Livros

Maré alta

Tem alguns dias em que só resta desistir.

Alguns dias em que você chega em casa, chora um pouco sentada no chão, abre uma garrafa de vinho e desiste.

Desistir é uma gentileza comigo mesma que eu levei muito tempo para adotar. Em outros tempos, eu chegaria em casa e ainda tentaria ler, ver um filme, pelo menos um episódio de série. Eu tentaria fazer jantar, dobrar as roupas, limpar a caixa de areia do gato. E eu falharia em todas essas coisas.

Tem dias em que preciso desistir para não desistir de tudo.

Há dias bons e dias ruins.

Eu repito essa frase para mim quase como um mantra. Eu lembro de todos os diagnósticos em todos os consultórios de psicanalistas. Haverão dias bons e dias ruins, sempre, dias bons e dias ruins. Para sempre dias em que minha química cerebral me passará uma rasteira, em que a solidão vai se alojar no fundo do meu estômago, em que a dor vai corroer meus ossos. Dias em que eu vou desistir. Dias em que existir vai se tornar insustentável.

Nada me incomoda mais do que a inércia, a impossibilidade de fazer qualquer coisa. Eu sempre quero tanto, eu sempre tenho tanto a fazer, livros para serem lidos, textos para serem escritos, novas teorias revolucionárias sobre a análise fílmica a serem criadas. E eu não consigo fazer nada. Minhas mãos tremem, meu cérebro me escapa, minha respiração é mais curta, a comida perde o gosto e tudo que eu coloco dentro de mim parece veneno.

De tudo, acho que o que mais assusta é o efeito no corpo, a neurônios da coisa. Talvez, e eu acredito nisso, tudo tenha a ver com o que eu senti, com minhas memórias e meus pais e a formação de estruturas completamente abstratas na minha mente. Mas nessas horas você percebe perfeitamente que seu cérebro é composto de células, impulsos elétricos e neurotransmissores desregulados. E que isso cai na sua corrente sanguínea e todo seu corpo para de te obedecer porque você não consegue tomar as rédeas do próprio cérebro.

E é um círculo. O descontrole gera pânico que gera mais descontrole que gera mais pânico. A inércia gera culpa, que gera mais inércia, que gera auto punição que gera mais inércia e a bola de ódio e insegurança e medo vai crescendo e rolando, com você, ladeira abaixo.

Até agora que eu grito chega.

Meu momento preferido de toda a literatura mundial é quando Ivan Karamazov conversa com o demônio. Oi demônio, senta aqui, pega um chá, vamos bater um papo. Eu adoraria conversar com os meus demônios. Eu adoraria que eles sentassem no meu sofá, aceitassem uma taça de vinho e falassem comigo. Oi querido, quanto tempo né? Quer dizer, não, na verdade não, ontem mesmo você apareceu aqui e agora não quer mais ir embora, qual o problema? Você não tem uma casa? Por que você precisa ficar aqui?

Às vezes, mesmo que eu saiba que não é assim que funciona, eu preciso fingir que meus demônios são algo diferente de mim, algo separado. Algo que realmente me possuí, como um diabo de filme de terror. Ainda falando em Dostoievsky, o título original de Os Demônios é algo como Os Endemoniados. Os endemoniados, aqueles tomados por um niilismo profundo e a mais completa falta de fé.

Eu gosto dessa ideia.

E se eu simplesmente aceitasse a posessão? Sentasse e esperasse que  o pequeno satã se cansasse de mim e decidisse abandonar esse corpo que não lhe pertence? Será que ele não acharia que está bastante confortável e nunca mais fosse embora?

Esse é meu medo nos dias em que desisto. É esse o pavor que minha inércia traz consigo. De que eu nunca vá me mexer de novo, de que nada disso nunca vai passar.

E não vai.

Porque os dias continuarão sendo bons e ruins e bons e ruins e os ruins são sempre mais intensos que os bons. Então a outra alternativa não seria respeitar meus próprios ritmos? Me conformar com minha tábua de marés?

Quando eu estava em Pipa, fiquei em um hotel na areia da praia. Eu acordava com as ondas na minha janela e estava sempre com meus pés na areia. Contudo, por 4 ou 5 horas todos os dias, eu ficava ilhada. Não podia sair, nem entrar, porque a maré subia e tomava tudo. Aquilo era de uma beleza incomparável, mas como todas as coisas profundamente belas, havia algo de primitivo ali, de indomável.

Eu gostaria tanto de poder domar a mim mesma. Eu gostaria tanto de estar no controle. De não em sentir trancada para fora de mim mesma assim tantas vezes. Mas talvez não me reste mais nada a não ser aceitar? Que os dias bons serão bons e os dias ruins serão horríveis e sempre, sempre existirão dias ruins. Mas talvez eles diminuam e talvez os dias bons se tornem melhores e talvez, só talvez, exista alguma beleza em tudo isso?

Ou eu posso simplesmente desistir.

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“Minha doce Norazinha putazinha…”

Eu acho interessante, engraçado, como às vezes parece que coincidentemente as coisas se acumulam dizendo a mesma coisa. Um livro, um filme, uma série. Como se todas as escolhas que você faz secretamente se arranjassem para reforçar o mesmo tema, a mesma ideia infiltrada. Ou talvez, seja apenas eu que vejo o que quero ver em repetidos lugares.

