Bergman

Roleta

O quanto nós podemos confiar em nós mesmos? O quanto podemos confiar em nossos sentidos, nossas impressões, no que quer que tenhamos aprendido com a vida?

Epistemologia sempre foi a parte que eu mais detestei da filosofia, todos aqueles textos sobre a possibilidade, ou não, de aprendermos algo através dos sentidos. O mundo é uma ilusão? Vivemos em uma armadilha feita dentro de nossas cabeças? Ou não, podemos confiar na realidade externa como ela nos é apresentada? Daí Platão fala dos jovens corpos besuntados em óleo correndo ao sol e eu perco totalmente a linha de raciocínio.

Mas, como toda questão filosófica clássica, há algo ali. Até que ponto posso confiar em mim mesma para aprender? Até que ponto posso confiar no que sei para fazer escolhas melhores dos que as que já fiz?

Porque eu já fiz muitas escolhas ruins. E algumas dessas eu fiz plenamente consciente, mas outras eu acreditei de verdade que estava fazendo a coisa certa. E não estava.

Eu escolhi ficar, por anos, com um homem que corroía toda minha sanidade mental acreditando durante a maior parte desse tempo que ele me fazia bem, que a escolha era acertada. Como eu posso saber que não estou fazendo isso de novo? Maturidade, me dizem, tempo, eu aprendi com meus erros. Mas como eu posso ter certeza da minha, ou de qualquer um, habilidade de realmente aprender com os erros? Com a vida, com a realidade externa, com o que quer que seja? Como eu posso confiar em mim mesma para não estar cega ou distorcendo a realidade ou simplesmente muito, muito enganada?

Meu cérebro é algo frágil, além de tudo. Algo assustado e frágil e, como um animal selvagem, quase maligno nesses momentos. E ele me prega peças e coloca armadilhas. As últimas semanas têm sido pouco mais que uma tentativa de navegar as ratoeiras que ele me coloca, de ignorar cada demônio me tentando no caminho. Não dessa vez. Não hoje.

Mas e se alguma dessas armadilhas for, no fundo, a verdade? E se o que eu ouço é intuição, é segurança e não apenas medo e neurose?

Você precisa arriscar estar errada, é a resposta post de autoajuda sobre paisagem bonita no tumblr. Eu tenho vontade de rolar no chão rindo histericamente cada vez que alguém me diz que não se deve ter medo dos relacionamentos, que não se deve ter medo de sofrer, que tudo bem se eu estiver errada. Porque você não sabe o tamanho da aposta.

Eu sou, eu sempre fui, uma grande partidária de que há algo fundamentalmente errado na forma como as pessoas hoje em dia fogem do sofrimento. Eu me chocava e me irritava com as amiguinhas da minha adolescência que achavam que se algo terminava e alguém sofria aquilo era ruim e tinha dado errado. A vida nada mais é do que um monte de sofrimento. E umas coisas boas jogadas ali no meio pra você achar que vale a pena não desistir. Não faz sentido tentar blindar o sofrimento, tentar apenas entrar em apostas certeiras de felicidade, não é sequer possível fazer isso.

Mas também é preciso medir o quanto se pode pagar.

Eu, hoje, não saberia essa resposta para mim. Ano passado eu não podia. Ano passado, eu paguei muito caro por uma aposta muito pequena porque eu simplesmente não podia lidar, não havia sobrado nada em mim. Eu fui como um jogador de pôquer na última partida perdida depois de meses de azar. Tudo já havia sido perdido e penhorado e vendido e foi um deslize mínimo que me fez perder tudo.

Eu poderia ter medido isso, mas eu não soube. Era uma aposta tão pequena, como poderia me custar tanto? O quanto nós podemos saber de nós mesmos, da forma como reagiremos às coisas? E, mais importante, o quanto podemos saber do outro para ser capaz de medir a aposta, para se capaz de escolher?

Eu levei bastante tempo, e infinitas perdas, para entender que pessoas são uma escolha. As pessoas que mantenho comigo, aquilo que elas sabem de mim, é tudo uma escolha. Mas é solitário demais escolher sempre. É solitário e árido controlar, filtrar, manter todo mundo do lado de fora de certas partes. E há um tipo de escolha que para mim só faz sentido se for tudo ou nada.

Mas eu já escolhi errado vezes demais. Eu demorei para entender que aquilo que me levava, aquilo que me fazia querer ficar era também uma escolha. Não é uma escolha fácil de ser mudada, mas é uma escolha. Meu instinto me faz escolher pelo perigo, pelo jogo, pela instabilidade. Meu instinto gosta demais do jogo. E eu gosto demais de me punir. Eu gosto demais de entrar em uma disputa que sei que vou perder, com eles, comigo mesma. Quais minhas chances tentando escolher diferente?

E qual a possibilidade de que eu perca para mim mesma de novo? Eu venho testando essa escolha há meses. Cruelmente. Implacavelmente. E eu ganho. Todas elas. Mas até quando? Até quando eu posso testar alguém até que justamente esse teste esgarce tudo? Qual o ponto em que eu simplesmente tenho que assumir que é um salto de fé e confiar em mim mesma? Já que estamos falando em filosofia.

