Egotrip

Em 2014, eu perdi muitas coisas. Não foi um ano ruim. De modo algum. Foi um ano incrível, mas justamente porque eu perdi muita coisa.

Em 2014, eu fui um pouco como Jó: eu perdi tudo para perder a arrogância de que mereço algo, de que qualquer coisa nessa vida é dada por lógica, merecimento, mesmo bondade. Eu perdi tudo para poder aprender a forma certa de lidar com a vida.

Que é uma certa temencia, um certo medo. A consciência constante de que ela pode te tirar tudo, assim, do nada. A gente deveria lidar com os ganhos e as perdas da vida como se lida com o mar, com energia atômica, com feras selvagens. Algo impossível de se controlar, uma força desconhecida, perigosa, algo a se tratar com cautela e respeito, sabendo que você nada pode fazer se a maré decidir te varrer.

Talvez seja curioso me ver dizendo que no ano passado eu perdi muita coisa. Afinal, eu passei quase três meses pelo mundo afora, eu defendi um mestrado, eu consegui empregos. Mas tudo isso, mesmo nos momentos mais felizes, tinha um gosto de perda, me dava a sensação que tudo me escapava que nada daquilo era meu de fato.

Pode ser porque antes de tudo isso eu perdi a mim mesma. 2014 foi um eterno esforço de me segurar nas últimas franjas de mim que restavam, no último ponto que poderia me manter sendo eu.

Antes mesmo do ano começar, eu perdi alguém. Ele me deixou sem cerimônias, sem grandes adeus, sem lágrimas. Só foi. E é engraçado como nós só percebemos o espaço que alguém ocupa quando isso se torna um buraco. Eu não sabia quão grande seria o buraco até a hora que ele estava lá. Eu achei que poderia levar facilmente, chorar por algumas semanas e seguir em frente, ninguém morre porque um relacionamento acabou. Até a hora que eu me vi naquele vazio.

O problema não é só alguém que foi embora e a falta que ele faz. O problema é que você é jogado em um vazio imenso, em uma escuridão sem fim. Ser deixada daquela forma abriu um buraco que me acusava o tempo todo de não ser amável, nem um pouco. Deixou o buraco de que mesmo depois de meses perto de mim, não havia nada ali que ele pudesse gostar.

E a primeira coisa que eu perdi, foi a sensação de que qualquer um poderia querer estar perto de mim.

Acontece que essa sensação não fica restrita ao pequeno âmbito amoroso. Ele se espalha e vai devagarzinho te fazendo perder todo mundo. Porque não importa que eles ainda estejam ali, você não consegue mais sentir essa presença. Perder a si mesma é em grande parte perder a capacidade de perceber o mundo objetivamente. Não importa que as pessoas ainda estivessem ali, eu as havia perdido.

E ir embora foi uma grande tentativa de retomá-las. Enquanto eu estava longe, eu perdi aniversários, formaturas, defesas e eu lamentei cada um desses momentos. As pessoas às vezes pensam que te importa uma festinha de aniversário quando você está em Viena? Mas importa, importa muito. Porque a vida não é feita de viagens a Viena, ela é feita de festinhas de aniversário. Mas eu tinha perdido a capacidade de estar naqueles lugares e eu precisei intensificar a ausência, perde-los concretamente, para poder retomar.

Outra coisa que ninguém nunca me disse é que defender o mestrado seria, de alguma maneira, uma perda. Eu não escolhi meu tema por acaso, eu não escolhi meu autor friamente. Eu era apaixonada por ele. Eu sou ainda, mas de outra maneira. Por três anos minha pesquisa foi a paixão da minha vida, nada me trazia mais felicidade e beleza do que assistir aqueles filmes, destrinchar aquele universo. E aquilo acabou. Naturalmente. Como um casamento que chega ao seu fim natural, porque as pessoas cresceram em direções diferentes e ainda seguem amigas, se amando de outra forma. Eu sabia que era hora, aqueles filmes haviam me dado tudo que poderiam me dar. Mas doeu mesmo assim.

No dia que eu defendi, eu lotei um bar ao ar livre em uma noite de frio e chuva. Eu não recebi uma única crítica ao que eu tinha feito, apenas elogios. E ainda assim, eu me sentia estranhamente melancólica. Porque eu estava me despedindo de algo muito querido. E porque eu não conseguia trazer para mim todas aquelas pessoas queridas.

Esse ano foi muito menos cheio de eventos grandiosos até agora. E ao mesmo tempo, eu não fiz nada além de ganhar. E é estranho a sensação de calma, mas uma calma cheia, agradável, como o ar parado, mas fresco de tardes de outono.

