Eu voltei a dormir. Eu voltei a comer. Meu cabelo cresceu e eu não quero cortá-lo até o limite do socialmente aceitável. Eu entendi a dimensão do inferno dentro de mim, mas eu desisti de tentar mantê-lo a portas trancadas. Eu estou aprendendo a conviver com meus demônios, fazer amizade com eles,  quem sabe jogar umas partidas de xadrez.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Horário de óbito: desconhecido

Eu não sei quando parei de notar sua casa toda vez que passava por ali. Quando parei de imaginar a pessoa que agora dorme na sua cama, os livros com os quais ele agora povoa sua estante. Não sei bem quando parei de tentar calcular o fuso horário de onde você estava, ou reunir pistas, como naquele jogo da Carmen Sandiego, sobre o seu paradeiro.

Ironicamente, Carmen Sandiego é como às vezes meus amigos me chamam. Mas quem foi não fui eu.

Eu não sei bem quando foi, mas eventualmente eu só parei. Em algum momento, que eu nunca soube qual, algo morreu em mim.

Quando foi que eu comecei a esquecer o você que eu conhecia? Quando eu esqueci sua voz e as piadas ruins? Quando eu parei de esperar?

Eu ouço risadas ecoando histericamente por eu dizer que parei de esperar. Mas eu não sei, eu não sei se algo (algo que eu poderia chamar de amor, mas prefiro não) se retirou demim e o que deixou foi a teimosia, a curiosidade, a necessidade de pagar pra ver. Os planos racionais de que se eu listasse as coisas que eu quero de alguém nessa vida, eu não poderia conseguir mais do que tinha em você.

Eu não sei quando meu corpo perdeu a lembrança do seu. Mas ele perdeu. Eu já não saberia reconhecer seu perfume se ele estivesse no homem que se senta ao meu lado do ônibus. Eu não poderia revisitar a sensação da sua língua na minha, dos seus dedos nos meus cabelos.

Eu lembro vagamente de como você apoiava a mão na minha cintura e dos olhares no início, muito no início. Daquela vez que você ficou na ponta dos pés para me olhar uma última vez pela tela do elevador.

Há muito tempo atrás, da primeira vez que alguém foi embora de mim, eu percebi que tudo começava a morrer quando já não lembrava da voz dele. Quando já não era capaz de imitar o sotaque. Quando uma história morre afinal? Quando é que tudo termina?

“História”, que palavra estranha de se escolher. Minha mãe fala “história”: “ah, eu e fulano tivemos uma história”. Eu prefiro caso, relacionamento. Eu pensei em usar amor, mas eu não saberia achar onde estava o amor nessa história, se ele morreu, se ele chegou a nascer. Quando foi que tudo acabou?

Não foi, e acho que podemos concordar nisso, quando “a gente acabou”. Eu tentei. Tentei dizer “foi divertido”, mas você, deus sabe porque, não me deixou fechar as portas. Terminou quando seus emails pararam de chegar todos os dias? Quando eu parei de ter medo da dinamarquesa de pernas longuíssimas em uma praia em Bali? Quando esqueci sua voz?

Eu sou obcecada com marcar a morte de relacionamentos. Já falei sobre isso aqui um milhão de vezes. Me importa pouco quando começa, mas quando eu posso sair por aí livre de você? Quando eu vou parar de tentar montar cenários, prever conversas, ter medo?

Eu tenho dificuldade demais de entender o fim das coisas. Não porque eu não me conforme. Mas eu quero linhas, postos, marcas. Quero um carimbo de fronteira: pronto, agora você não está mais nesse relacionamento. Gosto dessa metáfora. Algumas fronteiras se cruza fácil, oi, oi, carimbo, carimbo, acabou. Outras você passa aproximadamente 2 horas sendo interrogada por um sérvio muito pouco amigável.

Eu levei anos para ver o fim de um outro relacionamento. Ele estava lá antes. Ele estava lá muito antes. Também não sei quando. Sei que não foi quando sentei no chão do aeroporto de Guarulhos e chorei compulsivamente até o segurança achar que o pacote de drogas pesadas no meu estômago tinha estourado. Foi em algum ponto depois disso. Mas antes de quando eu olhei nos olhos dele e disse “não é mais isso, não é mais você”, no ato mais cruel já realizado na minha existência.

Eu queria saber se a gente acabou para saber de onde se parte. De onde, caso o caso seja esse, se começa de novo. Eu sou outra pessoa hoje, eu imagino (espero) que você também. Somos outro “nós dois?” É um novo filme com os mesmos atores, ou um remake? É Woody Allen em infinitos filmes com a Diane Keaton ou é Antes do Amanhecer/Pôr do Sol/Meia Noite?

Tenho plena consciência do absoluto ridículo que sou eu, a essa altura da coisa, querendo limpar essa história. Querendo entender. Querendo coisas as claras. Eu sei, eu sei. Se eu fosse você, estaria rolando no chão e rindo até os pulmões falharem. Mas acontece que eu não posso mais, com essa sombra, com esse ar, com essa espera.