Dos anos que eu passei imersa em suecos deprimidos e filosofias, eu aprendi que a escolha é sempre cega. Essa escolha, especialmente, é sempre cega. E sempre contra as probabilidades. Mas é preciso fazê-la. Porque o preço de não fazê-la é alto de mais. Mas e se o preço de fazer também for?

Anúncios

Um ano

Eu nunca tive TimeHop, não gosto da ideia de algo que eu voluntariamente pedi para me devolver lembranças. Há coisas que eu não quero ver nunca mais. Há um pedaço inteiro da minha vida que eu gostaria de poder fingir que não existiu. Mas agora o Facebook tem esse recurso automático de te devolver algumas lembranças de anos anteriores e me incomoda menos, já que só vai parar lá aqueles poucos momentos da vida realmente dignos de nota, que realmente eu gostaria da lembrança.

E hoje ele me lembrou que faz exatamente um ano que eu defendi meu mestrado.

Nesse um ano, minha vida mudou radicalmente e, ao mesmo tempo, foi parar no exato mesmo lugar.

Foi irônico e quase reconfortante receber essa lembrança. Ontem mesmo, eu passei metade da noite em uma espiral sem fim de impotência,  insegurança e paralisia. De sensação de que estou sendo apenas tonta de achar que tenho capacidade para algo do que quero.

Eu quero entrar no doutorado e eu venho em preparando pra isso. Por questões de circunstância, eu saí da Academia e tenho gravitado de volta para ela devagar, gradualmente. Uma pesquisa aqui, um artigo ali, um projeto de doutorado para dar rumo a tudo. E eu digo para mim mesma que tudo bem se não der, se não der semestre que vem eu tento de novo, em mais lugares, eu preparo melhor esse projeto, eu peço mais ajuda. Tudo bem se não der, eu tinha um mestrado com apenas 25 anos, eu não tenho pressa de nada.

Mas não está tudo bem. Não está tudo bem porque eu não sei separar minha habilidade de fazer tudo certo, de nunca falhar, com meu merecimento das coisas do mundo. E é lógico que eu falho, então é lógico que eu não mereço nada.

Sempre chega um momento nos meus relacionamentos em que eu tenho que contar minha história, listar o tipo de coisa pelo que passei, confirmar a conclusão óbvia de que fiquei cheia de marcas e buracos e pedir que por favor, não vá embora, me dê pelo menos uma chance de conseguir fazer isso. Antes de começar a contar, eu peço uma promessa de que quem me escuta não pode ter dó, por favor, não tenha dó. Eu estou viva e, relativamente, inteira e não importa o quanto tudo pareça horrível, não me olhe como uma pobre garotinha de quem você precisa cuidar, porque isso vai estragar tudo.

Não tenha dó porque isso vai te levar a, inevitavelmente, querer consertar, ou compensar. E eu não tenho conserto. E a ideia de que algo em mim está intrinsecamente quebrado, errado e precisa de conserto é exatamente o que não me tira de onde estou. Sim, algo em mim está errado, sempre esteve, quanto mais eu sei que está, menos eu me sinto merecedora de todas as coisas do mundo. Talvez seja por isso que os anos em consultório de psicanalista nunca fizeram nada por mim: a ideia de conserto de algo que está errado em mim só me faz virar e dizer “viu, tem algo errado em mim, eu sou um monstro e não adianta”.

Eu abandonei as teorias de conserto. Um belo dia eu cansei de me enredar nisso porque parecia cruel demais, parecia apenas uma câmera de tortura feita para confirmar com diagnóstico o que eu sempre soube: há algo errado comigo e eu não mereço nada enquanto isso seguir errado. Gostaria de fundar uma associação dos pacientes que de cada consulta saiam se sentindo piores, mais sem saída, sem conserto e sem direitos do que quando entraram.

Eu não quero que me olhem como algo que precisa de conserto, eu quero aprender a conviver como algo falho, mas que pode existir.

A tentativa de compensação estraga tudo da mesma forma. Porque você não conseguiria me proteger de novas dores, porque você certamente não poderia me proteger de mim mesma. Porque a culpa não foi sua e qualquer tentativa de amor, cuidado ou presença nascida apenas do desejo de amenizar a minha dor seria artificial. Essas coisas não existem para tapar o buraco de ninguém.

Enquanto eu conto essas coisas, meu cérebro corre em uma lista enorme de porque é ridículo meu apelo de que alguém fique, quando eu acabei de lhe dar todos os motivos pra ir. Ele engloba tudo e costura a malha de todas as coisas que eu não consigo, de tudo que seria melhor abrir mão logo e me poupar ao trabalho, até a hora em que eu paraliso e ele respira. Pronto, missão cumprida.

E daí a internet me devolve de volta um dia em que eu consegui tantas coisas.

Um dia em que eu entreguei algo enorme que eu tinha escrito. Algo que ninguém havia feito antes. Um dia em que eu escutei que estava caminhando por um terreno novo, sem ajuda, e lógico que haveria falhas, mas eu estava fazendo parte do desenho de uma linguagem nova. Um dia em que me apontaram que coisas delicadas, complexas e elegante, que um sistema inteiro pode sair da minha mente.

E que, mais que isso, um grupo enorme de pessoas se dispôs a passar frio e chuva para beber comigo. Pessoas que eram minhas amigas há anos, pessoas que tinham entrado na minha vida a pouquíssimos meses, mas uma quantidade gigante de pessoas. Que eu não merecia.

