Feminismo

Um pequeno post melado sobre mulheres, amor e achar seu lugar nessa vida

A maior parte da minha infância eu passei com garotos. As pessoas que eu posso dizer que cresceram comigo, junto de quem aprendi a andar de bicicleta, caí de árvores e quebrei o braço três vezes, eram todos meninos. Eu não tive irmãos, mas minha mãe tinha um grupo de amigas, todos com filhos, e eu passei uma quantidade enorme do tempo da minha infância com eles. Convivendo, inventando jogos, ganhando no videogame e brincando de comandos em ação.

Eu não era o que se chamaria de “moleca”. Eu gostava de barbies (embora detestasse bonecas bebês), de cor de rosa, de fadas, princesas e sereias. Eu gostava de livros, jogos de tabuleiro e videogames mais do que de correr por aí. Mais do que tudo, eu sempre gostei de lápis aquareláveis e dirigir peças de teatro cujas protagonistas eram sempre meninas.

Eu aprendi muito, ao longo da vida, na minha relação com homens. A primeira pessoa que foi meu porto seguro, minha âncora, foi um homem. Foi ele que me ensinou que, na ausência de amor, carinho, colo e segurança em casa, eu podia fazer isso por mim mesma, eu poderia arranjá-los fora, e ele é, ainda, a pessoa mais importante da minha vida. Eu tive garotos que me ensinaram a andar de skate, a tocar alguns acordes de violão, que levaram a lojas de cd e me deixaram entrar no mundo deles. Eu sempre fui a confidente de algum homem na minha vida, eu sempre ouvi ao menos um me contar de amores, de inseguranças, eu já consolei no meu colo mais de um choro por coração partido.

Mas foi só esse ano que eu percebi, apesar de todo amor que eu sempre tive pelos homens da minha vida, o quanto era importante e necessário e o tamanho do bem que me faz a amizade de mulheres.

Provavelmente a coisa mais importante da minha vida é conseguir uma rede de apoio. Pessoas que vão te amar não importa se às vezes você erra, que aceitam pedidos de desculpas e te dão lugar para não ser perfeita. Que te acolhem quando o que você precisa é só saber que não está sozinha. Eu não achei isso em casa e eu não achei isso em relacionamentos amorosos, eu achei isso em grupos de amigas.

Talvez porque o mundo é construído desse jeito fodido, eu vi muitas vezes, em mim e em outras, essa resistência a “se fechar” em grupos de mulheres. A declarar girl’s night, a dizer que nessa conversa nenhum homem entrava. Acontece que é importante, que há um tipo de cumplicidade e conexão que acontece diferente quando se está entre mulheres.

Vejam, eu não estou dizendo (NÃO ESTOU) que há mais conexão entre mulheres do que entre mulheres e homens. Que é impossível ter as mesmas conversas ou mesmas intimidades. Não é. Eu já tive conversas tão explicitamente gráficas e confortáveis sobre sexo com homens, inclusive com um homem com quem já transei. Eu já chorei e pedi conselhos e falei do que eu sentia. Mas a sensação é diferente, não é mais ou menos possível ou melhor ou pior, mas é diferente.

Há um acolhimento na identidade. As coisas não deveriam ser assim, mas homens e mulheres são educados de formas diferentes e tem expectativas diferentes em relação ao mundo. Não acontece tanto de eu contar algo a um amigo e a resposta dele ser “já passei por isso”, enquanto acontece de horas serem passadas entre três mulheres contando de experiências parecidas.

Esse ano não tem sido um ano fácil para mim. Eu defendi um mestrado e passei dois meses aprontando pela Europa então não posso de forma alguma dizer que tem sido ruim. Mas tem sido difícil. Os altos foram muito altos e os baixos foram muito baixos, mas eu tenho quase certeza que quando 2014 chegar ao fim o que eu vou ter como memorável são o que os dois meses sozinha pelo mundo me ensinaram e o que as mulheres que me receberam aqui me deram. Voltar é tão difícil quanto ir é maravilhoso e elas, nos mojitos de terça-feira, nas conversas retardadas do twitter, nas idas ao ballet e nas baladas, me mostraram que havia motivo para voltar, motivo para querer ficar, para querer permanecer em algum lugar.

