música

Disseram por aí que eu era a Taylor Swift dos blogs

Há muitas coisas nessa vida das quais eu não me orgulho. A frequência com que tenho postado aqui. A quantidade de livros que compro. Aquele ex namorado desgraçado. A frequência com que ouvi Taylor Swift na semana passada.

Eu poderia pedir perdão. Eu poderia ter fotografado o olhar de julgamento das pessoas que trabalham no mesmo recinto que eu. Mas eu vou apenas me justificar.

Dia desses eu dei carona para uma amiga saindo do ballet. Talvez um bom termômetro de amizade seja o fato de que você simplesmente coloca um cd (sim, inteiro) da Taylor Swift para tocar mesmo com alguém de carona no seu carro. Esse alguém certamente a ama apesar de qualquer vacilo. Enfim, dei carona para um amiga que me disse: “é porque você é a Taylor Swfit dos blogs.”

Hum…

Eu lembro desse outro amigo que um dia me disse “eu jamais tentaria ficar com você porque não quero acabar post de blog.” Justo” foi a única coisa em que consegui pensar. Às vezes me pergunto quantos relacionamentos meus foram estragados pela consciência que eles podiam ter que, mais cedo ou mais tarde, menos ou mais poeticamente, iam acabar expostos para toda a internet.

Eu tive esse namorado que se incomodava profundamente com eu fazer do overshare profissão. Com os pedaços dele que iam parar em roteiros, ensaios, contos. Ele lia obsessivamente uma intenção no roubo, um desejo oculto nas tramas. Anos atrás, matei meu melhor amigo no meu primeiro conto publicado e até hoje  tenho um gosto amargo no fundo da boca, um medo da culpa que vai me corroer quando ele for embora (porque algumas pessoas nesse mundo existem para ir embora cedo demais).

Meu projeto de arte é uma exposição extrema. A exposição tão extrema faz com que nenhum potencial assunto desse site seja desavisado. Você, ao tomar minha mão pela primeira vez, assina uma espécie de pacto com o diabo em que aceita tornar-se palavra, texto, personagem.

Taylor Swift dos blogs.

Mas minha paixão não justificada (só acredito em amor irracional, perdão, qualquer ser com um mínimo de senso sabe que vai dar merda) não é bem por isso. É aquela identificação real, brega, honesta, “de raíz”, com as letras das músicas.

Meu relacionamento com a Taylor Swift começou no momento em que notei uma letra que dizia basicamente “the haters gonna hate, the players gonna play e ¯\_(ツ)_/¯”. Eu lidei muito mal da primeira vez que alguém me odiou gratuitamente (gratuitamente as in eu não estava pegando regularmente o namorado dela, quando esse foi o caso eu apenas aceitei meu destino). Eu demorei muito tempo para assimilar o fato de que não importa o que eu fizesse, quão simpática ou civilizada eu fosse, uma certa fulana me odiava e deixaria isso claro para todo mundo.

Eu ainda hoje me incomodo que meu nome surja  em mesas de bares, com os julgamentos. Com os conselhos de “você não deveria chegar muito perto” que caras que eu honestamente queria receberam. “And I know you’ve heard about me”, mas eu preferia que não. Esse ano eu fui embora e uma das coisas que eu busquei foi descobrir como era não ter uma história, não ser a garota-problema, não ter lidado com seu último fora bebendo cada gota de álcool da casa, não ter levado para cama absolutamente cada cara que te apresentaram nos últimos dois anos.

Mas a verdade é que você não se livra da própria história e talvez a sabedoria popular esteja muito correta quando te manda deitar na cama que você mesmo armou. Você pode aceitá-la, pode rir, pode achar razoavelmente irônica a ideia que fazem de você e da infinita lista de homens, de vexames, pode vestir a carapuça e torná-la de uma honestidade quase desconcertante ” I’ve long list of ex-lovers, they’ll tell you I’m insane.”

E daí talvez esse cd ridiculamente chiclete tenha me ganhado em “it’s like I’ve got this music in my mind saying it’s gonna be alright”. Eu fui a adolescente mais esnobe do mundo com gosto musical. Eu fiz mestrado em cineastas suecos. Mas ultimamente minha maior identificação é com algo que me diga que tudo vai dar certo. Aliás, que diga que uma música no fundo da sua mente te fala que tudo vai dar certo. O que provavelmente quer dizer que os fatos não apontam exatamente nessa direção.

Eu tenho dias bons e dias ruins. Por muito tempo eu achei que os dias ruins no meio dos bons seriam menos perigosos. Não são. Eles te pegam de surpresa, eles puxam seu tapete, eles se tornam piores pela sensação de recaída, de fraqueza, de estar equilibrada em fundações de madeira podre. É em um dia ruim no meio de dias bons que se pula da janela. Que se passa a gostar de Taylor Swift porque é preciso acreditar que vai ficar bem, que uma hora vai ficar bem.

Mas de todas as músicas do cd, talvez a que eu mais goste é uma que diz “we found wonderland, you and I got lost in it”. Há poucas coisas que me interessam mais do que essa perspectiva obscura do prazer, do amor. Há um perigo  gritante em se isolar em um universo muito próprio, em achar que o amor basta. Ele nunca basta e ele te mergulha em você mesmo. Nem todo mundo pode mergulhar em si mesmo.