Quando eu peço que alguém fique apesar de tudo que lhe contei é porque justamente eu não mereço. Não há motivos. Não há qualquer motivo. Mas as vezes as coisas subvertem a lógica.

A pequena devolução da internet me lembra que às vezes eu sou capaz de muita coisa.  O que não quer dizer que eu serei de novo. E que eu realmente não mereço nada do que eu tenho.

Mas que às vezes eu tenho.

 

Mas ano que vem eu não morro

Existem anos épicos na vida. Anos que, se um gráfico de intensidade fosse feito, extrapolariam qualquer medida e seriam aquele cume muito bem delineado, o everest da história dos anos. 2014 foi esse ano para mim.

Eu sei que tenho dezembro quase todo. Sei que é cedo para esses posts clichês de balanço. Mas foi tanta coisa que eu não posso mais com esse ano e tudo que me sobra é puxar o freio um pouco antes, entender que para mim ele já acabou.

2014 foi o ano que começou com alguém dizendo “eu queria uma taça de espumante” e uma taça de espumante magicamente sendo posta na mão dela. Foi o ano dos desejos realizados. Nas primeiras horas de 2014 eu estava no topo de um cortiço/mansão em Havana, vendo a cidade toda lá do alto, completamente bêbada e pensando que eu não tinha a menor ideia de como tinha ido parar lá. Não naquela noite, embora isso também. Mas na vida. A minha vida, de alguma forma, tinha me levado a ser a pessoa no topo de um cortiço/mansão decadente cubano e seja lá como isso tivesse acontecido, eu estava satisfeita.

A primeira lição desse ano foi: eu não sei bem como cheguei aqui, mas eu cheguei em algum lugar e eu gosto dele.

Uma das primeiras coisas que fiz em 2014 foi ser roubada em um país socialista e participar de uma reconstituição criminal. É bastante coisa que um ano que já começou assim tenha só sido ainda mais aleatório ao longo dos outros doze meses.

Em 2014, eu: defendi um mestrado, visitei 14 países, perdi meu passaporte, cruzei a fronteira entre a Sérvia e a Bósnia e sobrevivi, me engracei com um bósnio, um austríaco, um australiano, um mexicano, um luxemburguês e um americano. Eu visitei o túmulo do Bergman. Eu vi a ponte de Praga iluminada sob a chuva e eu me apaixonei quase a primeira vista. Eu tive três empregos. Eu comecei um vlog. Eu decidi entrar no doutorado. Eu me joguei de um penhasco. Eu quase fiquei louca.

Não é um exagero, não é uma figura de linguagem. A dor que eu vinha guardando em mim por 25 anos de repente estourou, me sufocou, envenenou todo meu sangue, minha fala, minha pele. Minhas mãos começaram a tremer sem parar. Eu passei 56 horas sem dormir. Meu cabelo começou a cair. Eu deixei de comer. Eu quis, de verdade, morrer.

E então um dia eu entrei pela sala do meu analista e anunciei que ia embora, que eu ia embora senão ia morrer. Que eu não queria ficar ali para ouvir os diagnósticos dele, que eu queria ir embora. E chorei sem parar por quase uma hora. Ele assentiu com a cabeça, me deu três meses de receitas e me deixou ir embora.

E eu fui. Sozinha. Sozinha com toda a dor e a loucura e o medo que tinha em mim. Foi uma aposta alta. Uma aposta que eu não tinha a menor certeza.

Mas eu voltei. A minha dor voltou comigo. Mas a minha loucura não.

Em algum ponto entre o sul da França e a Escandinávia eu achei meu centro. Eu descobri quem eu queria ser. Eu lembrei das luzes de Havana se espalhando lá embaixo e me lembrei que eu ainda não tinha ido a Índia. Eu não poderia morrer antes de ir pra Índia.

Quando eu voltei eu decidi que metade das minhas roupas eu já não queria, eu cortei o café, eu voltei a dançar, eu mandei consertar minha bicicleta. Eu desenhei na minha pele a lembrança de que eu preciso ficar. E eu lembrei da sensação do lugar onde eu queria estar.

2015 eu começo em casa. Com as pessoas que são minha casa. Com meus pés na areia e todo amor do mundo. Eu quero, embora não saiba se consigo, colocar pontos finais em histórias que eu já não posso mais carregar comigo. O começo de 2015 não me promete o melhor dos mundos, daqui, ele é o ano que já começa com meu coração partido. Mas agora eu acho que tudo entrou no lugar suficiente para que ele não carregue todo o resto de mim junto. Para que ele não rache as estruturas.

Eu não sei disso, eu só acho.

Eu quero viajar de novo. Eu quero ir a Ásia. Eu quero entrar no doutorado. Eu quero escrever um livro. Eu quero o mundo.

Mas mesmo que eu consiga tudo que eu quero, nunca seria um ano como foi esse. 2014 foi meu melhor ano. Porque eu quis morrer, mas não morri. Porque se eu chegar a todas as vinte milhões de coisas que eu ainda quero é porque, nesse ano, eu não morri.