Primeiro, eu ganhei alguém. O tipo de alguém capaz de me fazer sair de pânicos, o tipo de presença insistente e constante que evita que você se sinta sozinha. Em seguida, eu perdi um emprego que curiosamente me devolveu à carreira que eu quero, que me fez ganhar de volta a certeza do que eu deveria fazer.

E sistematicamente, mas sem alarde, eu fui ganhando. Um apartamento novo que finalmente me fez sentir em casa. Amigas novas. Questões novas para as quais eu quero respostas, apaixonadamente mais uma vez.

É engraçado notar o quanto as tragédias vem sempre em grandes entradas. Elas se anunciam e destroem tudo, epicamente. E se você quer sobreviver não resta nenhuma escolha a não ser tornar os altos tão altos quanto foram os baixos. Mas esse tipo de ganho é como aquele choque de adrenalina, como a primeira sensação de uma droga no seu corpo. É bom, mas não se durar por mais que alguns segundos.

Eu não estou acostumada a ganhar. Eu não estou acostumada a confiar que as coisas que vêm com calma muitas vezes permanecem. Então eu me pego aqui, observando tudo, com medo de que um movimento brusco vá mudar a corrente do vento e me tirar tudo de novo. Eu toco nas coisas que ganho como se fossem animais raros e fugidios e eu me recuso a acreditar que possa ganhar ainda alguma coisa. A estabilidade é tão estranha a mim quanto palavras sérvias e eu me vejo um pouco aflita, sem saber onde guardar as coisas.

Por outro lado, eu sei que eu vou perder tudo de novo, eventualmente. Talvez por isso eu relute tanto em aprender a ganhar.

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Bomba relógio

Eu gostaria de confiar em você. Eu gostaria de conseguir ficar ali, com a cabeça no seu colo, quieta, feliz. Um pouco feliz pelo menos. Mas eu não consigo. Eu não sei. Eu nunca aprendi.

Você me diz que, enquanto estiver aqui, eu não preciso fazer sozinha nada que não queira. Mas você não sabe. Você não tem ideia da minha solidão, de como ela escorre pelas rachaduras, de como ela se emaranhou no meu cabelo, de como ela é tudo que eu já conheci. Você não tem ideia da minha dor e você não sabe o que está oferecendo, você não sabe onde está entrando.

E eu não acredito.

Na impossibilidade da felicidade, eu tento um substituto: leveza. Eu aceito a declaração com um sorriso, mesmo que eu não acredite. Eu me deixo pegar no sono com seus dedos traçando as sardas das minhas costas. Mas eu não acredito.

Eu poderia adormecer do mesmo jeito se você seguisse as cicatrizes nos meus tornozelos? Por quanto tempo você pode fingir que não viu? Quanto tempo até reparar que eu não durmo durante a noite? Quanto tempo até ver minhas mãos tremerem? Até sentir meus cabelos caindo nas suas mãos? Quanto tempo até eu gritar, enlouquecer, transformar sua vida em um inferno? Quanto tempo até você ver nos meus olhos tudo, menos o que te fez ficar?

Mas eu tento não pensar.

Você me diz que foram meus olhos. A transparência deles, mais que a cor. Eu lembro bem como te olhei a primeira vez, como eu percebi em um milésimo de segundo que eu precisava de menos do que um sorriso para te ter. De como eu me senti quase como um gato brincando com uma presa que não pretende comer. No máximo oferecer de presente para o dono.

Mas eu sou menos horrível do que gosto de crer. Menos horrível do que te disseram. Eu nunca tive medo do que aconteceria se eu seguisse brincando, se eu não ficasse. Meu medo sempre foi outro. E se eu realmente entrasse na sua vida, toda a escuridão, toda a dor, toda a corrupção que eu traria? Eu não quero te dar nada disso.

Então eu tento evitar.

Leveza.

Eu estou bem agora, então você não precisa de nada disso. Eu não preciso de nada disso. Não agora. Não por enquanto. Eu não preciso fazer sozinha nada que não queira, mas você não sabe as coisas que `as vezes eu quero fazer. Mas não agora.

Eu me sinto como alguém que foi espancada por gangsters russos drogados de cocaína e sobreviveu. Eu sobrevivi e o que quer que tenha me levado a isso não está mais aqui. Mas meu corpo sente as marcas. Eu ainda estou coberta de manchas roxas e cicatrizes e elas doem quando tocadas. Meu corpo, já pequeno, com frequência se encolhe na esperança de ocupar ainda menos lugar no espaço, de desaparecer, de não precisar passar tanto tempo olhando essas feridas, esperando que elas sumam, sabendo que se tornarão cicatrizes. Maiores e mais visíveis que as linhas finas que eu tenho nos tornozelos.

