Historinhas

Caçada

Houve muito pouco sangue quando nós acabamos.

Talvez, eu devesse ter atirado seus livros no chão, ou atirado-os contra você. Eu deveria ter amaldiçoado sua contenção, sua ingenuidade, sua hipocrisia. Eu deveria ter gritado quando você me disse que não queria machucar ninguém. Gritado o quanto aquilo não era possível.

E você deveria ter acusado meu cinismo, minha distância, minha crueldade. Você deveria ter desenhado para mim o jogo que eu perdi, a teia que eu mesma não soube fazer. Você deveria ter jogado em mim a minha farsa.

E eu teria rido. Sentado no chão e rido. Sardonica. Histérica. Rido sem parar. Rido do seu idealismo, da sua incapacidade de escolha. Eu teria dito coisas horríveis. Teria eviscerado sua covardia. E você ficaria ali, preso entre o homem que é e a vontade de me fazer parar, de me puxar pelo braço, de me machucar.

Eu sou muito pior do que você, mas você nunca soube. Meu medo de te perder era tanto que eu guardei pra mim a minha língua, a minha mal-criação, o meu hábito de criança mimada de testar até o limite, de dizer coisas que são vazias, mas cruéis, para medir o quanto você acreditaria em mim. E você acreditaria.

Ou talvez houve muito pouco sangue enquanto nós éramos algo.

Se eu fosse outra pessoa, eu teria chorado na sua frente. Eu teria te pedido para ficar. Eu teria pedido uma garantia. Eu teria perguntado o que eu era. Eu nunca quis saber o que eu era, tamanho era meu medo de não ser nada.

Se você fosse outra pessoa, você teria sido menos contido. Menos cauteloso. Você talvez tivesse visto por trás de mim, por trás do jogo. Mas você não era capaz.

Você talvez tivesse me puxado pela cintura e arrancado a minha indiferença. Mas você não o fez.

Outro fez.

Deveria ter havido sangue quando terminamos porque ele segue aqui. Pisado, arroxeado, podre. Eu, pelo menos, chorei, parei de comer, rasguei minha pele, bebi, fui parar na cama de tanta gente que já nem me lembro. E pedi que me batessem. Que me xingassem. Fui para cama de tanta gente que eu nem queria ir. Eu sangrei sozinha, mas sangrei. Eu sangrei você todo, para fora da minha vida.

Mas você não.

Você, às vezes, ainda acha um fio de cabelo loiro, muito fino, enroscado nos seus lençóis. Tanto tempo depois. Você ainda encontra um grampo caído embaixo da cama. As manchas que eu deixei nos seus livros. E eu sigo ali. Assombrando. E você não sangrou.

Primeiro eu me perguntei por que, se era eu que tinha acabado abandonada, nua, ferida e chorando no chão. Você me deixou como quem deixa uma planta, um peixinho dourado, qualquer coisa insignificante da qual não se sente falta. Você me deixou tão facilmente, então por que?

Porque você me levou com você de alguma maneira, não foi? Nas moças loiras e pequenas. Nas moças com desenhos na pele. Nas moças que falavam francês fazendo graça, definidas apenas por aquele adjetivo tão antigo: coquete. Nas unhas que arranharam suas costas.

Porque você foi traído por você mesmo, creio. Porque não foi tão fácil. Mas você não queria não é? Você foi embora como se nada fosse, você sabia que não era nada, você, que sabe tanta coisa.

Você não sabe, como eu, que a razão trai sempre. Sempre. A razão trai a humanidade criando fornos de gente. Ela te traiu com a minha presença nos seus sonhos, nas suas noites em claro, nas suas transas. Ela te traiu em punhetas apressadas que você bateu lembrando de mim.

E agora você me odeia. Porque eu não te deixei. Porque talvez você ainda lembre do meu perfume quando uma menina senta ao seu lado no metrô, mas eu já não me lembro do seu. Você agora me odeia porque eu te arranquei de mim, porque eu, finalmente, te abandonei. Por outro.