Passados três meses eu não fui buscar outra receita. Eu voltei a dormir. Eu voltei a comer. Meu cabelo cresceu e eu não quero cortá-lo até o limite do socialmente aceitável. Eu entendi a dimensão do inferno dentro de mim, mas eu desisti de tentar mantê-lo a portas trancadas. Eu estou aprendendo a conviver com meus demônios, fazer amizade com eles,  quem sabe jogar umas partidas de xadrez.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Não é repetição, é obsessão artística

Acho que se algum dia, no universo pós apocalipse zumbi, invasão alienígena e epidemia generalizada de ebola (que eu tenho cá para mim que é o vírus zumbi e as autoridades estão escondendo para não causar pânico) alguém for falar sobre o que eu escrevi, acho que eu seria caracterizada com um daqueles autores obcecados que falam sempre das mesmas coisas e voltam sempre nos mesmos temas e de alguma fora contam sempre a mesma história. Não é de estranhar que meus preferidos sejam assim também.

Bergman e Woody Allen são dois grandes obcecados voltando sempre nos mesmo temas e contando sempre a mesma história. É sempre sobre a mortalidade, o universo sem sentido, a crueldade de ser jogado em um mundo de sofrimento e ainda ter que ser retirado dele quando parece cedo demais. Os dois também parecem dizer que a questão que realmente importa, aquela capaz de preencher os dias, de fornecer algum sentido ou retira-lo por completo, é a respeito de nós e dos outros. É possível viver com alguém ou não é. É possível que exista amor ou não.

Já ouço todos os milhões gritando “a questão que importa é a fome, a guerra, o aquecimento global”. Não me importa isso aqui, eu escrevi uma dissertação de 120 páginas, em algum ponto de capítulo 1 eu falo sobre isso. Aqui eu vou assumir que o que importa sim é a questão entre eu e o outro. A possibilidade de alguma comunicação, a possibilidade de amor.

O Woody Allen jovem acreditava no amor como paixão revestida de medo e egocentrismo. Desejo sexual, mais medo de morrer e, pior, de morrer sozinho, levava as pessoas a tentarem conviver umas com as outras em relacionamentos essencialmente desencontrados, impossíveis, truncados. Alvin e Annie nos anos 70 não acabaram juntos, não poderiam acabar juntos, porque ele era essencialmente um pessimista enquanto ela parecia surda ao grito angustiado do universo. E ela nunca poderia entender a angústia dele, nem ele poderia responder a sede de vida dela. Para mim, Annie Hall é um ensaio maravilhoso sobre a impossibilidade de boa parte das relações humanas.

Mas o Woody Allen velho acredita diferente. Ele acredita um pouco mais na possibilidade de mudança. Na possibilidade de abandonar as questões um pouco e ir viver, de tornar a vida menos miserável enquanto ela dura. No filme novo (eu não vou falar nada dele além desse comentário muito geral) isso fica muito claro. É claro que o universo é só um amontoado aleatório e possivelmente cruel de átomos e matéria e não existe consolo ou sentido. Mas qual a necessidade de reafirmar isso o tempo todo? Ou melhor, qual o sentido de fazer questão de viver de acordo com isso? Ele não quer dizer que seja fácil esquecer ou abandonar esse terror e essa sentença, mas não há necessidade de fazer esforço para não abandonar.

Quando eu ainda estudava o Bergman, me lembro de ter percebido que no universo do Bergman, Deus (ou o sentido) é silencioso, afastado, ou mesmo cruel. No universo do Woody Allen não há Deus. Ou sentido. Ou misericórdia. Ou bússola moral. É só acaso. Existe amor, mas ele responde as mesmas leis irônicas e impossíveis. É acaso, é milagre. No filme novo usam a palavra milagre algumas vezes.

Eu acho sinceramente que a maioria das pessoas lidam com o amor como algo que simplesmente acontece, simplesmente está ali, algo natural da vida, algo a que todo mundo tem direito. Take for granted é expressão que me vem a mente. E eu, que acho que é algo extremamente raro, frágil e em nada gratuito, tenho a fama de pessimista.

Eu entendo, acho. Para a maior parte das pessoas amor é essa coisa que elas tinham pela família e que fluia tão facilmente em casa e em casas vizinhas e estar razoavelmente feliz e não desejando que no fundo seus pais de verdade fossem piratas que um dia vem te levar embora era a situação comum. Eu não vou fazer terapia e tragédia da infância infeliz aqui, mas a verdade é que amor sempre me pareceu algo que custava muito caro. Que custava muito esforço, muita devoção, muita perfeição. No fundo, tudo isso obviamente não é amor, eu entendi depois. Mas o que eu também entendi é que ele não flui assim de fontes infinitas como querem me fazer acreditar.

Me lembro muito claramente de estar na quarta ou quinta série fazendo um exercício de interpretação de texto com uma amiga. Era uma crônica sobre filhos que queriam que seus pais se divorciassem de um jeito horroroso, queriam sofrer e ser crianças problema porque isso era “cool”. Era, claro, um texto extremamente irônico sobre o que era de fato ser uma criança problema. Eu ri, eu entendi, eu me identifiquei. Então, no exercício havia uma pergunta se você gostaria que seus pais se separassem. Achei engraçado, achei que em pleno 1998 ou o que fosse, a pergunta deveria ser “seus pais estão casados? se sim…” mas não liguei, me pus a responder com a coleguinha que me apresentou a seguinte resposta “não, gostaria que minha família continuasse feliz como é hoje”. Eu apenas aceitei.