Quando eu parei de notar sua casa, quando eu esqueci sua voz, quando eu deixei de saber onde você estava, eu achei que tinha acabado. Que tinha morrido. Que eu estava livre. Que eu tinha parado de esperar.

Eu não parei. Algo foi embora, mas a sombra ficou. A marca dos móveis que você desencosta da parede. O rastro de perfume de alguém que acabou de sair do elevador. Aquele horário irritante de um sábado a noite sem programa que você não consegue saber se já é hora de colocar o pijama e desistir.

Eu só queria que tudo isso tivesse sido suficiente para eu desistir. Para eu saber se queria desistir. Para eu finalmente entender o que quero de você.

Disseram por aí que eu era a Taylor Swift dos blogs

Há muitas coisas nessa vida das quais eu não me orgulho. A frequência com que tenho postado aqui. A quantidade de livros que compro. Aquele ex namorado desgraçado. A frequência com que ouvi Taylor Swift na semana passada.

Eu poderia pedir perdão. Eu poderia ter fotografado o olhar de julgamento das pessoas que trabalham no mesmo recinto que eu. Mas eu vou apenas me justificar.

Dia desses eu dei carona para uma amiga saindo do ballet. Talvez um bom termômetro de amizade seja o fato de que você simplesmente coloca um cd (sim, inteiro) da Taylor Swift para tocar mesmo com alguém de carona no seu carro. Esse alguém certamente a ama apesar de qualquer vacilo. Enfim, dei carona para um amiga que me disse: “é porque você é a Taylor Swfit dos blogs.”

Hum…

Eu lembro desse outro amigo que um dia me disse “eu jamais tentaria ficar com você porque não quero acabar post de blog.” Justo” foi a única coisa em que consegui pensar. Às vezes me pergunto quantos relacionamentos meus foram estragados pela consciência que eles podiam ter que, mais cedo ou mais tarde, menos ou mais poeticamente, iam acabar expostos para toda a internet.

Eu tive esse namorado que se incomodava profundamente com eu fazer do overshare profissão. Com os pedaços dele que iam parar em roteiros, ensaios, contos. Ele lia obsessivamente uma intenção no roubo, um desejo oculto nas tramas. Anos atrás, matei meu melhor amigo no meu primeiro conto publicado e até hoje  tenho um gosto amargo no fundo da boca, um medo da culpa que vai me corroer quando ele for embora (porque algumas pessoas nesse mundo existem para ir embora cedo demais).

Meu projeto de arte é uma exposição extrema. A exposição tão extrema faz com que nenhum potencial assunto desse site seja desavisado. Você, ao tomar minha mão pela primeira vez, assina uma espécie de pacto com o diabo em que aceita tornar-se palavra, texto, personagem.

Taylor Swift dos blogs.

Mas minha paixão não justificada (só acredito em amor irracional, perdão, qualquer ser com um mínimo de senso sabe que vai dar merda) não é bem por isso. É aquela identificação real, brega, honesta, “de raíz”, com as letras das músicas.

Meu relacionamento com a Taylor Swift começou no momento em que notei uma letra que dizia basicamente “the haters gonna hate, the players gonna play e ¯\_(ツ)_/¯”. Eu lidei muito mal da primeira vez que alguém me odiou gratuitamente (gratuitamente as in eu não estava pegando regularmente o namorado dela, quando esse foi o caso eu apenas aceitei meu destino). Eu demorei muito tempo para assimilar o fato de que não importa o que eu fizesse, quão simpática ou civilizada eu fosse, uma certa fulana me odiava e deixaria isso claro para todo mundo.

Eu ainda hoje me incomodo que meu nome surja  em mesas de bares, com os julgamentos. Com os conselhos de “você não deveria chegar muito perto” que caras que eu honestamente queria receberam. “And I know you’ve heard about me”, mas eu preferia que não. Esse ano eu fui embora e uma das coisas que eu busquei foi descobrir como era não ter uma história, não ser a garota-problema, não ter lidado com seu último fora bebendo cada gota de álcool da casa, não ter levado para cama absolutamente cada cara que te apresentaram nos últimos dois anos.

Mas a verdade é que você não se livra da própria história e talvez a sabedoria popular esteja muito correta quando te manda deitar na cama que você mesmo armou. Você pode aceitá-la, pode rir, pode achar razoavelmente irônica a ideia que fazem de você e da infinita lista de homens, de vexames, pode vestir a carapuça e torná-la de uma honestidade quase desconcertante ” I’ve long list of ex-lovers, they’ll tell you I’m insane.”

E daí talvez esse cd ridiculamente chiclete tenha me ganhado em “it’s like I’ve got this music in my mind saying it’s gonna be alright”. Eu fui a adolescente mais esnobe do mundo com gosto musical. Eu fiz mestrado em cineastas suecos. Mas ultimamente minha maior identificação é com algo que me diga que tudo vai dar certo. Aliás, que diga que uma música no fundo da sua mente te fala que tudo vai dar certo. O que provavelmente quer dizer que os fatos não apontam exatamente nessa direção.

