nostalgia

3650 dias depois

Às vezes eu me pergunto o que eu diria para o meu de 16 anos. Se ela aparecesse na minha frente, cabelo loiro quase na cintura, pontas cor de rosa, maquiagem preta mal feita, segurando o primeiro cigarro de uma vida toda, o que eu diria? Vai tudo melhorar ou piorar?

Eu diria para que ela gastasse dinheiro na manicure, esse esmalte descascado não está ajudando ninguém. Mas a maquiagem fica boa assim, faz seus olhos parecerem maiores. Também diria que conforme os anos passarem ela vai mudar de ideia sobre o que gosta na própria aparência, vai preferir a boca desenhadinha aos olhos claros, vai passar a usar batom vermelho, vai continuar mudando a cor de cabelo. Vai continuar detestando ter esse rosto de boneca. Nos melhores dias ele vai te olhar no espelho e você não vai reconhece-lo, vai acha-lo realmente muito bonito e vai achar um tanto injusto que sejam tão poucos os bons dias e que ele não tenha sido dado a alguém que pode conviver com ele.

Sua melhor foto vai continuar sendo aquela amarelada, rindo enquanto o cabelo enorme caía na cara. Você nunca vai ser tão bonita quanto era para os olhos dele.

Você nunca vai amar da mesma forma, ou experimentar o mesmo tipo de felicidade. E por isso eu não sei o que diria.

Você vai fazer muitas tatuagens, diferentes das que hoje você quer fazer. Algumas você vai fazer em dias que gostaria de ferir a própria pele, mas você vai abandonar esse hábito daqui um ano ou dois. E vai fazer tatuagens para não voltar. Um único dia você vai apagar o cigarro no próprio pulso e sim, é um enorme alívio, mas você parou com isso. Vai se perguntar se algum dia vai ter que parar de beber da mesma forma, mas aos 25 você ainda não parou, ou pensa em parar. Você toma remédios para dormir. Parou de tomar, voltou a tomar, você tem medo deles, acho que sempre vai ter.

Eu só consigo ver olhos verdes arregalados para mim mesma me perguntando “tudo bem, mas melhora ou piora?”

Melhora, eu acho. O tédio passa em parte. Ao menos o tédio cotidiano passa. Seus dias se ocupam, os anos de faculdade você vai ocupar no limite da resistência física porque você vai descobrir logo que o movimento abafa as vozes. Abafa a saudades. Essa não melhora. Você não pode parar. O tédio, o silêncio, as tardes infinitas sozinha e silenciosas te faziam chafurdar na dor e talvez por isso hoje em dia pareça melhor. Há mais sons, mais pessoas, mais movimento. Há algo além de você mesma e seus próprios demônios.

O problema é que eles se acumulam.

O problema é que você nunca mais vai ser feliz como em alguns dias. Você vai perder o suporte, o porto, o colo. Você vai entender o tamanho do seu desamparo e do seu abandono e isso é ao mesmo tempo reconfortante e dolorido. É libertador entender o quanto te machucaram, mas saber a dimensão da ferida não ajuda em nada a começar a fechar.

Eu não sei calcular o balanço. Eu sei que você dói mais do que eu, também sei que em alguns dias é mais feliz. Existirão mais pessoas. Uma quantidade imensa de amor, de gente disposta a pegar chuva e passar frio por você. De certa forma, você vai se tornar aquelas moças que observa hoje sozinha no saguão do cinema. Vai chegar com amigas, conversando sobre um cara, ou outro cara, haverão muitos, consigo visualizar seu sorriso orgulhoso se eu te contar quantos homens já levou pra cama as vésperas dos 26 anos.

Em duas semanas eu faço 26 anos. Às vesperas dos 26 anos eu vou ver o ballet com amigas, janto em restaurantes legais, fofoco sobre pessoas semi-famosas que de vez em quando encontro no bar. Quando voltei para casa eu ri, eu imaginei se a menina de 16 anos achou que chegaria até aqui. Até o ponto de conseguir se cercar de pessoas que gosta, até o ponto de, nos bons dias, conseguir gostar da própria vida.

Talvez eu devesse te dizer que ainda existem dias bons e ruins. Nos dias bons, nos dias em que você não está trancafiada dentro do próprio cérebro, sua vida é o que você, sentada aí roendo as unhas em frente ao computador, sonharia ter. Mas os dias ruins continuam iguaizinhos. Nos dias ruins você se odeia da mesma forma, você se pune da mesma forma. Eu falei que você abandonou o hábito de se machucar, mas acho que isso só quer dizer que ficou mais sofisticada, mais perigosa. Falando nisso, você continua brincando com o fogo. Ou pelo menos continuava uns meses atrás, diz que não faz mais isso , mas ainda tem o telefone dele. Te vejo dando de ombros, mordendo o esmalte escuro, aquela mesma reação irritante que você tem a tudo.