Eu sei que já disse isso aqui (eu falei que era obcecada), mas eu sempre tenho a sensação de que não sou tão pessimista quando gostam de me pintar. Ou melhor, meu pessimismo não vem de um desprezo do amor, ou da ideia de que ele não serve para nada, ou só traz infelicidade. Vem da consciência da raridade da coisa de verdade. Daquele que realmente faz as coisas terem algum sentido, que torna a existência um pouco melhor. Eu reverencio algo que me parece extremamente poderoso e, como todas as coisas poderosas, instável e difícil.

E nem é só amor romântico. O que eu aprendi nessa vida é que todo tipo de amor é difícil. É de uma dificuldade absurda aceitar o outro, acolher, compreender de verdade. Eu enlouqueço de tempos em tempos. Eu perco o controle, eu deixo meu cérebro correr em uma torrente sem fim de palavras crueis, ódio e auto-destruição. Eu viro um bicho selvagem detestável, incapaz de não ser agressiva com qualquer tentativa de aproximação, insensível a qualquer palavra de apoio. E nessa hora eu vejo o quão limitada é a compreensão e a capacidade de suporte do mundo em volta. Não é culpa de ninguém, não estou (DE JEITO NENHUM) cobrando ou acusando ou ressentida de qualquer pessoa que não conseguiu me amar em um momento desses. É o que acontece porque somos humanos e somos limitados e somos terríveis.

É o momento em que meu ex-analista infinitamente paciente e tão determinado quanto eu em me manter fora de qualquer remédio fica sem recursos e me pergunta “você não quer uma receita? você não quer pelo menos dormir?” Se ele, aquele homem médico e psicólogo, mestre na USP e doutor na França, já não sabia o que me dizer, já não aguentava mais me ver entrando lá semana após semana pra dizer a mesma coisa, imagina as pessoas que não são pagas e não são treinadas profissionalmente para isso?

Amor é condicional, sempre é. Sempre podemos quebra-lo ou perde-lo, a mágica é quando ele é elástico suficiente para aguentar uma série de golpes. Eu gosto desse Woody Allen otimista, eu gosto que ele vem permitindo que seus filmes terminem bem porque ele nunca ignora a parcela de milagre envolvida.

Sobre uma metáfora estranha entre estrelas e obsessões

Não sei por que, como, por que motivo ou alinhamento cósmico, enquanto alimentava um câncer de pele  tomava sol estendida na areia nesse feriado, me lembrei que, há dois anos atrás, eu estava naquele primeiro Lollapalooza, aquele que teve Foo Fighters.

Foo Fighters foi um show que eu esperei. Um show de uma banda que eu já não ouvia muito naquela época, já não ouço tanto hoje em dia, mas que era importante, por causa de outros tempos, outras histórias, outra vida. Foi um show que me fez feliz e que me fez sair dali para encontrar alguém que entendia, entendia a importância de tudo aquilo, a felicidade, a nossa obsessão com aquela banda e aquelas músicas e as bandas e as músicas em si.

Eu acho que um bom jeito de conhecer uma pessoa seria traçar um mapa das suas obsessões.

Nós todos somos um pouco obcecados com alguma coisa. Não necessariamente obcecados de um jeito doentio personagem de filme do Aronofsky, mas todos nós temos qualquer coisa que desperta uma paixão teoricamente não proporcional ao que é.

A música foi assim para mim por muito tempo. A minha versão adolescente abarrotava o quarto de cds e esperava por downloads que demoravam dias de bandas de hardcore da Armênia. Eu tinha orgulho, de um jeito nojentinho porém simpático meio Alta Fidelidade, de ter um ipod bem mais cheio que a maioria dos meus amigos, mas não todos. Tinha aqueles dois ou três obcecados que compartilhavam o mesmo tipo de obsessão. Tinha ele, que compartilhava o mesmo tipo de obsessão.

O tempo passa, nossas obsessões mudam, eu troquei a música pelo cinema e as bandas de hardcore da armênia por filmes da nouvelle vague tcheca, mas ainda assim, me parece um movimento profundamente importante esse de aceitar, entender, abraçar, as paixões irracionais do outro.

(a frase anterior foi possivelmente um pleonasmo, porém se eu sair falando disso vai ser todo um outro post e deixa pra depois até porque ideias estão raras preciso fracionar a coisa pra manter o blog andando)

Eu tive um namorado por muitos anos. Dito cujo namorado já foi citado aqui algumas vezes como um grande erro. De fato foi e às vezes eu me pergunto por que não consigo parar de falar nele, meio que deveria parar de falar nele antes que um processo por difamação (calúnia não porque nada é mentira) chegue aqui em casa. Por sorte tenho muitos amigos advogados, tenho até uns casos por aí que acho que só cultivo para ter advogados que posso pagar com o corpo. ESQUECE, VAMOS VOLTAR AO ASSUNTO DO POST.

