David Fincher

Sobre promessas e narrativas. Ou sobre crianças prodígio

Tem essa cena na minha cabeça desde que eu vi Gone Girl, quase um mês atrás. Não tem a ver com viradas supostamente geniais ou o discurso da cool girl, que sim, eu gosto muito, mas não, não é a cena que ficou na minha cabeça quando eu saí do cinema. Não é sobre ela que eu sabia que viria falar aqui assim que decidisse voltar pra cá.

É sobre a parte que a Amy e o Nick vão a festa para comemorar o casamento da Amazing Amy, a personagem que os pais da Amy criaram inspirados nela. “Amazing Amy era um prodígio do cello, eu larguei aos 10 anos. Amazing Amy jogou voley com bolsa na faculdade, eu saí no primeiro ano do ensino médio”, Amy vai contando enquanto passa pelas figuras. Amazing Amy está sempre um passo a frente, um lugar acima, ela é sempre melhor que a Amy real. Porque ela é uma promessa que se cumpriu.

Promessas muito raramente se cumprem. A realidade se recusa muito teimosamente e nos dar o que esperamos, a condizer com o cenário criado nas nossas cabeças. A frieza do real é algo que nossos cérebros meio que se recusam a conceber.

Ser uma criança talentosa, por exemplo, é um negócio horroroso. Eu fui uma criança particularmente talentosa. Eu tocava piano bastante bem, eu jogava tenis lindamente, eu dirigia e escrevia peças, eu pintava quadros, eu antes dos 15 já falava francês. Não importa se eu queria fazer alguma dessas coisas minha vida, importava a considerável facilidade com que eu ia tomando cada coisa que decidia fazer. Aos olhos da mini-Isadora não havia muito que ela não pudesse fazer, o mundo era só esse lugar que eu escolheria tomar do jeito que quisesse.

E ninguém se deu ao trabalho de me dizer que não era assim. Todas as pessoas em volta incentivaram, elogiaram, promoveram todas as capacidades artísticas da criança talentosa. Todas as promessas.

Acontece que a potencial pianista que eu fui aos 8 anos será sempre melhor que a pianista que não fui. Os livros que nunca escrevo são melhores que aqueles que de fato escreverei. O relacionamento que eu acho que poderia ter dado tão certo é muito mais bonito do que o que arriscamos realmente ter.

Não é que crianças prodígio sempre falhem. Eu me sentiria muito ingrata se dissesse que falhei, me sentiria terrivelmente egoísta se não concordasse que consegui levar com certa proeza quase todas as coisas que me propus a fazer. Mas eu vivo no eterno medo da potencialidade das coisas. Na eterna consciência de que a realidade nunca pode atender o que se espera dela.

Eu escrevo muito pouco, comparado com o que eu gostaria. Eu nunca, jamais, em hipótese alguma, penso duas vezes antes de publicar algo aqui. Eu encaro dois parágrafos seguidos de páginas em branco e não me convenço a continuá-los. Porque eu não consigo lidar de uma forma serena suficiente com a escritora que eu queria ser, com a expectativa, o desejo a, quem sabe, promessa na minha mente.

Eu tive esse relacionamento que durou um ano e às vezes as pessoas me perguntam porque ele nunca virou algo de concreto, estabelecido, por que nunca se chamou nada. Por vários motivos, um deles o medo que eu tinha da realidade e do cotidiano se aquilo virasse algo de verdade. Como era, era como caminhar no ar. Exatamente como caminhar no ar. Incômodo, perigoso, mas de uma poesia intensa. De possibilidade pura. Sabem desenhos do Pernalonga que só cai no penhasco se perceber que já está sobre o penhasco? Quando eu percebi que caminhava no ar eu caí, feio. Mas o melhor relacionamento da minha vida continua existindo só na minha cabeça.

Eu não preciso de lições de mora sobre arriscar as coisas, sobre aceitar a possibilidade da dor para ter felicidade, bla, bla, bla, etc, etc, etc. Não falo disso. Acredito nisso até, de certa forma, em algum grau, supondo que eu acreditasse me felicidade. Não, o que quero dizer é que sempre postulamos mais felicidade do que há no mundo. E mais talento. Mais sorte. Nada nunca é do jeito que prometido.

Em Gone Girl a criança prodígio não é a única promessa não cumprida. Há diversas promessas. De amor, de cumplicidade, de relacionamento, de identidade. Ninguém é quem gostaria de ser, no filme ou fora dele.

Parece simples de aceitar. Parece melhor do que tantas coisas que eu já consegui enfiar na minha cabeça. Mas não consigo. De todos os meus mesmos, talvez o da coisa que poderia ser seja o maior. Das promessas que murcham como aqueles balões de hélio depois de alguns dias.

Mas não consigo. Porque narrativas são sedutoras. Porque as histórias que contamos dentro das nossas cabeças são boas demais para deixar passar. Eu tenho um medo gigantesco dessa ilusão, do tombo que eu tomo quando salto em uma promessa irreal.

Mas nunca é demais repetir que todas as promessas são irreais.

 

(voltamos aos pouquinhos com um texto que, simbolicamente, não é tão bom quanto poderia ser)

Where the wild things are

Faz tempo que eu não escrevo sobre filme nenhum, na verdade, faz tempo que eu não vejo algum filme que me dê vontade de escrever sobre. O que não quer dizer que eu não tenha visto bons filmes, mas em geral eu só escrevo sobre filmes que eu me pego identificando cada elemento, percebendo as intenções e sendo capaz de fechar uma rede mais ou menos racional do que eu acho que tudo aquilo significa. E o Fincher é o cara que sempre, sempre, faz isso comigo.

