Natalie Portman

Em qualquer outro lugar

But by the time the first bombs fell
We were already bored

É um domingo à noite e eu empilhei os gatos e me acomodei no sofá para ver Em Qualquer Outro Lugar. Eu já vi esse filme infinitas vezes. É um filme qualquer, esquecível, um daqueles dramas de família dos anos 90, aquela época em que todo mundo chorava com Lado a Lado, tem a Natalie Portman novinha de tudo, antes dela ser tão bonita. 

Eu vi esse filme tantas vezes na vida por causa do título: Em Qualquer Outro Lugar. Eu cresci em uma cidade chata. Não pequena suficiente a ponto de todo mundo me conhecer, me vigiar e existirem histórias escabrosas sobre o padre que entalou uma garrafa de vinho no cu. Uma cidade relativamente grande, só bastante chata, mesmo que não faça sentido ser tão chata. Mas faz, quando você encontra alguém que passou um tempo por lá e conta o como esteve tão entediada por tantos anos o que você ganha é um sorriso da mais pura compreensão. 

Era um tempo pré-torrent e eu vivia esperando pelos filmes que um dia eu veria. Era um tempo de download de músicas, mas se a banda ainda fosse muito obscura eu precisava entrar em um ônibus (às vezes autorizada, algumas vezes escondida), um metrô e ir `a galeria do rock. Eu diria que o vendedor da Estrondo ainda deve lembrar da menina pequena de cabelo rosa que quase chorava de emoção quando pisava lá, mas todo mundo tem cabelo rosa na galeria do rock.

Eu joguei tênis, toquei piano, toquei baixo, dancei ballet, pintei o cabelo de rosa, roxo, azul, tive bandas, um caso, reformei camisetas, escrevi contos, pintei telas, vi shows em garagens, aprendi a fumar, comecei a beber. É uma experiência de tédio diferente, essa de ter com o que ocupar o dia, mas estar tão profundamente entediada com tudo. 

Eu tentei escapar uma vez, fui parar em um lugar menor ainda e voltei. Então esperei. Eu sabia que iria sair, eu sempre soube, todo mundo saia, era só questão de ter paciência. Era questão de esperar e ouvir minha mãe dizer tudo que ela tinha largado no Rio em troca de segurança.

Acho que eu ouvi tanto, tantas vezes, que o pagamento por estar ali era segurança, que nós estávamos ali pela segurança, para que eu pudesse ir e voltar da escola de bicicleta e passar o dia na casa de qualquer um sem avisar onde eu estava. Nós estávamos ali para que eu tivesse liberdade. 

Quando Liberdade do Franzen me caiu na mão eu entendi perfeitamente do que ele falava. De uma ilusão de liberdade pela qual as pessoas sacrificam tudo e que é tudo, menos liberdade. Eu cresci temendo essa palavra, segurança, e desconfiando da palavra liberdade. Eu aprendi que tudo que eu menos queria era segurança, era a liberdade pálida da segurança.

Quando eu saí, saímos todos, todos os meus amigos no mesmo ano. Muitos deles choraram, tiveram medo. Eu mal podia esperar. E esses dias me peguei pensando se eu choraria hoje, antes de deixar tudo para trás, a cidade que já não é chata, os amigos que já não são chatos, eu já não estou entediada afinal. Minha resposta é que sim, talvez, provavelmente, eu choraria. Eu pensaria duas vezes? não.

As pessoas querem casar e ter filhos, eu só quero ir embora. Eu só quero a possibilidade de sempre poder ir embora. Eu quero sempre poder largar tudo e ir embora, com a roupa do corpo se for o caso. Eu ando pensando muito em ir embora com a roupa do corpo, vender meus móveis, minhas roupas, e comprar uma passagem para a Índia. Eu não vou fazer isso, acho, honestamente não tenho certeza. 

Eu continuo assistindo Em Qualquer Outro Lugar. Eu continuo querendo estar em qualquer outro lugar. Às vezes eu penso em voltar para o Rio, fazer as coisas de bicicleta, correr na praia, ver o mar. Aí eu me lembro que não tem inverno. Mas é outro lugar, requer fazer as malas, reaprender, ir embora. Eu estou há 7 anos em São Paulo, é tempo demais, eu quero ir embora.

Provavelmente não vou voltar para o Rio. Nem comprar uma passagem para a Índia. Acho que não. 

Suburban War, do Arcade Fire, me parte o coração. “Before your war, against the suburbs began”, sim, eu vivo em guerra com a vida que eu tive, com as escolhas dos meus pais, com o lugar onde eu cresci. Eu vivo em guerra com a ideia de segurança, com a ideia de planejar uma vida em torno dos filhos a serem criados, em guerra com uma vida em que cabem filhos. Com a cidade limpa, organizada, em que eu podia andar de bicicleta. A música também diz que o passado não dorme enquanto você não pular a cerca e deixa-lo para trás.