Enfim, dito cujo namorado que foi um erro aparece aqui com frequência porque erros são muito bons para te fazer pensar sobre alguma coisa. Não naquela história clichê de “ai, você aprende com os erros”. Aprende bosta nenhuma tá? Estou aqui, fielmente cometendo os mesmos erros repetidamente sem nenhuma sabedoria para me impedir, porém, sempre se pode parar para pensar sobre eles e fazer um texto pseudo engraçadinho como forma de achar que o erro não foi tão em vão quanto parece.

(minha ironia está com fogo no rabo hoje, perdoem as piadas cretinas, voltaremos a programação normal de melancolia no próximo post)

Me pergunto quantos textos sobre o ex namorado preciso escrever para parar de sentir que desperdicei quatro anos.

Tenho esse gosto muito amargo de anos perdidos, de tempo desperdiçado quando ele passa tão rápido. Não é porque acabou (imaginem se eu começo a achar que desperdicei todo tempo que passo em relacionamentos que acabam? só imaginem!), nem porque acabou mal, mas porque, enquanto ainda não tinha acabado, ele não conseguia abraçar minhas obsessões.

Ele nunca conseguiria entender porque estar naquela plateia do Foo Fighters era tão importante para mim. Ele nunca conseguiu, e mais do que isso, nunca quis, entender as caixas de cd que na época eu ainda carregava de um apartamento para o outro. Enquanto eu estive com ele, eu parei de ouvir música. Não parei, parei, mas parei de descobrir coisas novas, de investigar, de saber o que acontecia. Eu não fui a um show do Smashing Pumpkins que, mesmo sabendo que era só o Billy Corgan e uns caras aleatórios, queria muito ir; quase não fui ao show do Radiohead.

Não fui porque cada ingresso comprado requeria que eu me explicasse, que eu tentasse expressar porque aquela experiência era válida, porque eu “podia” ir em shows, porque aquilo não era uma simples expressão do culto burguês mercantil da personalidade (eu JURO que esse termo foi usado, provavelmente desse jeitinho mesmo). E é algo muito exaustivo e muito violento tentar explicar suas obsessões.

É violento porque é quase como uma justificativa de quem você é. Tentar explicar racionalmente uma obsessão é tentar fazer seu ser caber em explicações de causa e efeito que respondam a um conceito abstrato. Eu passei anos fazendo isso e não recomendo nem a esse mesmo ex namorado.

É possível conhecer alguém pelo mapa das coisas que a fazem feliz sem motivo, que a fazem começar a falar sem parar quando outros nem imaginavam que havia tanto a se dizer.

Eu passei a preferir os confessadamente obcecados.

É uma investigação interessante essa das obsessões. Por que Bergman? Por que Sylvia Plath? Por que Nine Inch Nails? Por que Pollock? Eu não sei responder para mim mesma, mas tenho uma vaga ideia, uma intuição. Eu consigo intuir algo dos outros quando eles me contam as coisas pelas quais são obcecados. É quase como montar constelações.

Gosto tanto de constelações que penso em tatuar uma.

Mas é quase como pegar pequenos fragmentos do que nos move e tentar ligar os pontos, formar uma imagem, dar algum significado. Uma obsessão é significativa porque fala a uma parcela instintiva, ela te pega pela mão e leva sem que isso passe pelo cérebro, sem que você saiba dizer por que aquilo te fascina tanto.

Fascinar é uma das minhas palavras preferidas, justamente porque diz respeito a algo que não se pode explicar, uma atração de uma ordem estranha, meio mágica, meio onírica. E tudo que atrai alguém como mágica, como sonho, deve dizer muito a respeito dele.

Eu gosto de conhecer as pessoas. De montar esses quebra-cabeças com o que elas me mostram. Acho que uma das minhas fases preferidas de relacionamentos é aquele início muito início em que as conversas ainda não tem fim porque estamos brincando de dar ao outros as estrelas da constelação. Justamente por isso é tão dolorido quando essas estrelas não são aceitas.

É profunda a dor de de dar peças a alguém e as ter devolvidas. Não, isso não serve, essas coisas que você ama não servem, você não serve. Não quero discorrer sobre o porque de alguém continuar com alguém mesmo depois de devolver tudo aquilo que o forma, tenho hipóteses, mas não me interessa falar sobre isso agora. Mas das poucas decisões confiáveis da minha vida, uma é essa:permanecer onde possam estar minhas obsessões.

 

 

No limite das coisas

Um dos comentaristas do Bergman que eu li dizia que, no início de O Sétimo Selo nós estávamos claramente no limite de algo enorme. A divisão clara entre céu e mar, a fotografia contrastada e a narração afirmando que o sétimo selo havia sido aberto.

Não me interessa muito falar de Bergman aqui, agora, mas gosto da expressão que o autor usa “we’re on the very edge of things”. Gosto dessa palavra, “edge”, nunca consegui traduzir de uma forma apropriada. Limite, ponta, beirada. Como quem se debruça no precipício e olha o que tem lá embaixo.

É uma sensação muito estranha essa de estar na beirada das coisas.

Estranha de um jeito bom, eu diria, acho. Mas honestamente não sei, não tenho certeza.

Eu entreguei a dissertação. Eu escrevi 90 páginas sobre um assunto e agora estou aqui esperando virar mestra. Eu não fiquei especialmente feliz de me formar. Aliviada, sim. Feliz de mudar de ares, mudar de vida. Mas só. Eu nunca duvidei que conseguiria, eu não fiz nada do qual me orgulhasse profundamente para me formar. Foi difícil, mas não sugou cada pensamento original que havia dentro de mim.