Quando eu cheguei em casa na segunda a noite, eu queria poder dizer a menina de 16 anos que eu fui que tudo melhora. Mas durante todo o fim de semana ela quis me perguntar onde foi parar aquela felicidade toda, vão ser só aqueles dias mesmo?

Sim querida, pelos próximos dez anos aqueles terão sido os dias mais felizes da sua vida. E daqui alguns meses você passará pelos piores. Você nunca mais vai ser tão feliz, também nunca mais vai desejar morrer da mesma forma. Vai doer sim, vai doer muito. Você vai quebrar, vai ficar louca. Vai se jogar no chão chorando e amaldiçoar tudo, sua química cerebral, seus pais, sua cidade, seus avós que não ficaram para morrer na Polônia, o judaísmo, ele. Você vai bater com os punhos na madeira e se perguntar por que, que tipo de universo maldito conjura alguém que possa sofrer assim. Então você se acalma, para de chorar, abraça os joelhos e pensa em fazer uma ligação internacional, lembra que não pode mais. É sozinha agora. Brinca com os aneis na sua mão, lembra que trouxe um deles de uma feira de antiguidades em Havana. Você vai chegar em Havana. E em Sarajevo, Estocolmo, Praga, mil lugares. Você não quer perder Havana. Não quer perder a Islândia, o Vietnã, a Índia, todos os lugares que ainda não foi.

Você vai passar um tempo considerável com um homem com uma vontade de viver incorrigível e vai descobrir que precisava dele. Não sabe se ele percebeu que também precisava da sua falta de medo de morrer.

Dez anos depois tem dias que você apaga o cigarro no próprio pulso, tem dias em que compra flores para si mesma. Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself. Eu queria te dizer que tudo melhora, que a vida melhora, que os demônios aquietam. Seria uma mentira tremenda. Mas você descobre que vale a pena, então talvez sim, melhore sim.

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2+2=5

A gente esquece tanta coisa. Eu lembrava bem de você na bateria, lembrava de você tocando No One Knows enquanto eu tentava aprender o baixo da música; lembrava de Here Today, Gone Tomorrow; lembrava sobretudo de Hurt. Mas não me lembrava, até hoje de manhã, de True Love Waits.

Acho que mal me lembrava de você tocando violão. Lembro, claro, da guitarra, mas não lembrava do violão e, portanto, não me lembrava de True Love Waits. Nem lembrava que você gostava de Radiohead. Honestamente, acho que não gostava, talvez você só gostasse dessa música? Ou tenha aprendido por que eu gostava? Eu sempre adorei essa frase “true love lives on lollipops and crisps”

Eu teria gostado se você tivesse me dito que eu tinha um crazy kitten smile, às vezes eu acho que tenho um sorriso de gatinho maníaco. Pensei em te ligar só para perguntar se um dia você gostou de Radiohead, eu tenho tanta certeza que não. Você estava naquele show, no meio daquela lama, naquele dia? Você estava no mesmo lugar que eu? Às vezes, quase sempre em shows, eu tinha a certeza absoluta de que nós estávamos no mesmo lugar e pensava um pouco em você, mas só de leve, de um jeito meio pálido. Acho triste que a sua lembrança ficou tão no passado, tão soterrada pela dele, até isso ele tirou de você.

Aí um dia você estava. Exatamente no mesmo show que eu, naquela banda que, você disse, é como “NIN meets Belle and Sebastian” e porque era como NIN meets Belle and Sebastian você tinha a certeza mais que absoluta que eu estaria lá. Nesses anos todos eu devo ter te procurado na internet uma ou duas vezes, nem tinha certeza que você continuava em São Paulo. Eu tinha bastante raiva, entenda.

Eu me arrependo um pouco de nós termos tentado de novo. Ia tão obviamente dar errado, sempre foi tão óbvio que nós daríamos errado. Nós poderíamos ter sido amigos, se não tivéssemos tentado de novo, talvez. Eu sinto falta de alguém como você, se eu tivesse uma banda, não a teria com ninguém que não fosse você. Acho que por isso nunca mais vou ter uma banda. Nós poderíamos ter sido amigos.