Eu tenho dias bons e dias ruins. Por muito tempo eu achei que os dias ruins no meio dos bons seriam menos perigosos. Não são. Eles te pegam de surpresa, eles puxam seu tapete, eles se tornam piores pela sensação de recaída, de fraqueza, de estar equilibrada em fundações de madeira podre. É em um dia ruim no meio de dias bons que se pula da janela. Que se passa a gostar de Taylor Swift porque é preciso acreditar que vai ficar bem, que uma hora vai ficar bem.

Mas de todas as músicas do cd, talvez a que eu mais goste é uma que diz “we found wonderland, you and I got lost in it”. Há poucas coisas que me interessam mais do que essa perspectiva obscura do prazer, do amor. Há um perigo  gritante em se isolar em um universo muito próprio, em achar que o amor basta. Ele nunca basta e ele te mergulha em você mesmo. Nem todo mundo pode mergulhar em si mesmo.

Eu gosto da pequena pílula de obscuridade, da honestidade em dizer que “somebody lost their mind”, em assumir que o amor é uma espécie de droga que te leva a lugares em que você não queria ir. Acho que nenhuma bad trip que eu tive na vida foi tão intensa quanto ter que perceber que o universo meu e dele nada mais era que isso, só meu e dele, e não podíamos continuar existindo ali. Que havia dor demais e dependência demais e escuridão demais para que se pudesse respirar ali. Levei pelo menos dez anos para perceber isso e admiro, um pouco que seja, qualquer um que pode perceber também.

Se falamos em esnobes de música, eu poderia ser como Rob Gordon e me perguntar “eu sou miserável por que ouço música pop ou ouço música pop por que sou miserável?” Eu faço esse overshare terrível porque cantoras me ensinaram a fazer assim ou eu gosto de cantoras completamente overshare porque é como eu seria de qualquer maneira? Eu seria capaz de gostar desse maldito álbum da Taylor Swift se não soubesse que ela provavelmente passou por tudo que está contando ali?

Eu acredito na identificação completamente instintiva e quase vergonhosa da música pop. Sendo assim, sobrava pouca coisa para o blog mais overshare dessa internet além de vir falar da cantora mais overshare dos tempos atuais. E se identificar com “I go on too many dates, but I can’t make then stay, at least that’s what people say”

Talvez, só talvez, a arte ainda salve alguém

Logo que eu publiquei o último texto aqui a maioria das pessoas que vieram falar comigo me chamaram de corajosa. Admiraram ou agradeceram a coragem que era necessária para se expor assim, para contar sem muitos disfarces as merdas por que passei. Eu agradeci a todos, mas eu não me sentia corajosa.

Quando eu apertei em publicar, as minhas mãos tremiam. As minhas mãos tremem quando eu fico nervosa, quando eu fico com medo, quando eu tenho muita dor, física ou psicológica. Quando eu falo em público eu torço as mãos, quando eu defendi o mestrado, eu as escondi embaixo da mesa. Quando eu percebi o leve tremor naquela festa eu fiz questão de beber o suficiente para que ele parasse.

Eu não sei quando começou. Eu lembro de uma vez em que minhas mãos começaram a tremer e aquilo foi subindo, quando eu percebi, eu estava sentada no chão, abraçando meus joelhos e meu corpo todo tremia. Foi assim que eu descobri que podia perder o controle.

É um ciclo vicioso. Meu corpo responde ao meu medo, meu medo aumenta porque vejo meu corpo respondendo e ele responde ainda mais e quanto mais eu perco o controle físico, mais medo eu tenho. Você só precisa de uma crise de pânico para passar a vida com pânico de crises de pânico.

Você só precisa de um relacionamento deturpado para ter medo de todos os relacionamentos.

Em Short Term 12, quando Grace fica nervosa, ou se sente ameaçada, ela inconscientemente corta a lateral do seu polegar com a unha de seu indicador. Ela não percebe, sua unha só se movimenta repetidamente enquanto ela fala, a câmera sabe, seu namorado sabe, mas ela se fere sem perceber até que aquilo se abre e sangra.

Ao menor nível de stresse, a reação automática do organismo de Grace é se ferir. Foi nesse pequeno plano detalhe, muito rápido, quase imperceptível, em que a câmera mostra ao espectador esse gesto, em que conta pra ele que há algo de significativo nas mãos de sua protagonista, que eu entendi a que profundezas aquele filme desceria.

Quando eu olhei para minhas mãos sobre o computador e elas tremiam, eu sabia que minha única chance era apertar publicar naquele momento.

A maioria dos posts desse blog é agendado. Eu escrevo, agendo, depois de alguns dias entro aqui e reviso. Às vezes percebo que se eu revisar demais vou desistir, então deixo. Aceito alguns erros de português e frases mal escritas em favor da honestidade, o bom de ter um blog é que leva só algumas horas para um texto virar papel de peixe.

Eu não sei bem do que eu tive medo.  Eu tive um medo definido, claro e honesto de que ele viesse tirar satisfações. De que quisesse discutir que o difamei, que não era assim, ele fez isso por um comentário qualquer no twitter tempos atrás. Tive medo do meio de comunicação que eu ainda não tivesse pensado em bloquear. Não pela presença, mas porque ter que defender o que eu senti seria sofrido, eu não queria argumentar um abuso, não existem argumentos.