Fazer um mestrado foi diferente. Eu duvidei muitas vezes. Mais vezes do que o contrário, eu achei que não seria capaz. É uma constância que eu não tenho, um senso de responsabilidade que me falta e articular meu conhecimento em algo vagamente inédito. É criar uma coisa. Se você lê esse blog há pelo menos dois posts sabe o quanto eu não me sinto em nada segura das coisas que podem sair de dentro de mim.

Mas algo saiu e eu entreguei. Nunca estive na beira de algo assim. Não fiquei especialmente feliz quando passei no vestibular, quando formei, quando entrei no mestrado. Nada disso requeria algo que eu me sentia tão insegura de fazer. Mas ter sobrevivido a minha própria formação enquanto “intelectual”, ter escrito 90 páginas que não saíram de outro lugar além da minha cabeça, foi me levar mais longe do que achei que poderia.

Eu deveria ter pensado nisso antes. Eu deveria saber disso antes. Se eu soubesse, acho que não teria começado. Se eu tivesse imaginado o quanto isso me custaria emocionalmente talvez eu tivesse optado por outro caminho. Outro tema ao menos. Um que não fosse tão meu. Não consigo decidir se foi bom que eu não sabia.

A filosofia barata diria “mas que ótimo que você não sabia, foi e fez algo que achou que não seria capaz, mas conseguiu”. Mas há um preço. Eu não gosto nunca de esquecer o preço das coisas. Eu certamente consegui, eu certamente escrevi 90 páginas e defenderei essa coisa e vou virar mestre. E algumas pessoas me verão na noite desse dia e nunca, na vida delas, terão me visto assim. Mas do lado de dentro eu tenho um campo de batalha.

Eu conheço alguém que foi a guerra. E minha impressão foi a de que ele nunca voltou, embora te diria que não se arrepende. Não se arrepende, mas não voltou. Eu não me arrependo de tudo que tive que matar para conseguir lidar com isso, mas eu não voltei também. Ainda não.

Tenho dito que me sinto completamente vazia e não sei se consegui ser entendida. Não sobrou nada dentro de mim. Nenhuma capacidade de pensar, nenhuma palavra, nenhuma força para lidar com coisas que eu não consigo lidar. Mal sobrou capacidade de estar contente, embora eu me sinta na beirada de estar.

Matei o lado de dentro fisicamente também. Tusso, minhas costas doem, meu estômago dói, eu passo 70% do tempo achando que vou vomitar. Por duas semanas eu dormi menos de 4 horas por noite e me alimentei basicamente de café, torradas e marlboro light. Eu não poderia ter feito de outro jeito. Eu não poderia ter ignorado as vozes na minha cabeça se estivesse menos no limite, eu não poderia parar de me dizer que cada palavra escrita era uma bobagem se eu não estivesse operando em um corpo desesperado para que aquilo acabasse. Me pergunto quantos anos de terapia são necessários para que eu desenvolva uma relação ao menos minimamente saudável com o meu corpo. É bem provável que o câncer de pulmão venha antes.

Mas a questão de estar no limite das coisas é que, conseguindo ou não, você precisa avançar. Por mais vazia que eu esteja por dentro, acabou. Acabou e a vida agora é outra. Mas eu estou tão vazia que preciso ir embora antes que a vida seja outra. E estou na beirada disso também.

Na beirada de ir não sei para onde, não sei de que jeito. Me recuso a fazer roteiros, me recuso a ter planos. Me recuso a ouvir qualquer palavra contrária. Eu não posso explicar que não posso continuar sem isso.

Eu virei outra pessoa nesses dois anos. Nessas duas semanas de forma ainda mais radical, eu virei outra pessoa. Eu matei algo, algo que eu precisava matar há muito tempo, mas como todas as grandes mortes ela não veio de graça. Eu não poderia escrever um livro duas semanas atrás, eu posso agora. Eu não poderia entender a melhora que as minhas críticas tiveram no último ano, eu posso agora.  Mas o custo foi enorme e eu estou exausta. Exausta, crua, cheia de marcas que vocês não podem ver.

Eu me pergunto qual o sentido de textos tão overshare. Quem se importa com o que passa dentro da minha cabeça assim. Gosto mais dos pequenos ensaios, das reflexões sobre perguntas que, imagino, passam pela cabeça de outros. Mas esse eu entendo. Nos últimos dois anos me foi perguntado várias vezes o que eu estava fazendo, por que eu precisava de tanto tempo, o que, afinal era tão difícil. Por que eu precisei deixar tão pra depois, por que duas semanas tão infernais?

Porque sim. Porque eu gostaria de ser um ser humano mais funcional, mas não sou. Não sei se minha resposta é inteligível, mas alguma hora eu precisava responder.

 

Alabama Monroe, Bergman e círculos quebrados (2 de 194)

Eu tinha um plano em que, por razões de ordem alfabética, o próximo filme seria do Afeganistão. Fui atrás, pesquisei filmes e cineastas e descobri, inclusive, mais de um. Baixei todos, decidi sobre o qual falaria e… ainda não assisti. Sou realmente muito boa em manter planos.