Sempre me lembro daquela aula de filosofia, de Freud, de aprender que a paranoia é o oposto do sentimento da ausência de sentido. Na paranoia tudo tem sentido. A paranoia é a resposta do ego (talvez fosse uma aula de psicologia?) que não consegue encarar de frente a falta de sentido e a aleatoriedade do mundo. Na paranoia tudo tem sentido mas ele é sempre contra você.

Divago. Paranoia não tem a ver com esse post, embora essa frase tenha grudado em mim de uma forma que cada vez que ensaio ver uma correlação em eventos que sei que não tem qualquer conexão me paro e digo não, paranoia não. Meu rol de distúrbios diagnosticados já é suficiente sem ela e eu acho neurose uma palavra mais sonora. Saia daqui otimismo, não posso pensar que algo a noite vai dar certo só porque deu de manhã, fique longe de mim.

Mas enfim, não, paranoia não é o tópico. O tópico começa pelo acúmulo coincidente do mesmo tema.

Eu li hoje as Cartas a Nora, do James Joyce. Acho Joyce algo de maravilhoso porque quando você acha que está no domínio da extrema intelectualidade, do experimento formal hiper racionalizado, da linguagem pura que é dissociada da experiência vivida cotidiana, ele vai e te joga um “de sentir teus lábios chupando-me de te foder entre as maminhas”. Você começa Ulysses achando que jamais vai conseguir ler aquela coisa, que aquilo é pura especulação filosófica avançadíssima e de repente percebe que é só uma gente batendo punheta na praia. As cartas começam parecendo declarações repetidas de um amor ideal, do amor denso, intoxicante, mas etéreo e de repente, na virada de uma página, é tudo sobre o cu da Nora e de como ela tem a fantasia de cagar na frente dele.

Eu gosto desse vai e volta entre o extremo intelectual e fisicalidade bruta. Mas eu gosto mais de como Joyce ancora no corpo feminino esse desejo cru. A Nora que nunca vemos falar, como a Molly, como a personagem em Os Mortos, são seres cujo desejo é forte, pulsante, personagens tomadas pela dimensão física do sexo. E é tão raro a literatura, ou mesmo a história, nos contar de mulheres dominadas pelo próprio desejo.

Homens há vários. Desde Marco Antônio há histórias de homens que colocaram tudo a perder pelo desejo carnal, pela impossibilidade de controlar as ondas de sangue que descem pro pinto. De Tolstoi a Philip Roth temos homens que se arruinam por serem incapazes de resistir a pernas que se abrem na frente deles. Parece razoável, não parece uma construção de personagem clichê, mas muito mais a exploração de um arquétipo, a possibilidade de resistir ao desejo é uma questão tão fundamental quanto a aceitação da mortalidade.

Quantas mulheres a literatura conta que se arruinaram por desejo? Lady Chatterley. E não consigo lembrar de mais nenhuma. Emma Bovary se arruina pelo ideal romântico, pela paixão como um todo, não só pelo sexo. As Brontë jamais colocariam em palavras assim, mas desconfio que Catherine se arraste para Heathcliff por desejo carnal, assim como o apelo de Mr. Rochester é tão sexual que a única escolha possível para vivê-lo em um filme é Michael Fassbender. Ainda assim, Jane Eyre embora magnetizada mantém o domínio sobre si mesma, o desejo não a engole como aos personagens de Henry Miller ou Humbert Humbert. Chip, em The Corrections, é engolido pelo desejo, o Caçula, em Dois Irmãos, o personagem de Marcello Mastroiani em 8 1/2, Portnoy, o protagonista de O Museu da Inocência… todos eles.

As mulheres padecem de amor. Margarida, Aida, Sonia, Marianne, etc, etc. É preciso salvar Tolstoi, Anna Karenina é tomada de algo tão sentimental quanto físico. Ainda assim, não é por sexo que ela se joga embaixo de um trem. E acontece que ela poderia.

As cartas de Joyce se acumularam com um episódio de Game of Thrones em que Varys diz “quando eu vi o que o desejo faz com as pessoas, eu fiquei feliz por não tomar parte dele”. Desejo, mais do que sexo, o momento anterior ao sexo, é possivelmente uma das forças mais poderosas do mundo. É algo que toma, engole, enlouquece, controla o sangue o corpo e é capaz sim de fazer com que alguém se destrua. Mas nas histórias isso só acontece com os homens.

Me incomoda que as mulheres sejam colocadas nesse local em que não é que são capazes de dominar o próprio desejo, mas que não chegam a senti-lo com essa intensidade enlouquecedora. E talvez seja o desejo de mais coisas, o desejo como essa força incontrolável de querer algo que te faz ignorar o custo. Fausto, é o grande exemplo. Lady Macbeth talvez seja a única mulher que deseja com a força de Fausto, ainda assim, ela é mais prudente. Não consigo lembrar de uma história verdadeira de alguma mulher famosa que era publicamente enlouquecida por algum homem. Mas acontece.

E é interessante o tamanho do gênio e da complexidade da estrutura mental do Joyce. As mulheres dele estão fora da curva, elas são depositório de uma sensualidade poderosa, enlouquecida sim. Gosto de como ao escrever para Nora sobre o que quer fazer, ele chame aquilo de sujo, de feio sem que isso acarrete necessariamente em errado. É sujo porque envolve merda, semens, sangue, fluídos, cheiros ruins, gosmas. Amo quando o Pedro-Juan Gutierrez fala que sexo não é pra quem é higiênico. Chamar de higiênico, de limpo, de belo exige que ele caiba em um conjunto de valores do funcional, do bem-organizado, do dirigível. Ele não deveria caber ali, não sempre.