De tudo, eu odeio a autopiedade. Eu odeio quando de repente, sem motivo, eu lembro. Eu odeio quando acho que o vejo numa esquina. Ou quando de onde eu vim segue sendo de onde eu vim. E eu lembro. E de repente eu me sinto no direito de toda a dor, todo o fracasso. Você não sabe o quanto eu me sinto no direito de desistir. Mas eu não quero.

Não hoje. Não ainda.

Não ainda.

Eu queria confiar em você, mas eu não posso. Eu queria fazer planos, mas eu não sei. Eu queria poder prometer tudo que se promete nessas horas. Mas não eu. Eu não consigo.

Por enquanto eu gosto de achar que você pode ficar sem promessas. Eu sei que não pode, não por muito tempo. Mas eu tento não me importar. Leveza no lugar de felicidade. Tentar não me importar com tudo que não pode ser, pelo menos por enquanto, por agora.

 

Memento mori

Eu sempre tive medo de envelhecer, medo do tempo que passa e medo, principalmente, de não ter tempo de fazer tudo que a minha pressa desenfreada deseja.

Eu me lembro bem de ter 11 anos e estar deitada na minha cama, encarando aquelas estrelinhas que brilham no escuro e tendo todo um memento mori estilo Jane Eyre no quarto vermelho porque afinal, estava logo ali o primeiro ritual que me tornaria velha.

Eu me apavorei aos 11, aos 16, aos 20, aos 26. Eu torço as mãos e viro noites e me angustio porque está tudo tão fora do lugar, eu estou tão fora do caminho e o tempo, ele passa tão cruel.

Eu tenho medo dele. Eu tenho medo de tudo que eu não vou ter feito aos 30 anos, eu tenho medo de cada desvio como se houvesse algo a ganhar nessa correria e não há, não há lugar nenhum para chegar e esse pavor me surpreende quando eu penso que tudo tem ficado solidamente melhor a cada ano que passa.

Nesses últimos quatro anos, eu reconstruí a minha vida. Esse ano tira um peso de mim porque fará mais tempo que estou sem ele do que estive com, porque finalmente isso pode parecer distante, esquecido.

A segunda metade dos meus vinte anos tem sido consideravelmente melhor que a primeira. Quando eu o deixei tudo era deserto, estéril, vazio. Quando eu fui embora, eu não tinha ninguém para andar comigo. Nos últimos anos, eu tinha cortado todas as cordas, fechado todas as portas, testado até o limite o amor de quem disse que estaria comigo até nas portas do inferno. Então eu comecei de novo.

Nesse processo eu saí do caminho várias vezes. Eu me perdi, eu quis morrer, eu me arrastei por dias fantasmagóricos. Eu abandonei sonhos, eu passei meses sem escrever uma linha. Eu achei que nunca ia sair daqui. Eu me perguntei todos os dias onde eu estava, o que eu estava fazendo, quem eu queria ser.

Quatro anos depois, eu encontrei respostas. Quatro anos depois, fugir deixou de ser tão importante. Em algum momento, sem nem perceber, eu decidi que só iria quando tivesse porque voltar.

Eu sou, talvez, uma das pessoas mais ambiciosas que andou por essa terra. Eu quero todas as coisas e eu as quero grandes, intensas, enormes. Eu quero tanto que eu me paraliso. Eu sonho tão longe que desisto antes pela impossibilidade de chegar lá. E eu passo um tempo enorme amargurada por tudo que não fiz.

Mas eu fiz sim. Eu fiz uma vida toda. Eu fiz gente demais para caber em um apartamento, ou melhor, gente que topa tentar se enfiar em um apartamento.

Eu perdi tudo e eu ganhei tudo e a primeira coisa que me pego pensando sobre ficar velha é toda essa bagagem acumulada, é toda essa bagagem, minha e do outro, que precisa ser coordenada.

Quanto mais eu trago comigo, quanto mais vezes eu vi relacionamentos acabarem, quanto mais vezes eu fui ferida, abandonada, traída, mais insustentável fica começar de novo? É possível que todas as pessoas que eu deixei entrar tenham me feito trancar a porta?

Ou quanto do que ele já viveu o torna arisco a mim? Quanto do passado o faz perceber que ele até poderia lidar com o que eu trago, mas não quer?

