Metafísica de boteco

Roleta

O quanto nós podemos confiar em nós mesmos? O quanto podemos confiar em nossos sentidos, nossas impressões, no que quer que tenhamos aprendido com a vida?

Epistemologia sempre foi a parte que eu mais detestei da filosofia, todos aqueles textos sobre a possibilidade, ou não, de aprendermos algo através dos sentidos. O mundo é uma ilusão? Vivemos em uma armadilha feita dentro de nossas cabeças? Ou não, podemos confiar na realidade externa como ela nos é apresentada? Daí Platão fala dos jovens corpos besuntados em óleo correndo ao sol e eu perco totalmente a linha de raciocínio.

Mas, como toda questão filosófica clássica, há algo ali. Até que ponto posso confiar em mim mesma para aprender? Até que ponto posso confiar no que sei para fazer escolhas melhores dos que as que já fiz?

Porque eu já fiz muitas escolhas ruins. E algumas dessas eu fiz plenamente consciente, mas outras eu acreditei de verdade que estava fazendo a coisa certa. E não estava.

Eu escolhi ficar, por anos, com um homem que corroía toda minha sanidade mental acreditando durante a maior parte desse tempo que ele me fazia bem, que a escolha era acertada. Como eu posso saber que não estou fazendo isso de novo? Maturidade, me dizem, tempo, eu aprendi com meus erros. Mas como eu posso ter certeza da minha, ou de qualquer um, habilidade de realmente aprender com os erros? Com a vida, com a realidade externa, com o que quer que seja? Como eu posso confiar em mim mesma para não estar cega ou distorcendo a realidade ou simplesmente muito, muito enganada?

Meu cérebro é algo frágil, além de tudo. Algo assustado e frágil e, como um animal selvagem, quase maligno nesses momentos. E ele me prega peças e coloca armadilhas. As últimas semanas têm sido pouco mais que uma tentativa de navegar as ratoeiras que ele me coloca, de ignorar cada demônio me tentando no caminho. Não dessa vez. Não hoje.

Mas e se alguma dessas armadilhas for, no fundo, a verdade? E se o que eu ouço é intuição, é segurança e não apenas medo e neurose?

Você precisa arriscar estar errada, é a resposta post de autoajuda sobre paisagem bonita no tumblr. Eu tenho vontade de rolar no chão rindo histericamente cada vez que alguém me diz que não se deve ter medo dos relacionamentos, que não se deve ter medo de sofrer, que tudo bem se eu estiver errada. Porque você não sabe o tamanho da aposta.

Eu sou, eu sempre fui, uma grande partidária de que há algo fundamentalmente errado na forma como as pessoas hoje em dia fogem do sofrimento. Eu me chocava e me irritava com as amiguinhas da minha adolescência que achavam que se algo terminava e alguém sofria aquilo era ruim e tinha dado errado. A vida nada mais é do que um monte de sofrimento. E umas coisas boas jogadas ali no meio pra você achar que vale a pena não desistir. Não faz sentido tentar blindar o sofrimento, tentar apenas entrar em apostas certeiras de felicidade, não é sequer possível fazer isso.

Mas também é preciso medir o quanto se pode pagar.

Eu, hoje, não saberia essa resposta para mim. Ano passado eu não podia. Ano passado, eu paguei muito caro por uma aposta muito pequena porque eu simplesmente não podia lidar, não havia sobrado nada em mim. Eu fui como um jogador de pôquer na última partida perdida depois de meses de azar. Tudo já havia sido perdido e penhorado e vendido e foi um deslize mínimo que me fez perder tudo.

Eu poderia ter medido isso, mas eu não soube. Era uma aposta tão pequena, como poderia me custar tanto? O quanto nós podemos saber de nós mesmos, da forma como reagiremos às coisas? E, mais importante, o quanto podemos saber do outro para ser capaz de medir a aposta, para se capaz de escolher?

Eu levei bastante tempo, e infinitas perdas, para entender que pessoas são uma escolha. As pessoas que mantenho comigo, aquilo que elas sabem de mim, é tudo uma escolha. Mas é solitário demais escolher sempre. É solitário e árido controlar, filtrar, manter todo mundo do lado de fora de certas partes. E há um tipo de escolha que para mim só faz sentido se for tudo ou nada.

Mas eu já escolhi errado vezes demais. Eu demorei para entender que aquilo que me levava, aquilo que me fazia querer ficar era também uma escolha. Não é uma escolha fácil de ser mudada, mas é uma escolha. Meu instinto me faz escolher pelo perigo, pelo jogo, pela instabilidade. Meu instinto gosta demais do jogo. E eu gosto demais de me punir. Eu gosto demais de entrar em uma disputa que sei que vou perder, com eles, comigo mesma. Quais minhas chances tentando escolher diferente?

E qual a possibilidade de que eu perca para mim mesma de novo? Eu venho testando essa escolha há meses. Cruelmente. Implacavelmente. E eu ganho. Todas elas. Mas até quando? Até quando eu posso testar alguém até que justamente esse teste esgarce tudo? Qual o ponto em que eu simplesmente tenho que assumir que é um salto de fé e confiar em mim mesma? Já que estamos falando em filosofia.

