Em 2014, eu perdi muitas coisas. Não foi um ano ruim. De modo algum. Foi um ano incrível, mas justamente porque eu perdi muita coisa.

Em 2014, eu fui um pouco como Jó: eu perdi tudo para perder a arrogância de que mereço algo, de que qualquer coisa nessa vida é dada por lógica, merecimento, mesmo bondade. Eu perdi tudo para poder aprender a forma certa de lidar com a vida.

Que é uma certa temencia, um certo medo. A consciência constante de que ela pode te tirar tudo, assim, do nada. A gente deveria lidar com os ganhos e as perdas da vida como se lida com o mar, com energia atômica, com feras selvagens. Algo impossível de se controlar, uma força desconhecida, perigosa, algo a se tratar com cautela e respeito, sabendo que você nada pode fazer se a maré decidir te varrer.

Talvez seja curioso me ver dizendo que no ano passado eu perdi muita coisa. Afinal, eu passei quase três meses pelo mundo afora, eu defendi um mestrado, eu consegui empregos. Mas tudo isso, mesmo nos momentos mais felizes, tinha um gosto de perda, me dava a sensação que tudo me escapava que nada daquilo era meu de fato.

Pode ser porque antes de tudo isso eu perdi a mim mesma. 2014 foi um eterno esforço de me segurar nas últimas franjas de mim que restavam, no último ponto que poderia me manter sendo eu.

Antes mesmo do ano começar, eu perdi alguém. Ele me deixou sem cerimônias, sem grandes adeus, sem lágrimas. Só foi. E é engraçado como nós só percebemos o espaço que alguém ocupa quando isso se torna um buraco. Eu não sabia quão grande seria o buraco até a hora que ele estava lá. Eu achei que poderia levar facilmente, chorar por algumas semanas e seguir em frente, ninguém morre porque um relacionamento acabou. Até a hora que eu me vi naquele vazio.

O problema não é só alguém que foi embora e a falta que ele faz. O problema é que você é jogado em um vazio imenso, em uma escuridão sem fim. Ser deixada daquela forma abriu um buraco que me acusava o tempo todo de não ser amável, nem um pouco. Deixou o buraco de que mesmo depois de meses perto de mim, não havia nada ali que ele pudesse gostar.

E a primeira coisa que eu perdi, foi a sensação de que qualquer um poderia querer estar perto de mim.

Acontece que essa sensação não fica restrita ao pequeno âmbito amoroso. Ele se espalha e vai devagarzinho te fazendo perder todo mundo. Porque não importa que eles ainda estejam ali, você não consegue mais sentir essa presença. Perder a si mesma é em grande parte perder a capacidade de perceber o mundo objetivamente. Não importa que as pessoas ainda estivessem ali, eu as havia perdido.

E ir embora foi uma grande tentativa de retomá-las. Enquanto eu estava longe, eu perdi aniversários, formaturas, defesas e eu lamentei cada um desses momentos. As pessoas às vezes pensam que te importa uma festinha de aniversário quando você está em Viena? Mas importa, importa muito. Porque a vida não é feita de viagens a Viena, ela é feita de festinhas de aniversário. Mas eu tinha perdido a capacidade de estar naqueles lugares e eu precisei intensificar a ausência, perde-los concretamente, para poder retomar.

Outra coisa que ninguém nunca me disse é que defender o mestrado seria, de alguma maneira, uma perda. Eu não escolhi meu tema por acaso, eu não escolhi meu autor friamente. Eu era apaixonada por ele. Eu sou ainda, mas de outra maneira. Por três anos minha pesquisa foi a paixão da minha vida, nada me trazia mais felicidade e beleza do que assistir aqueles filmes, destrinchar aquele universo. E aquilo acabou. Naturalmente. Como um casamento que chega ao seu fim natural, porque as pessoas cresceram em direções diferentes e ainda seguem amigas, se amando de outra forma. Eu sabia que era hora, aqueles filmes haviam me dado tudo que poderiam me dar. Mas doeu mesmo assim.

No dia que eu defendi, eu lotei um bar ao ar livre em uma noite de frio e chuva. Eu não recebi uma única crítica ao que eu tinha feito, apenas elogios. E ainda assim, eu me sentia estranhamente melancólica. Porque eu estava me despedindo de algo muito querido. E porque eu não conseguia trazer para mim todas aquelas pessoas queridas.

Esse ano foi muito menos cheio de eventos grandiosos até agora. E ao mesmo tempo, eu não fiz nada além de ganhar. E é estranho a sensação de calma, mas uma calma cheia, agradável, como o ar parado, mas fresco de tardes de outono.

Primeiro, eu ganhei alguém. O tipo de alguém capaz de me fazer sair de pânicos, o tipo de presença insistente e constante que evita que você se sinta sozinha. Em seguida, eu perdi um emprego que curiosamente me devolveu à carreira que eu quero, que me fez ganhar de volta a certeza do que eu deveria fazer.

E sistematicamente, mas sem alarde, eu fui ganhando. Um apartamento novo que finalmente me fez sentir em casa. Amigas novas. Questões novas para as quais eu quero respostas, apaixonadamente mais uma vez.

É engraçado notar o quanto as tragédias vem sempre em grandes entradas. Elas se anunciam e destroem tudo, epicamente. E se você quer sobreviver não resta nenhuma escolha a não ser tornar os altos tão altos quanto foram os baixos. Mas esse tipo de ganho é como aquele choque de adrenalina, como a primeira sensação de uma droga no seu corpo. É bom, mas não se durar por mais que alguns segundos.

Eu não estou acostumada a ganhar. Eu não estou acostumada a confiar que as coisas que vêm com calma muitas vezes permanecem. Então eu me pego aqui, observando tudo, com medo de que um movimento brusco vá mudar a corrente do vento e me tirar tudo de novo. Eu toco nas coisas que ganho como se fossem animais raros e fugidios e eu me recuso a acreditar que possa ganhar ainda alguma coisa. A estabilidade é tão estranha a mim quanto palavras sérvias e eu me vejo um pouco aflita, sem saber onde guardar as coisas.

Por outro lado, eu sei que eu vou perder tudo de novo, eventualmente. Talvez por isso eu relute tanto em aprender a ganhar.

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