verão

Em Praga chovia sem parar

Eu acordo nos domingos de manhã, faço um chá e abro o Post Secret. É sempre a primeira coisa que eu faço, é em parte porque acho o projeto bonito e poético e em parte porque ele me lembra que não sou só eu que lá no fundo sou um monstro de ser humano.

Hoje havia um segredo escrito em uma foto da ponte de Praga. É um cartão postal que pode, muito possivelmente, ser igual algum dos que eu mandei de lá. A ponte empoeirada, sob uma luz amarela claramente artificial, aquele photoshop gritante que gostam de usar em cartões postais para fazerem cidades parecerem mais bonitas e mágicas quando no fundo, já são muito bonitas e mágicas sem esses efeitos horrorosos.

A ponte de Praga, por exemplo, é mais bonita durante a noite. “Talvez seja a cidade mais bonita que eu já estive”, você me disse. Eu não conseguia decidir entre Praga, Budapeste ou Paris (você ainda não tinha chegado em nenhuma dessas, me pergunto qual sua opinião agora), mas acabei concordando porque um relógio astronômico não é algo que se ignore.

Então me irrito porque fazem quase dois meses e não é possível que eu ainda saiba seu nome ou o tom de azul dos seus olhos. Sobre a imagem da ponte, o cartão dizia “uma das coisas mais difíceis da vida é ter palavras no coração que você não pode dizer”, é uma obviedade e uma constante. Se eu fosse mais romântica talvez me permitisse pensar que esse cartão podia ser seu. Mas se eu fosse dessas eu teria me permitido te pedir um email, eu teria te escrito que talvez você seja a pessoa mais interessante que conheci e é claro que isso é fácil quando se está em Praga e chove sem parar e não temos tempo de realmente estabelecer um relacionamento.

Você me diz que, quando te perguntarem de Praga, o que você vai lembrar é que chovia sem parar e você conheceu uma mulher linda. Eu ri, disse que contaria para minhas amigas que conheci um cara e ele me levou para ver a ponte iluminada a noite e muito romântico até a hora que começou a chover e eu acabei pegando uma gripe. “So much for romantism” eu disse e você riu e deu de ombros e pegou minha mão, estava tão pouco dado a romantismos e ilusões quanto eu, talvez menos.

Eu espero que você tenha esquecido na verdade, apesar desse diálogo bonitinho. Eu espero que você não lembre mais meu nome, nem mesmo que era um nome de bailarina, nem do tom de verde dos meus olhos e muito menos que eu usava batom vermelho e vestido florido.

Que não esteja, quase dois meses depois, escrevendo qualquer tipo de carta para alguém que não vai ler. Faço muito isso aqui. Uma vez um amigo meu me disse que nunca tentaria ficar comigo porque não queria acabar post de blog, mas você não sabia disso, que ia acabar post de blog, embora eu tivesse te dito que escrevia. Que escrevia e publicava as coisas, ou mandava para o editor, sem ler de novo mais do que uma única vez para pegar erros muito óbvios, se eu reler muito, se pensar demais, nunca escrevo nada. Você me disse que nunca seria capaz. Eu disse que então cabia a mim um dia escrever um livro, ou fazer um filme, sobre você e te encontrar em uma leitura em Nova York e você gosta dessa ideia, gosta desse filme, diz que vai ficar atento para coisas feitas por jovens brasileiras. Não lembro mais por que você me fez dizer o nome de alguns escritores brasileiros para anotar e eu contei de quando conheci um deles em um bar. “Você é fascinante”, você me diz e eu digo que vou pegar outra cerveja antes que lembre demais do tom dos seus olhos, antes que saiba identificar em que ponto exato de uma escala cromática entre azul e verde eles estão.

Mas eu lembro. E lembro das rugas em volta deles e me intrigo porque nunca te perguntei sua idade e percebo que não conseguiria dizer. A mesma que a minha, talvez? Ou mais, você só parece novo exceto pelas pequenas rugas em volta dos olhos? Às vezes me sinto culpada porque não demos atenção para as pessoas no bar, era minha amiga afinal de contas, mas eu estava tão absorvida por você, não me lembro a última vez que alguém fixou minha atenção desse jeito. Nunca, talvez.