In the suburbs I, I learned to drive
And you told me we would never survive
So grab your mother’s keys we leave tonight

We used to wait

Quando esse post entrar eu estarei vendo uma aula de Cinema, Filosofia e Religião: Bergmak, Kieslowski e Lars Von Trier (sim, esse é o nome de uma matéria! \o/), as maravilhas do post programado. Enfim, coisas aleatórias e divertidas:

Prendedor de cortinas feito com embalagem de vanish! (as daqui de casa até que precisam de um), no De(coeur)ação

O Spike Jonze (de “Onde Vivem os Monstros” esse filme lindo) vai fazer um curta com o Arcade Fire! (juro que essa notícia me deixou mais feliz que o cd novo do Radiohead), no blog da Nylon

Gifs de Cisne Negro! (e um post sobre o filme), no Já Matei por Menos

Dispensa legenda. No Don’t Touch My Moleskine

Como fazer um rabo de cavalo fofo e bagunçadinho, no A Cup of Jo

E Twiggy! Também no blog da Nylon

Cisne Negro

Eu sinceramente acho que devia ver o filme mais uma vez antes de falar dele, mas não resisto então vamos lá. Acho que a primeira coisa a ser dita aqui é que eu gosto demais do Aronofsky, tanto que até hoje encontro argumentos pra dizer que A Fonte da Vida não é tão ruim assim (mas sim, infelizmente, é ruim). Além disso, Réquiem para um Sonho foi, junto com Clube da Luta*, o primeiro filme não clássico que eu assisti. E eu pirei. Na narrativa que não tinha arco (não que eu soubesse o que era arco na época), no close nas pupilas contraindo, na forma como ele misturava alucinação e realismo, eu nunca tinha visto nada daquilo e, mesmo hoje, depois de todos os Bergmans e Godards e Fellinis e Antonionis, eu ainda acho Réquiem um filme absurdamente bom.

Uma das coisas que eu mais gosto do Aronofsky, e na maioria dos meus cineastas favoritos aliás, é que ele parece ter um projeto: falar das obsessões humanas. E uma das melhores coisas em Cisne Negro é que esse projeto se desdobra em uma espécie de teia de símbolos muito bem montada. A obsessão de Nina não é a dança, é a perfeição e nenhuma obsessão é mais contemporânea que esta. A perfeição, como nós a entendemos, pressupõe simetria e equilibrio e por isso mesmo, controle. Controle de si, do corpo, dos instintos, um corpo que come dificilmente é perfeito (Nina sabe disso) e o tempo todo está escrito por aí como controlar o sexo para torná-lo melhor, como controlar o sono, como controlar tudo aquilo que faz de nós, afinal, bichos.

Há algum tempo, naquela temporada que todas as sobrancelhas apareceram apagadas eu li um texto (tentei muito achar, mas perdi no buraco negro da internet) sobre como a moda tentava cada vez mais apagar os indícios de que, no fundo, somos bichos: a depilação a gente nem fala, mas fora isso tem as unhas de esmalte cor da pele, a boca apagada e por fim, os únicos pelos ainda aceitáveis, a sobrancelha. Eu acho que em moda isso talvez vá e volte, mas me parece bem claro que vivemos em uma sociedade que tem fobia de seus instintos, de sua parcela animal e, principalmente, da sua parcela obscura.

Exatamente como a Nina. E exatamente o contrário da Lily, que é puro instinto, tanto que tem asas de cisne tatuadas nas costas. É por isso que Nina se sente ameaçada, não exatamente pela Lily, mas pelo que ela reconhece da outra em si mesma, os instintos que ela sabe que tem, e parece saber que não pode controlar e por isso prefere manter enterrados. É clássico, Freud escreveu o Mal-Estar na Civilização pra dizer (e aqui eu vou simplificar de uma forma horrenda) que nós temos consciência da nossa brutalidade e criamos mecanismos para contê-la, isso fragmenta o indivíduo. Nina é tão fragmentada que toda vez que sua imagem aparece em um espelho ela é distorcida, a integridade do seu eu está desde o início completamente destruída.

Não tem saída, se a arte requer entrega total é preciso recompor essa unidade. É preciso virar cisne.

Mas tem mais que isso, pra tornar o filme genial: a narrativa do filme é uma adaptação da história do Ballet. Nina é o Cisne Branco, Lily o Cisne Negro e Leroy ao mesmo tempo o príncipe e o feiticeiro. Além, é claro, daquelas firulas cinematográficas e tal, a atuação da Natalie Portman  e a caracterização da personagem como um todo lembram muito a da Catherine Deneuve em Repulsa, outro filme sobre o processo de enlouquecimento de uma garota, a montagem, o ritmo e o clima de paranóia são uma referência clara ao Bebe de Rosemary e por aí vai… Aliás, a montagem de Cisne Negro é uma das melhores coisas que eu já vi na minha vida. E claro, a escolha da Rodarte para os figurinos do Ballet, não só pelas roupas em si, mas pela carga de estranheza, onirismo e macabro que as estilistas carregam.

Talvez, tenha mais a ser dito, eu posso ver o filme uma segunda vez e ler por outro lado, acho até que você pode não ler nada mais profundo e ainda achar um ótimo filme.  Agora eu acho uma metáfora incrivelmente bem feita (com várias outras pequenas leituras que eu ainda não processei muito bem ) sobre uma sociedade de controle do corpo e dos instintos e sobre a vontade de se reunir com pedaços fragmentados de nosso próprio ser de uma forma, obviamente, impossível. Aliás eu acho que outro filme que fala um pouco disso mas de uma forma totalmente diferente é Onde Vivem os Monstros, eu escrevi sobre ele aqui. E aliás, achei a crítica do Pílula Pop sobre Cisne Negro muito boa (a do Escorel, pra Piauí, tá nos favoritos pra ler depois ).

Agora assim, Cisne Negro é um filme que me arrebatou mais, por ser construído pra isso, mas eu ainda acho A Rede Social um filme mais maduro, por ser menos moralista e mais bem construído cinematograficamente e que merece sim todos os prêmios de melhor do ano (caso ganhe).

*Quão irônico é que esses dois filmes entraram no cinema com censura 18 e uma menina de 14 anos podia alugar os dvds sem maiores complicações?