Quando Joyce coloca mulheres absolutamente sexuais e chama suas fantasias de feias e sujas, ele mantém o desejo como esse algo mágico, obscuro, poderoso por escapar a lógica racional cotidiana. Ele se recusa a ignorar a sujeira, ele reconhece a importância do tabu até um certo limite (como o medo, há o medo que impulsiona e o paralisador, dá pra importar a mesma lógica), reconhece a força de dar algo de porco, de animal a Molly Bloom. As mulheres de Joyce perderiam o controle por desejo, em uma narrativa que me incomoda que não aconteça mais vezes.

 

Texto número 212909 sobre voltar para casa

Estou lendo aquele livro do Zambra chamado Formas de Voltar Para Casa. Acho engraçado que depois que comecei a conviver com “gente dos livros” tem umas épocas em que todo mundo parece estar lendo a mesma coisa, em geral algo razoavelmente curto e que acabou de ser lançado e que lemos por curiosidade, recomendação, vontade de falar sobre o livro com alguém.

Tenho na lista os outros dois do Zambra, mas por já ter uma pilha de livros emprestados que preciso devolver, vinha adiando o pedido para as pessoas que sei que os tem. Mas não pude escapar de um livro com esse título. Em primeiro lugar porque é um belo título e em segundo porque não sei voltar para casa e quero desesperadamente aprender.

Há uma frase, que fica bem no topo de uma página e que diz “aprender a contar sua história como se não doesse”. Aprender a contar sua história como se ela fosse mais uma, como se fosse igual a do próximo. Todo mundo dói, todas as famílias tem problemas, toda criança tem traumas. Imagino que tudo isso seja verdade, mas também imagino que algumas famílias sejam piores que as outras e algumas pessoas precisem aprender a contar sua história como se não doesse.

Famílias felizes se parecem. Cada família infeliz é infeliz a sua própria maneira.

A literatura é fascinada com as famílias infelizes. O cinema também. Talvez porque famílias felizes se pareçam. A história de uma família feliz é a história de muitas famílias felizes e dia desses li um jovem escritor em um belo texto no jornal dizer que literatura se faz de sangue, morte e tragédia. Ninguém quer saber do que dar certo. Ninguém quer saber das famílias felizes.

Formas de Voltar Para Casa é, de alguma forma, a história de uma família feliz. Ou a história de como não se conta a história de uma família feliz, mas da família infeliz da casa ao lado. É a história da culpa porque sua família é feliz. Porque na sua família não há mortes, desaparecidos, torturados. E se surpreender porque alguém cuja história contem mortos, desaparecidos e torturados eventualmente te conta sobre tudo isso entre cafés do starbucks, como se nada fosse, como quem conta do playground que brincava na infância, como se não doesse.

Esses dias me peguei, entre um gole de mojito e uma batata frita, contando minha história como se nada fosse. Contando que aos cinco anos me perdi no Louvre e minha mãe levou mais de duas horas para perceber. Contando que casa sempre foi sinônimo de algo que era uma merda e até hoje eu tenho dificuldades para entender que não é. Com meu rosto apoiado na mão, do jeito que sei que faço quando estou muito atenta a alguma coisa, eu o ouvi contar a história dele, que talvez também doesse, mas que ele narrava como se não.

Fico me perguntando quantas vezes na vida fui beijada porque contei minha história como se não doesse e meu interlocutor achou que ela deveria sim doer. Me pergunto quantas vezes na vida fui beijada por dó, por puro carinho, como uma maneira de me agradecer por ter contado aquela história como se ela não doesse. Ou como uma forma de me dizer “calma, vai ficar tudo bem”.

Voltei hoje de manhã para a casa da minha mãe. Volto para ir embora. Entro no meu quarto e percebo que nada mudou desde que saí de casa, 8 anos atrás.

Pompeia é o lugar mais impressionante que já estive. Um dia falei aqui sobre Pompeia, Hiroshima e Ai Weiwei, tempo congelado e memória. Pompeia é impressionante porque ela não decaiu, não morreu como Éfesos, Machu Picchu, ou outras ruínas em que estive, ela simplesmente parou. Em um momento, o tempo congelou.

Me sinto um pouco assim ao entrar no meu quarto. Ali, em janeiro de 2006, o tempo parou. Os livros nas estantes são os mesmos, as fotos nas paredes são as mesmas. Fotos de gente que já não significa mais nada para mim e fotos de gente que ainda significa o mundo. Em uma foto somos tão novinhos, eu estou tão bronzeada, nossos rostos eram menos bonitos, ainda não haviam assumido os traços que assumiriam alguns anos depois.

Olho para foto e vemos que éramos, somos talvez, ambos, muito bonitos. Mas nos nove anos desde essa foto nossos rostos adquiriam um tipo diferente de beleza, nossos olhos se tornaram menos transparentes.

Mas naquele quarto o tempo parou. Naquele quarto meus cabelos batem no ombro e são um loiro escuro e cinzento, uso uma camiseta do Bikini Kill e abraço pessoas que não vejo já nem sei há quanto tempo.