Tenho achado curioso esse momento, como se tivesse cruzado uma espécie de ponto de virada em que tudo é recomeço, todo relacionamento já foi feito antes, por mim e por ele. É como ganhar uma segunda chance e, ao mesmo tempo, sentir despencar na cabeça  a bigorna da condição humana e a certeza de repetir os mesmos erros até o fim.

Há muita coisa atrás de mim agora, há vidas inteiras. Já é tão complicado, tão impossível, coordenar apenas duas vidas, que dirá todas as outras que vem encaixotadas? E o medo?

Meu medo é como a fotografia esmaecida que não se joga fora, como o rastro de perfume de alguém que acabou de deixar o quarto. Como lençois amassados e cheiro de cigarro no dia seguinte. Pessoas foram embora, histórias acabaram, coisas sem fim terminaram, mas o medo fica, a lembrança irracional, do toque, da dor, da loucura, fica.

E vai ficando insustentável. Onde guardo tanto acúmulo? Eu sei que essa foi só a primeira vez que eu perdi tudo, outras virão e outros virão e onde eu coloco cada um deles? Com que coragem eu mostro tudo isso? Como posso realmente pedir para que alguém fique quando eu sei muito bem o que estou trazendo, quando eu sei que é algo que ninguém deveria querer?

Quão irônico é que quanto melhor tudo fica, mais medo eu tenho o tempo todo?

Sangue na parede

Quando eu cheguei nesse apartamento, eu não tinha nada. Eu tinha caixas de livros e malas de roupa, mas eu não tinha sequer a coragem de dizer para ele que não, ele não ia colocar minhas prateleiras, não ia ter uma chave, não ia voltar lá nunca mais. Eu não tinha sequer a coragem de pedir que ele saísse da minha vida.

Eu cheguei nesse apartamento depois de dois anos morando com um homem. Depois de dois anos em que qualquer sugestão de um quadro na parede era chamada de “expressão da minha futilidade burguesa” ou qualquer coisa parecida. Depois de dois anos em um apartamento que não era meu, da mesma forma que minha vida não era minha.

Eu cheguei aqui praticamente sem amigos, levando um mestrado com o fio de energia que me restava, sem escrever há meses, sem ler um livro direito eu já nem sabia há quanto tempo. Na minha primeira noite sozinha nesse lugar, eu sentei no chão, abracei meus joelhos e encarei minha gata. Ela ainda era minha, ela, eu tivera coragem de dizer que seria só minha. Minha gata, em uma coincidência estranha do mundo, tem os olhos exatamente da mesma cor que os meus. Eu fiquei uns minutos muito longos encarando os olhos dela, que são iguais aos meus, e respirando devagar o ar que já não estava tão envenenado dele.

Eu sempre tive essa mania de transformar lugares internos em externos. Eu estabeleço esses paralelos e esses reflexos entre onde estou e como estou. Ano passado, quando o que eu sentia era insustentável, eu fui embora. Eu saí daqui como se isso pudesse significar sair de mim mesma. O clichê diria que isso é inútil, que você leva a você mesma onde quer que vá, mas eu discordo. Lá fora, eu realmente saí de mim mesma e pude rearrumar as coisas o suficiente pra poder voltar.

Esse ano, depois de meses em que eu dormia razoavelmente bem, não bebia mais todos os dias e não apagava mais cigarros na minha própria pele, eu percebi que precisava sair daqui. Que dessa vez, quem tinha envenenado o ar era eu mesma, quem tinha manchado as paredes de sangue e vísceras era eu mesma. Que o ar aqui dentro era viciado da minha própria dor e da minha loucura e cada pedaço desse chão estaria pronto para me assombrar. Por meses, esse apartamento foi meu próprio inferno particular. Foi aqui que eu me entrincherei quando já não podia aguentar o mundo e gradualmente eu fui deixando que as portas se abrissem e o fogo, a agonia, a loucura, consumissem cada centímetro de parede, impregnassem em cada estofamento de sofá.

Então, eu precisava embora. Mas enquanto eu lacro caixas e embrulho quadros, a minha sensação é radicalmente diferente da última vez que eu fiz isso. Agora, eu tenho tudo. Ou pelo menos, eu tenho a mim.

Esse apartamento foi o primeiro espaço meu. O primeiro lugar em que minhas decisões, e apenas elas, passaram a contar. Eu chorei nesse chão mil vezes por escolhas que eu tinha feito, eu trouxe dezenas de homens pra essa cama porque eu os queria, eu enchi as estantes com os meus livros, os armários com os meus chás, as paredes com os meus quadros. Eu deixei meus sapatos espalhados e meus batons no porta lápis da escrivaninha. Eu escrevi um mestrado aqui. Eu dei incontáveis festas. Eu virei quem eu sou, enquanto morava nesse apartamento.

