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Para olhar minhas cicatrizes

Quando você chega em um estúdio para uma tatuagem é, invariavelmente, apresentado a uma ficha de cadastro. Seu nome, rg, endereço. Você tem mais de 18 anos? sim; É diabética? Não; Tabagista? sim; Alcoolatra? hum… não; Tem problemas de coagulação? não; Toma algum medicamento? Anticoncepcional, glifage, frontal eventualmente, quando não consigo dormir, o que é meio que sempre. Segue-se um pequeno parágrafo explicando que as agulhas são esterilizadas, o estabelecimento obedece a normas de segurança e higiene e o tatuador te orientará quanto aos cuidados necessários. Caso você faça algo diferente do que foi orientado, a consequência é por sua própria e risco e então você assina.

O que eles realmente deveriam perguntar é: “você está pronto para que a partir desse momento sua pele passe a ser vista como propriedade pública?”

Eu sou mulher e, portanto, estou bastante acostumada com meu corpo ser item público. Já fui chamada infinitas vezes de gorda, gostosa, baranga, linda, convidada a chupar todinho o cara da esquina. Vou para o ballet de bicicleta duas vezes na semana e já perdi a conta dos comentários envolvendo selim ouvidos enquanto subo a Augusta. Esses anos todos tratada como uma pessoa que não tem direito a recusar o toque ou observação do próprio corpo deveriam ter me preparado para a violência de absolutos desconhecidos pegando em mim em uma fila do aeroporto e perguntando “o que sua tatuagem significa?”, mas não prepararam.

E absoluto desconhecido na fila do aeroporto não foi um exagero. Uma vez eu estava na fila do check-in da Gol, quando um homem de terno tocou no meu ombro, leu a frase estampada nas minhas costas e me perguntou o que ela significava. Em um misto de atordoamento e ultraje eu respondi como quem acorda de um sonho “eu não te conheço” e voltei a me focar no celular. Parece estúpido, parece bobo, por que raios eu não quero explicar para ele o que está escrito nas minhas costas? Mas a verdade é que eu me senti invadida com violência.

Eu tenho seis tatuagens. Duas delas são grandes e coloridas, outra cruza toda a parte de cima das minhas costas. Todas elas tem uma explicação razoavelmente simples: é uma boneca russa, é o mundo, é um verso da Sylvia Plath. Eu não sou daquelas que acha que toda tatuagem tem que ter um significado complexo e uma história sentimental a la Miami Ink, ela pode simplesmente ser algo bonito. O gato no meu pulso é só um gato. Acontece da matryoska no meu braço ser só uma matryoska e ser também uma lembrança de Dostoievski e Tarkovsky e uma parte da minha identidade de certa forma perdida na diáspora judaica. Mas eu não acho que ninguém tem nada a ver com o fato de que eu tenha problemas com minha identificação nacional. Muito menos o ser humano que nunca vi mais gordo em uma fila de ponte aérea no aeroporto de Congonhas.

O mais curioso é que o homem que encontrei quando desci do avião, e que tinha autorização para tirar minha roupa e tocar minhas tatuagens e perguntar sobre elas, nunca o fez. Nenhum homem com quem eu transei nunca perguntou a respeito das minhas tatuagens. E eu teria respondido. Provavelmente, se eu te dei a intimidade para entrar no meu quarto e me ver nua, eu responderei sobre qualquer tatuagem e qualquer cicatriz. Elas são parte daquele contexto, elas são parte de mim e da minha pele e eu gosto particularmente quando alguém beija minhas costas e eu sei que foi por cima do verso inscrito, mesmo que sensorialmente isso não faça diferença nenhuma. Mas todos eles assumiram que minhas marcas eram minhas marcas. Recentemente eu contei espontaneamente, quando já estava quase pegando no sono e após uma longa conversa sobre Sylvia Plath, que aquilo nas minhas costas era um verso de Lady Lazarus. Ele nunca tinha perguntado, embora tivesse olhado para essas palavras por um tempo relativamente longo.

Parece, porque eu escrevo um blog desses, que estou sempre muito disposta a contar a história da minha vida e toda e qualquer mazela para qualquer um que pergunte. É uma tremenda mentira. Pode soar irônico, mas eu sou uma pessoa extremamente reservada e que guarda coisas por muito tempo mesmo da minha melhor amiga. Esse blog é uma exibição nos meus termos, do que eu desejo por para fora, da maneira como eu desejo e, já falei sobre isso aqui, nem tudo é verdade. Há camadas infinitas de ilusionismo e proteção no que é exposto aqui, mesmo que pareça tão cru. Eu não escrevo porque quero que o mundo saiba o que eu passei, eu escrevo por um milhão de motivos e por um milhão motivos minha escrita é essa. Eu tatuo da mesma forma.