Eu tenho uma amiga que já me acolheu em um domingo a noite só porque eu tinha voltado de Cuba e na minha casa não tinha um único pedaço de pão mofado. Que me disse não senhora, você não vai jantar miojo e me levou para casa dela, me deu álcool, lasanha e gatos o que me parece a própria definição de amor. Em troca eu dei minha casa e minha cama a qualquer hora da madrugada que ela precise, sem explicações, sem justificativas.

Quando eu me percebo dentro de um grupo de mulheres, eu me sinto profundamente agradecida. Quando há adesão quase automática a bebidas e fofocas no meio da semana, quando as histórias só precisam ser atualizadas, quando há uma certeza forte de presença, de amor, de apoio. E no fundo, todas nós precisamos disso. Todas nós viemos de famílias pouco compreensivas, ou que estão longe, a maioria de nós é solteira e você descobre um dia que é importante ter alguém que vai se preocupar se você não respondeu mensagens por um tempo longo demais.

O mundo é cruel demais com mulheres, com nossas expectativas e auto-estima, o que eu descobri me cercando delas é o quanto isso é uma arma forte para mudar essas coisas. A descoberta da riqueza, do talento e da maravilhosidade das suas amigas é uma arma forte. A possibilidade de compartilhar vulnerabilidade ou de ver outras estando profundamente em paz com a própria sexualidade ou corpo, é uma arma poderosa. Conviver, conversar, compartilhar a experiência de ser mulher nesse mundo salva muita gente, melhora profundamente a vida de muita gente. Ouvir muito claramente que se é amada e que alguém te acha maravilhosa também.

Esse post parece um ode gratuito de grupos de meninas e girl’s night out e é exatamente isso. Porque por mais que pareça óbvio que a convivência, honesta, aberta, amorosa, com outra mulheres, faz bem, por muito tempo me apegar a esses grupos me pareceu infantil, sectário quase. Mas não é. É um tipo de segurança que só a experiência compartilhada pode dar.

Eu tenho uma melhor amiga. A vida toda eu tive “melhores amigas”, pessoas em quem eu me apegava e fazíamos tudo juntas, ou nem olhavamos pro lado na hora de escolher grupo de trabalho ou a pessoa na frente de quem você começa a chorar, não importa se é o meio do bar ou do restaurante, por coisas que nem você saberia explicar. Eu percebi, quando errei com ela, que eu nunca tinha descoberto que o amor de outra pessoa não depende do quão perfeito e sem falhas você é. Eu fui criada sem desculpas e sem tolerância para comigo. Sem espaço para que minhas falhas fossem só falhas comuns e não monstruosidades de uma pessoa com defeito. A mudança de eixo enorme que ela representou quando me mostrou isso não é pouca coisa.

No fundo esse post é só sobre a possibilidade de achar amor, de achar apoio e segurança e coisas que te fazem continuar em qualquer lugar e não necessariamente naqueles que te disseram que encontraria. Eu sei o quanto muita gente encontra repouso e segurança em relacionamentos amorosos, não foi para mim. E nem só porque eles foram ruins, ou acabaram mal, eu tive um relacionamento maravilhoso e absurdamente importante pra mim com alguém que ainda está na minha vida. Mas eu percebi que era a dimensão da amizade dele que mais me segurou. Eu não sou contra namoros e relacionamentos, mas eu descobri que o centro do meu equilíbrio e da minha segurança esteja fora deles. E eu gostaria que ele permanecesse nesses grupos de mulheres.

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Judy was a teenage rebel

Eu falo francês, toco piano e dancei ballet. Um dia eu enchi o saco, pintei o cabelo de rosa, li Simone de Beauvoir e pendurei um poster da Kathleen Hanna na parede. Não adiantou nada, hoje em dia eu faço biscoitos, tricoto, costuro, já li Orgulho e Preconceito mais de um vez e gosto sinceramente de Jane Eyre.

Mas se me perguntarem, eu ainda quero ser a Kathleen Hanna quando crescer

Nós somos iguais, não somos?

