Bomba relógio

Eu gostaria de confiar em você. Eu gostaria de conseguir ficar ali, com a cabeça no seu colo, quieta, feliz. Um pouco feliz pelo menos. Mas eu não consigo. Eu não sei. Eu nunca aprendi.

Você me diz que, enquanto estiver aqui, eu não preciso fazer sozinha nada que não queira. Mas você não sabe. Você não tem ideia da minha solidão, de como ela escorre pelas rachaduras, de como ela se emaranhou no meu cabelo, de como ela é tudo que eu já conheci. Você não tem ideia da minha dor e você não sabe o que está oferecendo, você não sabe onde está entrando.

E eu não acredito.

Na impossibilidade da felicidade, eu tento um substituto: leveza. Eu aceito a declaração com um sorriso, mesmo que eu não acredite. Eu me deixo pegar no sono com seus dedos traçando as sardas das minhas costas. Mas eu não acredito.

Eu poderia adormecer do mesmo jeito se você seguisse as cicatrizes nos meus tornozelos? Por quanto tempo você pode fingir que não viu? Quanto tempo até reparar que eu não durmo durante a noite? Quanto tempo até ver minhas mãos tremerem? Até sentir meus cabelos caindo nas suas mãos? Quanto tempo até eu gritar, enlouquecer, transformar sua vida em um inferno? Quanto tempo até você ver nos meus olhos tudo, menos o que te fez ficar?

Mas eu tento não pensar.

Você me diz que foram meus olhos. A transparência deles, mais que a cor. Eu lembro bem como te olhei a primeira vez, como eu percebi em um milésimo de segundo que eu precisava de menos do que um sorriso para te ter. De como eu me senti quase como um gato brincando com uma presa que não pretende comer. No máximo oferecer de presente para o dono.

Mas eu sou menos horrível do que gosto de crer. Menos horrível do que te disseram. Eu nunca tive medo do que aconteceria se eu seguisse brincando, se eu não ficasse. Meu medo sempre foi outro. E se eu realmente entrasse na sua vida, toda a escuridão, toda a dor, toda a corrupção que eu traria? Eu não quero te dar nada disso.

Então eu tento evitar.

Leveza.

Eu estou bem agora, então você não precisa de nada disso. Eu não preciso de nada disso. Não agora. Não por enquanto. Eu não preciso fazer sozinha nada que não queira, mas você não sabe as coisas que `as vezes eu quero fazer. Mas não agora.

Eu me sinto como alguém que foi espancada por gangsters russos drogados de cocaína e sobreviveu. Eu sobrevivi e o que quer que tenha me levado a isso não está mais aqui. Mas meu corpo sente as marcas. Eu ainda estou coberta de manchas roxas e cicatrizes e elas doem quando tocadas. Meu corpo, já pequeno, com frequência se encolhe na esperança de ocupar ainda menos lugar no espaço, de desaparecer, de não precisar passar tanto tempo olhando essas feridas, esperando que elas sumam, sabendo que se tornarão cicatrizes. Maiores e mais visíveis que as linhas finas que eu tenho nos tornozelos.

De tudo, eu odeio a autopiedade. Eu odeio quando de repente, sem motivo, eu lembro. Eu odeio quando acho que o vejo numa esquina. Ou quando de onde eu vim segue sendo de onde eu vim. E eu lembro. E de repente eu me sinto no direito de toda a dor, todo o fracasso. Você não sabe o quanto eu me sinto no direito de desistir. Mas eu não quero.

Não hoje. Não ainda.

Não ainda.

Eu queria confiar em você, mas eu não posso. Eu queria fazer planos, mas eu não sei. Eu queria poder prometer tudo que se promete nessas horas. Mas não eu. Eu não consigo.

Por enquanto eu gosto de achar que você pode ficar sem promessas. Eu sei que não pode, não por muito tempo. Mas eu tento não me importar. Leveza no lugar de felicidade. Tentar não me importar com tudo que não pode ser, pelo menos por enquanto, por agora.

 

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