E eu mesma causei a hora de ir embora.

Não me escapa a minha capacidade de envenenar as coisas, o meu papel como alguém que vai sempre trazer junto uma partícula de desastre, de corrupção, de fim do que parecia funcionar tão bem. Eu tenho batido meu pé e argumentado que não, eu não vou estragar a vida de ninguém dessa vez, que eu estou calma, eu estou quieta, que eu estou tão pronta quanto jamais poderia para sossegar o rabo em algo confortável. Mas a verdade é que eu vou, por mais que eu não queira.

Eu vou porque comigo vem uma quantidade de dor e falta de sentido, uma falta de ordem das coisas como se espera que elas sejam. Porque vem comigo, sempre, uma consciência de quanto tudo pode ser tão cruel e difícil e dolorido para quem talvez não saiba disso. Eu posso ser a pessoa mais doce que possível, eu posso amar alguém, um lugar, o que quer que seja. No final, eu sempre vou embora deixando o ar intoxicado e as paredes recobertas dos pedaços de mim mesma que eu nunca paro de arrancar.

A verdade é sempre mais interessante

Em Birdman, a Emma Stone é o personagem clichê que mais tenho no meu coração. Loira, enormes olhos verdes arregalados, tatuagens, um guarda roupa de peças pretas e botinhas de tachas e um problema com drogas e álcool.

Alegar qualquer senso de identificação no meu carinho é sem dúvida mentiroso. Óbvio. Claro.

Emma Stone pendura as pernas para a fora do terraço não porque pretenda pular, mas pela adrenalina. Eu gosto de uma frase em inglês que nunca consigo traduzir com exatidão: “for the rush”. O que eu acho engraçado é que o filme de alguma forma tenta escapar ao clichê da garota problemática caindo no próximo clichê da garota problemática: ela não é vazia, ela é tão repleta de coisas que precisa do vazio como defesa.

Em dado momento, o personagem do Edward Norton (que ela irá, óbvio, seduzir) diz algo como ela ser uma bagunça tão grande, tão incapaz de lidar com ela mesma ou fazer com que as coisas funcionem um mínimo que ela é como uma vela queimando nos dois lados. Mas que isso é algo lindo de assistir.

Um dia desses, alguém me disse: “ele tem obviamente medo de até onde você pode levá-lo”. Não era uma mentira, acho. Talvez seja algo de profundamente verdadeiro. Mas é uma afirmação que eu não posso processar, porque eu não tenho ideia de até onde poderia levar alguém, porque eu não tenho ideia de até onde poderia ir. Porque eu tenho um medo desgraçado de mim mesma.

Eu já estive diante de alguém que dizia que estava me deixando porque era incapaz de lidar com a incerteza, a inconstância, o furacão constante de coisas e a minha necessidade indomável da adrenalina. Do novo. Ele ficaria velho eventualmente. Toda a paixão louca que eu sentia ficaria velha. O sexo ficaria velho. E eu ia acabar deixando-o ou tentando me equilibrar entre amor e um mundo lá fora e ele não sabia lidar com isso, por mais ridiculamente hipócrita que essa afirmação fosse.

Muitas vezes eu sinto que foram essas as palavras tatuadas nas minhas costas. Ou embaixo da minha pele. Na minha carne, meu sangue, meus ossos.

Já me disseram que eu faço um tipo da minha dor. Que eu era encantada comigo mesma e a imagem que eu vejo de mim. Eu concordei silenciosamente nos dois casos. O que eu mais gosto nesses diálogos entre a Emma Stone e o Edward Norton em Birdman é que ele percebe cada centímetro do show, cada milímetro de falsidade e ao mesmo tempo a sinceridade profunda e a necessidade vital de tudo aquilo.

“Você quer se tornar invisível”, ele diz, “mas você não consegue”. Eu não sei se eu já tentei ser invisível, mas eu tento, com frequência, vestir a verdade de drag queen. Vesti-la em uma aparência tão falsa e extravagante que você não pode fazer nada além de olhar para ela e perder, ou esquecer,  o que é perfeitamente visível por trás dos quilos de cílios postiços.

Alguns dias, quando eu penteio meu cabelo, arrumo o batom e calço botas com minissaia para ir trabalhar, eu rio sozinha do cuidado da minha imagem. Da tentativa estúpida de seduzir todo mundo para que o encantamento esconda a parte de trás , ao mesmo tempo que me permite comprar esse encantamento como afeto real, proximidade. Eu posso ser gostavel, essa não sou eu tanto quanto todo o resto? Ou se eu anunciar o quanto sou detestável ao mesmo tempo que não sou, minha consciência fica mais em paz?