Você me odeia porque não pode me odiar. Porque eu nunca te fiz nada. Porque eu não gritei, não esperneei, não fui mimada, irônica, cruel, violenta. Você me odeia pela minha ausência de violência. Eu sei, eu te odiei por isso também.

Se tivesse havido sangue, tudo teria acabado, morrido. Nós teríamos nos ferido até a morte e poderíamos partir, os dois, vazios de tudo isso. Mas só eu me feri, só eu sangrei, só eu expurguei isso tudo de mim. Você não. Você não sofreria por mim. Você foi traído pela sua vontade de sofrer por mim.

Mas eu fui embora. E o que você está fazendo é farejar uma trilha velha, de um animal bem mais selvagem que você.

 

Don’t look back in anger

Eu não olhei para trás. Simplesmente não olhei. Disse tchau, me virei e fui embora. É o único jeito de ir embora. Sem olhar para trás.

Quando ele foi embora, ele olhou para trás. Por trás de uma fila de adolescentes que, imagino, iam para a Disney. Eu o perdoei por muita coisa, o perdoei por ir embora, mas não perdoei por olhar para trás. Por ter me feito sorrir uma última vez, quando eu já achava que finalmente poderia chorar.

Se é para ir embora, não se pode olhar para trás.

Em um dos muitos términos dos últimos dois anos eu olhei para trás. Achei que fazia sentido, uma vez que todo aquele relacionamento era um grande olhar para trás. Olhei para trás e nunca fui embora de fato. Ameaço ligar depois de cada garrafa de vinho, depois de cada decepção, depois de cada dia que estou exausta demais para ter instinto de auto-preservação.

Não se pode olhar para trás.

Eu não reviso os textos desse blog. Eles entram cheios de erros, cheios de coisas que eu sei que, se pensasse duas vezes, desistiria de dizer. Há algum tempo, eu decidi que esse era meu projeto artístico. Não o blog, mas não olhar pra trás, não pensar duas vezes, transformar minhas entranhas em arte, escrever com sangue, dor, com tudo que é confissão, inquietude, tudo que ainda está vivo dentro de mim. É a única literatura que eu sei fazer.

Eu poderia ter olhado para trás. Eu poderia ter desistido. Às vezes acho que não desisti porque queria exatamente isso, queria dor para poder transformar em arte. Eu e essa mania de querer ser Fiona Apple.

Eu não olhei para trás. Senti um beijo no ponto entre meu pescoço e minhas costas, onde o casaco encontrava meu vestido. Eu usava um vestido azul, com um decote muito profundo. Eu gosto daquele vestido, eu estava bonita naquele dia. Talvez eu tenha pensado cuidadosamente na imagem que ele teria quando olhasse para trás. Era um ponto esquisito para se dar um beijo, como o último beijo depois de eu ter me virado, rápido, naquele último segundo antes de eu me afastar demais.

Quis olhar para trás nesse momento. Quis encontrar esse beijo no caminho. Quis abraça-lo de novo e ficar ali por mais uma pequena eternidade. Mas já tínhamos nos abraçado por tempo demais. Acho que, mais do que tudo, quis ver a expressão dele quando decidiu me dar esse beijo tão estranho.

Acho que foi o beijo mais triste que já recebi. Tudo aquilo foi tão tremendamente triste. Porque não foi. Porque ninguém teve raiva, ninguém quis olhar para trás. Só nos abraçamos por um tempo terrivelmente longo. Terrivelmente. E eu dei aqueles conselhos terrivelmente óbvios :”não morra”. Se eu fosse ele teria rido, logo eu, eu que tem um verão inteiro que foi uma longa bad trip. “Não faço mais essas coisas”, digo. Eu teria rido disso também.

Não deixar que eles olhem para trás. Não deixar que eles vejam quem você foi naquele verão. Quem ficou naquela cidade. Tudo bem beber demais. Só não olha para trás. Você nem gosta tanto dessas coisas afinal de contas. Mentira.

Ele argumenta que é um bom menino. Rio, sei disso. Digo isso. Depois de ter esperado o sinal fechar, atravessado lentamente e acendido um cigarro. Então olhei para trás. A porta tinha acabado de se fechar.