“Você sequer anotou o nome dele?” Não, nem um nome inteiro, nada, absolutamente nada. Eu não sei quantas vezes desejei ser menos prática, menos cínica, menos desesperançada e realista em matéria de relacionamentos. Ou mais. Mais o suficiente para dois meses depois não lembrar de você por causa de um postal. Como se eu não lembrasse dia sim dia não. Como se eu não lembrasse sempre. Mas eu espero de verdade que você tenha esquecido.

Começo do fim

Esses dias fez calor. É engraçado, porque na verdade eu não gosto de calor. Eu prefiro botas a sandálias e gosto dos meus vestidos com meia preta e jaqueta de couro. Mas cada vez que começa a escurecer mais tarde e eu tenho certeza que o inverno acabou eu fico um pouco mais feliz.

Verão me lembra adolescência, aqueles dois meses infinitos em que a vida se resumia a ir na piscina, ver todos os filmes no cinema e aprender a beber. Verão me dá vontade de ouvir Belle and Sebastian e lembrar de como eu andava de bicicleta com o vento no meu cabelo e de todos os filmes estúpidos vistos no sofá da casa dos outros.

Ainda que não seja mais assim, o fim de setembro vai anunciando coisas legais: shows e mostra em outubro, pequenas fugas (esse ano uma até grande) em dezembro e depois janeiro, quando aquele calor sufocante chega em São Paulo e a gente senta em bares no fim do dia, ainda claro, e perde a noção de que ainda é um dia de semana.

Além disso, quase sempre ano novo (o judaic0) vem junto com o calor. Eu raramente faço algo além de distribuir docinhos pras pessoas, mas ainda assim é um dos meus dias favoritos do ano só pela sensação de otimismo e novidade e só pela doçura que o próprio feriado pede.

Eu gosto quando o inverno vai acabando e chega isso que a gente carinhosamente chama de primavera (e na verdade é só um verão com casaquinho de noite) porque me lembra do ano acabando, das coisas podendo ser diferentes. Amanhã eu troco a cor do cabelo e começo a tentar acabar esse ano.

The Suburbs

I must’ve left a thousand times

But there’s a small town in my mind

Eu nunca dormi muito bem. Aos 16 anos eu acordava de madrugada, descalça, e sentava na varanda. Eu não cresci em São Paulo. Eu cresci em um apartamento enorme, com uma varanda onde nada acontece. Nenhum carro passa, ninguém grita na rua, nada. Mais de uma vez eu escrevi sobre esse silêncio estranho, esse peso de ser a única pessoa acordada no mundo. De ter 16 anos e se sentar na varanda escura e silenciosa e as vezes, mais vezes do que eu gostaria, desejar não existir.

Eu fui sentar na varanda agora. Faz 6 anos que eu sai daqui e carros passaram. Eu queria a sensação de morte de novo, o peso dessa cidade onde nada nunca acontece, onde a gente nunca tem um motivo real para doer, onde eu morri de tédio um pouco todos os dias. Ela não existe mais. A cidade que eu cresci, o silêncio da varanda, o peso dentro de mim, nada disso existe mais.

Eu sentei nessa varanda a primeira vez que eu me apaixonei por você. Eu li o Lobo da Estepe ali, abraçando meus joelhos no último verão antes de ir embora, no primeiro verão sem você, o primeiro verão que eu usei vestidos. Eu fumei meu primeiro cigarro ali. Eu sentei no chão e chorei, bêbada, por tudo que eu era e tudo que eu queria e tudo que eu sabia que nós nunca íamos ser. E não fomos.

Eu sinto falta do meu cabelo rosa, hoje eu encontrei a tinta jogada no fundo do armário. Eu sinto falta daquela camiseta do Misfits que escorregava dos meus ombros e sinto falta dos cds de hardcore alemão. Sinto falta da luz de fim de tarde no verão e do ar que você trazia para mim.

É engraçado, porque eu poderia jurar que não era feliz naquela época. Eu não lembro de mim como uma menina feliz. Mas de alguma forma, eu sinto falta

La Mer

“Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people’s hats off—then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball.”

