Relacionamentos

Caçada

Houve muito pouco sangue quando nós acabamos.

Talvez, eu devesse ter atirado seus livros no chão, ou atirado-os contra você. Eu deveria ter amaldiçoado sua contenção, sua ingenuidade, sua hipocrisia. Eu deveria ter gritado quando você me disse que não queria machucar ninguém. Gritado o quanto aquilo não era possível.

E você deveria ter acusado meu cinismo, minha distância, minha crueldade. Você deveria ter desenhado para mim o jogo que eu perdi, a teia que eu mesma não soube fazer. Você deveria ter jogado em mim a minha farsa.

E eu teria rido. Sentado no chão e rido. Sardonica. Histérica. Rido sem parar. Rido do seu idealismo, da sua incapacidade de escolha. Eu teria dito coisas horríveis. Teria eviscerado sua covardia. E você ficaria ali, preso entre o homem que é e a vontade de me fazer parar, de me puxar pelo braço, de me machucar.

Eu sou muito pior do que você, mas você nunca soube. Meu medo de te perder era tanto que eu guardei pra mim a minha língua, a minha mal-criação, o meu hábito de criança mimada de testar até o limite, de dizer coisas que são vazias, mas cruéis, para medir o quanto você acreditaria em mim. E você acreditaria.

Ou talvez houve muito pouco sangue enquanto nós éramos algo.

Se eu fosse outra pessoa, eu teria chorado na sua frente. Eu teria te pedido para ficar. Eu teria pedido uma garantia. Eu teria perguntado o que eu era. Eu nunca quis saber o que eu era, tamanho era meu medo de não ser nada.

Se você fosse outra pessoa, você teria sido menos contido. Menos cauteloso. Você talvez tivesse visto por trás de mim, por trás do jogo. Mas você não era capaz.

Você talvez tivesse me puxado pela cintura e arrancado a minha indiferença. Mas você não o fez.

Outro fez.

Deveria ter havido sangue quando terminamos porque ele segue aqui. Pisado, arroxeado, podre. Eu, pelo menos, chorei, parei de comer, rasguei minha pele, bebi, fui parar na cama de tanta gente que já nem me lembro. E pedi que me batessem. Que me xingassem. Fui para cama de tanta gente que eu nem queria ir. Eu sangrei sozinha, mas sangrei. Eu sangrei você todo, para fora da minha vida.

Mas você não.

Você, às vezes, ainda acha um fio de cabelo loiro, muito fino, enroscado nos seus lençóis. Tanto tempo depois. Você ainda encontra um grampo caído embaixo da cama. As manchas que eu deixei nos seus livros. E eu sigo ali. Assombrando. E você não sangrou.

Primeiro eu me perguntei por que, se era eu que tinha acabado abandonada, nua, ferida e chorando no chão. Você me deixou como quem deixa uma planta, um peixinho dourado, qualquer coisa insignificante da qual não se sente falta. Você me deixou tão facilmente, então por que?

Porque você me levou com você de alguma maneira, não foi? Nas moças loiras e pequenas. Nas moças com desenhos na pele. Nas moças que falavam francês fazendo graça, definidas apenas por aquele adjetivo tão antigo: coquete. Nas unhas que arranharam suas costas.

Porque você foi traído por você mesmo, creio. Porque não foi tão fácil. Mas você não queria não é? Você foi embora como se nada fosse, você sabia que não era nada, você, que sabe tanta coisa.

Você não sabe, como eu, que a razão trai sempre. Sempre. A razão trai a humanidade criando fornos de gente. Ela te traiu com a minha presença nos seus sonhos, nas suas noites em claro, nas suas transas. Ela te traiu em punhetas apressadas que você bateu lembrando de mim.

E agora você me odeia. Porque eu não te deixei. Porque talvez você ainda lembre do meu perfume quando uma menina senta ao seu lado no metrô, mas eu já não me lembro do seu. Você agora me odeia porque eu te arranquei de mim, porque eu, finalmente, te abandonei. Por outro.

Você me odeia porque não pode me odiar. Porque eu nunca te fiz nada. Porque eu não gritei, não esperneei, não fui mimada, irônica, cruel, violenta. Você me odeia pela minha ausência de violência. Eu sei, eu te odiei por isso também.