Eu gosto da pequena pílula de obscuridade, da honestidade em dizer que “somebody lost their mind”, em assumir que o amor é uma espécie de droga que te leva a lugares em que você não queria ir. Acho que nenhuma bad trip que eu tive na vida foi tão intensa quanto ter que perceber que o universo meu e dele nada mais era que isso, só meu e dele, e não podíamos continuar existindo ali. Que havia dor demais e dependência demais e escuridão demais para que se pudesse respirar ali. Levei pelo menos dez anos para perceber isso e admiro, um pouco que seja, qualquer um que pode perceber também.

Se falamos em esnobes de música, eu poderia ser como Rob Gordon e me perguntar “eu sou miserável por que ouço música pop ou ouço música pop por que sou miserável?” Eu faço esse overshare terrível porque cantoras me ensinaram a fazer assim ou eu gosto de cantoras completamente overshare porque é como eu seria de qualquer maneira? Eu seria capaz de gostar desse maldito álbum da Taylor Swift se não soubesse que ela provavelmente passou por tudo que está contando ali?

Eu acredito na identificação completamente instintiva e quase vergonhosa da música pop. Sendo assim, sobrava pouca coisa para o blog mais overshare dessa internet além de vir falar da cantora mais overshare dos tempos atuais. E se identificar com “I go on too many dates, but I can’t make then stay, at least that’s what people say”

“Just ‘cause you feel it doesn’t mean it’s there”

Eu tenho certeza que um dia desses morrerei no meio da Paulista, vou cair dura, sem mais nem menos, com fones de ouvido na cabeça. Causa mortis: coração destroçado por excesso de Radiohead.

Eu não preciso ouvir a voz do Thom Yorke, eu só preciso reconhecer o primeiro acorde para sentir meu sangue correr mais devagar, meus músculos contrairem e uma eletricidade passar pela minha pele, a espera da dor que vai vir. E ela sempre vem.

Eu poderia parar de ouvir música no shuffle, me proteger dessa onda de sofrimento que pode vir a qualquer momento, quando eu menos espero, me desconcertando quando preciso atravessar a rua. Poderia deletar todos os álbuns do meu computador e do meu ipod, ninguém precisa voluntariamente se expor a um espancamento desses. Ninguém precisa correr o risco de ter essa bigorna caindo na cabeça a qualquer momento do dia, justamente quando tenta não enganchar o salto no vão do metrô, ou não colocar fogo no cabelo ao acender um cigarro.

Mas quando meu cadáver for encontrado no meio da Paulista, muitas horas depois e já pisoteado pelos pedestres, eu terei um sorriso no rosto. É puro masoquismo. Como quem precisa de mais dor para sentir mais prazer, como quem só vai gozar com as costas em carne viva de chicotadas. A felicidade que eu sinto cada vez que Thom Yorke me inunda de dor me impede de parar, a imensa felicidade cada vez que acho que meu coração não vai aguentar.

Nem todas as músicas são iguais. True Love Waits é como destruir meu coração com um martelo de carne, é golpea-lo até que tudo que sobre é uma massa nojenta de carne vermelha, sangue e veias, completamente disforme e repulsiva. High and Dry é senti-lo se encolhendo, ficando menor e menor até deixar de existir, consumido pelo espaço que ocupam os meninos que essa música me lembra. E There There é como se uma agulha muito fininha fosse introduzida devagar bem no centro do meu coração. É uma dor aguda, pontual e agonizante quando ouço “just ‘cause you feel it doesn’t mean it’s there”

O quanto do que a gente vive existe fora da nossa cabeça? É uma questão epistemológica antiquíssima: o quanto posso saber do mundo? como posso ter certeza que tudo não é só uma peça, uma ilusão, que nada de concreto existe? E se no fundo tudo isso, toda essa vida é só uma viagem muito louca de ácido que alguém tem em 2050? E se somos só o sonho na mente da velhinha?

Ok, fui longe demais no ceticismo, mas a questão continua válida: quanto do que a gente vive não existe apenas na nossa cabeça? A vida é um eterno interpretar as coisas. Interpreto desde o homem andando na minha direção na rua a noite, ao aceno de cabeça do meu aluno ao whatsapp do cara em que estou interessada. Interpreto o tom da minha melhor amiga no email que ela me mandou e da secretária do médico quando ligo pedindo uma consulta. Preciso interpretar, é o processo de fazer o mundo exterior passar para dentro da meu cérebro e se tornar inteligível, mas quanta objetividade existe nesse processo? Quanta objetividade pode existir nesse processo quando se trata da comunicação entre duas pessoas cujos sentimentos são, em algum nível, desconhecidos?

Eu já me vi diante de uma situação que me fez pensar que dessa vez eu realmente tinha ficado louca, esqueça depressão ou ansiedade, algo dessa vez deu muito errado na química do meu cérebro e eu passei um ano vendo algo que não existia. Quer dizer, tudo existia, concretamente os fatos existiam, só não existia a narrativa que eu imaginava ligá-los. Eu alucinei? Eu quis tanto que algo acontecesse que vi mesmo que não tivesse acontecendo? Revisei a história histericamente, pedi confirmação de cada trecho, repeti para meu analista até ele concordar que não, eu não estava tão louca assim e por mais que eu tivesse interpretado errado, havia alguma base na minha interpretação. Mas qual a possibilidade de se interpretar certo?

