Drama Queen

Pequena narrativa de aleatoriedade porteña em partes – II

Parte III – de como nem tudo é drama

Não! \o/ Como eu disse antes não é porque as coisas são incapazes de acontecer normalmente que elas são ruim, eu só não consigo ir a padaria sem dar de cara com o Dudu Bertholini todo montado em sua muito explícita legging dourada, mas que graça teria a vida se eu pudesse comprar pão sem cruzar com um estilista semi-travesti?

Sendo assim, o domingo que nós vamos na feira de San Telmo não é só um domingo normal é o aniversário da feira! E o aniversário da feira é comemorado com pessoas se fantasiando e transformando as próprias barracas em instalações e elas levam muito a sério! Tem sétimo círculo do inferno, tumba do faraó e estação de maquiagem da Greta Garbo! É lindo, é divertido e ver como essas pessoas se importam me fez achar o mundo um lugar mais legal. E tem velhos barrigudos imitando village people.

Parte IV – porque nem tudo é azar, as vezes é só lerdeza mesmo

Um pouco antes de San Telmo nós fomos ao Caminito, eu comprei um anel de prata a Aninha outro e nós estavamos muito orgulhosas de nós mesmas por termos chorado 10 pesos para o moço (eu sou um total e absoluto fracasso para negociar preços, pareço um gatinho abandonado, me sinto culpada e no fim o vendedor me esfola viva, toda vez!). No dia seguinte eu estou no albergue me arrumando em penso em usar o anel, cade? Não esta com as bijuterias, devo ter enfiado na mala. Mais tarde arrumando a mala continuo não achando, o que aconteceu? Eu, logicamente, como é muito óbvio e típico, paguei o anel e deixei na barraca do moço. Um beijo pra mim.

Mas aparentemente eu escolho pessoas que me entendem, ou contagio os outros quem sabe, porque ela esqueceu o cartão de crédito no caixa eletrônico que por ~segurança~ engoliu o cartão. Nós fomos um adorável casal lésbico com eu pagando todas as contas até o fim da viagem.

Próximo capítulo: a maior cota de wtf que duas pessoas podem atrair em 24 horas

(e sim, tudo isso aconteceu e sim, é claro que eu faço drama)

 

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Síndrome de Ofélia

“porque o amor nada tem a ver com a alegria e nada tem a ver com a felicidade”

(Nelson Rodrigues, em “Memórias – A Menina Sem Estrela”)

Eu tenho uma matéria sobre Dostoievski e Nelson Rodrigues esse semestre, o que quer dizer que estou lendo furiosamente os dois desde junho. Pra ser sincera eu peguei Os Irmãos Karamazov no início de julho e só fui terminar no fim de agosto, mas é russo, é trágico e tem 1000 páginas, então é justificável não? E quando acabou fiquei uma semana sentindo falta do Ivan, essa minha alma gêmea literária.

Nelson Rodrigues eu nunca tinha lido já tinha visto infinitas adaptações no cinema e uma montagem de Vestido de Noiva, mas nunca tinha lido nada. Comecei por A Cabra Vadia, que é um livro de crônicas e é engraçado que ao mesmo tempo que tem uma coisa muito dele, muito obsessiva,neurótica, pessimista, trágica, tem umas coisas que você acha que podiam facilmente rodar email de mãe assinadas pelo Arnaldo Jabor, tipo uma crônica que ele manda as mulheres serem interessantes em vez de bonitas (eu discordo veementemente, dava tudo pra não ser inteligente e ser bonita suficiente pra ganhar a vida de stripper ou achar alguém que me sustente sem ter crises “de gênero” com isso)

Mas aí eu me bati com essa frase e é isso, todo o Nelson Rodrigues é isso: as obsessões, as adúlteras, as tragédias, as alunas da puc que tomam grapette de bíquini e são felizes e por isso não sabem amar. Me lembra um parágrafo do Hesse que um amigo citou outro dia em uma conversa sobre coisas do tipo e eu acho que os dois tem muito em comum.

Eu gosto desse senso de trágico, se me deixam eu sou a maior drama queen da existência! Juro que se soubesse que não iam me internar (e que enfim eu ia morrer) eu fazia a Anna Karenina e me jogava nos trilhos da cptm por qualquer cara que não me quisesse (pobres homens da cptm, já iam ter me limpado de lá umas 20 vezes). E nem é que o cara tenha algo tão especial, nem é ele, é só eu e essa minha vontade de tragédia: eu me descabelo, deito no chão do banheiro de casa e choro me retorcendo, bebo até ser impedida e tenho a forte sensação de que vou morrer louca e afogada no lago. Por isso quando o Nelson Rodrigues fala que em cada sobrado da Tijuca mora uma Anna Karenina ele ganhou meu amor eterno (e eu me senti abraçada)

L’enfer c’est les autres

“Meia-noite e todos presentes. Súbito, um dos figurantes começou a chorar. Chorava perdidamente. Perguntaram: – ‘Mas que é isso? Não faça isso.’ E ele, num gemido maior: – “Não aguento mais! Não aguento mais!’. Delirava de cansaço. Com efeito, a exaustão enfurecia e desumanizava as pessoas. Ninguém tinha mais noção da própria identidade. Os artistas passaram a se detestar uns aos outros”

Nelson Rodrigues comentando os preparativos para Vestido de Noiva, ou, porque eu saí do cinema.

Se você quer ser específico a crônica chama “Estréia” (assim, com acento!) e esse trecho está na página 110 de A Cabra Vadia – Novas Confissões, edição da Agir (aquela bonitona que já ta esgotada, mas qualquer sebo tem aos montes)