Se tivesse havido sangue, tudo teria acabado, morrido. Nós teríamos nos ferido até a morte e poderíamos partir, os dois, vazios de tudo isso. Mas só eu me feri, só eu sangrei, só eu expurguei isso tudo de mim. Você não. Você não sofreria por mim. Você foi traído pela sua vontade de sofrer por mim.

Mas eu fui embora. E o que você está fazendo é farejar uma trilha velha, de um animal bem mais selvagem que você.

 

Roleta

O quanto nós podemos confiar em nós mesmos? O quanto podemos confiar em nossos sentidos, nossas impressões, no que quer que tenhamos aprendido com a vida?

Epistemologia sempre foi a parte que eu mais detestei da filosofia, todos aqueles textos sobre a possibilidade, ou não, de aprendermos algo através dos sentidos. O mundo é uma ilusão? Vivemos em uma armadilha feita dentro de nossas cabeças? Ou não, podemos confiar na realidade externa como ela nos é apresentada? Daí Platão fala dos jovens corpos besuntados em óleo correndo ao sol e eu perco totalmente a linha de raciocínio.

Mas, como toda questão filosófica clássica, há algo ali. Até que ponto posso confiar em mim mesma para aprender? Até que ponto posso confiar no que sei para fazer escolhas melhores dos que as que já fiz?

Porque eu já fiz muitas escolhas ruins. E algumas dessas eu fiz plenamente consciente, mas outras eu acreditei de verdade que estava fazendo a coisa certa. E não estava.

Eu escolhi ficar, por anos, com um homem que corroía toda minha sanidade mental acreditando durante a maior parte desse tempo que ele me fazia bem, que a escolha era acertada. Como eu posso saber que não estou fazendo isso de novo? Maturidade, me dizem, tempo, eu aprendi com meus erros. Mas como eu posso ter certeza da minha, ou de qualquer um, habilidade de realmente aprender com os erros? Com a vida, com a realidade externa, com o que quer que seja? Como eu posso confiar em mim mesma para não estar cega ou distorcendo a realidade ou simplesmente muito, muito enganada?

Meu cérebro é algo frágil, além de tudo. Algo assustado e frágil e, como um animal selvagem, quase maligno nesses momentos. E ele me prega peças e coloca armadilhas. As últimas semanas têm sido pouco mais que uma tentativa de navegar as ratoeiras que ele me coloca, de ignorar cada demônio me tentando no caminho. Não dessa vez. Não hoje.

Mas e se alguma dessas armadilhas for, no fundo, a verdade? E se o que eu ouço é intuição, é segurança e não apenas medo e neurose?

Você precisa arriscar estar errada, é a resposta post de autoajuda sobre paisagem bonita no tumblr. Eu tenho vontade de rolar no chão rindo histericamente cada vez que alguém me diz que não se deve ter medo dos relacionamentos, que não se deve ter medo de sofrer, que tudo bem se eu estiver errada. Porque você não sabe o tamanho da aposta.

Eu sou, eu sempre fui, uma grande partidária de que há algo fundamentalmente errado na forma como as pessoas hoje em dia fogem do sofrimento. Eu me chocava e me irritava com as amiguinhas da minha adolescência que achavam que se algo terminava e alguém sofria aquilo era ruim e tinha dado errado. A vida nada mais é do que um monte de sofrimento. E umas coisas boas jogadas ali no meio pra você achar que vale a pena não desistir. Não faz sentido tentar blindar o sofrimento, tentar apenas entrar em apostas certeiras de felicidade, não é sequer possível fazer isso.

Mas também é preciso medir o quanto se pode pagar.

Eu, hoje, não saberia essa resposta para mim. Ano passado eu não podia. Ano passado, eu paguei muito caro por uma aposta muito pequena porque eu simplesmente não podia lidar, não havia sobrado nada em mim. Eu fui como um jogador de pôquer na última partida perdida depois de meses de azar. Tudo já havia sido perdido e penhorado e vendido e foi um deslize mínimo que me fez perder tudo.