Mas meu maior medo foi a percepção dos outros, acho. Cada vez que alguém expressou preocupação ou tristeza por mim, eu corri em assegurar que estava tudo bem agora. Que eu estou bem, que passou. Meu maior medo era ser vista como alguém a quem se deve cuidado e preocupação, alguém cuja história pode ser olhada com pena.

Grace, voltando a Short Term 12, esteve na frente de um tribunal e contou as diversas formas pelas quais o pai abusava dela. Mandou-o para cadeia por dez anos. Mas nunca contou ao namorado. Nunca deixou que ele compartilhasse com ela da profundidade da sua dor e seus traumas, nunca dividiu com ele o espaço infernal dentro da sua cabeça. O filme estabelece um paralelo entre ela e Jayden, uma das garotas de que toma conta. É muito mais fácil expor de forma sistemática, oficial e organizada o que fizeram com você, difícil é pedir ajuda.

Eu não me senti corajosa ao postar o texto anterior porque tudo que eu fiz foi expor, acusar. É como se eu também me levantasse na frente de um tribunal e recitasse, como um rosário, o que foi feito comigo. A diferença é que eu não queria punição, eu queria deixar isso ali para que quem sabe, alguém, no meio de tanta gente que leu aquele texto, se identificasse, percebesse padrões e reconhecesse o que estava sofrendo. Eu queria declarar minha liberdade de falar disso, a impossibilidade dele de me mandar mensagens questionando o que eu dizia.

Short Term 12 é um filme sobre um tipo de abuso muito pior do que o meu. Um tipo de abandono muito pior do que o meu. Sobre crianças realmente violentadas, espancadas, colocadas para vender drogas com dez anos. Crianças cujas vidas familiares eram tão ruins que precisavam ser retiradas de suas casas.

Ninguém nunca teria me retirado da minha casa. Nenhuma assistente social teria achado que um pai ausente e uma mãe neurótica eram motivos para se retirar uma criança. Eu tive babá, fiz aulas de ballet e piano, estudei em escola construtivista, tive um gato, joguei tênis, fui umas 4 vezes para a Disney, no meu primeiro passaporte eu nem era alfabetizada e minha bicicleta era roxa brilhante com pneus brancos.

Mas o sentimento de profundo abandono daquelas crianças me tocou. Eu percebi o quanto eu desejava que alguém agisse comigo como Grace agia com elas, que alguém tivesse tido a paciência de sutilmente arrancar de mim mesma o que eu queria dizer. É fácil recitar a lista de seus abandonos e injustiças, é fácil contar acuradamente a narrativa de cada uma das vezes que minha mãe me chamou de monstro. Muito mais difícil é assumir que preciso de ajuda por causa disso.

Eu fiz naquele texto o que era mais fácil e fiz porque para algumas pessoas talvez ainda não seja, porque eu só tomei consciência de mim mesma através da arte.

Esse ano tem sido um processo de descobrir o direito que eu tenho a minha dor. As faltas enormes e a raiva. E que tudo bem, elas tem um motivo para estar ali, eu passei por coisas terríveis, talvez não terríveis a ponto de uma assistente social me tirar de casa, mas terríveis a ponto de eu viver com um constante ruído branco de dor e medo. Medo de mim mesma.

Foi na arte que eu aprendi sobre mim mesma. Muito mais do que em divãs de terapeuta, mais do que em qualquer lugar. Foi Bergman que me ensinou o quanto é devastadora a indiferença, Henry James que me mostrou o tamanho do desejo de ser amada de uma garotinha. Em Short Term 12 eu vi nas crianças a criança que eu fui e o desejo imenso, enorme, devorador, de ter simplesmente alguém que sentasse ao seu lado e te esperasse você levar seu tempo.

Eu também vi no tique de Grace o tremor das minhas mãos.

Short Term 12 é um filme terrível, daqueles que mostram o quão fodido é esse mundo. Ao mesmo tempo é um filme de um otimismo profundo, um filme que reconhece que o difícil não é falar, é assumir as consequências do que é falado. Eu posso contar sobre quatro anos de sofrimento, mas não posso dizer que esses quatro anos deixaram marcas e que sim, estou bem, mas não tão bem quanto gostaria, não totalmente bem, melhor, mas não curada e sim, eu gostaria de ajuda.

Não é preciso coragem para contar sobre abuso na frente do tribunal. É preciso coragem para assumir para um namorado que aquilo deixou marcas e por isso é difícil confiar nele e ainda se tem pesadelos e ainda se corta a lateral do polegar sem perceber.

Eu não me senti corajosa quando aquele texto entrou e tanta gente disso isso pra mim. A cada preocupação que eu afastava eu me sentia mais fraca, tanto por não aceitar mãos amigas quanto por precisar delas. E eu precisei de um filme para entender o que eu estava fazendo.