Tem um mundo inteiro dentro de mim que pode me levar a distâncias inimáginaveis. Um mundo do qual eu morro de medo. Porque é uma vela que queima nas duas pontas e é muito difícil, cada vez mais difícil, me equilibrar na parte que sobra. Se eu perder o medo tudo queima mais rápido? Se eu perder o medo, eu espalho essa fumaça tóxica para a vida dos outros?

Eu não gosto do medo. Eu não gosto das distâncias enormes que eu percorro justamente para não percorrer distância nenhuma.

Eu não gosto do dia em que eu bebi até você precisar me carregar para sua casa porque isso evitava meu choro. Evitava o abandono nos meus olhos e evitava que eu suavemente me encostasse em você e dissesse que eu sentiria sua falta, que eu estava completamente vulnerável e que nos próximos meses eu perderia completamente a cabeça por sua causa.

Ela me diz que você tem medo de até onde eu posso te levar. Minha vontade é gritar que eu mesma tenho esse medo e que, portanto, não é justo que você também o tenha. Que eu não quero ser nada de especial, que eu não quero o talento, ou a escrita, ou essa entrega absurda as coisas, eu não quero mais a ironia ou o sorriso que eu sei que tenho quando algo faz surgir aquela corrente de eletricidade pelo meu corpo. Eu não queria nada disso se o preço é tanto medo, se o preço é a distância constante minha e dos outros.

Álcool te afasta da realidade. Drogas te afastam da realidade. Horas insones são uma espécie de realidade alternativa. E a máscara de indiferença, a resposta arisca, a ironia que defende e a defesa mais irônica ainda de vestir a capa da garota problema para evitar que percebam que você realmente tem problemas.

Mas ano que vem eu não morro

Existem anos épicos na vida. Anos que, se um gráfico de intensidade fosse feito, extrapolariam qualquer medida e seriam aquele cume muito bem delineado, o everest da história dos anos. 2014 foi esse ano para mim.

Eu sei que tenho dezembro quase todo. Sei que é cedo para esses posts clichês de balanço. Mas foi tanta coisa que eu não posso mais com esse ano e tudo que me sobra é puxar o freio um pouco antes, entender que para mim ele já acabou.

2014 foi o ano que começou com alguém dizendo “eu queria uma taça de espumante” e uma taça de espumante magicamente sendo posta na mão dela. Foi o ano dos desejos realizados. Nas primeiras horas de 2014 eu estava no topo de um cortiço/mansão em Havana, vendo a cidade toda lá do alto, completamente bêbada e pensando que eu não tinha a menor ideia de como tinha ido parar lá. Não naquela noite, embora isso também. Mas na vida. A minha vida, de alguma forma, tinha me levado a ser a pessoa no topo de um cortiço/mansão decadente cubano e seja lá como isso tivesse acontecido, eu estava satisfeita.

A primeira lição desse ano foi: eu não sei bem como cheguei aqui, mas eu cheguei em algum lugar e eu gosto dele.

Uma das primeiras coisas que fiz em 2014 foi ser roubada em um país socialista e participar de uma reconstituição criminal. É bastante coisa que um ano que já começou assim tenha só sido ainda mais aleatório ao longo dos outros doze meses.

Em 2014, eu: defendi um mestrado, visitei 14 países, perdi meu passaporte, cruzei a fronteira entre a Sérvia e a Bósnia e sobrevivi, me engracei com um bósnio, um austríaco, um australiano, um mexicano, um luxemburguês e um americano. Eu visitei o túmulo do Bergman. Eu vi a ponte de Praga iluminada sob a chuva e eu me apaixonei quase a primeira vista. Eu tive três empregos. Eu comecei um vlog. Eu decidi entrar no doutorado. Eu me joguei de um penhasco. Eu quase fiquei louca.

Não é um exagero, não é uma figura de linguagem. A dor que eu vinha guardando em mim por 25 anos de repente estourou, me sufocou, envenenou todo meu sangue, minha fala, minha pele. Minhas mãos começaram a tremer sem parar. Eu passei 56 horas sem dormir. Meu cabelo começou a cair. Eu deixei de comer. Eu quis, de verdade, morrer.

E então um dia eu entrei pela sala do meu analista e anunciei que ia embora, que eu ia embora senão ia morrer. Que eu não queria ficar ali para ouvir os diagnósticos dele, que eu queria ir embora. E chorei sem parar por quase uma hora. Ele assentiu com a cabeça, me deu três meses de receitas e me deixou ir embora.