Dos anos que eu passei imersa em suecos deprimidos e filosofias, eu aprendi que a escolha é sempre cega. Essa escolha, especialmente, é sempre cega. E sempre contra as probabilidades. Mas é preciso fazê-la. Porque o preço de não fazê-la é alto de mais. Mas e se o preço de fazer também for?

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Maré alta

Tem alguns dias em que só resta desistir.

Alguns dias em que você chega em casa, chora um pouco sentada no chão, abre uma garrafa de vinho e desiste.

Desistir é uma gentileza comigo mesma que eu levei muito tempo para adotar. Em outros tempos, eu chegaria em casa e ainda tentaria ler, ver um filme, pelo menos um episódio de série. Eu tentaria fazer jantar, dobrar as roupas, limpar a caixa de areia do gato. E eu falharia em todas essas coisas.

Tem dias em que preciso desistir para não desistir de tudo.

Há dias bons e dias ruins.

Eu repito essa frase para mim quase como um mantra. Eu lembro de todos os diagnósticos em todos os consultórios de psicanalistas. Haverão dias bons e dias ruins, sempre, dias bons e dias ruins. Para sempre dias em que minha química cerebral me passará uma rasteira, em que a solidão vai se alojar no fundo do meu estômago, em que a dor vai corroer meus ossos. Dias em que eu vou desistir. Dias em que existir vai se tornar insustentável.

Nada me incomoda mais do que a inércia, a impossibilidade de fazer qualquer coisa. Eu sempre quero tanto, eu sempre tenho tanto a fazer, livros para serem lidos, textos para serem escritos, novas teorias revolucionárias sobre a análise fílmica a serem criadas. E eu não consigo fazer nada. Minhas mãos tremem, meu cérebro me escapa, minha respiração é mais curta, a comida perde o gosto e tudo que eu coloco dentro de mim parece veneno.

De tudo, acho que o que mais assusta é o efeito no corpo, a neurônios da coisa. Talvez, e eu acredito nisso, tudo tenha a ver com o que eu senti, com minhas memórias e meus pais e a formação de estruturas completamente abstratas na minha mente. Mas nessas horas você percebe perfeitamente que seu cérebro é composto de células, impulsos elétricos e neurotransmissores desregulados. E que isso cai na sua corrente sanguínea e todo seu corpo para de te obedecer porque você não consegue tomar as rédeas do próprio cérebro.

E é um círculo. O descontrole gera pânico que gera mais descontrole que gera mais pânico. A inércia gera culpa, que gera mais inércia, que gera auto punição que gera mais inércia e a bola de ódio e insegurança e medo vai crescendo e rolando, com você, ladeira abaixo.

Até agora que eu grito chega.

Meu momento preferido de toda a literatura mundial é quando Ivan Karamazov conversa com o demônio. Oi demônio, senta aqui, pega um chá, vamos bater um papo. Eu adoraria conversar com os meus demônios. Eu adoraria que eles sentassem no meu sofá, aceitassem uma taça de vinho e falassem comigo. Oi querido, quanto tempo né? Quer dizer, não, na verdade não, ontem mesmo você apareceu aqui e agora não quer mais ir embora, qual o problema? Você não tem uma casa? Por que você precisa ficar aqui?

Às vezes, mesmo que eu saiba que não é assim que funciona, eu preciso fingir que meus demônios são algo diferente de mim, algo separado. Algo que realmente me possuí, como um diabo de filme de terror. Ainda falando em Dostoievsky, o título original de Os Demônios é algo como Os Endemoniados. Os endemoniados, aqueles tomados por um niilismo profundo e a mais completa falta de fé.

Eu gosto dessa ideia.

E se eu simplesmente aceitasse a posessão? Sentasse e esperasse que  o pequeno satã se cansasse de mim e decidisse abandonar esse corpo que não lhe pertence? Será que ele não acharia que está bastante confortável e nunca mais fosse embora?

Esse é meu medo nos dias em que desisto. É esse o pavor que minha inércia traz consigo. De que eu nunca vá me mexer de novo, de que nada disso nunca vai passar.

E não vai.

Porque os dias continuarão sendo bons e ruins e bons e ruins e os ruins são sempre mais intensos que os bons. Então a outra alternativa não seria respeitar meus próprios ritmos? Me conformar com minha tábua de marés?

Quando eu estava em Pipa, fiquei em um hotel na areia da praia. Eu acordava com as ondas na minha janela e estava sempre com meus pés na areia. Contudo, por 4 ou 5 horas todos os dias, eu ficava ilhada. Não podia sair, nem entrar, porque a maré subia e tomava tudo. Aquilo era de uma beleza incomparável, mas como todas as coisas profundamente belas, havia algo de primitivo ali, de indomável.