É muito estranho voltar para casa.

Me pergunto por que nunca joguei fora essas fotos, por que minha mãe nunca reformou esse quarto. Vejo mais uma foto, minha prima aos treze anos em um vestido preto de renda, aquele ano em que vimos a guerra. Sento no chão e entendo que voltar para casa é como brincar de quebra-cabeças, que não retiro as fotos ou jogo fora aquele cachorrinho de pelúcia ridículo porque me contam minha própria história. Me contam como eu cheguei aqui. Como meu cabelo deixou de ser loiro de água suja para ser loiro dourado, loiro platinado, ruivo, loiro dourado outra vez; nos ombros, curto, longo, muito longo, muito curto, médio, longo.

Porque são as peças da história que eu conto casualmente enquanto examino o molho em um potinho e provo devagar com a batata frita. Como se aquele molho fosse algo que me importava mais do que o que eu estava dizendo. Peças da história que eu paro de contar para dizer “por que estou falando disso mesmo?”, me lembro e volto a falar de museus de Paris, você sabia que no Pompidou eles expõe filmes? Quase chorei de amor quando vi que tinham La Jetée.

 

 

Só se pode quebrar o mesmo braço duas vezes

Parece algo muito óbvio que, quando se remenda algo quebrado, aquilo nunca volta a ser o que era. Eu me lembro quando era criança e um enfeite da minha penteadeira (eu tinha uma penteadeira de princesa quando era criança, ainda não superei a perda dela, me perdoem) caiu no chão e o como eu chorava enquanto minha mãe dizia “não espatifou, é só colar”. Tenho a impressão de que parei de chorar por um minuto, olhei bem para cara dela e disse “continua quebrado”, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

E é, mas a gente se esquece. A gente se esquece muito fácil que mesmo que você conserte, as coisas continuam quebradas.

Eu me lembrei disso porque estava lendo um livro cujo narrador é um menino extremamente inteligente, mas autista. E a mágica de um livro com esse narrador é a absoluta literalidade com que ele vê o mundo e nós, nessa vontade de ser extremamente complexos e querer que nada seja preto no branco, esquecemos. Ele não pode mentir, ou usar metáforas, porque elas são uma forma de mentira. Ele não pode contar mentiras pra ele mesmo. Não pode esquecer que quando uma outra criança rasgou um desenho, mesmo que a professora remende, o desenho segue rasgado.

Eu quebrei meu braço esquerdo duas vezes na infância, se quebra-lo de novo, ele não se calcifica mais. Precisaria tirar um pedaço de osso da perna e colocar no braço porque há um limite na capacidade de recuperação dos ossos. Não tenho ideia se é possível ver algum tipo de linha, rachadura ou falha, caso eu tire um raio-x do braço, chutaria que não. Mas eu não posso esquecer que ele foi quebrado. 15 anos depois e eu ainda preciso me lembrar que meu braço esquerdo não pode mais se quebrar sem que eu passe por uma cirurgia relativamente complicada.

Talvez todas as coisas do mundo tenham um limite de recuperação, não apenas ossos. Mas a gente esquece. A gente esquece que não vai se recuperar pra sempre, que não vai ficar igual era antes, que não pode continuar quebrando o lado de dentro para sempre.

Não consigo imaginar porque meu braço esquerdo pode ser quebrado apenas duas vezes, mas meu cérebro acha que pode levar infinitos golpes e continuar funcionando.

Quase disse “coração partido”, mas não é isso, embora eu goste da expressão. É brega, mas eu gosto, gosto de muitas coisas bregas, o Romeu e Julieta do Baz Luhrmann é a principal delas. É porque não é exatamente uma questão de coração partido, não é exatamente uma questão de amor (ou paixão vai) não correspondido. É se colocar em infinitas situações que você sabe que vão te quebrar e pode ser ter gostado de um cara, mas pode ser tantas outras coisas.

É engraçado, ou irônico de uma forma trágica, que passamos a vida ouvindo, e nos convencendo, de que  não se morre de coração partido. De que passa, recupera, remenda. “It’s not like I’ve been send up to war, there are worse things in this world”*. Mas sanidade mental é um negócio tão frágil e conheço gente que foi mandado para guerra e também teve o coração partido e eu não sei qual das duas coisas o quebrou irremediavelmente. Se a guerra, ou o amor, ou tudo que veio antes ou tudo que veio antes que precisou mandá-lo para a guerra.

Nós vivemos nos convencendo que os golpes não são tão violentos assim, que é possível continuar, passar por cima, recuperar. Mas os remendos vão acumulando e eles são remendos, nada volta a ser o que era. E eu não quero dizer com isso que realmente se morra de coração partido, mas que é uma atenção válida, uma percepção que deveríamos ter com mais frequência, esse de que sempre é possível ver a linha de remendo.

E entender que algumas coisas talvez só façam sentido se forem perfeitas.

Me lembro também de algum projeto de artes que envolvia fazer muitos círculos e da professora me ensinando a usar o compasso e dizendo que eu não poderia parar a volta, ou retirar o grafite do papel porque senão o círculo não seria perfeito. Eu jamais conseguiria emendar de um jeito imperceptível, era preciso que não tivesse um ponto de interrupção, ou não funcionaria.