Mas nesse blog somos muito a favor de aceitar o acaso, abraçar o que vier e o que veio foi a Bélgica. Sei que filmes belgas não são a coisa mais comum de mundo de se ver nos cinemas daqui, mas eu a classifiquei como um país fácil: já tinha assistido uns dois filmes belgas falados em flamenco, poderia baixar coisas dos mesmos diretores, e os irmãos Dardenne tem vários filmes maravilhosos. Mas também está em cartaz no cinema um filme cujo poster é uma moça com as costas todas tatuadas.

Alabama Monroe é um drama. Um drama bem drama. Daqueles que eu recomendaria levar a caixa de lencinhos e um pouco de corretivo para consertar a cara depois do filme.  Eu, no entanto, não chorei. 

-Isadora, você é uma insensível

Sem dúvidas que sou, nem argumento. Mas não é que o filme não tenha me tocado, mas justamente porque ele parece tão feito para que eu me emocione, eu não consegui.

Já tive certas discussões de mesa de bar em que afirmei que não me interessava muito a tese do Saramago em Ensaio sobre a Cegueira de que, em situações limites, e retiradas alguns alicerces básicos da civilização, nós viramos bárbaros. Isso me parece extremamente óbvio. Eu gosto mais de quem se propõe a analisar o como o excesso de segurança, de confiança em nossa própria situação, nos transforma em bárbaros. Sade, por exemplo, Lars Von Trier em Dogville.

Falo isso porque em certo momento pensei em chamar Alabama Monroe de “Cenas de Um Casamento com tatuagens” e aí pensei que não, não é isso. Vou tentar evitar spoilers, mas não me comprometo, tenho zero respeito por eles, só avisando os obsessivos. Alabama Monroe acompanha o esfacelamento de um casamento a partir de uma grande tragédia. A forma como o casal passa a se machucar, odiar, ser capaz do pior possível, a partir de uma grande tragédia.

Veja, me parece óbvio que frente a uma dor insuportável isso aconteça. Que alguém perca a fé, ou se agarre a fé, se culpe, culpe o próximo, machuque, agrida, etc, etc, etc. É dramático, sem dúvidas, é terrivelmente triste e acarreta em um filme tocante, do tipo que leva metade da sala ao choro. Mas Cenas de um Casamento é tragédia, a tragédia da inviabilidade da existência.

Usei esse termo em um texto em outro lugar e me apeguei a ele. A existência enquanto inviável, paradoxo em si, seres humanos condenados a estarem em um lugar desencontrado, trincado, pronto a decompor. Cenas de um Casamento, e todo o Bergman, é isso. São personagens que não precisam de uma grande tragédia para serem o pior que podem ser, eles o fazem simplesmente porque são seres humanos. Porque o lugar humano é de desencontro e crueldade, a não ser que alguém decida ativamente sair dele.

Para Alabama Monroe o lugar de partida do ser humano é a felicidade e o amor e uma tragédia o afasta disso. Para Bergman o lugar de partida é a violência, a indiferença e o sofrimento e é preciso fazer a escolha ativa de buscar algo distinto.

Estou com o Bergman nessa e por isso, talvez, tenha saído de Alabama Monroe com a sensação de que é um bom filme, mas falta arrebatamento.

Recentemente tenho visto muitos filmes assim: bons filmes, filmes perfeitamente bem feitos e competentes, mas que não me fazem sair da sala declarando meu amor apaixonado pelo cinema. Com vários defeitos que tem, A Grande Beleza foi o que chegou mais perto disso ultimamente.

Não me levem a mal, Alabama Monroe é um belo filme, belíssimo. Uma decupagem precisa, emocional sem ser melodramática, bem montado, com uma trilha incrível e personagens bem construídos. Mas me pareceu dizer um lugar comum.

Por outro lado, eu gosto muito da relação entre o título e a forma como o filme é construído: the broken circle breakdown. E o filme em estrutura quase circular, mas não exatamente. A princípio parece um filme em que vemos o presente e o passado e em algum momento eles se encontrarão, fechando o ciclo. Mas o ciclo não fecha. Ele está quebrado de início e está tão quebrado que se reflete na estrutura narrativa. Quando a narrativa deveria se fechar, há uma cena no futuro e agora precisaremos chegar até lá e o que se forma no final não é um, mas dois círculos, interligados, abertos, quebrados.

Alabama Monroe é um filme sobre a quebra de um ser humano. Ou de dois seres humanos. É um belíssimo filme, mas que não me ganha porque acredito que seres humanos são quebrados de início. Ao mesmo tempo, e isso me conquistou mais, é um filme sobre a vontade de ser inteiro, sobre o amor por outra terra em que se poderia ser inteiro: o além, ou a América, tanto faz. O bluegrass da banda dos protagonistas é cheio de referências a Deus e um outro lugar, além do Jordão, uma terra prometida. Pode ser o paraíso, como pode ser home of the brave, bla, bla, bla. Gosto desse paralelo entre sonhos, entre vontade de restituição e eternidade.

Achei interessante que se fiz um projeto de ver 194 filmes, de 194 países, porque quero estar em outro lugar, em lugares que não estou, escolhi por enquanto dois filmes que foram feitos em um país mas olham para o outro. Um filme francês africano, um filme belga sobre cowboys.

The-Broken-Circle-Breakdown