Eu gostaria tanto de poder domar a mim mesma. Eu gostaria tanto de estar no controle. De não em sentir trancada para fora de mim mesma assim tantas vezes. Mas talvez não me reste mais nada a não ser aceitar? Que os dias bons serão bons e os dias ruins serão horríveis e sempre, sempre existirão dias ruins. Mas talvez eles diminuam e talvez os dias bons se tornem melhores e talvez, só talvez, exista alguma beleza em tudo isso?

Ou eu posso simplesmente desistir.

Memento mori

Eu sempre tive medo de envelhecer, medo do tempo que passa e medo, principalmente, de não ter tempo de fazer tudo que a minha pressa desenfreada deseja.

Eu me lembro bem de ter 11 anos e estar deitada na minha cama, encarando aquelas estrelinhas que brilham no escuro e tendo todo um memento mori estilo Jane Eyre no quarto vermelho porque afinal, estava logo ali o primeiro ritual que me tornaria velha.

Eu me apavorei aos 11, aos 16, aos 20, aos 26. Eu torço as mãos e viro noites e me angustio porque está tudo tão fora do lugar, eu estou tão fora do caminho e o tempo, ele passa tão cruel.

Eu tenho medo dele. Eu tenho medo de tudo que eu não vou ter feito aos 30 anos, eu tenho medo de cada desvio como se houvesse algo a ganhar nessa correria e não há, não há lugar nenhum para chegar e esse pavor me surpreende quando eu penso que tudo tem ficado solidamente melhor a cada ano que passa.

Nesses últimos quatro anos, eu reconstruí a minha vida. Esse ano tira um peso de mim porque fará mais tempo que estou sem ele do que estive com, porque finalmente isso pode parecer distante, esquecido.

A segunda metade dos meus vinte anos tem sido consideravelmente melhor que a primeira. Quando eu o deixei tudo era deserto, estéril, vazio. Quando eu fui embora, eu não tinha ninguém para andar comigo. Nos últimos anos, eu tinha cortado todas as cordas, fechado todas as portas, testado até o limite o amor de quem disse que estaria comigo até nas portas do inferno. Então eu comecei de novo.

Nesse processo eu saí do caminho várias vezes. Eu me perdi, eu quis morrer, eu me arrastei por dias fantasmagóricos. Eu abandonei sonhos, eu passei meses sem escrever uma linha. Eu achei que nunca ia sair daqui. Eu me perguntei todos os dias onde eu estava, o que eu estava fazendo, quem eu queria ser.

Quatro anos depois, eu encontrei respostas. Quatro anos depois, fugir deixou de ser tão importante. Em algum momento, sem nem perceber, eu decidi que só iria quando tivesse porque voltar.

Eu sou, talvez, uma das pessoas mais ambiciosas que andou por essa terra. Eu quero todas as coisas e eu as quero grandes, intensas, enormes. Eu quero tanto que eu me paraliso. Eu sonho tão longe que desisto antes pela impossibilidade de chegar lá. E eu passo um tempo enorme amargurada por tudo que não fiz.

Mas eu fiz sim. Eu fiz uma vida toda. Eu fiz gente demais para caber em um apartamento, ou melhor, gente que topa tentar se enfiar em um apartamento.

Eu perdi tudo e eu ganhei tudo e a primeira coisa que me pego pensando sobre ficar velha é toda essa bagagem acumulada, é toda essa bagagem, minha e do outro, que precisa ser coordenada.

Quanto mais eu trago comigo, quanto mais vezes eu vi relacionamentos acabarem, quanto mais vezes eu fui ferida, abandonada, traída, mais insustentável fica começar de novo? É possível que todas as pessoas que eu deixei entrar tenham me feito trancar a porta?

Ou quanto do que ele já viveu o torna arisco a mim? Quanto do passado o faz perceber que ele até poderia lidar com o que eu trago, mas não quer?

Tenho achado curioso esse momento, como se tivesse cruzado uma espécie de ponto de virada em que tudo é recomeço, todo relacionamento já foi feito antes, por mim e por ele. É como ganhar uma segunda chance e, ao mesmo tempo, sentir despencar na cabeça  a bigorna da condição humana e a certeza de repetir os mesmos erros até o fim.

Há muita coisa atrás de mim agora, há vidas inteiras. Já é tão complicado, tão impossível, coordenar apenas duas vidas, que dirá todas as outras que vem encaixotadas? E o medo?

Meu medo é como a fotografia esmaecida que não se joga fora, como o rastro de perfume de alguém que acabou de deixar o quarto. Como lençois amassados e cheiro de cigarro no dia seguinte. Pessoas foram embora, histórias acabaram, coisas sem fim terminaram, mas o medo fica, a lembrança irracional, do toque, da dor, da loucura, fica.

E vai ficando insustentável. Onde guardo tanto acúmulo? Eu sei que essa foi só a primeira vez que eu perdi tudo, outras virão e outros virão e onde eu coloco cada um deles? Com que coragem eu mostro tudo isso? Como posso realmente pedir para que alguém fique quando eu sei muito bem o que estou trazendo, quando eu sei que é algo que ninguém deveria querer?

Quão irônico é que quanto melhor tudo fica, mais medo eu tenho o tempo todo?