Enquanto estou as voltas com uma das coisas mais importantes que já fiz, me pergunto muito se não há um conserto que eu queria tentar fazer. Um remendo que talvez valesse a pena, mesmo que eu pudesse ver a rachadura, mesmo que não fosse como antes, mesmo que não pudesse ser quebrado uma segunda vez porque já alcançamos o limite da recuperação.

A resposta a que tenho chegado é: não.

Há muito tempo, nós estávamos em um ônibus que cruzava um país em guerra e ele me disse que achava uma pena as crianças que cresciam ali, dos dois lados. Porque era importante saber que o mundo era um lugar defeituoso, quebrado, imperfeito, mas era necessários aqueles anos antes disso em que se acredita que as coisas fazem sentido e são perfeitas e tudo funciona. Como se aquelas crianças nem tivessem a chance de uma perda da inocência.

Eu estava olhando pela janela e não me virei para dizer que tinha sido a mesma coisa com a gente, de alguma maneira. Nem eu, nem ele, por motivos que são diferentes de crescer em um país em guerra, tivemos a ilusão de que as coisas estavam perfeitas, de que não existia dor. Algo sempre faltou e eu me pergunto se sua cota de consertos diminui porque você nunca imaginou que as coisas poderiam ser perfeitas.

Não lembro se ele realmente tocou meu cabelo ou só estou completando com o que era um hábito nessas horas. Uma vez ele também me disse que chegaria o dia em que eu não precisaria mais dele e eu não disse que era uma bobagem, eu acreditei, eu também achava isso. Na época eu era mais otimista.

Tem coisas que só fazem sentido se são tudo que você conheceu de perfeição na vida. Tudo que você conheceu de amor incondicional e cuidado e colo e casa. Talvez seja como crescer. Como sair da casa dos pais. Se eu deixo cair uma daquelas taças de cristal tcheco finíssimo que existem na casa da minha mãe, faz algum sentido tentar cola-la? Supondo que quando ela caiu não tenha se espatifado em pedaços impossíveis de se juntar.

Entender que nem tudo pode ser consertado me parece uma lembrança que falta a quase todo mundo, quase o tempo todo. É claro que você pode tentar colar, mas continua quebrado. E `as vezes não faz sentido.

 

https://www.youtube.com/watch?v=K3xIib0VE_4

Fausto aprendeu no que dá querer demais

Não precisa de um passeio muito longo pela literatura pra perceber que nós estamos constantemente sendo punidos por querer demais. Prometeu, Fausto, alguém do Shakespeare que eu suspeito seja Macbeth (desculpa, meu repertório de Shakespeare é um negócio BEM falho, pretendo resolver algum dia), Raskolnikóv, até o Swede em Pastoral Americana.

Digo até o Swede porque parece que mesmo em um universo completamente aleatório, dominado pelo acaso que é um animal cruel (já falei disso aqui) se é punido por querer demais. Ele quis ser americano, ao invés de judeu, o que é um passo maior que as pernas, mas possível. Mas ele não quis apenas ser americano, quis ser a América de certa forma e daí a tragédia é inevitável.

A maior lição do personagem, e uma das melhores passagens da literatura contemporânea, é que a vida não faz sentido. Mas ainda assim, será que toda a tragédia ali é aleatória mesmo? Sem nenhuma conexão com o que ele quis, quem ele é, com o fato de ele querer demais?

Nós queremos relacionamentos que deem certo com alguém por quem sejamos perdidamente apaixonados. Queremos empregos que não sejam detestáveis e queremos um milhão de outras coisas como roupas, móveis, viagens, etc, etc, então tem que pagar bem também. Eu quero ler todos os livros, ver todos os filmes, assistir todas as séries, escrever todo dia, uma indicação de publicação pro mestrado, um doutorado em Paris, uma passagem pra Índia e ter minhas unhas feitas.

Eu quero ser amada por pessoas e quero ir embora. Tudo ao mesmo tempo. Como se fosse possível.

Eu quero laços e quero a liberdade suprema da ausência deles. Eu quero ir e quero estar aqui, eu quero o mundo todo e ainda quero pessoas em volta de mim. Não dá, ou se ganha o mundo e se perde o aqui, ou ao contrário. Eu estou em um caminho bem claro de ser punida por querer demais.

Eu me assusto muito cada vez que quero algo. Deve ser algum tipo de culpa judaica bizarra ou só minha cabeça um pouco defeituosa, mas eu tenho muito medo quando quero algo porque meu instinto é dizer a mim mesma que não mereço. Que não posso ter. Que a existência é só essa condenação de desejar coisas, eternamente.

Acho que algum filósofo grego comparou homens com cavalos com a cenoura na frente. Schopenhauer (rolou um google pra saber como escreve, um beijo pra acadêmica disléxica) falou muitas coisas, muito deprimentes, sobre ser escravo da própria vontade. Eu tenho pouca tendência a achar que devemos para de desejar, não me atrai em nada a ideia de que algum tipo de felicidade possa estar na ausência de coisas, não gosto da ideia de equilíbrio, meio termo. Sou mais fatalista que isso: acho que estamos condenados a desejar coisas, sempre, a querer demais e sofrer por isso.

E querer coisas e querer mais coisas assim que conseguimos essas primeiras. Lembro daquele moço que eu saia que gostava de dizer que todo objetivo é ouro de tolo porque uma vez que você chega lá passa a querer outra coisa. Achava isso extremamente sábio da parte dele, que sempre me pareceu ao mesmo tempo em paz e atormentado com o fato de que ele também queria demais.