Cada vez que eu tenho a impressão de estar flertando com um cara eu me pergunto “será que estou alucinando e ele não tem nenhum interesse em mim?”. Por mais que eu sinta o interesse, isso não quer dizer que ele está lá. O que dizer quando esse interesse é mais do que puro “eu queria te beijar”? Do sentimento de alguém gostar ou se importar com você e não, não é porque você sente que ele é real.

A comunicação humana é em si um abismo. Nos centímetros de ar entre quem fala e quem ouve há tantos infinitos processos microscópicos, tantas variáveis de neurotransmissores, vibrações do som, repertório, que eu me surpreendo que nós possamos nos comunicar com qualquer grau, mesmo que mínimo, de eficiência. Eu me lembro bem dessa parte das aulas de teoria da comunicação, a comunicação é a dinâmica entre quem enuncia e quem recebe e o espaço que os separa. E os espaço que os separa pode ser infinito.

Eu e um habitante do Quirguistão somos ambos humanos, mas eu não duvidaria que seja mais fácil me comunicar com meu gato ou com um eventual venusiano que baixe aqui na Terra. Começa na língua, mas é mais que isso, é a radicalidade absurda da diferença de vivências. Comunicar requer compartilhar alguma experiência comum, algum lugar comum onde possamos nos entender. E se cada um viveu a mesma coisa de forma completamente diferente? E se minha experiência e a dele nada tem a ver uma com a outra? E se o que eu sinto não está lá? E se o que está lá ele não sente?

Cada vez que Thom Yorke me lembra disso, uma agulha pontuda e fina é enfiada no meu coração. Ela vai abrindo caminho devagar, afastando sentimentos e me lembrando que não, não é porque eu sinto que está lá.

There’s always a siren
Singing you to shipwreck
Steer away from these rocks
We’d be a walking disaster

Pj Harvey, eu queria ser você

I was born in the desert
I been down for years
Jesus, come closer
I think my time is near

And I’ve traveled over
Dry earth and floods
Hell and high water
To bring you my love

Houve um tempo em que eu fui muito obcecada com a PJ Harvey. Acho que ela foi um pouco minha transição do punk rock/hardcore para coisas um pouquinho mais elaboradas e um pouco mais leves, o meio do caminho entre Sex Pistols e Fiona Apple. Ela era barulhenta, desesperada, sexy de um jeito cru, violento, e tudo isso, por um bom tempo, me atraiu incontrolavelmente.

Eventualmente a obsessão passou, embora ainda seja das minhas cantoras preferidas, mas algo nela me fascina muito até hoje: a capacidade de expressar tanto desejo, de se colocar inteira ali como ser que quer, desesperadamente.

C’Mon Billy, por exemplo, implora tanto, mas tanto, de uma forma tão absoluta, tão entregue, para que o homem volte. Ou Oh My Lover em que ela vai dizer “you can love me and you can love her at the same time” e Send His Love To Me. São muitas músicas em que tudo que ela quer é alguém de volta.

Me fascina porque eu sou incapaz de chamar um cara para o cinema. Não é timidez, nem falta de traquejo social (embora eu seja sim bem socially awkward), é só absoluta incapacidade de me colocar em um lugar vulnerável, uma fobia irracional de ser aquela que quer e não pode ter, de dar a carta de que me importo.

Se eu me importo, eu sofro.

Vejam bem, eu não demonstrar não quer dizer que eu não queira. Eu não demonstrar não quer dizer que eu não acabe chorando durante todo um jantar no PJ Clarks em que um conhecido estava na mesa ao lado só porque tinha perdido alguém (pelo menos eu reconheço todo o ridículo dessa história, não é mesmo?). Mas no meu cérebro doentio algo diz que se eu não abrir a brecha, se eu não assumir que me importo, então talvez isso não seja de verdade.

O meu maior desejo era conseguir, afinal e realmente, ser fria, gelada, distante. Eu não quero, não me importo, não sinto mais nada.

Tenho falhado terrivelmente nesse objetivo.

E daí eu me encanto com a Pj Harvey que é o oposto disso. As metáforas dela todas tem a ver com fogo, inferno, deserto. Ela rasteja no chão, se contorce de desejo, se expõe inteira e deseja. Eu fico maravilhada com alguém que escreve letras, constrói músicas e canta de um jeito que é todo exposição, todo entrega, como quem arranca a própria pele para se dar para o outro.

E não é que eu não me exponha. Vamos parar um minuto e clicar naquela categoria ali do lado chamada “overshare”. Eu me exponho, muito, mas é diferente. Cada texto aqui que é um overshare enorme ganha ares de metáfora, uma reflexão sobre um assunto qualquer e mais que tudo, eu não peço, eu nunca peço. Nem no simples pedir concreto nem nos textos. Tem muita dor exposta aqui, muita quebra, jamais desejo.