Sobre promessas e narrativas. Ou sobre crianças prodígio

Tem essa cena na minha cabeça desde que eu vi Gone Girl, quase um mês atrás. Não tem a ver com viradas supostamente geniais ou o discurso da cool girl, que sim, eu gosto muito, mas não, não é a cena que ficou na minha cabeça quando eu saí do cinema. Não é sobre ela que eu sabia que viria falar aqui assim que decidisse voltar pra cá.

É sobre a parte que a Amy e o Nick vão a festa para comemorar o casamento da Amazing Amy, a personagem que os pais da Amy criaram inspirados nela. “Amazing Amy era um prodígio do cello, eu larguei aos 10 anos. Amazing Amy jogou voley com bolsa na faculdade, eu saí no primeiro ano do ensino médio”, Amy vai contando enquanto passa pelas figuras. Amazing Amy está sempre um passo a frente, um lugar acima, ela é sempre melhor que a Amy real. Porque ela é uma promessa que se cumpriu.

Promessas muito raramente se cumprem. A realidade se recusa muito teimosamente e nos dar o que esperamos, a condizer com o cenário criado nas nossas cabeças. A frieza do real é algo que nossos cérebros meio que se recusam a conceber.

Ser uma criança talentosa, por exemplo, é um negócio horroroso. Eu fui uma criança particularmente talentosa. Eu tocava piano bastante bem, eu jogava tenis lindamente, eu dirigia e escrevia peças, eu pintava quadros, eu antes dos 15 já falava francês. Não importa se eu queria fazer alguma dessas coisas minha vida, importava a considerável facilidade com que eu ia tomando cada coisa que decidia fazer. Aos olhos da mini-Isadora não havia muito que ela não pudesse fazer, o mundo era só esse lugar que eu escolheria tomar do jeito que quisesse.

E ninguém se deu ao trabalho de me dizer que não era assim. Todas as pessoas em volta incentivaram, elogiaram, promoveram todas as capacidades artísticas da criança talentosa. Todas as promessas.

Acontece que a potencial pianista que eu fui aos 8 anos será sempre melhor que a pianista que não fui. Os livros que nunca escrevo são melhores que aqueles que de fato escreverei. O relacionamento que eu acho que poderia ter dado tão certo é muito mais bonito do que o que arriscamos realmente ter.

Não é que crianças prodígio sempre falhem. Eu me sentiria muito ingrata se dissesse que falhei, me sentiria terrivelmente egoísta se não concordasse que consegui levar com certa proeza quase todas as coisas que me propus a fazer. Mas eu vivo no eterno medo da potencialidade das coisas. Na eterna consciência de que a realidade nunca pode atender o que se espera dela.

Eu escrevo muito pouco, comparado com o que eu gostaria. Eu nunca, jamais, em hipótese alguma, penso duas vezes antes de publicar algo aqui. Eu encaro dois parágrafos seguidos de páginas em branco e não me convenço a continuá-los. Porque eu não consigo lidar de uma forma serena suficiente com a escritora que eu queria ser, com a expectativa, o desejo a, quem sabe, promessa na minha mente.

Eu tive esse relacionamento que durou um ano e às vezes as pessoas me perguntam porque ele nunca virou algo de concreto, estabelecido, por que nunca se chamou nada. Por vários motivos, um deles o medo que eu tinha da realidade e do cotidiano se aquilo virasse algo de verdade. Como era, era como caminhar no ar. Exatamente como caminhar no ar. Incômodo, perigoso, mas de uma poesia intensa. De possibilidade pura. Sabem desenhos do Pernalonga que só cai no penhasco se perceber que já está sobre o penhasco? Quando eu percebi que caminhava no ar eu caí, feio. Mas o melhor relacionamento da minha vida continua existindo só na minha cabeça.

Eu não preciso de lições de mora sobre arriscar as coisas, sobre aceitar a possibilidade da dor para ter felicidade, bla, bla, bla, etc, etc, etc. Não falo disso. Acredito nisso até, de certa forma, em algum grau, supondo que eu acreditasse me felicidade. Não, o que quero dizer é que sempre postulamos mais felicidade do que há no mundo. E mais talento. Mais sorte. Nada nunca é do jeito que prometido.

Em Gone Girl a criança prodígio não é a única promessa não cumprida. Há diversas promessas. De amor, de cumplicidade, de relacionamento, de identidade. Ninguém é quem gostaria de ser, no filme ou fora dele.

Parece simples de aceitar. Parece melhor do que tantas coisas que eu já consegui enfiar na minha cabeça. Mas não consigo. De todos os meus mesmos, talvez o da coisa que poderia ser seja o maior. Das promessas que murcham como aqueles balões de hélio depois de alguns dias.

Mas não consigo. Porque narrativas são sedutoras. Porque as histórias que contamos dentro das nossas cabeças são boas demais para deixar passar. Eu tenho um medo gigantesco dessa ilusão, do tombo que eu tomo quando salto em uma promessa irreal.

Mas nunca é demais repetir que todas as promessas são irreais.