Eu pensei em te ligar de manhã, só para saber se um dia você gostou de Radiohead. Eu senti falta de quando eu acumulava cds e meu sonho era trabalhar na Rolling Stones e lamentei nunca ter sido sua amiga. Mas talvez tenha sido bom tentar de novo, porque eu já não tenho raiva, sabe? E sua lembrança já não está soterrada na dele. Eu lembro de você. Um pouco com carinho, como o cara que apareceu na minha casa à uma e meia da manhã depois do show do Foo Fighters e também como o cara que foi embora porque eu era boa demais em ir embora. Eu te ouvi, de verdade, eu aprendi que preciso de alguém que goste tanto quanto eu de ir embora. E que às vezes eu preciso mentir, que se eu tivesse mentido para você, você não teria ido embora. Ironicamente, você foi dizendo que eu mentia bem demais.

Mas foi bom. Foi bom porque eu já não precisava ter raiva, porque eu já não tinha 15 anos e já não precisava ter raiva. Eu posso só lamentar que nós tentamos de novo, e nunca tivemos a chance de ser amigos.

Acho, tenho certeza, que você nunca gostou de Radiohead. Mas a música que mais me lembra você é High and Dry, sempre foi.

Go with the flow

Faz quase um mês que eu deveria ter escrito esse post. Ao menos, faz quase um mês que ele existe na minha cabeça. Mas talvez toda essa demora, o fato de que um mês depois ele continue existindo em mim mais ou menos da mesma maneira seja evidência do que quero dizer com ele.

Há coisas que nos fazem. Coisas que tornam a gente quem a gente é. Eu sempre fui um pouco fascinada, e bastante assombrada, pela ideia de que eu poderia ser completamente outra pessoa se algumas coisas tivessem acontecido diferentes. Eu pulei um ano na escola, poderia ter decidido não pular, aquela menina que foi minha melhor amiga poderia ter entrado em outra escola, eu poderia não ter passado um verão inteiro com gesso no braço, meus pais poderiam ter trepado em um outro dia, meus avós poderiam não ter conseguido sair da Polônia.

Mas há outro tipo de coisa. Aquelas que de alguma forma nós somos capazes de reconhecer como blocos, tijolos de quem somos. Eu consigo apontar algumas pessoas, uma pessoa em especial, que eu sei dizer o quanto me fez, o quando ainda corre nas minhas veias e o quanto por mais que eu tenha deixado para trás eu nunca deixei.

E quase um mês atrás, no meio do show do Queens of the Stone Age eu tive a sensação das coisas quem me fizeram quem eu sou. No meio de três dias em que eu usei vestidinhos estampados de coração com all star sujo de lama, aliás, no meio de três dias em que o que eu mais fiz foi enfiar o pé na lama eu quis voltar 8, 9, 10 anos e contar para o eu do passado que um dia ela estaria exatamente onde queria estar.

No One Knows foi a primeira música que eu aprendi a tocar no baixo. Baixo que eu escolhi porque era preciso ser hipster antes do termo até na escolha de instrumento. Foi a música que eu vi alguém tocar na bateria enquanto eu deitava em um sofá que eu não deveria deitar e perdia os tênis entre as coisas de uma outra menina. E perder os tênis entre as coisas de outra menina, não poder ser a menina que deixa as coisas ao lado da bateria, também me fez quem eu sou.

Há coisas que se pode perder. E eu fiz um longo e dolorido experimento de descobrir, do pior jeito possível, tudo aquilo que eu não posso perder, porque são parte da estrutura, dos ossos, do esqueleto de quem eu sou. A música, algumas músicas, são parte disso.

A música que me lembra que um dia eu pintei o cabelo de rosa na pia e quis mudar o mundo. E eu falo tanto nisso, tanto nessa menina que eu fui porque ela me assombra ainda hoje, porque ela vive como a pior juíza das escolhas que eu faço quanto adulta. Porque ela é parte do que me faz quem eu sou.

Parece irônico que hoje eu me sinta em paz com minhas escolhas sabendo que uma menina de 16 anos de cabelos rosa e unhas pretas aprovaria. Mas ela sabia, ela sabia de tudo que eu ia ter que aprender a lidar porque não queria abandonar, porque ela não queria, não quer morrer.

Há coisas que nos fazem quem somos. Enfiar o pé na lama enquanto uma banda me lembra da pequena tormenta que eu sempre fui certamente é uma delas.

Anytime you became the girl that you wanted to be
Oh I told you all along there was no point looking to me