Eu poderia ter medido isso, mas eu não soube. Era uma aposta tão pequena, como poderia me custar tanto? O quanto nós podemos saber de nós mesmos, da forma como reagiremos às coisas? E, mais importante, o quanto podemos saber do outro para ser capaz de medir a aposta, para se capaz de escolher?

Eu levei bastante tempo, e infinitas perdas, para entender que pessoas são uma escolha. As pessoas que mantenho comigo, aquilo que elas sabem de mim, é tudo uma escolha. Mas é solitário demais escolher sempre. É solitário e árido controlar, filtrar, manter todo mundo do lado de fora de certas partes. E há um tipo de escolha que para mim só faz sentido se for tudo ou nada.

Mas eu já escolhi errado vezes demais. Eu demorei para entender que aquilo que me levava, aquilo que me fazia querer ficar era também uma escolha. Não é uma escolha fácil de ser mudada, mas é uma escolha. Meu instinto me faz escolher pelo perigo, pelo jogo, pela instabilidade. Meu instinto gosta demais do jogo. E eu gosto demais de me punir. Eu gosto demais de entrar em uma disputa que sei que vou perder, com eles, comigo mesma. Quais minhas chances tentando escolher diferente?

E qual a possibilidade de que eu perca para mim mesma de novo? Eu venho testando essa escolha há meses. Cruelmente. Implacavelmente. E eu ganho. Todas elas. Mas até quando? Até quando eu posso testar alguém até que justamente esse teste esgarce tudo? Qual o ponto em que eu simplesmente tenho que assumir que é um salto de fé e confiar em mim mesma? Já que estamos falando em filosofia.

Dos anos que eu passei imersa em suecos deprimidos e filosofias, eu aprendi que a escolha é sempre cega. Essa escolha, especialmente, é sempre cega. E sempre contra as probabilidades. Mas é preciso fazê-la. Porque o preço de não fazê-la é alto de mais. Mas e se o preço de fazer também for?

Um ano

Eu nunca tive TimeHop, não gosto da ideia de algo que eu voluntariamente pedi para me devolver lembranças. Há coisas que eu não quero ver nunca mais. Há um pedaço inteiro da minha vida que eu gostaria de poder fingir que não existiu. Mas agora o Facebook tem esse recurso automático de te devolver algumas lembranças de anos anteriores e me incomoda menos, já que só vai parar lá aqueles poucos momentos da vida realmente dignos de nota, que realmente eu gostaria da lembrança.

E hoje ele me lembrou que faz exatamente um ano que eu defendi meu mestrado.

Nesse um ano, minha vida mudou radicalmente e, ao mesmo tempo, foi parar no exato mesmo lugar.

Foi irônico e quase reconfortante receber essa lembrança. Ontem mesmo, eu passei metade da noite em uma espiral sem fim de impotência,  insegurança e paralisia. De sensação de que estou sendo apenas tonta de achar que tenho capacidade para algo do que quero.

Eu quero entrar no doutorado e eu venho em preparando pra isso. Por questões de circunstância, eu saí da Academia e tenho gravitado de volta para ela devagar, gradualmente. Uma pesquisa aqui, um artigo ali, um projeto de doutorado para dar rumo a tudo. E eu digo para mim mesma que tudo bem se não der, se não der semestre que vem eu tento de novo, em mais lugares, eu preparo melhor esse projeto, eu peço mais ajuda. Tudo bem se não der, eu tinha um mestrado com apenas 25 anos, eu não tenho pressa de nada.

Mas não está tudo bem. Não está tudo bem porque eu não sei separar minha habilidade de fazer tudo certo, de nunca falhar, com meu merecimento das coisas do mundo. E é lógico que eu falho, então é lógico que eu não mereço nada.

Sempre chega um momento nos meus relacionamentos em que eu tenho que contar minha história, listar o tipo de coisa pelo que passei, confirmar a conclusão óbvia de que fiquei cheia de marcas e buracos e pedir que por favor, não vá embora, me dê pelo menos uma chance de conseguir fazer isso. Antes de começar a contar, eu peço uma promessa de que quem me escuta não pode ter dó, por favor, não tenha dó. Eu estou viva e, relativamente, inteira e não importa o quanto tudo pareça horrível, não me olhe como uma pobre garotinha de quem você precisa cuidar, porque isso vai estragar tudo.