Eu não sei se tenho mais medo de conseguir o que quero ou de não conseguir. Não sei se meu medo é pura e simplesmente da intensidade com que quero as coisas, quando quero. É engraçado que eu já ganhei algumas vezes a interpretação de ser fria, ou distante, ou pouco interessada em sentimentos por conta desses anos solteira. Ao contrário, acho, eu acabo querendo tanto e me apaixonando tanto e ao mesmo tempo eu quero tanto a mim mesma, ao mundo que não se pode querer tanto duas duas coisas sem enlouquecer.

Talvez não se possa querer nada nesse tanto sem enlouquecer.

Tem aquela frase da Sylvia Plath também que diz que quando queremos desesperadamente coisas demais, estamos muito próximos de não querer nada. Talvez. Acho que faz algum sentido. Isso de querer tudo, querer o mundo, querer todas as coisas é só uma forma de lidar com esse desejo todo quando não se quer nada, especificamente. Eu detesto a maneira como me sinto esvaziada quando passo a querer demais uma mesma coisa, eu detesto quando esse querer todo se concentra em alguma coisa. Detesto e tenho medo.

Querer alguma coisa, uma coisa real e concreta e possível de ser apontada, é arriscar perder. Eu tenho dificuldades enormes de admitir, pra mim mesma, o quanto quero algumas coisas, o quanto não ter pode puxar meu tapete, eu detesto olhar de frente quando essa intensidade de querer se transforma na intensidade da dor de não ter. Provavelmente por essa certeza de que não posso ter o que quero, ou por medo de ter e não ser aquilo, não estar satisfeita.

Eu passei anos querendo algo, alguém, achando que as coisas fariam mais sentido, eu faria mais sentido, uma vez que conseguisse. E quando eu consegui já não fazia mais sentido, nenhum, eu já não queria aquilo. E de alguém que tinha metade eu passei a ser alguém que não tem nada. Já perdi muita coisa nessa vida, nada nunca doeu como isso, nenhuma dor nunca foi tão quieta e tão persistente, nunca houve uma falta mais torturante.

Então melhor não querer nada.

Querer algo e fazer coisas a respeito disso requer um mínimo de fé que se vai conseguir. Quando a Capes me faz aquela pergunta muito idiota de por que eu mereço uma bolsa, eu só posso responder se achar, pelo menos um pouco, que mereço. Acho razoavelmente possível quando sou capaz de listar critérios objetivos, sou completamente incapaz quando preciso dar um salto de fé em mim mesma.

Por exemplo, quando se quer uma outra pessoa. Ir atrás requer um mínimo de fé que algo em você é interessante, desejável, que é possível querer estar com você. Kierkegaard que me perdoe, mas tenho achado mais fácil saltar na fé em deus do que acreditar nisso. E eu definitivamente não acredito em deus.

Talvez eu tenha lido literatura demais e tenha aprendido muito bem que sempre se é punido por querer demais. Eu certamente li livros do Philip Roth o suficiente para saber o quanto somos escravos do desejo e o quanto a verdadeira comunhão humana é impossível. Bergman pode até dizer o contrário, eu posso até ter escrito todo um mestrado sobre saltar no outro independente de garantias, mas isso é muito mais uma versão da coisa que eu quero comprar, mas não consigo. Mais do que qualquer desejo, querer uma outra pessoa vai inevitavelmente atrair uma punição.

Falei ali em cima que tenho muito pouco interesse por quem vem dizer que abandonar vontades ou achar uma espécie de equilíbrio no desapego gera felicidade. Não acho, mesmo, sou daquelas que acredita em intensidades, em sofrer muito e ser muito feliz por espaços curtos. Mas nem sempre é uma aposta que se pode bancar, eu acho cada vez mais que não posso. Que preferia não querer absolutamente nada e a abrir mão dos dois lados da moeda, preferia a imagem de distante e inatingível que de vez em quando fazem de mim. Eu queria mesmo partir corações sem remorso como as vezes acham que eu faço. E eu queria realmente parar de partir o meu.

E não só com pessoas. Com textos, com tudo. Com a pessoa que eu sou. Eu queria realmente parar de atrair a fúria do universo sem sentido para mim porque quero demais. Mas eu li literatura suficiente pra saber que isso é impossível.

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“Está na hora de me fazer ao mar”

Existe uma sensação que me é bastante querida, embora extremamente rara: sentir que, onde quer que eu esteja no momento, é exatamente onde eu queria estar.

Muitas vezes, quase todas, eu não sei muito bem como fui parar ali. Também não importa, acho. Ou talvez eu só consiga me sentir assim nos lugares que não sei muito como fui parar.

Faz duas semanas eu estava em Cuba. Em um certo momento eu estava em um picanto imundo, em cima de uma ponte, vendo campos enormes de algo que me parecia trigo (mas eu sei que não era) cantando Shape of My Heart a plenos pulmões. Eu não sei como fui parar ali, mas era exatamente onde eu queria estar.