Eu gostaria de conseguir assumir um pouco disso, formalmente eu gostaria dessa visceralidade, dessa coisa carnal, impulsiva, menos limpa, menos poética. Desse exposição que parece mais suja de sangue e ossos, que é atirada na cara daquele que ouço. Eu gostaria que a minha escrita tivesse esse tipo de força. Eu gostaria que ela fosse uma escrita menos do que eu já perdi e mais do que eu ainda quero.

Eu gostaria de ser capaz de assumir tudo que eu ainda quero.

Eu não gosto nenhum pouco na verdade dessa imagem de rainha do gelo. No meu desespero e no meu cansaço eu desejo muitas vezes não sentir mais nada, não querer, não me afetar, mas no fundo eu detesto a ideia.

Parte de mim anda muito cansada de se dizer o tempo todo que sentir é errado, que querer é errado, que eu estou sendo ridícula cada vez que permito me apegar um pouquinho.

(Não que as estatísticas dos tempos recentes não confirmem a ideia de que é ridículo sim)

Uma parte de mim gostaria de parar de pedir desculpas por se envolver. Parte de mim queria ser capaz de ser Pj Harvey dizendo “I can’t belive that live is so complex, when I just wanna sit here and watch you undress”. Simples, simples expressão de que quero sim, sofro sim, não sou essa pedra de gelo que quero tanto parecer ser.

Acho que o que mais me encanta na Pj Harvey não é apenas esse desejo louco e desesperado e a coragem em expressa-lo, mas o como isso, ao mesmo tempo que a torna tão obviamente vulnerável, não faz dela a vítima. O desejo, mesmo não correspondido, é ativo, é dela. Mesmo o sofrimento absurdo por alguém que não está, a confissão de que se faria de tudo para que ele voltasse não há torna ridícula.

Acho que tem algo de trágico ali. Algo de defeito trágico no desejo da Pj Harvey, sabe, como todo herói de tragédia grega tem uma falha que inescapavelmente o destrói. Ela se auto-destrói no tanto que deseja e isso de certa forma a descola do outro. Ela existe sem ele, ela existe em sua dor e vontade e sacrifício. Há uma espécie de força nesse rastejar todo.

Não tenho certeza se o último parágrafo fez algum sentido.

Mas eu admiro, e invejo, a coragem de quem rasteja no chão e se expõe no risco de não ser correspondida. Eu não consigo. Eu recolho bloquinhos de gelo enquanto queria mesmo rastejar em areia do deserto. Rastejamos hoje na aula de dança moderna, achei poucas coisas que já fiz na vida tão sensuais quanto rolar no chão, andar como um gato e sentir o peso do meu corpo estirado, mole, se movimentando de uma forma muito lânguida, nessa ideia de estar toda em contato com uma espécie de terra (chão de tacos de madeira, mas enfim né). Às vezes noto o quanto tenho retirado o calor do meu rosto, o quanto assumo uma beleza de princesa das neves, fria, inatingível. É mais desejável a pessoa que deseja, há uma energia sexual imensa na PJ Harvey que implora, há vida.

Nessa busca por ser inatingível eu mato muita coisa, eu arranco muito do que é vivo em mim.

Não queria, não queria a proteção que vem as custas dessa morte. Não queria essa segurança que é Admirável Mundo Novo, essa ideia de que é melhor ficar mais ou menos bem o tempo todo do que arriscar sofrer. Aquele discurso, “I want laughter, I want real sin” é uma das minhas partes preferidas da literatura.

E nem é como se eu estivesse bem, para começar.

Talvez eu preferisse passar a sofrer de desejo, essa dor que sangra de verdade, sangue quente e vivo, do que pelo que não pode ser e só faz necrosar partes minhas que eu ainda quero.

 

In the suburbs I learned to drive

And show her some beauty
Before all this damage is done

Tenho alguém que me diz que, de todas as coisas que poderiam dizer muito sobre mim, o fato de minhas duas bandas favoritas serem Belle and Sebastian e Nine Inch Nails é a maior delas. Eu dava risada, bagunçava o cabelo dele e disfarçava que eu sabia muito bem o quanto isso era verdade e que ele havia voltado para minha vida no show de uma banda que parecia “Nine Inch Nails meets Belle and Sebastian” só para sair de novo.

Eu sempre pude entender, e explicar, porque Belle and Sebastian. Porque algo que parece fofo, mas é terrivelmente melancólico, as letras sobre tédio, desajuste e sobre saber que no fundo não se morre de amor, há coisas piores, há dores piores. Eu sempre pude ler as letras das músicas e me sentir exatamente como um personagem nelas. É como aquele amor pela pessoa que tem gostos em comum, que você pode explicar o que ama nela, porque se apaixonou.

Nine Inch Nails é diferente. É a banda que eu escolheria se precisasse escolher apenas uma banda favorita, embora existam algumas coisas que eu ouça com mais frequência. Eu não consigo viver de ouvir o The Downward Spiral, nem mesmo o The Fragile o tempo todo, como talvez eu não conseguisse viver com o cara pelo qual eu fui desesperadamente apaixonada, porque tudo era tão envolvente que era tóxico demais.