Em um texto sobre o Bergman, Woody Allen diz “in the end your art doesn’t save you” ele fala da mortalidade, de como ser lembrado não é em nada parecido com realmente viver para sempre. Uma vez que estou morto, foda-se que lembram de mim. Faz sentido. Fazer arte também não cura ninguém das próprias dores, dos próprios transtornos, das próprias mãos que tremem. Fazer arte é só fazer arte, é só por pra fora, pode ajudar, mas não salva.

Talvez a sua arte não te salve, mas a dos outros sim. Sua arte não salva a você mesmo, mas a alguém. Vir aqui e falar de um namoro horrível não conserta o tempo que passei nele, não conserta minha distância, minha hesitação, meu medo. Mas talvez ajude outra pessoa e entender os seus. Talvez eu possa salvar alguém pela arte, talvez ela seja a única forma de me salvar.

Um minuto para o didatismo: eu tive um relacionamento abusivo

Interrompemos a programação normal para um texto provavelmente mais mal escrito do que a média, mas que eu achei que era hora de existir. Eu sempre soube que ia escrever sobre isso, alguma hora, em algum lugar, mas não achei que fosse aqui. Achei que daria mais tempo, mais espaço, achei que vestiria a coisa de ficção ou algo assim. Mas conversando com algumas amigas eu descobri que a minha história não é só minha e achei que talvez fosse importante tentar contar, já que é a mim que cabe esse blog tão overshare. É enorme e eu peço perdão, não me importo muito se vai ser o texto menos lido da história desse blog, eu só achei que, já que eu tenho a possibilidade de expor minha intimidade ao público, isso era importante e necessário e poderia ser útil pra alguém.

Eu passei 4 anos em um relacionamento de merda. 4 anos em um namoro que, na época eu era incapaz de perceber, não me fazia feliz. Não só não me fazia feliz como minava sistematicamente minha auto-estima e me fazia abandonar coisas que eu gostava, que eram parte de mim, que me faziam quem eu era. Hoje, 3 anos depois do término, talvez eu chamasse o relacionamento de abusivo. Foquem no talvez. Faz 3 anos que eu terminei, 3 anos que eu saí pro mundo, tive outros relacionamentos, conheci outras pessoas e eu ainda hesito em colocar rótulo em uma coisa que eu sei muito bem o que foi. Por que? Porque eu tenho vergonha, porque eu me culpo.

Do término, da minha primeira percepção de que algo estava errado naquele relacionamento, até o início desse ano, eu me culpava sem parar pelo que aconteceu. Que ele fosse um babaca, isso era problema dele, que eu tivesse deixado alguém me tratar daquela maneira, que eu tivesse me submetido aquilo, era culpa minha. Que ele era um babaca era inegável, mas eu deveria ter saído fora nos primeiros meses, no primeiro ano. Eu passei meses, e infinitas sessões de análise, remoendo porque eu deixei tanto acontecer, porque eu fiquei com alguém que hoje eu não aceitaria um encontro. Levou tempo perceber que no fundo eu não poderia sair, porque as acusações que eu tinha a ele não eram só as que eu achava que tinha, a maior acusação era que ele minava sistematicamente qualquer auto-estima que eu pudesse ter e me enredava nas minhas próprias dificuldades, ansiedades e distúrbios.

Vamos começar do começo. Eu imagino que gente mais bem resolvida, gente mais segura de si mesmo e de suas qualidades e da sua possibilidade de ser amada, entre menos nesse tipo de relacionamento. Quando eu terminei, minha mãe me disse que eu deveria ter ficado com ele mesmo porque ninguém mais ia me aguentar. Daí vocês podem começar a fazer uma ideia do quão fodida é a minha cabecinha.  Hoje, aos 25 anos, depois de ter passado por muita coisa nessa vida inclusive dois terapeutas, eu ainda preciso fazer um esforço enorme de não me odiar o tempo todo, de não me odiar, e as coisas que eu faço, de uma forma que seja paralisante e auto-destrutiva. Eu aprendi a lidar muito com isso, com a sensação de que eu não mereço coisa nenhuma nesse mundo, especialmente a atenção de alguém. Não é fácil, muitas vezes é insuportável, mas isso é hoje. Aos 18 anos, minha cabeça era a própria filial do inferno.

Aos 18 anos eu sabia muito menos e vinha de dois relacionamentos que não tinham ajudado em nada a melhorar esse quadro. Eu não tenho vontade de falar deles ou de expor os dois envolvidos nesses casos, eles não foram crueis ou abusivos da mesma forma, embora um deles tenha sido sim um filho da puta. Mas era diferente. Acontece que aos 18 anos eu tinha uma auto-estima fraca e meu coração partido de uma maneira que eu estava disposta a qualquer coisa para fazer parar de doer. Qualquer coisa. Incluindo entrar no primeiro relacionamento que me foi oferecido com alguém por quem eu não estava apaixonada.

Acho que uma das maiores justificativas de pessoas que se mantem em relacionamentos abusivos era o tanto que amavam o namorado/marido/parceiro/etc. Nunca foi a minha. Eu o amei sim, de alguma forma, durante algum tempo, mas nunca foi uma paixão louca que me levasse a fazer qualquer coisa, foi muito mais o desejo desesperado de curar uma ferida minha, mais especificamente a ideia de que ninguém poderia me amar. Eu queria provar para minha mãe, para os outros caras, para mim mesma, que eu era capaz sim de ganhar e manter o amor de alguém. Eu estava disposta a qualquer coisa para não falhar nisso.