Muitas vezes durante a viagem, enquanto nós cruzavamos estradas que não faziam o menor sentido, enquanto era preciso fazer parkour entre as carroças, os caminhões que pareciam transformers, os cubanos de bicicleta e os maravilhosos outdoors do Chávez “nuestro mejor amigo”, eu queria colocar a cabeça para fora, sentir o vento no meu rosto e simplesmente estar ali. Eu queria estar cantando Backstreet Boys como se não houvesse amanhã enquanto cruzava um país socialista, mesmo que não tivesse a menor ideia do que estava fazendo ali.

Mas a verdade é que eu tenho.

Sempre fui fascinada com a ideia de roadtrips, com road movies, com navios, com o mar, com trens, com tudo que se movimenta. Eu sempre gostei do deslocamento pelo deslocamento, do próprio processo de se mover, de atravessar, de não estar exatamente em lugar nenhum. No meio do caminho é exatamente onde eu queria estar.

Uma roadtrip é uma viagem em que o processo de viajar é um objetivo tanto quanto os lugares que você vê. Dirigir por aquelas estradas, ver aqueles cartazes, poder parar em qualquer cidadezinha pitoresca que desse vontade, escolher uma trilha sonora, dar apelidos aos caminhões, se movimentar.

Eu gosto muito de me movimentar.

Em nenhum momento pus a cabeça para fora do carro, meu nome já tem uma tradição suficiente em mortes trágicas com carro, mas o que eu queria mesmo não era só sentir o vento, era sentir uma liberdade muito extrema de não se ter um lugar, de não dormir mais de uma noite na mesma cama. A liberdade extrema de viver dentro de um quarto, de uma mochila, dentro de mim mesma, de certa forma. Essa liberdade me seduziu intensamente.

Toda vez que falo em liberdade, me lembro do Kieslowkski. A liberdade é azul e solitária, terrível, profunda, brutalmente solitária. Claro. A liberdade real, pura, por assim dizer, só pode existir na ausência de laços. Crescemos com a ideia de que liberdade é algo essencialmente bom, sempre, como se pudessemos fazer colunas de coisas boas e coisas ruins. Mas não podemos e a liberdade não é sempre boa, ainda que, para mim, ela seja extremamente sedutora.

Enquanto eu olhava pela janela para as paisagens cubanas, que se pareciam um tanto com as brasileiras, eu não pude deixar de pensar em todas as coisas que vagam pela mente quando se tem muitas horas e muitos kilômetros. Em como eu quero ir embora. Em quem foi embora de mim. Em quem foi embora de mim querendo ser livre e nunca foi, porque tem nós (não laços) demais dentro de si; e de quem foi para esse tipo de liberdade que eu pareço sentir no sangue; de quem não foi, não precisou ir, mas diz que eu preciso.

Nas estradas cubanas eu encontrei um tipo de perdão muito libertador.

Há alguém que uma vez foi embora de mim porque eu não poderia ficar e que, ainda hoje, me diz que há em mim algo de quase selvagem, algo que é incapaz de jogar o jogo, que eu não posso dominar e que se sente constantemente sufocado, inquieto, como uma jaguatirica em caixa de transporte de gato. Há alguém que diz que tenho olhos de gato selvagem, mas insisto em achar que posso viver de arranhador.

Não vou dizer que não me sinto elogiada, mas há algo profundamente triste nessa afirmação. Porque gatos selvagens são animais que caçam sozinhos.

Há naturezas mais civilizadas, para quem a liberdade da ausência de laços é apenas isso, libertadora. Talvez porque não exista o medo de se perder, o medo de sucumbir ao lobo dentro de si, ao pequeno monstro adormecido, de tornar-se verdadeiramente intratável. Há naturezas mais civilizadas que precisam da ausência de laços para, ao contrário, não sucumbirem a própria civilidade.

Lembro de há muito tempo atrás ter lido um livro do Bauman em que ele afirma que algumas coisas são binômios: menos de uma necessariamente significa mais da outra e vice versa. Liberdade e segurança é um dos exemplos que ele dá. Eu diria liberdade e conexão.

Estar perto dos outros significa ter peso, lastro, bagagem. Conectar-se com alguém significa abrir mão dessa liberdade profunda que só pode nascer do completo desprendimento. É inocente e ridiculamente ingênuo achar que a liberdade é algo intrinsecamente bom, como é ainda mais ridiculamente ingênuo achar que o amor é algo intrinsecamente bom. Ou a vida, ou o que quer que seja.

Mas ela é sedutora. Talvez poucas coisas sejam tão difíceis quanto decidir se você realmente quer algo que lhe parece extremamente sedutor, tentar ouvir algo além do seu sangue pulsando e batendo nas paredes das artérias, fervente por algo que fala a uma parte sua mais escura, indomável, selvagem. A liberdade fala ao lobinho dentro de mim, ao pequeno monstro que eu guardo dentro da alma.

Eu protejo esse alma dos outros tanto quanto evito que os outros a vejam. Eu tenho um medo sincero de perder o animal dentro de mim e acabar não sendo nada, como tigres deprimidos em zoológicos alemães. Eu tenho medo de perder aos outros e tenho medo de perder a mim mesma. Mais de um necessariamente significa menos do outro?

Não sei responder. Talvez eu esteja presa entre o que me seduz e o que eu deveria querer em mais aspectos do que quero admitir. Talvez eu deteste as paixões sem sentido justamente porque elas deveriam falar ao instinto, mas o meu instinto quer caçar só. Talvez só possa gostar do sentimento sem freios quem tem menos violência dentro de si, eu tenho sangue demais.