Mas nesse fim de semana, vendo o show deles de novo, depois de dez anos, algo fez muito sentido. Nine Inch Nails não é minha banda preferida por qualquer motivo articulável ou explicável, mas porque o Trent Reznor transforma em som o barulho dentro da minha cabeça.

Não é algo agradável de se perceber, nem uma resposta que eu estivesse ativamente buscando. Eu só estava ali, no alto de uma colina, ao mesmo tempo feliz e angustiada como nunca (porque se você está apenas feliz em um show do NIN supondo que esteja fazendo errado) em um dos momentos entre as músicas em que tudo era barulho, estranho, esquizofrênico, claustrofóbico, e eu percebi. March of the Pigs é como viver dentro da minha cabeça.

Se não é uma percepção exatamente desejável, há algo muito reconfortante nisso. Há algo de um acolhimento enorme em se perceber que alguém pode fazer algo que traduz perfeitamente a experiência de ser você. Você não está sozinha. Não é assim tão defeituosa, quebrada, incompreensível quanto querem te fazer acreditar que é. Mais do que tudo: você não está sozinha. Sei que repito, mas não sei se conseguirei algum dia expressar o como me sinto quando percebo que não estou sozinha.

E talvez seja esse um dos grandes motivos porque somos tão atraídos pela música, ou pelo menos pelo qual eu sou tão atraída pela música: é um jeito de perceber que não estamos sozinhos.

Eu gostaria muito que a Lorde existisse quando eu tinha dezessete anos. Eu gostaria demais de um álbum que é tanto sobre tédio e matar o tédio em outra pessoa e a sensação de estar esperando para que sua vida aconteça. Eu não tenho dezessete anos há muito tempo, mas ainda há algo nas letras dela que me transporta de volta, que me lembra daquele tédio gigante, onipresente, dominador. Acho que poucas experiências da minha vida foram tão formadoras quanto aquele tédio e eu gostaria muito de não ter estado sozinha.

Tenho pelo The Suburbs o mesmo amor da experiência compartilhada de tédio. Do tédio olhado para trás, anos a frente, quando nos tornamos outras pessoas e declaramos guerra ao passado, aos subúrbios, ao tédio. “They told us we’d never survive” e não sobrevivemos mesmo. Nem juntos, nem separados.

No show o Win Butler disse que The Suburbs, e possivelmente todas as músicas deles, são sobre saudades. Entendo, sempre achei que eram mesmo, sempre senti essa saudades agridoce de algo que não foi bom, mas que hoje por qualquer motivo há saudades. Tenho saudades dele, tenho saudades do vento no meu cabelo quando descia ladeiras de bicicleta, tenho saudades do sol de fim de tarde na beira da piscina em verões infinitos. Mais que tudo tenho saudades de quando eu ainda achava que as coisas poderiam fazer sentido.

Ouvir The Suburbs, poder não ter limites ao gritar “when the first bombs fell we were already bored” foi uma das melhores experiências da minha vida. Ao contrário da noite anterior, no show do Arcade Fire eu estava apenas feliz, porque não era como um mergulho no ruído do meu cérebro, mas como um abraço de alguém que por dez anos vem cantando essa coisa extremamente amarga e linda e doce e sofrida que foi virar adulta. Em mais dias do que eu gostaria eu penso que deveria tatuar “businessmen drink my blood like the kids in art school said they would” na minha testa, só pra não esquecer do quanto é verdadeiro.

Eu não acho que algum dia, nesses 25 anos, estive tão feliz quanto naquela uma hora e meia. Não acho mesmo. Não acho que estive tão em paz, não acho que realmente já tinha parado de desejar estar na Índia, na Tailândia, em Roma. Ontem a noite, nenhum lugar do mundo era melhor do que a plateia do Arcade Fire. Nesse fim de semana, nenhum lugar foi melhor do que aqueles palcos. Em nenhum outro lugar eu veria o Trent Reznor, ou daria pulinhos felizes em um gramado ensolarado cercada de gente amada. Em nenhum outro lugar eu teria vontade de chorar da pura felicidade daquelas músicas.

Eu não conseguiria, e nem quero, explicar porque nunca na vida fui tão feliz quanto ali. Eu não conseguiria explicar porque eu percebi que NIN é como o som na minha cabeça. Quando eu saí do Nine Inch Nails eu me sentia tão realizada que fiquei por algum tempo pensando se haveria um texto enorme ou se eu simplesmente não diria nada. Acabei optando por um texto só, para tudo, para todo o fim de semana, pelo meu coração partido em Hurt e o sorriso que eu não conseguia conter em Wake Up.

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Fiona Apple, minha educação sentimental

Em um momento de Simplesmente Amor, a personagem da Emma Thompsom diz que foi a Joni Mitchell quem lhe ensinou a sentir e a salvou de ser uma inglesa fria. Embora (ao contrário do resto do mundo) eu não ame esse filme, gosto muito dessa frase, da ideia de que um artista, quem quer que seja, possa não só expressar seus sentimentos, mas te ensinar a te-los. Acho que tenho essa relação com a Fiona Apple, Fiona me ensinou a sentir.