Não tenha dó porque isso vai te levar a, inevitavelmente, querer consertar, ou compensar. E eu não tenho conserto. E a ideia de que algo em mim está intrinsecamente quebrado, errado e precisa de conserto é exatamente o que não me tira de onde estou. Sim, algo em mim está errado, sempre esteve, quanto mais eu sei que está, menos eu me sinto merecedora de todas as coisas do mundo. Talvez seja por isso que os anos em consultório de psicanalista nunca fizeram nada por mim: a ideia de conserto de algo que está errado em mim só me faz virar e dizer “viu, tem algo errado em mim, eu sou um monstro e não adianta”.

Eu abandonei as teorias de conserto. Um belo dia eu cansei de me enredar nisso porque parecia cruel demais, parecia apenas uma câmera de tortura feita para confirmar com diagnóstico o que eu sempre soube: há algo errado comigo e eu não mereço nada enquanto isso seguir errado. Gostaria de fundar uma associação dos pacientes que de cada consulta saiam se sentindo piores, mais sem saída, sem conserto e sem direitos do que quando entraram.

Eu não quero que me olhem como algo que precisa de conserto, eu quero aprender a conviver como algo falho, mas que pode existir.

A tentativa de compensação estraga tudo da mesma forma. Porque você não conseguiria me proteger de novas dores, porque você certamente não poderia me proteger de mim mesma. Porque a culpa não foi sua e qualquer tentativa de amor, cuidado ou presença nascida apenas do desejo de amenizar a minha dor seria artificial. Essas coisas não existem para tapar o buraco de ninguém.

Enquanto eu conto essas coisas, meu cérebro corre em uma lista enorme de porque é ridículo meu apelo de que alguém fique, quando eu acabei de lhe dar todos os motivos pra ir. Ele engloba tudo e costura a malha de todas as coisas que eu não consigo, de tudo que seria melhor abrir mão logo e me poupar ao trabalho, até a hora em que eu paraliso e ele respira. Pronto, missão cumprida.

E daí a internet me devolve de volta um dia em que eu consegui tantas coisas.

Um dia em que eu entreguei algo enorme que eu tinha escrito. Algo que ninguém havia feito antes. Um dia em que eu escutei que estava caminhando por um terreno novo, sem ajuda, e lógico que haveria falhas, mas eu estava fazendo parte do desenho de uma linguagem nova. Um dia em que me apontaram que coisas delicadas, complexas e elegante, que um sistema inteiro pode sair da minha mente.

E que, mais que isso, um grupo enorme de pessoas se dispôs a passar frio e chuva para beber comigo. Pessoas que eram minhas amigas há anos, pessoas que tinham entrado na minha vida a pouquíssimos meses, mas uma quantidade gigante de pessoas. Que eu não merecia.

Quando eu peço que alguém fique apesar de tudo que lhe contei é porque justamente eu não mereço. Não há motivos. Não há qualquer motivo. Mas as vezes as coisas subvertem a lógica.

A pequena devolução da internet me lembra que às vezes eu sou capaz de muita coisa.  O que não quer dizer que eu serei de novo. E que eu realmente não mereço nada do que eu tenho.

Mas que às vezes eu tenho.

 

Bomba relógio

Eu gostaria de confiar em você. Eu gostaria de conseguir ficar ali, com a cabeça no seu colo, quieta, feliz. Um pouco feliz pelo menos. Mas eu não consigo. Eu não sei. Eu nunca aprendi.

Você me diz que, enquanto estiver aqui, eu não preciso fazer sozinha nada que não queira. Mas você não sabe. Você não tem ideia da minha solidão, de como ela escorre pelas rachaduras, de como ela se emaranhou no meu cabelo, de como ela é tudo que eu já conheci. Você não tem ideia da minha dor e você não sabe o que está oferecendo, você não sabe onde está entrando.

E eu não acredito.

Na impossibilidade da felicidade, eu tento um substituto: leveza. Eu aceito a declaração com um sorriso, mesmo que eu não acredite. Eu me deixo pegar no sono com seus dedos traçando as sardas das minhas costas. Mas eu não acredito.