Não achei o amor da minha vida em um trem na Turquia

Eu só estava ali, do outro lado da sala, bebendo vinho. Naquela hora você não sabia que eu ia acabar bebendo vinho demais. Eu já sabia. Eu só estava ali, com aquele vestido que eu gosto e me faz parecer mais magra, meu cabelo preso por causa do calor, bebendo vinho e conversando com alguém que eu não conhecia.

Eu estava falando sobre a Turquia, sobre como eu iria passar três semanas na Turquia e passar meu aniversário em um balão. Eu tinha 24 anos ainda. Acho que envelheci notavelmente só por fazer 25. Eu ainda tinha 24 e meu estômago já dava os sinais de que não ia se comportar. Eu sabia. Eu não ajudei com as diversas taças de vinho, mas meu estômago tem essa mania detestável de levar tudo para o lado pessoal, é extremamente egocêntrico meu estômago, sempre acha que é trabalho dele demonstrar o descontentamento que eu tinha, racional e deliberadamente, decidido esconder.

Eu comentei por qualquer motivo que tinha 24 anos e a moça conversando comigo se espantou. Acho que ela não esperava estar com alguém que tivesse 24 anos. Ela não sabia que eu estava com você, um pouco depois, quando você me abraçou, ela olhou envergonhada, talvez um pouco arrependida da conversa que nós começamos a ter nesse momento em que eu estava do outro lado da sala, perto da mesa, e você estava ali sentado na escada. Ela perguntou se eu não tinha medo de ir sozinha, eu disse que ia com uma amiga, mesmo assim, ela comentou, por sermos mulheres, não, não, não tinha, era parte da aventura, acho. Ela perguntou como eu iria viajar, de avião e carro, acho. Ela perguntou sobre os turcos, será que rola uma one night stand com um turco? Meu deus, eu não tinha ideia que ia acabar tendo uma one night stand com um turco na Capadócia. Mas enfim, ela perguntou e eu respondi que talvez, mas são muçulmanos, ah, mas é um país liberal.

Porque ela tinha assistido Antes do Amanhecer um dia desses e desde então teve essa ideia de que um dia ia estar em um trem e encontrar o amor da vida dela e, quando alguém contava que ia viajar, ela ficava imaginando se a pessoa não encontraria o amor da vida em um trem. Eu sorri meio triste. Disse que às vezes, quem sabe, poderia acontecer. Então olhei de lado para você. Não que você fosse o amor da minha vida, mas só porque achei engraçado que eu estava lá, obviamente como seu anexo, aquela menina que seus amigos talvez nem saibam o nome, só sabem que é a menina que você às vezes levava na casa deles, e ela me perguntava sobre outro. Fazia sentido, é claro, fazia um tremendo sentido que eu nem queria ver, mas achei engraçado.

Quando te olhei de lado percebi que você me olhava. Durante esse tempo todo em que eu estava do outro lado da sala, conversando com alguém que eu não conhecia, sendo simpática e sorridente e descolada: o que você faz? eu sou crítica de cinema. Ah, uau, onde? Às vezes eu publico na França. Uma vez você estava muito bêbado (ninguém pode dizer que não combinávamos em tendência a consumir um pouco de álcool demais) e repetiu diversas vezes que eu publicava na França, em um tom tão orgulhoso que eu não pude deixar de rir. Você me olhava como se eu fosse a coisa mais legal do mundo, sempre detestei esse olhar, e com aquele meio sorriso orgulhoso de ter levado a menina mais legal da festa. Ninguém ali era tão legal quanto uma cineasta que publica na França e nem fez 25 anos ainda. 

Na tarde desse dia eu tinha visto Frances Ha. Em determinado momento ela diz que tudo que quer de um relacionamento é aquele momento em que você, e a pessoa que está com você, estão em uma festa e seus olhares se cruzam e há, por um segundo, uma outra dimensão, uma comunicação muda de que essa é a sua pessoa na vida. Eu olhei de lado e te vi me olhando e me lembrei disso. Não que fossemos isso um para o outro. Que você fosse minha pessoa na vida ou eu para você. Mas naquele momento você me olhou com um misto de carinho e orgulho e como se tivesse me assistindo ali, sendo encantadora com pessoas que eram suas, e eu sorri. Já não lembro mais se fui até você, se você veio até mim ou se simplesmente deixamos isso no ar. Sei que em algum momento, eu estava perto da mesa, você passou por ali e me puxou para você, foi quando a moça que me perguntou sobre estranhos no trem reparou que ali, naquele lugar, naquela noite, eu era de alguma forma sua.