(MELVILLE, Hermann, em “Moby Dick”)

Quando eu era criança meu livro preferido era “A Ilha do Tesouro”, aos 10 anos de idade eu provavelmente sabia diversos nomes de nós, vários tipos diferentes de vela e todas as partes diferentes de um navio do século XVIII e tanto quanto eu queria ser uma princesa eu queria fugir em um navio pirata. Mais tarde, meu livro favorito foi Moby Dick e meu primeiro Hemingway foi “O Velho e o Mar”. Hoje eu sosseguei e meu livro preferido é “1984” mesmo, mas as vezes eu penso em dizer que é “No Coração das Trevas” só para manter o tema.

Tem poucas coisas que eu gosto mais do que cheiro de maresia e a sensação de água gelada e salgada na pele e se tem algo que eu guardei de Moby Dick é que as vezes tudo que eu posso fazer para não assassinar alguém ou enlouquecer é fugir para o mar.

ocean pulls me close
and whispers in my ear
the destiny i’ve chose
all becoming clear
the currents have their say
the time is drawing near
washes me away
makes me disappear

Slow like honey

Minha vida parece um filme que alguém deixou no pause por um ano e meio e de repente resolveu acelerar. Em menos de uma semana eu tenho um diploma (que eu não tinha), uma inscrição no mestrado (que eu tinha, mas toda cagada), entrevistas para summer school em Jerusalém, um convite do meu orientador para trabalhar com pesquisas legais e ganhar para isso e um curso de extensão em crítica literária.

Além disso faltam 15 dias para a mostra, um mês para o Planeta Terra, 5 semanas para Buenos Aires e estou fazendo planos loucos para o carnaval em Recife com duas israelenses (seria o ano de aprender hebraico, mas de línguas esdrúxulas estou ocupada com sueco) .

Dou um mês para eu estar aqui reclamando que tenho coisas demais pra fazer, tempo de menos pra dormir e sinto que esse verão vai ser replay daquele em que eu estava lendo A Era dos Extremos em Búzios. 5772 eu já te acho um lindo 🙂

Island in the sun

Era pra ter entrado ontem, mas estavamos aqui ocupadas com o Grande Prêmio Björk (aliás, votem) então, enfim, coisas legais da internet das últimas duas semanas (que na passada eu tava na praia, desculpa, haha)

Cores fortes de um jeito discreto e uma roupa simples, mas bem fofinha, no Eleonore Bridge

Uma camiseta da Zara que é a cara da coleção de verão da Prada! No Cupcakes and Cashmere 

Quatro formas de melhorar seu apartamento viáveis pra quem aluga (eeeba! \o/) no College Fashion

Uma capa de Iphone que parece uma fita cassete, gostei 🙂 No Bryanboy

Juro que eu usaria! No Bleach Black

E porque eu gosto tanto das meninas que escrevem nele

Living in: Something’s Gotta Give, Diane Keaton essa linda. No Design*Sponge 

Street Style no Coachella, no Refinery 29

E Lindsay Wixon toda fofinha no backstage do desfile de inverno da Prada (to com mania de Prada…), também no Bryanboy 

Like a Rolling Stone

Acho a Jaqueline Jablonsky linda e adoro ver editoriais em que de fato eu poderia comprar as coisas, então… Catálogo de primavera da H&M! Eu sei que devia estar ficando frio e que essa imagens estilo polaroid com o sol invadindo loucamente o quadro são mais propícias pra pessoas se preparando para o verão, praia e Coachella ou Glastonbury (!), mas a campanha é tão cheia de referências inteligentes aos anos 70, que eu não me contive.

Eu amo essa luz! E o esmalte (e tem esse moço bonito aí no canto…)

Já que você vai se inspirar em anos 70, por que não Cherrie Curie?

ou levemente Diane Keaton?

Tão boho, tão linda, tão Woodstock (se eu no Coachella ia quere me vestir exatamente assim)

Os brincos e a maquiagem exótica são tão Yves Saint Laurent nos 70. E eu adoro como o fotógrafo balanceou uma imagem que podia ficar poluída demais, com a estampa de bicho e tal, com o preto e branco.

Já pode se sentir a Penny Lane pro próximo verão?

(e cortar os pulsos porque vai ter Strokes e Arcade Fire no Coachella e eu estou aqui, há umas 20 horas de avião)