Eu poderia adormecer do mesmo jeito se você seguisse as cicatrizes nos meus tornozelos? Por quanto tempo você pode fingir que não viu? Quanto tempo até reparar que eu não durmo durante a noite? Quanto tempo até ver minhas mãos tremerem? Até sentir meus cabelos caindo nas suas mãos? Quanto tempo até eu gritar, enlouquecer, transformar sua vida em um inferno? Quanto tempo até você ver nos meus olhos tudo, menos o que te fez ficar?

Mas eu tento não pensar.

Você me diz que foram meus olhos. A transparência deles, mais que a cor. Eu lembro bem como te olhei a primeira vez, como eu percebi em um milésimo de segundo que eu precisava de menos do que um sorriso para te ter. De como eu me senti quase como um gato brincando com uma presa que não pretende comer. No máximo oferecer de presente para o dono.

Mas eu sou menos horrível do que gosto de crer. Menos horrível do que te disseram. Eu nunca tive medo do que aconteceria se eu seguisse brincando, se eu não ficasse. Meu medo sempre foi outro. E se eu realmente entrasse na sua vida, toda a escuridão, toda a dor, toda a corrupção que eu traria? Eu não quero te dar nada disso.

Então eu tento evitar.

Leveza.

Eu estou bem agora, então você não precisa de nada disso. Eu não preciso de nada disso. Não agora. Não por enquanto. Eu não preciso fazer sozinha nada que não queira, mas você não sabe as coisas que `as vezes eu quero fazer. Mas não agora.

Eu me sinto como alguém que foi espancada por gangsters russos drogados de cocaína e sobreviveu. Eu sobrevivi e o que quer que tenha me levado a isso não está mais aqui. Mas meu corpo sente as marcas. Eu ainda estou coberta de manchas roxas e cicatrizes e elas doem quando tocadas. Meu corpo, já pequeno, com frequência se encolhe na esperança de ocupar ainda menos lugar no espaço, de desaparecer, de não precisar passar tanto tempo olhando essas feridas, esperando que elas sumam, sabendo que se tornarão cicatrizes. Maiores e mais visíveis que as linhas finas que eu tenho nos tornozelos.

De tudo, eu odeio a autopiedade. Eu odeio quando de repente, sem motivo, eu lembro. Eu odeio quando acho que o vejo numa esquina. Ou quando de onde eu vim segue sendo de onde eu vim. E eu lembro. E de repente eu me sinto no direito de toda a dor, todo o fracasso. Você não sabe o quanto eu me sinto no direito de desistir. Mas eu não quero.

Não hoje. Não ainda.

Não ainda.

Eu queria confiar em você, mas eu não posso. Eu queria fazer planos, mas eu não sei. Eu queria poder prometer tudo que se promete nessas horas. Mas não eu. Eu não consigo.

Por enquanto eu gosto de achar que você pode ficar sem promessas. Eu sei que não pode, não por muito tempo. Mas eu tento não me importar. Leveza no lugar de felicidade. Tentar não me importar com tudo que não pode ser, pelo menos por enquanto, por agora.

 

Casa Vazia

Quanto tempo nós demoramos para morrer? Quanto tempo até eu e você deixarmos de sermos nós, de sermos algo? Quanto tempo até sua decisão se transformar em distância e minha angústia se transformar na tristeza calma e conformada dos finais?

É possível que uma civilização inteira surja e desapareça apenas no tempo em que levamos para terminar.

E quando foi que eu percebi? Quando você me perguntou se eu tinha alguém novo? Quando você se referiu a nós dois tão naturalmente, como algo que foi, algo que, pela naturalidade, com certeza já não é. Foi quando você me puxou para você e eu afastei meu corpo duro, tenso, para o qual seu toque se tornou estranho, pouco familiar, estrangeiro? Foi quando eu percebi que nunca mais entraria na sua casa, deitaria na sua cama, passaria meus dedos pelos seus livros? Foi nesse momento que eu entendi. Foi com esse pensamento exato que eu senti uma pontada e então eu soube. E finalmente deixei o lugar onde eu já estava sozinha há muito tempo.