O que eu quis dizer e não consegui é que não sou do tipo que entende mil significados ocultos em um olhar, que faz perguntas já sabendo respostas. O que eu quis dizer e tenho achado tão difícil é que eu não invento o mundo como quero que ele seja, eu não posso me dar ao luxo de fazer isso, expectativas são para quem não costuma perder tudo o tempo todo. Imagina o que seria de mim se, ainda por cima, eu criasse expectativas? Eu não entendi nada desse olhar, apenas o fato que ali, naquele lugar e naquele minuto, eu era sua pessoa, que naquele segundo, e não necessariamente em nenhum outro, você tinha carinho suficiente para me olhar daquele jeito.

Eu não sei, mas acho que matei parte desse carinho nesse mesmo dia, enquanto eu ajoelhava no seu banheiro e ainda que dá maneira errada, colocava pra fora toda a sujeira que eu nunca pude te dizer.

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Vício

“O problema é que você tem tendência demais a alguns vícios. Que você gosta demais deles.” Você me diz isso enquanto reviro a cama atrás dos cigarros que certamente estão no bolso das suas calças. Encontro. Acendo um lentamente e te ofereço o maço com um olhar de insolência, minha forma de dizer que você não é nenhum pouco, nenhum nada, melhor do que eu.

Talvez meu problema seja, na verdade, que eu travo batalhas demais com os homens. Que eu transformo camas demais em campos de guerra.

Você aceita minha oferta, sorri, concorda com a cabeça. “Eu também, mas, nesse caso, eu sou melhor que você.”

Quero rir, mas não rio. Quero rir batendo nas minhas pernas cruzadas e deixando cair no meu rosto a massa enorme de cabelos loiros. Mas não rio. Porque o desdém seria só a confirmação de que você está certo. Porque você está.

Então não falo nada. Arregalo meus olhos e te encaro, esperando. Seus olhos são quase verdes, mas não realmente. Como você quase fica comigo, mas não realmente. Parecidos com os olhos do meu gato, meio amarelos.

“Eu sou o alcoólatra reabilitado, aquele que não toca em uma gota de álcool. Você ainda gosta demais da adrenalina, da espera, do jogo. Você gosta demais do jogo.”

O Jogador. Aleksei Ivánovitch em algum momento conta que o que vicia o jogador não é o ganho. Nem a perda, a vontade de reverter a perda. É o momento anterior. Aquele segundo em que tudo é possível, quando a bolinha roda com um barulho irritante pela roleta.

O Jogador não é um dos meus livros favoritos, certamente não é um dos meus Dostoievskis favoritos, mas eu me pego voltando a ele de novo e de novo. Eu não volto a Irmãos Karamazov como volto a O Jogador.

“Por que você não pediu a ele, se queria alguma coisa? Por que você não foi embora? Por que você simplesmente deixou que as coisas ficassem como uma bolinha girando na roleta por tanto tempo?”

Por tanto tempo. Por um tempo insuportavelmente longo. 12 meses. 365 dias. Exatos. Precisos. Até a bolinha cair fora da minha aposta.

Por que eu gostava da espera? Porque eu gostava do lugar de suspensão em que eu poderia ganhar ou perder? Por tudo era possível? Por que eu gostava do jogo e da adrenalina e dos infinitos detalhes e sutilezas que se perdem quando as coisas se estabelecem?

Eu dei uma conferência sobre Amor à Flor da Pele um outro dia. “Não é um filme sobre amor, é um filme sobre desejo”, eu comecei dizendo. É um filme como um tango, em que personagens se aproximam e se afastam e rodopiam e por fim se afastam porque a música acabou, “aquele tempo passou, tudo que era dele não existe mais.”