Eu não faço tatuagens para quem olha. Eu as faço para mim mesma. Eu já falei aqui mais de uma vez sobre isso. Para tentar ficar mais confortável na minha própria pele, para ressignificar minha própria história, para ser quem eu sou, porque eu quero, pura e simplesmente. Mas parece que quando você estampa algo na pele, algo do lado de fora, aquilo é instantaneamente para o outro, para o espectador. A pele desenhada não pode de jeito nenhum ser sua, ela é pública, senão por que você desenharia nela?

Nas minhas costas diz, em inglês claro e simples, que para olhar minhas cicatrizes há um preço. Eu desconfio que o senhor de terno na fila da ponte aérea falasse inglês, ele era capaz de ler o que estava ali. Por que então ele me pergunta o que ela significa? O que ele espera que eu responda? É um verso de um poema que uma autora que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos escreveu sobre as tentativas de suicídio anteriores dela. Significa que se você chegar perto de alguém, perto o suficiente para realmente ver as cicatrizes, isso te muda para sempre, isso vem com um peso, um preço, que relacionamentos e conexões nunca são gratuitos e livres de consequência. Significa que eu venho de um histórico familiar, vamos dizer assim, complicado, que eu não falo com meu pai e minha mãe é completamente louca e a pessoa que eu mais amei no mundo foi embora de mim anos atrás e eu não posso nunca me livrar de tudo isso. Que eu sou extremamente ferida e quebrada e essas feridas estão prontas para abrir e quebrar de novo a qualquer momento. Que eu já me odiei tanto e sofri tanto que quis morrer, quis muito literalmente morrer, quis morrer a ponto de fazer planos na minha cabeça para isso, que eu já apaguei cigarros em mim mesma e fiz pequenos cortes no meu tornozelo de propósito porque quando dói tanto você tem essa esperança burra de que a dor do lado de fora vai fazer passar. E deixaram cicatrizes. E para vê-las há um preço.

Me pergunto qual seria a expressão do homem de terno na fila do check-in se eu tivesse dito tudo isso.

Na minha pele

Quantas vezes seguidas eu posso ouvir Lost Cause? Quantos dias eu posso passar sem ler uma única página de literatura? Quantas semanas sem ver um filme? Quanto tempo encarando sem parar páginas que eu mesma escrevi?

Eu tenho dito que é muito difícil escrever um mestrado. Que é mentalmente exaustivo e que me dá um medo enorme isso de elaborar algo que saiu da minha própria cabeça. Eu não confio na minha cabeça, sabem? Então de vez em quando eu paro para assistir Girls, porque preciso de meia hora de ar. E aí a mãe da Hannah me solta sobre o Adam: “he’s unconfortable in his own skin”.

Eu fecho o computador correndo, escorrego pro chão outra vez e fico ali, muito quieta, por muitos minutos, esperando para ver se essa frase vai embora. Ela não vai. Desconfortável na própria pele. Como algo que não cabe, não entra, como se a camada que cobrisse o que eu tenho por dentro fosse fina demais para realmente esconder e o medo gigantesco de que ela se torne transparente.

Eu sempre tive essa impressão de uma espécie de monstro escondido em 1,57, olhos verdes e rosto de boneca. Eu já lamentei muito ter rosto de boneca. Não porque não goste dele, mas porque acho injusto que a gente acabe com um rosto tão pouco representativo do que acontece do lado de dentro, acho tão injusto que “my pretty mouth will frame the phrases that will disprove your faith in men”.

Mas a gente acaba sendo quem é e tendo o rosto que a vida, e a genética, resolveram que teríamos. Eu tenho certeza que tenho menos rosto de boneca hoje do que aos 15, agora que eu já achei que ia morrer de sofrimento, que já passei mal no elevador dos outros, que já decidi que não me importo muito em ser gentil com meu corpo. Talvez envelhecer seja um pouco isso, talvez a gente vá passando por processos de fazer encontrar o de dentro e o de fora.

E nesses processos, em uma tentativa de se sentir melhor na própria pele, eu desenhei nela.

Lembro de quando fui assistir Alabama Monroe e pensei que nunca tinha me sentido tão sexy por ter tatuagens. Ou nunca tinha achado alguém tão sexy por ter tatuagens. Eu gosto muito de como a câmera do filme passeia pelo corpo dela, pelas imagens, da luz amarelada e bem difusa que eles usam nesses momentos. Gosto de como a narrativa constrói a personagem mostrando o quão disposta ela é a vestir a própria vida na pele e ao mesmo tempo a consciência  de que a vida muda, as coisas passam, não é por isso que os desenhos não podem ficar.

Até pouco tempo atrás eu não era das pessoas visivelmente tatuadas. Eu contava 4, mas não acho que seria aquelas meninas que alguém diz no bar: “ah, o banheiro é a porta do lado daquela garota tatuada”. Hoje em dia acho que sou. E de certa forma, conforme eu desenho nela, minha pele se torna mais confortável para mim.