Eu gostaria de saber quando você me deixou. De verdade, não fisicamente. Porque você também esteve aqui, andando por esse limbo por muito mais tempo do que admitiria para mim. Você não me deixou quando foi embora. Então quando foi? Quando eu fiquei aqui, completamente sozinha, sentada no chão de uma sala vazia, abraçando meus joelhos, incapaz de ir embora? Por que você não me avisou? Um bilhete teria bastado: “saí para comprar cigarros, não volto mais”.

Exceto que você não fuma, essa sou eu.

Acho quase engraçado como agora, que já não somos, finalmente se torna claro que algo era. Todo o tempo em que estivemos juntos, nós não sabíamos se éramos algo, se éramos nós, agora existe um cadáver. Agora, frente ao morto, tenho a evidência inegável da existência, de que existiu algo ali, de que existiu nós, de alguma maneira.

No entanto, eu não saberia dizer se ele morreu naturalmente ou eu desliguei os aparelhos. Se eu, finalmente consciente da falta de esperanças, puxei o fio. Escrevendo agora, me parece uma ótima metáfora: faz meses que eu sabia que isso não tinha mais volta, meses que eu sabia que não éramos mais. Mas e se você mudasse de ideia? E se me quisesse de volta? Eu prendia a respiração cada vez que você me puxava para você, cada vez que me abraçava para se despedir. Até o momento em que eu soube. E desliguei os aparelhos, apaguei a luz e finalmente saí dali.

Com dor, mas sem amargura. Não é que não me doa renunciar a você, ao que achei que pudéssemos ser. Não é que eu já esteja curada da rejeição, da angústia, de todo o redemoinho que eu entrei porque você não me quis. Veja bem, eu não te culpo, ao menos não pelo tamanho do buraco que eu entrei por sua causa, esse era só meu, mas mesmo assim… Eu quase perdi a cabeça por sua causa e agora eu estou aqui, calmamente indo embora, depois de tudo.

Há uma melancolia enorme em tudo isso. Há uma tristeza profunda nos fins. Não importa que eles ocorram sem brigas, não importa que seja aquelas vezes que o amor simplesmente levanta e vai embora. Há tristeza demais na morte, na morte de tudo. Há tristeza de mais no momento em que eu finalmente abandono o lugar que foi de nós dois.

Agora, enquanto eu arrumo as últimas coisas que sobraram, passo uma vassoura no chão, eu percebo que havia coisas aqui. Que afinal mobiliamos essa sala, parcamente, é verdade, mas com algumas coisas bonitas. Guardo livros que não lerei de novo em uma caixa, tiro o pó dos filmes, ajeito os cartões postais na parede. Muito você já levou. Eu não quero nada. A essa altura, eu só quero ir embora.

E vou. Terrivelmente triste, mas finalmente um pouco em paz.

 

Memento mori

Eu sempre tive medo de envelhecer, medo do tempo que passa e medo, principalmente, de não ter tempo de fazer tudo que a minha pressa desenfreada deseja.

Eu me lembro bem de ter 11 anos e estar deitada na minha cama, encarando aquelas estrelinhas que brilham no escuro e tendo todo um memento mori estilo Jane Eyre no quarto vermelho porque afinal, estava logo ali o primeiro ritual que me tornaria velha.

Eu me apavorei aos 11, aos 16, aos 20, aos 26. Eu torço as mãos e viro noites e me angustio porque está tudo tão fora do lugar, eu estou tão fora do caminho e o tempo, ele passa tão cruel.

Eu tenho medo dele. Eu tenho medo de tudo que eu não vou ter feito aos 30 anos, eu tenho medo de cada desvio como se houvesse algo a ganhar nessa correria e não há, não há lugar nenhum para chegar e esse pavor me surpreende quando eu penso que tudo tem ficado solidamente melhor a cada ano que passa.

Nesses últimos quatro anos, eu reconstruí a minha vida. Esse ano tira um peso de mim porque fará mais tempo que estou sem ele do que estive com, porque finalmente isso pode parecer distante, esquecido.

A segunda metade dos meus vinte anos tem sido consideravelmente melhor que a primeira. Quando eu o deixei tudo era deserto, estéril, vazio. Quando eu fui embora, eu não tinha ninguém para andar comigo. Nos últimos anos, eu tinha cortado todas as cordas, fechado todas as portas, testado até o limite o amor de quem disse que estaria comigo até nas portas do inferno. Então eu comecei de novo.