Me pergunto muito se nosso tempo passou. Se o que vamos fazer agora, porque sei que faremos, é um ensaio ralo de algo que já morreu. Me pergunto também se foi tudo um problema de timing. Se eu tivesse te conhecido agora, seria tudo diferente? Nós poderíamos ter trocado as mãos e você quem teria perdido tudo?

“Eu perdi tudo”, eu falo, sem responder as perguntas. Você assente. “Mais de uma vez”, completa.

“Você aposta sua sanidade com homens e pra que? Nem é algo que você quer tanto assim, você só não consegue ficar sem.”

Então eu finalmente rio. Em parte sardônica, em parte doce, quase compreensiva. “É por isso que você nem joga. Você tem medo demais de gostar desse momento, da espera, da dor, da possibilidade. Eu nem nego. Talvez se ele tivesse ficado comigo eu tivesse cansado em dois meses. Talvez se você tivesse ficado comigo eu teria cansado em uma semana. Talvez eu realmente goste da eletricidade que passa a cada sinal de alguém que você não sabe o que sente por você. Talvez eu esteja aqui procurando por uma coisa que eu vá desistir assim que ganhar. Pode ser. Mas qual a alternativa?”

Qual a alternativa?

Eu tentei. Eu fechei as portas, as janelas. Eu não respondi mensagens. Eu não fui atrás. Eu ignorei a forma como o cabelo escuro dele caía no rosto por mais que minhas mãos parecessem magneticamente grudadas a eles. Eu resisti a química. E eu morri de tédio.

Eu me propus a ser mestre do meu corpo, a não seguir fascinada a cada arrepio que sobe pelas minhas pernas. Eu até considerei parar de beber.

Curioso é que você não me alerta, nunca, sobre o quanto eu bebo. Só sobre os homens. Sobre o amor e o sexo e o como eu uso ambos como uma droga. Jamais sobre o álcool, ele, é claro, não te preocupa.

Não me lembro se disse isso alto. Devo ter dito porque você me responde “o álcool não vai ser o seu fim. Ou melhor, vai. Por causa de algum homem. Você não bebe porque é o que você prefere, você bebe porque é o que você tem.” Eu aponto que nunca bebi tanto quanto como estava com você e nunca usei o amor mais como uma droga também. Você dá de ombros. Eu não preciso dessa resposta e você sabe.

Eu temo quando você for embora. Eu temo as noites em que não vou brigar comigo mesma para não te ligar. Na maioria das noites eu realmente não te ligo, mas na maioria das noites eu bebo. Algumas noites eu reviro hábitos que eu disse que tinha parado. A adrenalina. A eletricidade que sobe pela espinha antes da dor. Você está terrivelmente certo, é claro, eu não posso largá-la.

Eu flerto abertamente, intensamente, sempre. Eu nunca neguei que gostasse do jogo, mas eu me conheço melhor do que você pensa. Eu tomo o isqueiro da sua mão e começo aquela brincadeira que há tanto tempo te irrita: eu acendo e aproximo meu dedo, o máximo possível sem me queimar. Nunca, nem uma única vez, eu errei a medida.

 

Em Praga chovia sem parar

Eu acordo nos domingos de manhã, faço um chá e abro o Post Secret. É sempre a primeira coisa que eu faço, é em parte porque acho o projeto bonito e poético e em parte porque ele me lembra que não sou só eu que lá no fundo sou um monstro de ser humano.

Hoje havia um segredo escrito em uma foto da ponte de Praga. É um cartão postal que pode, muito possivelmente, ser igual algum dos que eu mandei de lá. A ponte empoeirada, sob uma luz amarela claramente artificial, aquele photoshop gritante que gostam de usar em cartões postais para fazerem cidades parecerem mais bonitas e mágicas quando no fundo, já são muito bonitas e mágicas sem esses efeitos horrorosos.

A ponte de Praga, por exemplo, é mais bonita durante a noite. “Talvez seja a cidade mais bonita que eu já estive”, você me disse. Eu não conseguia decidir entre Praga, Budapeste ou Paris (você ainda não tinha chegado em nenhuma dessas, me pergunto qual sua opinião agora), mas acabei concordando porque um relógio astronômico não é algo que se ignore.