Eu sou completamente obcecada com o mar. Nada no mundo me atrai com tanta força, em nenhum lugar eu me sinto tão em casa como quando ondas batem furiosas em rochedos. A frase nas minhas costas por muito pouco não foi “I account it high time to get to sea as soon as I can”

Do alto do avião, a primeira vista que eu tive de Cuba foi do mar, azul, azul, azul, transparente e imenso e eu sorri sozinha. O mar é eternamente imensidão assassina, sempre algo a se reverenciar, sempre selvagem, mesmo quando se disfarça de praias calmas e azuis do Caribe.

Mas as vezes é preciso tornados, furacões, tempestades. São as mesmas correntes do azul elétrico, da beleza plácida. Eu adoraria ver um furacão. Eu adoraria comprar a aposta de soltar o gato selvagem dentro de mim e correr para o mar.

Nos poucos momentos em que eu me senti perfeitamente livre, eu entendi tanta coisa, perdoei tanta coisa que decidi comprar a aposta (eu gosto de apostas afinal). Talvez lobos também voltem para casa.

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Karma, tragédia grega e Philip Roth (ou Ozzy Osbourne sabe das coisas)

Eu acredito em pouquíssimas coisas nessa vida. Não acredito em Deus, não acredito no amor, não acredito na felicidade, não acredito nas pessoas, acredito apenas em álcool, extraterrestres e karma.

Um dia eu estava na Flip, na fila do autógrafo de já nem sei mais que autor, quando um daqueles hare krishnas que concorrem cruelmente com a venda de livros élficos me perguntou se eu conhecia o karma. Quis responder: “conheço e it’s a bitch”.

Me perdoem os verdadeiros estudiosos da coisa, sei que o princípio é que tudo que vai volta, que se eu for um ser humano bom, iluminado e evoluído as coisas vão melhorar. Sei também que estou muito longe de ser um ser humano bom, iluminado e evoluído, sou irônica, cínica, sarcástica, mentirosa, bêbada, irresponsável e talvez já tenha roubado um cd deliberadamente em uma lojinha alternativa de Curitiba e portanto é claro que recebo minha cota de desgraça, mas, às vezes, é muito difícil não acreditar em um princípio de retorno rancoroso e vingativo.

Ao menos é mais fácil do que acreditar que o universo é só um monte de partículas desgovernadas se chocando aleatoriamente e tudo não passa de uma enorme coincidência. Que é o que eu realmente acredito.

É mais fácil acreditar que as energias do universo se movimentam para me punir. Que em alguma vida passada eu fiz pole dance na cruz, lavei calcinha na tábua dos dez mandamentos, trepei na mesa da santa ceia, sabe-se lá. Por incrível que pareça, é bem melhor acreditar que eu mereci de alguma forma todas as coisas que acontecem comigo.

Meu orientador uma vez disse que acaso é a palavra que os pós-modernos usam para destino. Aquele destino trágico, grego, que diz que Édipo pode correr o quanto quiser, vai acabar comendo a mãe e matando o pai. Eu adoro o conceito grego de moira, destino, mas mais precisamente “o quinhão que me cabe”. Aquilo que me cabe nesse mundo, nessa vida, nesse universo. Aquilo que me cabe pode ser destino, mas pode ser acaso, porque o destino é absolutamente aleatório. Destino não é karma, Édipo não fez nada para merecer a tragédia que lhe caiu. Foi um capricho, dos deuses, das moiras.

Em American Pastoral, Philip Roth escreve a frase que talvez seja a coisa mais genial que já li em toda literatura (seria mais chique se eu disse que a frase mais genial que já li fosse de algum autor russo, francês, sei lá, mas não é, é do senhor Philip Roth que fala de morte e sexo e acaso): “He had learned the worst lesson that life can teach – that it makes no sense. And when that happens the happiness is never spontaneous again.”

A vida, meus amigos, não faz sentido. Não há plano, sistema de retribuição, ou forma de melhora-la sendo uma pessoa boa, iluminada e evoluída. A vida é tragédia grega e às vezes lhe cabe um quinhão horroroso, sem que você tenha feito qualquer coisa para merecer isso. Ou, na versão do Woody Allen, lhe cabe a maior sorte do mundo após o assassinato de dois inocentes.

Esses últimos dias, porque a morte do Mandela fez surgir o Coetzee, ando assombrada com Disgrace, um livro que li meses atrás. O livro entrou de tal forma em mim que cheguei a sonhar com ele várias vezes, acho que sonho ainda hoje. Mas fico assombrada com a profunda gratuidade da desgraça ali, com a aleatoriedade, o azar, o acaso, escolha o termo que preferir. O título em português é Desonra, não gosto, é Desgraça mesmo.

Desgraça é o que nos cabe, quase sempre, atribuído por esse conjunto de átomos desgovernados que chamamos de acaso. Gosto muito da palavra Acaso, gosto da entidade Acaso. O Acaso é um deus mais imprevisível, caprichoso e implacável do que qualquer um de qualquer mitologia antiga. Gosto muito dele.

Mas nem sempre se pode conviver com o que se gosta. Eu certamente não conseguiria ver filmes do Haneke ou ler livros do Coetzee todos os dias da minha vida. Então acredito em karma e evito dar respostas mal educadas ao hare krishnas da Flip, vai que volta.

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