E qualquer coisa foi muita coisa. Eu não sei como começou, ou o que começou. Eu não tenho vontade de acusa-lo de ter deliberadamente falado coisas e feito escolhas que me feriam, eu não acho que foi isso. O que eu acho é que acabei com uma pessoa cuja personalidade era um misto de ego desenfreado e insegurança e essa mistura é perigosa: ele se achava melhor, mais inteligente, mais merecedor de todas as coisas, ao mesmo tempo se envergonhava da origem e da história e de outras coisas. E daí era uma guerra de tentar não fazer o outro perceber as falhas nessa pessoa tão maravilhosa que ele vendia. Eu me lembro de uma vez em que fomos ao teatro e eu não gostei da peça, o que seguiu foi uma briga porque eu era histérica, capitalista, e tinha falado isso alto quando alguém da equipe poderia estar ali. Eu não entendia que o elenco enorme era o triunfo do coletivo, bla, bla, bla… Eu não tinha direito a minha opinião sobre aquilo. Em um outro momento foi um documentário e a mesma história. A discussão nunca era sobre minha opinião em si, mas uma enxurrada de acusações sobre quem eu era e como eu fazia as coisas. E quem eu era e como eu fazia as coisas sempre estavam errados. E já vimos o quão disposta a aceitar essas acusações eu estava.

E é uma bola de neve. Eu lembro da briga porque todos os fins de semana eu tinha algum plano. Eu estava na faculdade e ainda falava com meus amigos de colégio, então sim, quase todo fim de semana eu tinha um aniversário, um evento, o lançamento de um curta, o que quer que fosse. E a briga não era porque eu não tinha tempo para ele, ou nós não nos veríamos. Era porque eu já tinha um plano e ele seria encaixado. Porque ele não era a prioridade. Porque minha vida não orbitava em volta dele. E aos poucos, de tantas brigas e de tanto ser acusada de egoísta e incapaz de me relacionar propriamente com o outro, ele passou a ser.

Eu passei um tempo muito longo me acusando disso, me culpando por esse momento em que eu vi uma briga desmedida acontecendo, em que eu vi uma pessoa incapaz de admitir a autonomia do outro na minha frente, mas eu fiquei. Eu fiquei porque, para mim, a acusação de que eu era egoísta, incapaz, de que a forma como eu fazia as coisas era errada, era poderosíssima, era destruidora. E a forma como eu fazia as coisas estava sempre errada. Da minha forma de ver o mundo a cortar a pizza (EU NÃO ESTOU EXAGERANDO! houve um comentário sobre minha falta de otimização no cortar da pizza e o que isso significava sobre mim). Meu gosto musical, a música, uma das coisas que eu mais amo na vida e que mais me salvou de mim mesma em anos de uma existência problemática, era alienante, entretenimento barato, shows eram o culto da personalidade e representavam o que havia de pior na sociedade atual. Eu não deixei de ir em shows, mas era um custo, era uma briga, era ouvir essas acusações toda vez. Eu parei de descobrir bandas novas e eu diminuí drasticamente o quanto o ouvia música, porque ele não tolerava.

O problema não é o que ele achava da música. O problema é que a opinião e a visão dele não admitiam ser a opinião e a visão de alguém. Elas eram A VERDADE e se eu descordava eu estava, por consequência, errada. Sendo esse portador da verdade, a vontade dele não assumia que a vontade da outra pessoa era tão autônoma, válida e digna de consideração quanto a dele. Quando íamos no meu (repetindo, meu) carro para a casa da minha mãe, ele não aceitava que eu ligasse o rádio. Não havia a negociação de talvez podemos ouvir algo baixo, ouvir por metade do caminho, ouvir na ida e não na volta, qualquer negociação entre duas pessoas que querem coisas diferentes. Não, ele não queria e isso era final. E as minhas tentativas de negociação acabavam na acusação de como minha vontade era fruto da minha ignorância e egoísmo e etc, etc.

Parece bobo, parece trivial que eu venha contar de música no carro. Mas não é. É o reconhecimento do desejo do outro como válido. Anos depois quando eu me acertei com outro homem sobre o ar condicionado do quarto dele, eu vi a diferença absurda que era ser tratada como um ser humano, que era ter minha vontade e minha queixa reconhecidas.

E já que falei em desejo do outro, vamos ao sexo. Eu estava descobrindo o sexo ali, minha experiência anterior era basicamente nula. Era suficiente para saber que nós não tínhamos uma química extrema, que eu não o desejava como já havia desejado outros, mas eu não sabia da importância disso para mim (honestamente, a importância e o poder do desejo físico sobre mim é algo que só fui descobrir há muito pouco tempo). O sexo não era ruim no início porque tinha o fator novidade, eu estava descobrindo uma coisa que eu não sabia quão boa poderia ser. Mas ele rapidamente se tornou e pedidos meus de trocas de posição ou de experiências novas (assistir um pornô juntos, por exemplo) encontravam a resposta: “isso é desespero, coisa de gente que não se ama de verdade, como nosso relacionamento é autêntico e verdadeiro, o sexo vai ser natural”. Não é muito curioso que a primeira coisa que eu parei de fazer quando percebi que não queria estar ali foi sexo e que essa também foi o primeiro (e único!) sinal de que havia algo errado que ele captou.