 

(voltamos aos pouquinhos com um texto que, simbolicamente, não é tão bom quanto poderia ser)

Um pequeno post melado sobre mulheres, amor e achar seu lugar nessa vida

A maior parte da minha infância eu passei com garotos. As pessoas que eu posso dizer que cresceram comigo, junto de quem aprendi a andar de bicicleta, caí de árvores e quebrei o braço três vezes, eram todos meninos. Eu não tive irmãos, mas minha mãe tinha um grupo de amigas, todos com filhos, e eu passei uma quantidade enorme do tempo da minha infância com eles. Convivendo, inventando jogos, ganhando no videogame e brincando de comandos em ação.

Eu não era o que se chamaria de “moleca”. Eu gostava de barbies (embora detestasse bonecas bebês), de cor de rosa, de fadas, princesas e sereias. Eu gostava de livros, jogos de tabuleiro e videogames mais do que de correr por aí. Mais do que tudo, eu sempre gostei de lápis aquareláveis e dirigir peças de teatro cujas protagonistas eram sempre meninas.

Eu aprendi muito, ao longo da vida, na minha relação com homens. A primeira pessoa que foi meu porto seguro, minha âncora, foi um homem. Foi ele que me ensinou que, na ausência de amor, carinho, colo e segurança em casa, eu podia fazer isso por mim mesma, eu poderia arranjá-los fora, e ele é, ainda, a pessoa mais importante da minha vida. Eu tive garotos que me ensinaram a andar de skate, a tocar alguns acordes de violão, que levaram a lojas de cd e me deixaram entrar no mundo deles. Eu sempre fui a confidente de algum homem na minha vida, eu sempre ouvi ao menos um me contar de amores, de inseguranças, eu já consolei no meu colo mais de um choro por coração partido.

Mas foi só esse ano que eu percebi, apesar de todo amor que eu sempre tive pelos homens da minha vida, o quanto era importante e necessário e o tamanho do bem que me faz a amizade de mulheres.

Provavelmente a coisa mais importante da minha vida é conseguir uma rede de apoio. Pessoas que vão te amar não importa se às vezes você erra, que aceitam pedidos de desculpas e te dão lugar para não ser perfeita. Que te acolhem quando o que você precisa é só saber que não está sozinha. Eu não achei isso em casa e eu não achei isso em relacionamentos amorosos, eu achei isso em grupos de amigas.

Talvez porque o mundo é construído desse jeito fodido, eu vi muitas vezes, em mim e em outras, essa resistência a “se fechar” em grupos de mulheres. A declarar girl’s night, a dizer que nessa conversa nenhum homem entrava. Acontece que é importante, que há um tipo de cumplicidade e conexão que acontece diferente quando se está entre mulheres.

Vejam, eu não estou dizendo (NÃO ESTOU) que há mais conexão entre mulheres do que entre mulheres e homens. Que é impossível ter as mesmas conversas ou mesmas intimidades. Não é. Eu já tive conversas tão explicitamente gráficas e confortáveis sobre sexo com homens, inclusive com um homem com quem já transei. Eu já chorei e pedi conselhos e falei do que eu sentia. Mas a sensação é diferente, não é mais ou menos possível ou melhor ou pior, mas é diferente.

Há um acolhimento na identidade. As coisas não deveriam ser assim, mas homens e mulheres são educados de formas diferentes e tem expectativas diferentes em relação ao mundo. Não acontece tanto de eu contar algo a um amigo e a resposta dele ser “já passei por isso”, enquanto acontece de horas serem passadas entre três mulheres contando de experiências parecidas.

Esse ano não tem sido um ano fácil para mim. Eu defendi um mestrado e passei dois meses aprontando pela Europa então não posso de forma alguma dizer que tem sido ruim. Mas tem sido difícil. Os altos foram muito altos e os baixos foram muito baixos, mas eu tenho quase certeza que quando 2014 chegar ao fim o que eu vou ter como memorável são o que os dois meses sozinha pelo mundo me ensinaram e o que as mulheres que me receberam aqui me deram. Voltar é tão difícil quanto ir é maravilhoso e elas, nos mojitos de terça-feira, nas conversas retardadas do twitter, nas idas ao ballet e nas baladas, me mostraram que havia motivo para voltar, motivo para querer ficar, para querer permanecer em algum lugar.

Eu tenho uma amiga que já me acolheu em um domingo a noite só porque eu tinha voltado de Cuba e na minha casa não tinha um único pedaço de pão mofado. Que me disse não senhora, você não vai jantar miojo e me levou para casa dela, me deu álcool, lasanha e gatos o que me parece a própria definição de amor. Em troca eu dei minha casa e minha cama a qualquer hora da madrugada que ela precise, sem explicações, sem justificativas.

Quando eu me percebo dentro de um grupo de mulheres, eu me sinto profundamente agradecida. Quando há adesão quase automática a bebidas e fofocas no meio da semana, quando as histórias só precisam ser atualizadas, quando há uma certeza forte de presença, de amor, de apoio. E no fundo, todas nós precisamos disso. Todas nós viemos de famílias pouco compreensivas, ou que estão longe, a maioria de nós é solteira e você descobre um dia que é importante ter alguém que vai se preocupar se você não respondeu mensagens por um tempo longo demais.