Então me irrito porque fazem quase dois meses e não é possível que eu ainda saiba seu nome ou o tom de azul dos seus olhos. Sobre a imagem da ponte, o cartão dizia “uma das coisas mais difíceis da vida é ter palavras no coração que você não pode dizer”, é uma obviedade e uma constante. Se eu fosse mais romântica talvez me permitisse pensar que esse cartão podia ser seu. Mas se eu fosse dessas eu teria me permitido te pedir um email, eu teria te escrito que talvez você seja a pessoa mais interessante que conheci e é claro que isso é fácil quando se está em Praga e chove sem parar e não temos tempo de realmente estabelecer um relacionamento.

Você me diz que, quando te perguntarem de Praga, o que você vai lembrar é que chovia sem parar e você conheceu uma mulher linda. Eu ri, disse que contaria para minhas amigas que conheci um cara e ele me levou para ver a ponte iluminada a noite e muito romântico até a hora que começou a chover e eu acabei pegando uma gripe. “So much for romantism” eu disse e você riu e deu de ombros e pegou minha mão, estava tão pouco dado a romantismos e ilusões quanto eu, talvez menos.

Eu espero que você tenha esquecido na verdade, apesar desse diálogo bonitinho. Eu espero que você não lembre mais meu nome, nem mesmo que era um nome de bailarina, nem do tom de verde dos meus olhos e muito menos que eu usava batom vermelho e vestido florido.

Que não esteja, quase dois meses depois, escrevendo qualquer tipo de carta para alguém que não vai ler. Faço muito isso aqui. Uma vez um amigo meu me disse que nunca tentaria ficar comigo porque não queria acabar post de blog, mas você não sabia disso, que ia acabar post de blog, embora eu tivesse te dito que escrevia. Que escrevia e publicava as coisas, ou mandava para o editor, sem ler de novo mais do que uma única vez para pegar erros muito óbvios, se eu reler muito, se pensar demais, nunca escrevo nada. Você me disse que nunca seria capaz. Eu disse que então cabia a mim um dia escrever um livro, ou fazer um filme, sobre você e te encontrar em uma leitura em Nova York e você gosta dessa ideia, gosta desse filme, diz que vai ficar atento para coisas feitas por jovens brasileiras. Não lembro mais por que você me fez dizer o nome de alguns escritores brasileiros para anotar e eu contei de quando conheci um deles em um bar. “Você é fascinante”, você me diz e eu digo que vou pegar outra cerveja antes que lembre demais do tom dos seus olhos, antes que saiba identificar em que ponto exato de uma escala cromática entre azul e verde eles estão.

Mas eu lembro. E lembro das rugas em volta deles e me intrigo porque nunca te perguntei sua idade e percebo que não conseguiria dizer. A mesma que a minha, talvez? Ou mais, você só parece novo exceto pelas pequenas rugas em volta dos olhos? Às vezes me sinto culpada porque não demos atenção para as pessoas no bar, era minha amiga afinal de contas, mas eu estava tão absorvida por você, não me lembro a última vez que alguém fixou minha atenção desse jeito. Nunca, talvez.

“Você sequer anotou o nome dele?” Não, nem um nome inteiro, nada, absolutamente nada. Eu não sei quantas vezes desejei ser menos prática, menos cínica, menos desesperançada e realista em matéria de relacionamentos. Ou mais. Mais o suficiente para dois meses depois não lembrar de você por causa de um postal. Como se eu não lembrasse dia sim dia não. Como se eu não lembrasse sempre. Mas eu espero de verdade que você tenha esquecido.