E eu fui. Sozinha. Sozinha com toda a dor e a loucura e o medo que tinha em mim. Foi uma aposta alta. Uma aposta que eu não tinha a menor certeza.

Mas eu voltei. A minha dor voltou comigo. Mas a minha loucura não.

Em algum ponto entre o sul da França e a Escandinávia eu achei meu centro. Eu descobri quem eu queria ser. Eu lembrei das luzes de Havana se espalhando lá embaixo e me lembrei que eu ainda não tinha ido a Índia. Eu não poderia morrer antes de ir pra Índia.

Quando eu voltei eu decidi que metade das minhas roupas eu já não queria, eu cortei o café, eu voltei a dançar, eu mandei consertar minha bicicleta. Eu desenhei na minha pele a lembrança de que eu preciso ficar. E eu lembrei da sensação do lugar onde eu queria estar.

2015 eu começo em casa. Com as pessoas que são minha casa. Com meus pés na areia e todo amor do mundo. Eu quero, embora não saiba se consigo, colocar pontos finais em histórias que eu já não posso mais carregar comigo. O começo de 2015 não me promete o melhor dos mundos, daqui, ele é o ano que já começa com meu coração partido. Mas agora eu acho que tudo entrou no lugar suficiente para que ele não carregue todo o resto de mim junto. Para que ele não rache as estruturas.

Eu não sei disso, eu só acho.

Eu quero viajar de novo. Eu quero ir a Ásia. Eu quero entrar no doutorado. Eu quero escrever um livro. Eu quero o mundo.

Mas mesmo que eu consiga tudo que eu quero, nunca seria um ano como foi esse. 2014 foi meu melhor ano. Porque eu quis morrer, mas não morri. Porque se eu chegar a todas as vinte milhões de coisas que eu ainda quero é porque, nesse ano, eu não morri.

Passados três meses eu não fui buscar outra receita. Eu voltei a dormir. Eu voltei a comer. Meu cabelo cresceu e eu não quero cortá-lo até o limite do socialmente aceitável. Eu entendi a dimensão do inferno dentro de mim, mas eu desisti de tentar mantê-lo a portas trancadas. Eu estou aprendendo a conviver com meus demônios, fazer amizade com eles,  quem sabe jogar umas partidas de xadrez.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Para olhar minhas cicatrizes

Quando você chega em um estúdio para uma tatuagem é, invariavelmente, apresentado a uma ficha de cadastro. Seu nome, rg, endereço. Você tem mais de 18 anos? sim; É diabética? Não; Tabagista? sim; Alcoolatra? hum… não; Tem problemas de coagulação? não; Toma algum medicamento? Anticoncepcional, glifage, frontal eventualmente, quando não consigo dormir, o que é meio que sempre. Segue-se um pequeno parágrafo explicando que as agulhas são esterilizadas, o estabelecimento obedece a normas de segurança e higiene e o tatuador te orientará quanto aos cuidados necessários. Caso você faça algo diferente do que foi orientado, a consequência é por sua própria e risco e então você assina.

O que eles realmente deveriam perguntar é: “você está pronto para que a partir desse momento sua pele passe a ser vista como propriedade pública?”

Eu sou mulher e, portanto, estou bastante acostumada com meu corpo ser item público. Já fui chamada infinitas vezes de gorda, gostosa, baranga, linda, convidada a chupar todinho o cara da esquina. Vou para o ballet de bicicleta duas vezes na semana e já perdi a conta dos comentários envolvendo selim ouvidos enquanto subo a Augusta. Esses anos todos tratada como uma pessoa que não tem direito a recusar o toque ou observação do próprio corpo deveriam ter me preparado para a violência de absolutos desconhecidos pegando em mim em uma fila do aeroporto e perguntando “o que sua tatuagem significa?”, mas não prepararam.

E absoluto desconhecido na fila do aeroporto não foi um exagero. Uma vez eu estava na fila do check-in da Gol, quando um homem de terno tocou no meu ombro, leu a frase estampada nas minhas costas e me perguntou o que ela significava. Em um misto de atordoamento e ultraje eu respondi como quem acorda de um sonho “eu não te conheço” e voltei a me focar no celular. Parece estúpido, parece bobo, por que raios eu não quero explicar para ele o que está escrito nas minhas costas? Mas a verdade é que eu me senti invadida com violência.