Hoje, o que mais me perguntam é por que eu fiquei ali. Ouço com frequência “nossa, mas eu não teria aguentado dois dias”. Hoje, eu também não. A pessoa que eu sou hoje dificilmente teria ficado com ele uma segunda vez. Mas quem eu era 8 anos atrás, estava desesperada para tampar traumas e inseguranças e acabou com alguém que predava nelas. Minha grande dificuldade, o provável problema formador de todos os meus outros problemas psíquicos é o ódio a mim mesma, a percepção, não de que não sou boa, mas de que sou, no fundo, algo de monstruoso. E cada vez eu tentava exercer minha vontade eu encontrava essa acusação. E ele estava certo, ser eu mesma era ser um monstro e a única maneira de não sê-lo era anular tudo e continuar ali, provar que alguém poderia conviver comigo e me amar. Foi só quando entendi isso, a dinâmica entre como ele me tratava e como eu me tratava e como uma cosa alimentava a outra e me prendia, que eu parei de me culpar e assumi o ódio que eu queria ter desse período.

Eu não sei quando saí disso e decidi terminar. Não sei como, quando ou por que, decidi que não queria mais estar ali. Dessa decisão até o término real, levei seis meses, porque eu não conseguia me convencer a causar essa dor em alguém, eu não tinha esse direito. Eventualmente não consegui aguentar mais e o fiz. E foi um término feio, lógico. Terminar exigiu que eu desafiasse essa vontade que não aceitava desafios. O resultado foi que ele invadiu meu email, leu meus diários, revirou minha gaveta e eventualmente (consciente ou inconscientemente) bateu meu carro.

Depois de eu ter deixado muito claro que não tinha interesse em qualquer contato, ele me mandou emails até que eu o filtrasse; curtiu coisas no meu facebook até que eu o deletasse; me mandou mensagens tentando tirar satisfações sobre coisas que eu tinha escrito no twitter até que eu fiz um jailbreak no celular apenas para bloqueá-lo (na época o ios não fazia isso sem jailbreak). Semana passada, três anos após o término, ele apareceu em uma aula que eu dei e veio perguntar se poderia falar comigo me chamando pelo apelido de quando namorávamos. Eu disse que não e me senti suja, violada. Menos pela tentativa de aproximação, que agora estou bem suficiente para julgar apenas inadequada, mas pela tentativa de me arrastar de novo para dentro de uma relação com ele. Eu não quero uma relação com ele, nenhuma, não quero qualquer vínculo com uma época que foi tão dolorida. Depois disso, eu o bloqueei o facebook para que possíveis divulgações de eventos não pudessem ser vistas.

E daí eu escrevi esse texto, menos por mim, embora tenha sido de alguma forma catártico, e mais por todas as amigas incríveis que disseram ter vivido o mesmo tipo de coisas. Porque é comum, porque relacionamentos abusivos e disfuncionais acontecem e eu achei que descobrir que a experiência não era só minha ajudava a aceitar e seguir em frente.

Para olhar minhas cicatrizes

Quando você chega em um estúdio para uma tatuagem é, invariavelmente, apresentado a uma ficha de cadastro. Seu nome, rg, endereço. Você tem mais de 18 anos? sim; É diabética? Não; Tabagista? sim; Alcoolatra? hum… não; Tem problemas de coagulação? não; Toma algum medicamento? Anticoncepcional, glifage, frontal eventualmente, quando não consigo dormir, o que é meio que sempre. Segue-se um pequeno parágrafo explicando que as agulhas são esterilizadas, o estabelecimento obedece a normas de segurança e higiene e o tatuador te orientará quanto aos cuidados necessários. Caso você faça algo diferente do que foi orientado, a consequência é por sua própria e risco e então você assina.

O que eles realmente deveriam perguntar é: “você está pronto para que a partir desse momento sua pele passe a ser vista como propriedade pública?”

Eu sou mulher e, portanto, estou bastante acostumada com meu corpo ser item público. Já fui chamada infinitas vezes de gorda, gostosa, baranga, linda, convidada a chupar todinho o cara da esquina. Vou para o ballet de bicicleta duas vezes na semana e já perdi a conta dos comentários envolvendo selim ouvidos enquanto subo a Augusta. Esses anos todos tratada como uma pessoa que não tem direito a recusar o toque ou observação do próprio corpo deveriam ter me preparado para a violência de absolutos desconhecidos pegando em mim em uma fila do aeroporto e perguntando “o que sua tatuagem significa?”, mas não prepararam.