Noite passada foi a madrugada mais curta do ano

Em algum momento você me pediu desculpas porque tinha fumado demais, estava com gosto de cigarros. “Não tem problema”, eu disse. Queria ter dito “eu gosto de gosto de cigarros. Gosto ainda mais do gosto de cigarros diferentes dos meus, mais fortes que os meus. Eu gosto de como o cheiro de fumaça mistura com o perfume, nunca mistura da mesma forma, mesmo em homens que usam o mesmo perfume e fumam os mesmos cigarros.”
“Eu gostaria de acreditar em algo, como aquele homem saindo agora da igreja”, você me diz. Eu concordo, eu também. Invejo as pessoas que vejo beijarem as portas das catedrais ortodoxas, invejo os homens que batem a cabeça até sangrar no kotel, invejo esse homem saindo da igreja as 5 da manhã, em uma madrugada gelada do verão em Sarajevo.
Invejo as pessoas menos conformadas com a ordem do mundo. Menos conscientes de que uma madrugada de verão é só uma madrugada de verão. Menos lúcidas e racionais quanto a insignificância das coisas. Pessoas que teriam por 5 segundos achado que valia a pena anotar seu nome inteiro.
Eu não anotei. Mesmo bêbada, vendo o sol nascer nas ruas de uma capital europeia, há um tipo de ilusão que não me permito. “E se nós ficássemos mais uma noite aqui?” Você me pergunta, sem qualquer pingo de seriedade. Eu sorrio, solto da sua mão, examino os furos de bala nas paredes de um prédio, me viro e respondo “e se nós fossemos para o meu quarto agora?”
Drina, você me contou, é o nome de um rio. Também é a marca de cigarros que você fuma quando está na Bósnia. Ivo Andric escreveu um livro chamado a ponte sobre o Drina. Interrompo, comprei um livro dele uma vez, ainda não li, mas não é esse. Esse é realmente muito bom, você me diz, e você costuma ser exigente com as coisas, os livros que lê ou as meninas que beija no meio da rua, então eu deveria confiar.
Rio. Mas não, o que eu comprei se chama “The Damned Yard”, provavelmente porque me lembrou graveyard e tenho uma certa obsessão com cemitérios. Não faz sentido, você diz. Não, não faz, eu sorrio de novo, balanço a cabeça em negação por trás do copo de cerveja e então trago meu próprio cigarro, que é só o último marlboro light de um maço escrito em húngaro.
Você gosta do meu sorriso. Reparou em mim porque eu ria alto no meio da rua e batia palmas como uma criancinha. “You smile like you mean it”. Rio mais ainda, digo que isso é uma música do The Killers. Que banda ruim, você diz, rindo. Concordo, rio de novo. Você não ri tão fácil quanto eu, mas gargalha quando o americano que anda com a gente imita um inglês aristocrata. Eu não consigo dizer porque é tão engraçado, mas nós dois concordamos que é terrivelmente engraçado e não conseguimos parar de rir.
Concordamos também que The Killers é uma banda ruim. Você pergunta se gosto de jazz, não, não gosto, mas ouvi você e o americano falando sobre um bar de jazz e podemos ir. Vamos e no telão tem Tina Turner, voz e cabelão, no auge dos anos 80. Desconfio que o lugar tenha sido um bunker nos anos 90, também desconfio que saímos sem pagar. Você pede uma cerveja preta, diz que preciso experimentar e pede uma pra mim, também pede um copo de rakia. Pergunta se já provei rakia, sim, conto do meu aniversário na Capadócia, de como fiquei amiga do garçom e virei uma dose de raki, que me disseram, é a mesma coisa,
Sim e não. Sim, mas eu preciso provar o desse lugar. Dou um gole do seu copo, é melhor sim. Você se vira e me beija de repente, muito rápido, antes que o gosto da bebida tenha a chance de sair da minha boca. Gosto disso. Quando você faz isso, decido que quero te levar para cama.
Também decido que quero te levar para cama porque é isso que isso é. Sexo. Porque quero mandar mensagens contando como transei com um bósnio, não como passei uma madrugada inteira trocando de bares e me perdendo pelas ruas de Sarajevo até o sol nascer.
Quando fui comprar cigarros hoje vi um maço de drinas. Quase comprei apenas para lembrar do gosto. Percebi que nem te pedi para experimentar um. Seria um gesto inofensivamente poético, comprar cigarros da marca que o moço da noite passada fumava. O que não vou ver de novo e não me permiti, nem por um ínfimo tempo, imaginar que seria diferente.
Quando o sol começou a nascer, você se espantou. O jogo começou meia noite, que horas você achou que seriam? Tempus fugit, você me diz. Time flies, eu traduzo, mais para mim mesma, enquanto estou muito compenetrada lendo sobre o bombardeio a essa rua. E se nós ficássemos mais uma noite em Sarajevo? E se fossemos para o meu quarto agora?