Eu tenho seis tatuagens. Duas delas são grandes e coloridas, outra cruza toda a parte de cima das minhas costas. Todas elas tem uma explicação razoavelmente simples: é uma boneca russa, é o mundo, é um verso da Sylvia Plath. Eu não sou daquelas que acha que toda tatuagem tem que ter um significado complexo e uma história sentimental a la Miami Ink, ela pode simplesmente ser algo bonito. O gato no meu pulso é só um gato. Acontece da matryoska no meu braço ser só uma matryoska e ser também uma lembrança de Dostoievski e Tarkovsky e uma parte da minha identidade de certa forma perdida na diáspora judaica. Mas eu não acho que ninguém tem nada a ver com o fato de que eu tenha problemas com minha identificação nacional. Muito menos o ser humano que nunca vi mais gordo em uma fila de ponte aérea no aeroporto de Congonhas.

O mais curioso é que o homem que encontrei quando desci do avião, e que tinha autorização para tirar minha roupa e tocar minhas tatuagens e perguntar sobre elas, nunca o fez. Nenhum homem com quem eu transei nunca perguntou a respeito das minhas tatuagens. E eu teria respondido. Provavelmente, se eu te dei a intimidade para entrar no meu quarto e me ver nua, eu responderei sobre qualquer tatuagem e qualquer cicatriz. Elas são parte daquele contexto, elas são parte de mim e da minha pele e eu gosto particularmente quando alguém beija minhas costas e eu sei que foi por cima do verso inscrito, mesmo que sensorialmente isso não faça diferença nenhuma. Mas todos eles assumiram que minhas marcas eram minhas marcas. Recentemente eu contei espontaneamente, quando já estava quase pegando no sono e após uma longa conversa sobre Sylvia Plath, que aquilo nas minhas costas era um verso de Lady Lazarus. Ele nunca tinha perguntado, embora tivesse olhado para essas palavras por um tempo relativamente longo.

Parece, porque eu escrevo um blog desses, que estou sempre muito disposta a contar a história da minha vida e toda e qualquer mazela para qualquer um que pergunte. É uma tremenda mentira. Pode soar irônico, mas eu sou uma pessoa extremamente reservada e que guarda coisas por muito tempo mesmo da minha melhor amiga. Esse blog é uma exibição nos meus termos, do que eu desejo por para fora, da maneira como eu desejo e, já falei sobre isso aqui, nem tudo é verdade. Há camadas infinitas de ilusionismo e proteção no que é exposto aqui, mesmo que pareça tão cru. Eu não escrevo porque quero que o mundo saiba o que eu passei, eu escrevo por um milhão de motivos e por um milhão motivos minha escrita é essa. Eu tatuo da mesma forma.

Eu não faço tatuagens para quem olha. Eu as faço para mim mesma. Eu já falei aqui mais de uma vez sobre isso. Para tentar ficar mais confortável na minha própria pele, para ressignificar minha própria história, para ser quem eu sou, porque eu quero, pura e simplesmente. Mas parece que quando você estampa algo na pele, algo do lado de fora, aquilo é instantaneamente para o outro, para o espectador. A pele desenhada não pode de jeito nenhum ser sua, ela é pública, senão por que você desenharia nela?

Nas minhas costas diz, em inglês claro e simples, que para olhar minhas cicatrizes há um preço. Eu desconfio que o senhor de terno na fila da ponte aérea falasse inglês, ele era capaz de ler o que estava ali. Por que então ele me pergunta o que ela significa? O que ele espera que eu responda? É um verso de um poema que uma autora que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos escreveu sobre as tentativas de suicídio anteriores dela. Significa que se você chegar perto de alguém, perto o suficiente para realmente ver as cicatrizes, isso te muda para sempre, isso vem com um peso, um preço, que relacionamentos e conexões nunca são gratuitos e livres de consequência. Significa que eu venho de um histórico familiar, vamos dizer assim, complicado, que eu não falo com meu pai e minha mãe é completamente louca e a pessoa que eu mais amei no mundo foi embora de mim anos atrás e eu não posso nunca me livrar de tudo isso. Que eu sou extremamente ferida e quebrada e essas feridas estão prontas para abrir e quebrar de novo a qualquer momento. Que eu já me odiei tanto e sofri tanto que quis morrer, quis muito literalmente morrer, quis morrer a ponto de fazer planos na minha cabeça para isso, que eu já apaguei cigarros em mim mesma e fiz pequenos cortes no meu tornozelo de propósito porque quando dói tanto você tem essa esperança burra de que a dor do lado de fora vai fazer passar. E deixaram cicatrizes. E para vê-las há um preço.

Me pergunto qual seria a expressão do homem de terno na fila do check-in se eu tivesse dito tudo isso.