Nesse processo eu saí do caminho várias vezes. Eu me perdi, eu quis morrer, eu me arrastei por dias fantasmagóricos. Eu abandonei sonhos, eu passei meses sem escrever uma linha. Eu achei que nunca ia sair daqui. Eu me perguntei todos os dias onde eu estava, o que eu estava fazendo, quem eu queria ser.

Quatro anos depois, eu encontrei respostas. Quatro anos depois, fugir deixou de ser tão importante. Em algum momento, sem nem perceber, eu decidi que só iria quando tivesse porque voltar.

Eu sou, talvez, uma das pessoas mais ambiciosas que andou por essa terra. Eu quero todas as coisas e eu as quero grandes, intensas, enormes. Eu quero tanto que eu me paraliso. Eu sonho tão longe que desisto antes pela impossibilidade de chegar lá. E eu passo um tempo enorme amargurada por tudo que não fiz.

Mas eu fiz sim. Eu fiz uma vida toda. Eu fiz gente demais para caber em um apartamento, ou melhor, gente que topa tentar se enfiar em um apartamento.

Eu perdi tudo e eu ganhei tudo e a primeira coisa que me pego pensando sobre ficar velha é toda essa bagagem acumulada, é toda essa bagagem, minha e do outro, que precisa ser coordenada.

Quanto mais eu trago comigo, quanto mais vezes eu vi relacionamentos acabarem, quanto mais vezes eu fui ferida, abandonada, traída, mais insustentável fica começar de novo? É possível que todas as pessoas que eu deixei entrar tenham me feito trancar a porta?

Ou quanto do que ele já viveu o torna arisco a mim? Quanto do passado o faz perceber que ele até poderia lidar com o que eu trago, mas não quer?

Tenho achado curioso esse momento, como se tivesse cruzado uma espécie de ponto de virada em que tudo é recomeço, todo relacionamento já foi feito antes, por mim e por ele. É como ganhar uma segunda chance e, ao mesmo tempo, sentir despencar na cabeça  a bigorna da condição humana e a certeza de repetir os mesmos erros até o fim.

Há muita coisa atrás de mim agora, há vidas inteiras. Já é tão complicado, tão impossível, coordenar apenas duas vidas, que dirá todas as outras que vem encaixotadas? E o medo?

Meu medo é como a fotografia esmaecida que não se joga fora, como o rastro de perfume de alguém que acabou de deixar o quarto. Como lençois amassados e cheiro de cigarro no dia seguinte. Pessoas foram embora, histórias acabaram, coisas sem fim terminaram, mas o medo fica, a lembrança irracional, do toque, da dor, da loucura, fica.

E vai ficando insustentável. Onde guardo tanto acúmulo? Eu sei que essa foi só a primeira vez que eu perdi tudo, outras virão e outros virão e onde eu coloco cada um deles? Com que coragem eu mostro tudo isso? Como posso realmente pedir para que alguém fique quando eu sei muito bem o que estou trazendo, quando eu sei que é algo que ninguém deveria querer?

Quão irônico é que quanto melhor tudo fica, mais medo eu tenho o tempo todo?

De mãos dadas com o desastre

Cada vez que eu conto uma história desastrosa eu posso prever a reação: “isso só acontece com você!” ou “nossa, mas você tem tanto azar!” Pode ser sobre perder o passaporte, sobre o dia que o cobrador arrancou os cabos do ônibus elétrico, ou sobre algum homem que foi cuidar dos órfãos da Madre Teresa de Calcutá, ou decidiu se alistar no front rebelde da Ucrânia. Não importa muito. A reação é sempre de uma certa incredulidade misturada a espanto que um único ser humano consiga concentrar tanto azar.

O que muitas vezes meu ouvinte não nota, é que todas essas histórias tem um ponto comum muito óbvio: eu mesma.