Eu ouvi Paper Bag pela primeira vez aos 14 anos. Era 2003, eu estava deitada na minha cama e não podia parar de colocar essa música no repeat e me perguntar por que o cara com quem eu vinha ficando esporadicamente há alguns meses acabou decidindo namorar uma outra menina. Uma outra menina que eu era obrigada a ver todos os dias. Mais alta, mais magra, sem unhas pintadas de preto, diários e um livro da Simone de Beauvoir embaixo do braço.

Aos 14 anos, Fiona me ensinou que “I know I’m a mess he don’t wanna clean up”

Foi diferente de ouvir uma música que expressasse aquilo que eu sentia, naquele momento, Paper Bag foi a música que colocou em palavras o que eu não sabia que sentia. Eu definitivamente não sabia que thought it was a bird but it was just a paper bag.

Anos depois, quando eu já mal lembrava de tudo isso, quando eu já tinha vivido tantas outras coisas, entrado e saído do meu deserto particular, eu finalmente prestei atenção e entendi que “hunger hurts but starving works”. Fiona me explicou, em uma frase, o que eu tinha passado tantos anos fazendo.

Se paro para pensar, se paro para fazer uma breve retrospectiva do que afinal eu aprendi com aquela moça magrela, de enormes olhos azuis que ganhou um grammy dizendo “this world is bullshit”, eu percebo que o que ela realmente me ensinou não foi a sofrer, ou o vazio como outro lado do amor, mas que ela conseguiu dar nome e tornar palpável aquela sensação que me rondava, mas eu nunca pude entender: o medo de mim mesma.

Fiona sempre teve muito medo de si mesma. É óbvio pensar em Criminal, na forma tão honesta com a qual ela confessa que partiu o coração de um rapaz só porque podia (e eu sou culpada do mesmo crime), mas minha epifania veio com Fast As You Can. Quem, em sã consciência, diria ao cara que gosta para se afastar, porque não pode confiar em si mesma, porque não quer transformar a vida dele em um inferno, porque mais cedo ou mais tarde vai ficar um monstro agressivo? Fiona Apple diria. E eu.

Talvez eu nunca tenha sentado na frente de alguém e dito isso com todas as palavras, acredito que ela também não, mas só porque eu nunca encontrei o altruísmo para isso. Porque no fundo eu sempre decidi correr o risco de infernizar a vida deles porque não queria ser deixada. Mas eu sempre acreditei que qualquer um estaria mais feliz longe de mim.

As músicas dela me ensinaram que existe as vezes um real descontrole do que existe dentro de si. Ao ouvi-la cantando sobre a própria desconexão de si mesma, sobre a certeza de ser mais bagunçada, mais arisca do que qualquer um estaria disposto a aguentar eu não me identifiquei, eu me descobri. Eu não tive a sensação de ser abraçada e consolada pela sensação de que outras pessoas no mundo se sentiam como eu. Eu me senti sentada na frente de um mapa em que ela apontava os territórios, divididos, nomeados, bem desenhados, do que eu sentia.

Sempre achei “arisca” uma palavra muito boa para mim. Eu posso ser um ser humano extremamente sociável, desde que você não faça movimentos bruscos, ou chegue perto demais. Há uma espécie de distância segura que precisa ser respeitada para que eu não tenha medo do meu interlocutor, ou de mim mesma. Um espaço de manobra em que eu posso esbarrar em tudo sem fazer grandes estragos.

Esse texto surgiu porque me peguei ouvindo Left Alone em loop. Neste último álbum eu tive a sensação de que afinal minha educação havia terminado: eu estava mais velha, já me conhecia bem o suficiente, Fiona também, já parecia mais capaz de não se bater tanto contra paredes forradas de pregos metáforicos. Eu já não precisava aprender, ela já não precisava me ensinar e eu pude me identificar com as músicas, ter a sensação de que mais alguém no mundo compreendia e podia expressar melhor que eu as coisas que eu já havia visto dentro de mim. Mas não Left Alone.

Left Alone foi como quando, no teatro, um foco de luz se abre e revela o palco todo que até então não podíamos ver. Todo um universo que antes estava oculto para nós, espectadores confinados ao pequeno círculo iluminado. “How can I ask anyone to love me, when all I do is beg to be left alone?”

Eu não me identifiquei, eu me peguei, pela primeira vez, olhando de frente para o espaço entre o desejo de ser amada e o de ser somente minha, completamente minha, de ser sozinha.

Eu me peguei voltando a música e ouvindo, de novo e de novo que ela se tornou dura demais, fria demais, que tudo doeu mais do que deveria doer e talvez o amor dela tenha estragado alguém. Eu me peguei voltando a música e chorando, não de tristeza, mas de amargura, de uma amargura consciente demais para poder ser triste. Cada vez mais tenho achado que a tristeza é algo para os românticos inocentes, a essa altura, se quero sobreviver, já não posso me dar ao luxo.

“My love wrecked you” é uma confissão que eu nunca poderia fazer para mim mesma. Que eu precisei que Fiona Apple me ensinasse que pode ser feita. Eu precisei que ela me ensinasse que ativamente exijo  das pessoas que me deixem em paz. Parte de mim até gostaria de implorar para ser amada, mas não, eu apenas quero ficar sozinha.