O mundo é cruel demais com mulheres, com nossas expectativas e auto-estima, o que eu descobri me cercando delas é o quanto isso é uma arma forte para mudar essas coisas. A descoberta da riqueza, do talento e da maravilhosidade das suas amigas é uma arma forte. A possibilidade de compartilhar vulnerabilidade ou de ver outras estando profundamente em paz com a própria sexualidade ou corpo, é uma arma poderosa. Conviver, conversar, compartilhar a experiência de ser mulher nesse mundo salva muita gente, melhora profundamente a vida de muita gente. Ouvir muito claramente que se é amada e que alguém te acha maravilhosa também.

Esse post parece um ode gratuito de grupos de meninas e girl’s night out e é exatamente isso. Porque por mais que pareça óbvio que a convivência, honesta, aberta, amorosa, com outra mulheres, faz bem, por muito tempo me apegar a esses grupos me pareceu infantil, sectário quase. Mas não é. É um tipo de segurança que só a experiência compartilhada pode dar.

Eu tenho uma melhor amiga. A vida toda eu tive “melhores amigas”, pessoas em quem eu me apegava e fazíamos tudo juntas, ou nem olhavamos pro lado na hora de escolher grupo de trabalho ou a pessoa na frente de quem você começa a chorar, não importa se é o meio do bar ou do restaurante, por coisas que nem você saberia explicar. Eu percebi, quando errei com ela, que eu nunca tinha descoberto que o amor de outra pessoa não depende do quão perfeito e sem falhas você é. Eu fui criada sem desculpas e sem tolerância para comigo. Sem espaço para que minhas falhas fossem só falhas comuns e não monstruosidades de uma pessoa com defeito. A mudança de eixo enorme que ela representou quando me mostrou isso não é pouca coisa.

No fundo esse post é só sobre a possibilidade de achar amor, de achar apoio e segurança e coisas que te fazem continuar em qualquer lugar e não necessariamente naqueles que te disseram que encontraria. Eu sei o quanto muita gente encontra repouso e segurança em relacionamentos amorosos, não foi para mim. E nem só porque eles foram ruins, ou acabaram mal, eu tive um relacionamento maravilhoso e absurdamente importante pra mim com alguém que ainda está na minha vida. Mas eu percebi que era a dimensão da amizade dele que mais me segurou. Eu não sou contra namoros e relacionamentos, mas eu descobri que o centro do meu equilíbrio e da minha segurança esteja fora deles. E eu gostaria que ele permanecesse nesses grupos de mulheres.

“Just ‘cause you feel it doesn’t mean it’s there”

Eu tenho certeza que um dia desses morrerei no meio da Paulista, vou cair dura, sem mais nem menos, com fones de ouvido na cabeça. Causa mortis: coração destroçado por excesso de Radiohead.

Eu não preciso ouvir a voz do Thom Yorke, eu só preciso reconhecer o primeiro acorde para sentir meu sangue correr mais devagar, meus músculos contrairem e uma eletricidade passar pela minha pele, a espera da dor que vai vir. E ela sempre vem.

Eu poderia parar de ouvir música no shuffle, me proteger dessa onda de sofrimento que pode vir a qualquer momento, quando eu menos espero, me desconcertando quando preciso atravessar a rua. Poderia deletar todos os álbuns do meu computador e do meu ipod, ninguém precisa voluntariamente se expor a um espancamento desses. Ninguém precisa correr o risco de ter essa bigorna caindo na cabeça a qualquer momento do dia, justamente quando tenta não enganchar o salto no vão do metrô, ou não colocar fogo no cabelo ao acender um cigarro.

Mas quando meu cadáver for encontrado no meio da Paulista, muitas horas depois e já pisoteado pelos pedestres, eu terei um sorriso no rosto. É puro masoquismo. Como quem precisa de mais dor para sentir mais prazer, como quem só vai gozar com as costas em carne viva de chicotadas. A felicidade que eu sinto cada vez que Thom Yorke me inunda de dor me impede de parar, a imensa felicidade cada vez que acho que meu coração não vai aguentar.

Nem todas as músicas são iguais. True Love Waits é como destruir meu coração com um martelo de carne, é golpea-lo até que tudo que sobre é uma massa nojenta de carne vermelha, sangue e veias, completamente disforme e repulsiva. High and Dry é senti-lo se encolhendo, ficando menor e menor até deixar de existir, consumido pelo espaço que ocupam os meninos que essa música me lembra. E There There é como se uma agulha muito fininha fosse introduzida devagar bem no centro do meu coração. É uma dor aguda, pontual e agonizante quando ouço “just ‘cause you feel it doesn’t mean it’s there”

O quanto do que a gente vive existe fora da nossa cabeça? É uma questão epistemológica antiquíssima: o quanto posso saber do mundo? como posso ter certeza que tudo não é só uma peça, uma ilusão, que nada de concreto existe? E se no fundo tudo isso, toda essa vida é só uma viagem muito louca de ácido que alguém tem em 2050? E se somos só o sonho na mente da velhinha?