Quanto mais eu visto nela o que me dói, as frases de alguém que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos, a minha inquietude extrema e alguma delicadeza, mas ela me parece casar, cobrir o que eu quero que cubra, se adaptar. Aos poucos, eu vou cabendo na minha própria pele, embora ela ainda me seja bastante desconfortável.

Às vezes eu gostaria que o Universo pudesse ser apenas um pouco menos cruel. Veja, não precisa ser legal, podia ser só indiferente. Podia só não me enfiar em uma situação em que não ficar louca dependeria de estar um pouco mais confortável com quem eu sou, que eu não precisasse lidar o tempo todo com o fato de que algo aqui não está certo e eu não consigo esconder, não consigo iludir uma outra pessoa de que está.

Não precisa mandar amor da vida, já disse aqui que nem quero, só não precisava me mandar direto para a cama de alguém que alimenta o animalzinho que eu tenho do lado de dentro. Só não precisava levantar o espelho em que eu vejo minha pele sem desenhos, sem remendos, transparente, com tudo que eu quero esconder e não posso, com tudo que é monstruoso e terrível e mora do lado de dentro.

Não precisava.

Mas eu não quero ficar louca. Não sei bem quando foi que eu tomei essa decisão, mas tenho a impressão de tê-la tomado em algum ponto da vida. Deve ter sido quando eu cheguei muito perto de perder quem eu sou e decidi que não quero.

Hoje em dia eu pareço sufocar. Não é escrever um mestrado. Não é ter que elaborar algo dentro de um cérebro no qual eu não confio. Não é ele também. Eu não sei o que é, mas a metáfora da redoma de vidro parece apropriadíssima. Você vê o lado de fora, mas não pode chegar lá e o ar do lado de dentro é viciado, antigo, sufocante.

Você se esforça tanto para viver dentro da própria pele que acaba presa dentro dela, mas não é confortável. E você recebe todo dia o tapa na cara de que, de fato, não é agradável olhar para o que é possível ver através da sua pele. Então eu sigo desenhando nela, não porque desenhos tornem qualquer coisa mais opaca, mas porque no processo de fazer isso, como no processo de escrever, eu tenho a chance de achar beleza no que coloco para fora.

Também minha escrita vem de tudo isso que eu acho monstruoso, mas é uma chance de me apropriar, de domar, de olhar bem no rosto de um lobo e ver que no fundo ele é um animal bastante bonito e aprender a lidar com aquilo.

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Lady Lazarus

Do you think that I can’t feel
When I touch you there’s words on your body

Esses dias eu escrevi na minha pele. Eu já tinha algumas tatuagens, mas dessa vez eu escrevi algo, explícito, direto. Eu estampei nas minhas costas um verso de Lady Lazarus, Sylvia Plath dizendo “for the eyeing of my scars, there is a charge”.

É curioso se você pensar que tatuagens nada mais são do que cicatrizes. Eu já disse isso aqui, mas eu marco muito fácil, um arranhão de gato, um acidente com a faca, aquele dia que você me segurou mais forte. Meu corpo é coberto de marcas: sardas, manchas, cicatrizes, tatuagens, um eventual hematoma está sempre lá.

E conforme algum tempo passa, a novidade passa, uma tatuagem é como uma marca de nascença: algo que faz parte da sua pele, que está ali, como parte intrínseca, inseparável de você. As pessoas me perguntam se eu vou enjoar e eu nunca consigo faze-las entender que já não há o que enjoar, elas estão ali e pronto, são parte de mim, é como se tivessem sempre existido. É como me perguntar se eu enjoo da cor dos meus olhos.

Mas é claro que são marcas que você escolhe. São a parte da sua história que você decidiu contar na pele, em oposição aqueles que o mundo impôs em você. Eu não escolhi afinal cair em uma tamareira aos dez anos de idade, mas eu escolhi o Hamsa na minha nuca. E eu escolhi dizer que para olhar minhas cicatrizes há um preço.

Essa é a tradução que eu encontrei na minha versão de Ariel, que é bilingue, mas eu não gosto dela. Eu acho que a frase original tem uma ambiguidade que a tradução perdeu, me parece que o que a Sylvia Plath queria dizer não é apenas que há um preço a ser pago para se chegar perto, mas que uma vez perto há um custo.

Lady Lazarus é um poema sobre o que há de mais escuro naquela que fala e não se sai ileso de chegar perto disso. Eu gosto mais desse significado, foi esse significado que me fez tatuar essa frase. Sim, claro há um preço para se chegar perto, ou pelo menos, há um longo processo, especialmente no meu caso. Mas me interessa menos pensar nas barreiras entre eu e os outros e sim no fato de que é impossível sair ileso se alguém te deixa chegar perto suficiente para ver suas cicatrizes.

Talvez especialmente aquelas que fecharam errado.

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