E absoluto desconhecido na fila do aeroporto não foi um exagero. Uma vez eu estava na fila do check-in da Gol, quando um homem de terno tocou no meu ombro, leu a frase estampada nas minhas costas e me perguntou o que ela significava. Em um misto de atordoamento e ultraje eu respondi como quem acorda de um sonho “eu não te conheço” e voltei a me focar no celular. Parece estúpido, parece bobo, por que raios eu não quero explicar para ele o que está escrito nas minhas costas? Mas a verdade é que eu me senti invadida com violência.

Eu tenho seis tatuagens. Duas delas são grandes e coloridas, outra cruza toda a parte de cima das minhas costas. Todas elas tem uma explicação razoavelmente simples: é uma boneca russa, é o mundo, é um verso da Sylvia Plath. Eu não sou daquelas que acha que toda tatuagem tem que ter um significado complexo e uma história sentimental a la Miami Ink, ela pode simplesmente ser algo bonito. O gato no meu pulso é só um gato. Acontece da matryoska no meu braço ser só uma matryoska e ser também uma lembrança de Dostoievski e Tarkovsky e uma parte da minha identidade de certa forma perdida na diáspora judaica. Mas eu não acho que ninguém tem nada a ver com o fato de que eu tenha problemas com minha identificação nacional. Muito menos o ser humano que nunca vi mais gordo em uma fila de ponte aérea no aeroporto de Congonhas.

O mais curioso é que o homem que encontrei quando desci do avião, e que tinha autorização para tirar minha roupa e tocar minhas tatuagens e perguntar sobre elas, nunca o fez. Nenhum homem com quem eu transei nunca perguntou a respeito das minhas tatuagens. E eu teria respondido. Provavelmente, se eu te dei a intimidade para entrar no meu quarto e me ver nua, eu responderei sobre qualquer tatuagem e qualquer cicatriz. Elas são parte daquele contexto, elas são parte de mim e da minha pele e eu gosto particularmente quando alguém beija minhas costas e eu sei que foi por cima do verso inscrito, mesmo que sensorialmente isso não faça diferença nenhuma. Mas todos eles assumiram que minhas marcas eram minhas marcas. Recentemente eu contei espontaneamente, quando já estava quase pegando no sono e após uma longa conversa sobre Sylvia Plath, que aquilo nas minhas costas era um verso de Lady Lazarus. Ele nunca tinha perguntado, embora tivesse olhado para essas palavras por um tempo relativamente longo.

Parece, porque eu escrevo um blog desses, que estou sempre muito disposta a contar a história da minha vida e toda e qualquer mazela para qualquer um que pergunte. É uma tremenda mentira. Pode soar irônico, mas eu sou uma pessoa extremamente reservada e que guarda coisas por muito tempo mesmo da minha melhor amiga. Esse blog é uma exibição nos meus termos, do que eu desejo por para fora, da maneira como eu desejo e, já falei sobre isso aqui, nem tudo é verdade. Há camadas infinitas de ilusionismo e proteção no que é exposto aqui, mesmo que pareça tão cru. Eu não escrevo porque quero que o mundo saiba o que eu passei, eu escrevo por um milhão de motivos e por um milhão motivos minha escrita é essa. Eu tatuo da mesma forma.

Eu não faço tatuagens para quem olha. Eu as faço para mim mesma. Eu já falei aqui mais de uma vez sobre isso. Para tentar ficar mais confortável na minha própria pele, para ressignificar minha própria história, para ser quem eu sou, porque eu quero, pura e simplesmente. Mas parece que quando você estampa algo na pele, algo do lado de fora, aquilo é instantaneamente para o outro, para o espectador. A pele desenhada não pode de jeito nenhum ser sua, ela é pública, senão por que você desenharia nela?

Nas minhas costas diz, em inglês claro e simples, que para olhar minhas cicatrizes há um preço. Eu desconfio que o senhor de terno na fila da ponte aérea falasse inglês, ele era capaz de ler o que estava ali. Por que então ele me pergunta o que ela significa? O que ele espera que eu responda? É um verso de um poema que uma autora que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos escreveu sobre as tentativas de suicídio anteriores dela. Significa que se você chegar perto de alguém, perto o suficiente para realmente ver as cicatrizes, isso te muda para sempre, isso vem com um peso, um preço, que relacionamentos e conexões nunca são gratuitos e livres de consequência. Significa que eu venho de um histórico familiar, vamos dizer assim, complicado, que eu não falo com meu pai e minha mãe é completamente louca e a pessoa que eu mais amei no mundo foi embora de mim anos atrás e eu não posso nunca me livrar de tudo isso. Que eu sou extremamente ferida e quebrada e essas feridas estão prontas para abrir e quebrar de novo a qualquer momento. Que eu já me odiei tanto e sofri tanto que quis morrer, quis muito literalmente morrer, quis morrer a ponto de fazer planos na minha cabeça para isso, que eu já apaguei cigarros em mim mesma e fiz pequenos cortes no meu tornozelo de propósito porque quando dói tanto você tem essa esperança burra de que a dor do lado de fora vai fazer passar. E deixaram cicatrizes. E para vê-las há um preço.

Me pergunto qual seria a expressão do homem de terno na fila do check-in se eu tivesse dito tudo isso.