Ok, fui longe demais no ceticismo, mas a questão continua válida: quanto do que a gente vive não existe apenas na nossa cabeça? A vida é um eterno interpretar as coisas. Interpreto desde o homem andando na minha direção na rua a noite, ao aceno de cabeça do meu aluno ao whatsapp do cara em que estou interessada. Interpreto o tom da minha melhor amiga no email que ela me mandou e da secretária do médico quando ligo pedindo uma consulta. Preciso interpretar, é o processo de fazer o mundo exterior passar para dentro da meu cérebro e se tornar inteligível, mas quanta objetividade existe nesse processo? Quanta objetividade pode existir nesse processo quando se trata da comunicação entre duas pessoas cujos sentimentos são, em algum nível, desconhecidos?

Eu já me vi diante de uma situação que me fez pensar que dessa vez eu realmente tinha ficado louca, esqueça depressão ou ansiedade, algo dessa vez deu muito errado na química do meu cérebro e eu passei um ano vendo algo que não existia. Quer dizer, tudo existia, concretamente os fatos existiam, só não existia a narrativa que eu imaginava ligá-los. Eu alucinei? Eu quis tanto que algo acontecesse que vi mesmo que não tivesse acontecendo? Revisei a história histericamente, pedi confirmação de cada trecho, repeti para meu analista até ele concordar que não, eu não estava tão louca assim e por mais que eu tivesse interpretado errado, havia alguma base na minha interpretação. Mas qual a possibilidade de se interpretar certo?

Cada vez que eu tenho a impressão de estar flertando com um cara eu me pergunto “será que estou alucinando e ele não tem nenhum interesse em mim?”. Por mais que eu sinta o interesse, isso não quer dizer que ele está lá. O que dizer quando esse interesse é mais do que puro “eu queria te beijar”? Do sentimento de alguém gostar ou se importar com você e não, não é porque você sente que ele é real.

A comunicação humana é em si um abismo. Nos centímetros de ar entre quem fala e quem ouve há tantos infinitos processos microscópicos, tantas variáveis de neurotransmissores, vibrações do som, repertório, que eu me surpreendo que nós possamos nos comunicar com qualquer grau, mesmo que mínimo, de eficiência. Eu me lembro bem dessa parte das aulas de teoria da comunicação, a comunicação é a dinâmica entre quem enuncia e quem recebe e o espaço que os separa. E os espaço que os separa pode ser infinito.

Eu e um habitante do Quirguistão somos ambos humanos, mas eu não duvidaria que seja mais fácil me comunicar com meu gato ou com um eventual venusiano que baixe aqui na Terra. Começa na língua, mas é mais que isso, é a radicalidade absurda da diferença de vivências. Comunicar requer compartilhar alguma experiência comum, algum lugar comum onde possamos nos entender. E se cada um viveu a mesma coisa de forma completamente diferente? E se minha experiência e a dele nada tem a ver uma com a outra? E se o que eu sinto não está lá? E se o que está lá ele não sente?

Cada vez que Thom Yorke me lembra disso, uma agulha pontuda e fina é enfiada no meu coração. Ela vai abrindo caminho devagar, afastando sentimentos e me lembrando que não, não é porque eu sinto que está lá.

There’s always a siren
Singing you to shipwreck
Steer away from these rocks
We’d be a walking disaster

Eu matei um relacionamento e joguei em vala comum

Hoje eu comecei no Coursera um curso chamado “The Fiction of Relationships”. Nunca acho a internet tão genial e maravilhosa como quando ela me permite ver um curso de Brown no conforto do meu lar, sem realmente ter que fazer trabalhos e provas. Peguei o curso porque me faria ler Jane Eyre, To The Lighthouse e alguma coisa do Faulkner, coisas que venho pensando que deveria fazer, e adiando, há muito tempo, mas também porque o tema me pareceu maravilhoso: a ficção dos relacionamentos! Se tem algo sobre o que eu falo aqui é a respeito de relacionamentos e se tem algo que eu vivo tentando entender são relacionamentos. Duas pessoas conviverem, compartilharem uma vida, me parece algo tão improvável e estranho que eu me sinto incontrolavelmente atraída.

Na primeira aula, o professor (um velhinho maravilhoso, usando uma gravata incrível e esdrúxula) diz que the fiction of relationships não se refere apenas a ficção que nasce a partir dos relacionamentos, mas também da ideias de relacionamento como uma ficção. Não no sentido de que não sejam reais, mas de que são constructos, narrativas. Acho que essa me pareceu a ideia mais genial que já entrei em contato nos últimos tempos.

Para terminar um ensaio com que venho brigando há mais de um ano, aluguei Fragmentos de um Discurso Amoroso na biblioteca. O livro é de alguma forma sobre essa ideia de que relacionamentos são ficção, já que não é sobre o amor em si, mas sobre o discurso do amor, sobre aquilo que enamorados enunciam. A faceta pública, narrativa, do amor. No fundo é tudo uma grande encenação teatral, uma grande ficção. O que não quer dizer que não seja real, jamais esqueço do Bergman dizendo que o papel da ficção é justamente revelar as verdades mais profundas.