Faz anos, talvez uns 7, 8, que cada dia 8 de março eu sou desagradável com toda pessoa que me deseja feliz dia da mulher. Explico porque não acho que é um dia a se comemorar e que não quero me reafirmar enquanto minoria aceitando esse dia, que afinal não deixa de ser o dia do homem heterossexual branco de meia idade, como todos os outros.

Também faz anos que eu insisto em todas as redes sociais que uso nessa mesma teoria. E eu estava planejando fazer o mesmo aqui, dizer que milhões de meninas são negadas o acesso a escola apenas por serem meninas, que milhares de mulheres morrem todos os anos apenas por serem mulheres e Juarez, que tanto se fala, é só o caso com mais visibilidade. Dizer também que você, e eu, provavelmente passaremos a vida ganhando em média 30% menos que homens nos mesmos cargos, esse número aumenta, quanto mais estudo você tem e que provavelmente alguma de nós vai sofrer de violência doméstica, são 1 em cada 4 mulheres e esse número não discrimina classe social, ou nível de escolaridade (sabe a Maria da Penha? aquela da lei? é doutora em biomedicina, assim como o marido que tentou assassiná-la duas vezes)

Mas a Judi Dench falou melhor que eu e eu admiro a coragem e a sensibilidade do Daniel Craig ao dizer de forma sutil “eu tento sentir isso na pele”. Enfim, o vídeo que diz melhor do que tudo que eu poderia dizer sobre o que se trata esse tal Dia da Mulher.

Na cozinha e no espelho

Eu acho engraçado ter demorado tanto pra vir fazer esse post, porque o texto foi se formando na minha cabeça há muito tempo e foi uma das principais razões de eu ter aberto esse blog.

Tudo começou quando, em um sábado a noite em São José dos Campos (!) eu fui ver “Comer, Rezar, Amar” e eu até que gostei do filme, Julia Roberts é carismática, os cenários são incríveis e a história é relacionável. Simpático. Tipo “O Diabo Veste Prada” eu acho, bobo, mas inteligente dentro dos bobos. Mas uma coisa me incomodou demais.

Ok que a Julia Roberts e aquela sueca de 2 mestros de altura falam que tudo bem engordar, mas elas engordam de verdade? visualmente? E as revistas falavam como “olha a Julia Roberts engordou 5 kilos durante as filmagens na Itália”, mas inevitavelmente acrescentavam “e perdeu tudo logo depois”. Ou seja… por um lado todo mundo quer dizer que tudo bem engordar um pouco, mas no fundo, ninguém acredita nisso de verdade.

Pra mim, “Comer, Rezar, Amar” vem um pouco na esteira de “Julie e Julia” filmes que falam sobre mulheres frustradas por terem assumido posições na vida que elas não gostariam de ter assumido e agora devem voltar a entrar em contato com elas mesmas e a comida, ou melhor, o prazer de comer é um dos gatilhos para isso. Faz sentido, comer é uma das coisas de mais “prazer para você mesmo” que você pode fazer e comer bem, como ambos os filmes advogam, requer fazer uso de todos os sentidos, é uma espécie de olhar para você mesmo. Até aí, tudo faz sentido: as mulheres se desligaram do verdadeiro eu delas e devem voltar a encontrá-lo, uma das formas de fazer isso é através da comida que coloca todos seus sentidos e sua percepção em uso.

Mas comer engorda. E ser gordo, nos últimos tempos, é muito pior que ser deficiente, principalmente porque gordo é gordo porque quer (afirmam revistas, filmes, e tudo mais que te bombardeia o tempo todo). E é aí que está o problema desses filmes novos: elas comem e podem até dizer que engordam, mas visualmente (e o visual, nesse caso, muda tudo) continuam tamanho 36 (ok, vai, 38).

No fim isso soa pra mim como mais esquizofrenização da imagem feminina. Te dizem que é bom comer com prazer, que você deveria abandonar essa culpa que te persegui pelos últimos, sei lá, 10 anos, que tudo bem engordar. Quer dizer, dizer que engordou, porque engordar mesmo, ninguém engorda.

obs: ainda assim, eu acho esses filmes melhores do que aqueles em que mulheres nem sequer comem.