Fiona me ensinou muito sobre mim mesma, principalmente sobre as partes escuras, ou incontroláveis. Sobre as partes que cometem erros mesmo sabendo, que gostam de desfazer o próprio caminho, que tem medo, espinhos, arestas. Que são demasiado ariscas.

And now I’m hard, too hard to know
I don’t cry when I’m sad anymore, no no
Tears calcify in my tummy
Fears go inside of my toe

Planejando uma rota de fuga

Eu acho que preciso me planejar melhor antes de entrar em relacionamentos.

(não, esse não é um texto surrealista, não estou tentando captar o absurdo da existência ou das interações interpessoais, embora elas sejam absurdas, nada assim)

Não quero dizer me planejar no sentido de tentar medir o potencial de merda de uma coisa antes de começar. Afinal, o que seria desse blog se eu parasse de levar foras? O que seria da minha, já falida, carreira artística se eu não tivesse mais relacionamentos disfuncionais, maníacos obcecados ou ex psicopatas? Imagina se um dia eu tenho algo estável e saudável com um cara que não beire a loucura diagnosticada? Tenho medo que eu derreta tipo a Malvada Bruxa do Oeste, prefiro não arriscar.

Não, obviamente não é disso que eu falo. Há poucas coisas nessa vida que rejeito mais do que a ideia de medir os riscos e evitar sofrimento. Essa coisa toda já é longa e entediante o suficiente com eu me enfiando em todo tipo de erro.

Mas por exemplo, há um tempo atrás eu comprei um vestido para sair com um cara (ok, talvez não tenha sido por isso, mas vou tomar uma licença artística pelo didatismo), a coisa toda já acabou faz tempo e eu ainda estou aqui pagando parcelas. Cada vez que vem minha fatura do cartão e eu vejo aquela parcela da Farm é como se tomasse um tapa na cara me lembrando de tudo aquilo que podia ter sido e não foi. Quer pagar em crédito ou débito? Quero em arrependimento, esprit d’escalier e frustração em cinco parcelas, por favor.

No fundo do meu quartinho de empregada tem um dvd que um ex-namorado me deu de um filme que nem é bom, mas tinha a ver com um apelido que ele me chamava. Nunca mais verei esse filme, nunca mais posso ver a caixa do dvd sem pensar em todo aquele longo relacionamento arrastado e entediante que eu levei anos pra terminar. Poderia passar o dvd para frente, mas estou guardando para o museu dos relacionamentos partidos, aquele onde minha vó diz que eu teria uma exposição de sucesso. Sorte que o filme nem é bom.

Acontece que às vezes os filmes são bons, as músicas são ótimas, a cidade é adorável. E eu não consigo mais voltar a eles.

É uma mania irritante e terrível essa de associar coisas às pessoas. Músicas, principalmente músicas, sou como um cachorrinho de Pavlov que nunca mais poderá ouvir Adeus Você sem querer chorar. Sou alguém que nunca leu On The Road. Que não sabe se vai rever Adeus Lênin. Não é tudo relacionado aquela pessoa, mas é aquela coisa que por algum motivo me lembre da parte dele que faz falta. Ou da parte que eu odeio em mim.

O filme italiano que nem é bom me lembra da parte que eu odeio em mim. Adeus Lênin me lembra do meu aniversário de dezesseis anos. On The Road é tudo que há de encantador e profundamente frustrante nele. E eu realmente queria ter lido On The Road.

Nunca quis passar um ano inteiro sem ouvir Foo Fighters. Nunca quis perder meu ponto de fuga. Mas perdi. Porque não sei me planejar, porque misturo e confundo e tenho sempre aquilo que me lembra de algo que eu perdi no exato ponto em que mais dói.

Eu sou uma pessoa de cicatrizes mal fechadas. De cortes que eu teimo em abrir de novo e ficar cutucando porque dói, por motivo nenhum, apenas porque dói. Eu fiz uma tatuagem no pulso porque precisava da dor. E porque tive medo. O problema é que cada um desses fragmentos é como se eu sem querer errasse a mão e, em vez roçar de leve a faca naquela casquinha, eu a enfiasse de novo e rodasse dentro daquela ferida infeccionada e nojenta porque está lá há anos e eu não deixo fechar.

Não deixo nada fechar. Deixo as pessoas irem, mas não deixo a ferida fechar.

Como vinagre que jogaram em cima eu queria chorar todos os dias, o tempo todo. Comecei chorando no taxi, desejando aquele trânsito, aquele atraso, a chuva, o cancelamento, qualquer coisa. Era uma dor e uma falta em cada fibra do meu corpo.

Faz dez anos que eu abri um certo corte. Se fosse uma ferida concreta, ela já teria se infestado de vermes, virado uma escara e me obrigado a amputar o braço. Não acho que seja diferente com feridas emocionais, talvez o que tenha acontecido é que essa ferida apodreceu e precisei amputa-la, faz sentido, hoje em dia dói menos. Incomoda, como uma cicatriz que pulsa às vezes, mas não chega realmente a doer. Não mais, acho que por um tempo eu estava com aquelas pessoas que perdem um braço e ainda podem senti-lo, mas passou. Finalmente. Talvez eu até reveja Adeus Lênin.