Eu gosto da ideia de que relacionamentos são narrativas particularmente para poder pensar que existe um início, um meio e um fim. Você pode trocar a ordem. Pode fragmentar. Pode mudar as regras a respeito de arco narrativo e estabelecimento do conflito. Pode escrever o Jogo da Amarelinha. Mas, bem ou mal, há sempre um início, um meio e um fim.

Já falei que acho que ritualizamos demais o início de relacionamentos e muito pouco o seu fim. Não lembramos a data de término, não fazemos tanta questão assim de marcar “aqui termina algo” como fazemos com inícios. Da mesma forma, acho que já li muito mais listas a respeito dos “melhores inícios” na literatura do que dos melhores finais, ou das melhores cenas de abertura de filmes. Entendo a importância da apresentação de uma narrativa, mas a última cena, aquilo que ela deixa em você quando se vai, deveria ser igualmente importante.

Relacionamentos são como narrativas e eventualmente eles acabam. Ah, as vezes acaba e volta. Não, daí é o Jogo da Amarelinha ou o qualquer outra narrativa pós-moderna, não acabou. Eu tenho um relacionamento que “acabou” em 2004 e voltou em 2012, são 8 anos entre uma coisa e outra, mas esses oito anos existiram no relacionamento, mesmo sem sequer saber da vida dele, algo existia ali, não é como se começássemos um relacionamento novo oito anos depois, como se pudessemos esquecer o que havia. Era uma continuidade, era diferente, mas era de alguma forma, o mesmo relacionamento. Ele não acabou em 2004, ele acabou, talvez, em 2014.

Em alguns momento, relacionamentos acabam. Eu acho importante repetir isso e eu acho o fim, a consciência de que algo chegou ao fim de que aquela relação entre aquelas duas pessoas morreu, muito importante. Acredito em casais que são amigos depois? sim. Mas acho muito importante o entendimento que, embora as mesmas pessoas estejam envolvidas, o relacionamento é novo. É outra coisa, outra relação, outro comportamento, outra variáveis envolvidas, outro comportamento.

E às vezes qualquer relacionamento entre aquelas pessoas acaba mesmo, de vez, para sempre. Você não precisa manter contato com todas as pessoas que já conheceu na vida, mesmo que uma dessas pessoas tenha transado com você, viajado, morado, etc. Você pode ter memórias disso e elas podem ser boas ou ruins ou o que quer que seja, não importa, o que importa é que memórias não significam que algo continuou a existir, que uma narrativa continuou a desenrolar.

Eu entendo, e é uma das coisas que mais lamento na vida, que os fins não são simétricos para os dois. Que o que para mim morreu ali, como sentimento, pode continuar se arrastando por anos para ele, por isso acho tão importante a marcação do fim objetivo, da morte do relacionamento, mesmo que amor, e outros sentimentos também, permaneçam. Acabou aqui, a narrativa que éramos nós dois, termina. A sua, e meu lugar nela, pode continuar, mas ela é sua, não é mais minha. Eu não quero mais, eu saí fora. Ok, eu continuo com uma narrativa minha onde você tem um lugar, mas esse lugar é outro e essa narrativa também é minha, só minha, não sua.

Eu gostaria que dizer para alguém “eu nunca mais quero olhar na tua cara” fosse assim, simples, claro e entendível como parece ser. Que quando algo morre, ele morre e nenhum dos dois fica acendendo velas no cemitério tentando conjurar os mortos (aliás, dica: não dá certo, conjurar os mortos sempre dá em merda, se você não sabe disso é porque ainda não viu filmes de zumbi o suficiente). Você pode não gostar do fim ou querê-lo, mas é sempre preciso respeitar a morte quando ela acontece.

Esses dias, alguém que eu gostaria de nunca mais olhar na cara, me chamou pelo apelido que costumava chamar quando a narrativa não era minha, mas nossa. A minha vontade foi perguntar o quão estúpido ele podia ser, mas não o fiz, só fui embora com um gosto amargo. Depois, além da minha raiva, eu queria perguntar o que ele achava que estava fazendo ali? Se ele não sabia que aquela história não era mais dele, aquela, aquilo, era minha narrativa, minha narrativa com as pessoas com as quais eu hoje tenho uma narrativa, afinal relacionamentos são de todos os tipos.

Ser chamada pelo nome que eu tinha em outra história, outro livro, outra vida, me tocou quase como uma violação. Uma violação de cadáver, um desrespeito ao tipo de lugar que é um cemitério. Eu  me senti suja e quis pegar nos ombros dele, sacudir e perguntar “você não sabe que acabou? que essa história acabou e se você quer insistir em aparecer aqui, ok, mas você não tem o direito de me chamar de nada que não seja o meu nome” . Eu não fiz nada disso, eu saí dali, para minha vida, minha história, com o gosto amargo e o desejo que ele pudesse entender que narrativas um dia terminam e ele já não fazia parte, em absoluto, da minha.