Há uma parcela de azar totalmente fora do meu controle e independente da minha pessoa. Eu não teria como causar a greve de maleteiros em Barcelona que me fez dormir no aeroporto e comer sanduíches da cruz vermelha. Eu não poderia impedir o cobrador de ter um dia de fúria em plena véspera de carnaval e parar o funcionamento do ônibus. Mas acho que terminam aí as situações em que o desastre foi totalmente livre da minha influência.

Eu tenho o enorme e incomparável talento de estragar absolutamente tudo em que coloco as minhas mãozinhas.

Eu mesma perdi meu passaporte, isso é óbvio. Eu estava andando pelas ruazinhas de uma cidade cubana depois de ir a um cabaré de travestis, isso também é óbvio. Eu decidi ir passear alegremente por Israel quando o país estava em guerra. Eu que encho a cara e saio largando o celular em bancos de táxi aleatórios. Eu que escolho os homens com quem me envolvo. E sou eu, em última instância, que me envolvo com eles.

Tem isso que já acabou. Ou que já deveria ter acabado. Esse cara que já me disse que não sabe o que quer de mim e eu que já estou nessa vida há muito tempo para saber que se ele não sabe o que quer de mim eu deveria juntar as minhas coisinhas, amarrar minha trouxa e ir embora viver minha vida. Mas eu não consigo. Eu volto e eu volto e eu desencavo e eu analiso na esperança de entender o que deu errado. Na esperança de entender o que eu fiz errado.

Em todas as milhares de aulas de filosofia que eu já tive na vida, eu aprendi que o ser humano tem uma dificuldade imensa em lidar com sua falta de autonomia. Frente a Deus, frente ao destino, frente ao acaso, o que você preferir. O que mais nos angustia, nós, seres pequenos e trágicos, é a falta de controle, é saber que não importa o quanto a gente se bata, tente fugir, se recuse a completar profecias, nós acabamos matando o próprio pai e comendo a própria mãe porque nossos caminhos não nos pertencem.

“He had learned the worst lesson that life can teach – that it makes no sense.” Eu entendo Philip Roth, eu amei Pastoral Americana com toda a força do meu coração, eu entendi seu ponto. Não importa o que se faça, não importa os planos e as tentativas, o acaso morde seu rabo e você cai no abismo que passou a vida tentando fugir.

Mas eu acho mais fácil lidar com tudo aquilo que não fui em mesma que causei.

Não é que o acaso e a falta de autonomia não sejam assustadores. Mas são menos do que a culpa. Menos do que a consciência de que eu sou sempre portadora do meu próprio desastre e, ainda assim, não posso impedi-lo.

Eu talvez conseguisse deixar ir alguém que simplesmente não me quer. Eu não consigo soltar alguém que eu fiz não me querer. Eu não consigo parar de voltar em todas as falas, todos os gestos, todas as vezes em que eu contraí meu corpo para fora dos braços dele e o afastamento lento, gradual que eu nunca poderia julgar. Eu nunca poderia acusá-lo da autopreservação, eu nunca poderia dizer que ele estava errado de se fechar para mim quando eu parecia tão fechada para ele.

Mas eu não consigo parar de me culpar. Meses depois, eu não consigo parar de me acusar de tudo que eu causei, tudo que eu fiz ir embora.

Não é porque eu queira ele de volta. Isso me dói muito menos do que a responsabilidade. O que eu perdi é mais facilmente aceitável do que como eu perdi.

Eu baixo a guarda então. Eu hoje noto cada vez que minha mão quer fugir de um toque, cada vez que quero escapar aos dedos nos meus cabelos. Não escapo. Todos os dias eu escolho não fugir e não fujo. Não minto. Eu vou ficando porque eu só não quero ser a culpada.

Mas quais as chances de que eu não estrague? Se eu percorri minhas mãos por você, eu transformei tudo isso em um desastre.

Eu sei desde já dos gritos, do choro e da dor. Da destruição que eu vou deixar pra trás quando eu for embora. Da corrupção e da loucura que ele nunca pensou em ter e eu trouxe para sua vida. Da impossibilidade de que ele saia disso inteiro, inocente.

Eu finjo que não sei. Eu finjo que posso fazer diferente. Eu falo da amargura brincando, como se eu estivesse sendo irônica. Eu aviso, mas nunca a sério, do desastre que posso causar.

Eu não quero ir embora. Mas eu devia.