Ainda não estou pronta para ler On The Road. Para voltar. Preciso realmente me planejar melhor.

Lana, a rockstar

Eu me lembro até hoje quando indiquei Lana Del Rey para uma amiga: “você precisa baixar, ela é absolutamente vazia, é maravilhoso”. Talvez isso só faça sentido pra amiga em questão, mas não tinha nada, nada mesmo, de pejorativo nessa minha frase. Eu gosto da Lana, gostei desde o início, gosto a ponto de ter tentado ir ver um show em Paris mesmo que ele custasse mais que o ingresso do Planeta Terra todo.

Não consegui ver o show porque os ingressos, para as duas datas, já estavam esgotados três meses antes do show. Curiosamente, ainda havia lugares para o Leonard Cohen, que tocaria no mesmo lugar em um mês. Vamos recapitular: Lana Del Rey, com seus dois anos de fama, esgota o Olympia mais rápido que o senhor Leonard Cohen. Eu gosto dela, já disse ali em cima, mas sério? sério mesmo?

O que me levou ao Planeta Terra não foi o show dela, foi o Beck. Mas além de todas as maravilhas, incluindo a filial do inferno que virou aquele asfalto, o horário dos dois show bateu. Vi 45 minutos de Lana, 45 minutos de Beck, perdi Loser, mas tudo bem porque todo mundo sabe que boas mesmo são Lost Cause e Where It’s At. Da Lana perdi o final, que dado aquele show todo, fiquei curiosa para ver.

Desde o início a conversa girava sobre a “autenticidade” da Lana Del Rey X Elizabeth Grant: a boca é silicone? É verdade que ela tem um caso com o dono da gravadora? Ou que é filha de milionários e o pai pagou pra Video Games viralizar? Eu achava isso engraçado, o quanto importa mesmo, ainda mais no mundo da música pop, se a moça é de verdade ou não é? Mas aparentemente, nesse caso importa.

Importa porque Lana cria um círculo sem fim: ela é uma imagem construída cantando sobre construir uma imagem. Você roda em torno do mesmo assunto e não tem nada ali, é só imagem mesmo. Eu acho de uma sinceridade maravilhosa, de um cinismo sem fim (sou sempre fã do cinismo) e também um tanto incômodo. Tanto que quando, no início do show, eu achei que tinha visto algo de verdade, aquilo me confortou.

O que sobe no palco é uma moça mais ou menos da minha idade, mais menininha do que mulher fatal, mais bonita do que nos clipes e nas fotos, extremamente simpática, parecendo genuinamente feliz. eu confesso que fiquei feliz, que achei que escreveria um texto dizendo que afinal, Lana Del Rey era de verdade. Então ela desce, abraça e beija os fãs, ganha presentes, ursinhos, coroa de flores e pelo telão tudo vai parecendo mais e mais distante, mais e mais artificial. De repente ela é de fato Jackie Kennedy e eu me sinto vendo uma transmissão da tv americana na década de 60 que quer me lembrar o quanto a primeira dama é sofisticada e humana e maravilhosa e que guerra fria?

E é aí que eu entendo que, proposital ou não, tem uma ambiguidade sutil nesse jogo: ela mesma diz “I even think I found god in the flash bulbs of your pretty cameras”. Não é falsa a felicidade da cantora, mas a gente continua no domínio da absoluta falta de espontaneidade.

Meu primeiro show foi Red Hot Chilli Peppers em 2002. Isso faz 11 anos. Nesses 11 anos eu vi uma quantidade considerável de bandas maiores e menores, mas só algumas vezes vi um verdadeiro rock star no palco, aquele domínio do público que é quase místico. Mick Jagger, óbvio, Dave Grohl, que não deixa o público esquecer a aura do Nirvana, que não deixa de ser o cara mais legal do mundo, Eddie Vedder e Lana Del Rey. Eu vi o Jack White e a Beth Ditto e eles são absolutamente incríveis, mas existe uma certa coisa mágica que acontece quando alguém tem o público tão completamente na palma da mão.

Há dois jeitos de conseguir isso: sendo Mick Jagger, Dave Grohl ou Eddie Vedder, reis em seu próprio domínio, deuses a sua maneira, com um misto de energia espontânea, nostalgia, adolescência, rebeldia, aquele rock de sempre. Ou entendendo as regras e agindo segundo elas, como Lana Del Rey. Ela sabe o que precisa fazer, sabe quando precisa passar uma bandeira do brasil no meio das pernas, quando precisa recitar a rotina do “faz tanto tempo que eu queria vir, prometo nunca mais deixar vocês esperando”. Lana tem só dois anos de fama, em abril estava em sua primeira turnê europeia e agora já está aqui, ela não deixou ninguém esperando, mas é a fala necessária e, portanto, ela a repete.

Não consigo dizer que não me incomoda. Incomoda. Ver ela conduzir uma plateia tão eficientemente sem um pingo de espontaneidade me incomoda. Não desgosto, ainda acho um tanto maravilhoso, talvez porque me incomode.

(em tempo: ela canta bem sim, bastante bem, embora eu não ache que isso importa)

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