The girl with the dragon tattoo (porque eu não gosto do título traduzido, o blog é meu e eu chamo o filme como eu quiser) não é A Rede Social. Não é o filme moderno, um pouco truncado, que respira nouvelle vague e sem querer fez uma bilheteria enorme. É um blockbuster, sempre foi um blockbuster e o fato de que além disso é um puta filme talvez dê ainda mais mérito a ele. Não é que o Fincher não faça concessões, ele fez Benjamin Button afinal, mas esse filme é dele, em cada plano e principalmente naquilo tudo que não entra em plano.

A começar pela Lisbeth. Eu li muito sobre o como ela era uma personagem forte, uma sobrevivente, sobre o quanto ela era badass. Ela é badass sem dúvida, mas eu não vi nada dessa força, o que eu vi foi alguém terrivelmente frágil, tão frágil que é incapaz de controlar a si própria. Pro Fincher e para a Rooney Mara a Lisbeth é uma coisa selvagem, deslocada, inapta a vida em sociedade (e eu gosto muito de coisas selvagens).

E aí, no meio do filme eu comecei a perceber que talvez o Fincher tenha um tema comum: algo nele, algo em todos os filmes dele se incomoda profundamente com a asepsia, com a ordem, com tudo aquilo que está em seu devido lugar. Me parece tão óbvio falar que o desconforto com a ordem instituída e correta do mundo é o tema de Clube da Luta que vou pular essa parte, mas e todos os serial killers? Ele dirigiu Seven, Zodíaco e agora esse e o que é um serial killer se não a demonstração da violência  absoluta que permanece por baixo da ordem e do método? Em The girl with the dragon tattoo ainda existe, bem de leve no Fincher, imagino que mais forte no livro e na versão sueca, a sensação de que por baixo daquela Suécia organizada, limpa, toda feita de design minimalista em casas brancas e iluminadas existe algo de bárbaro, algo de nazista (e o que é o nazismo se não a brutalidade do exagero da ordem e da racionalidade? )

E é talvez por isso que a Lisbeth é no fundo o centro do filme: ela não sabe viver nesse mundo de linhas retas e limpas a violência dela é crua, instintiva, animal, o exato oposto da violência metódica do serial killer ela é o que pode haver de autêntico no mundo e, como em Clube da Luta, a imagem não é bonita. Eu gosto da fragilidade e do desespero dela, muito mais do que eu gostaria de uma personagem principal forte, da tal sobrevivente que todo mundo diz.

Dentro de todo esse desconforto a trilha me faz ter certeza que o Trent Reznor é pro David Fincher o que o Nino Rota foi pro Fellini. Em um momento eu cheguei a sentir falta de silêncios, de respiros, pensei que por mais que eu amasse o Trent Reznor aquilo tava meio demais, mas aos pouco fo fazendo sentido de que é isso mesmo, é excesso, é desconforto, é aquele zumbido na sua cabeça que nunca, nunca passa. Como a loucura. Como estar na mente da Lisbeth.

 

Se você viu um filme…

Se você for a uma festa e nenhuma foto aparecer no Facebook, você realmente foi a essa festa?

 

Essa é uma mensagem especial pra Aninha: esse post não contem spoilers e você pode ler.

(voltamos a nossa programação normal)

Eu ouvi dizer o tempo todo (leia-se: desde sexta feira quando o filme estreou) que “A Rede Social” era um filme sobre a frieza da nossa geração. Não é. É um filme sobre pessoas que querem se comunicar, mas não conseguem. Não conseguem porque perderam o controle e sim, essas pessoas somos nós.

Eu também li, isso desde que o hype do filme começou, que  o filme (e principalmente o livro, “Accidental Billionaires” em que ele foi baseado) não são acurados e vilanizam demais o Zuckerberg. Eu acredito nisso, mas acho que não importa. Eu já disse em diversas conversas por aí (e devo ter importado esse argumento de alguém importante que eu não lembro quem é) que não importa se deus existe ou não, a religião é real, a experiência de deus para quem acredita é real. Se a história do Facebook é ou não aquela é menos importante, o que importa é que você senta por duas horas na frente de um filme que é a sua realidade.

Uma realidade que de certa forma substituiu aparência pela “relevância” e em que um fora da namorada é sim motivo para mudar o mundo, o que mais seria? Nós perdemos o controle: daquilo que é importante, da maneira como nos relacionar e da extensão de nós mesmo que é a internet e, mais importante que tudo, da nossa capacidade de nos comunicar.

Para mim o maior mérito do David Fincher é finalmente esquecer a Sociedade do Espetáculo como cinema ou tv e perceber que o tal espetáculo são suas fotos no Facebook e é articular isso de uma forma perfeitamente digerível, mas incômoda, como quem diz: eu sei, meus queridos, vocês não sabem para onde estão indo. Exatamente assim, sem crítica, apenas um retrato.

E um retrato muito bem feito! Eu não quero ficar aqui falando de roteiro e montagem e personagens e, bla,bla,bla “eu fiz cinema e sei usar termos técnicos”, basta dizer que nos primeiros 3 minutos de filme ele fez o personagem e te convenceu de todo o resto que ele vai mostrar na próxima uma hora e 57 minutos. E eu precisei gastar tudo isso só pra dizer que “A Rede Social” é um puta bom filme!