Um maço de marlboro lights, por favor.

Sangue

I want to be strong I want to laugh along
I want to belong to the living
Alive, alive, I want to get up and jive
I want to wreck my stockings in some juke box dive

All I Want- Joni Mitchell

– Vai começar tudo de novo não vai? Quer dizer, eu, eu vou começar de novo. Eu estava bem, ok, talvez não bem, mas eu estava quieta. Não me olha assim, eu sei o que você acha. Mas só é bonito de fora. Eu sei, eu sei que você nem sempre esteve fora, mas você mesmo disse que não era fácil. Eu estava quieta, eu gostava assim, eu gostava de querer a mesma coisa por mais de 5 minutos. O que eu quero? Não sei. Eu quero ir embora. Para Suécia. Para Paris. Para Buenos Aires, para Austrália, quero ver aurora boreal. Vietnã! Não sei, não me importa… Por que? Porque não quero ir, quero ficar. Claro! eu quero escrever essa dissertação, claro que quero. Claro que não vou mudar de tema. Claro que quero mudar. Ah sim, não, esses eu não vou escrever. Tenho, três ideias, talvez uma delas eu escreva, a outra é muito cedo, a última não posso. Não posso porque preciso saber o que você viu, o que eles viram, o que eles fizeram, não quero, não posso saber. Desculpa, eu sei, mas eu não posso, foi sua escolha e o que você viu é só seu, não posso carregar junto. Por que? Não sei, mas eu já bebia demais quando você me conheceu, deve ser para desacelerar. É, sabe? quando tudo começa a ficar mais devagar, eu penso mais devagar, eu quero menos coisas. É claro que eu quero querer menos coisas, ninguém pode fazer tanto. Se eu durmo? as vezes, nem todos os dias, mas eu nunca dormi todos os dias, você sabe disso. Eu não fumo demais, você fuma muito mais que eu. Não quero parar. Sim, um dia eu paro. Não agora. Por que? Não sei, você me faz perguntas difíceis demais. Não, não é por isso. Talvez seja porque eu não devo. O que você quer que eu diga? Eu sempre tive um gosto por quebrar regras, só por quebrar, tem um gosto ótimo. Como beber rum cubano escondido direto da garrafa, você lembra? Você disse que eu tinha um jeito adorável de desprezar tudo que era sensato e eu disse que ia ser meu fim, você disse que não, que por qualquer motivo eu sabia fazer isso. Que eu era mais Hemingway que Kerouack, que eu ia durar. Eu te amei naquele minuto como em nenhum outro, mas você estava errado. Porque eu tentei ser sensata. Sim, eu sobrevivi, mas só metade, não inteira e minhas cicatrizes fecharam do jeito errado. Sabe tudo que você viu? Eu também vi, só que do lado de dentro. Eu sei que você sabe. Sim, é por isso que eu fujo, mas não é a dor que parece ser, é que eu já não tenho partes de mim mesma para perder. Não, é claro que você arrancou algumas e é lógico que ele arrancou outras, mas não é disso que eu estou falando. Estou falando das que eu mesma matei, com você, com ele, com os outros. Eu não tenho medo do que vocês me arrancam, eu tenho medo do que eu mesma tento matar para conseguir ficar. Eu nunca quero ficar. Não, nem com você. E no fim eu fiquei né? Você foi embora, mas você também nunca quis ficar, então talvez faça sentido. Agora? Não, é claro que eu não vou embora, o que ia adiantar? Você sabe que não adianta, que não passa, que nunca passa. Que eu comecei tudo de novo, que todos esses anos em que eu consegui parar no olho do furacão, estável, sensata, anestesiada, acabaram. Como? Viva.