loucura

Roleta

O quanto nós podemos confiar em nós mesmos? O quanto podemos confiar em nossos sentidos, nossas impressões, no que quer que tenhamos aprendido com a vida?

Epistemologia sempre foi a parte que eu mais detestei da filosofia, todos aqueles textos sobre a possibilidade, ou não, de aprendermos algo através dos sentidos. O mundo é uma ilusão? Vivemos em uma armadilha feita dentro de nossas cabeças? Ou não, podemos confiar na realidade externa como ela nos é apresentada? Daí Platão fala dos jovens corpos besuntados em óleo correndo ao sol e eu perco totalmente a linha de raciocínio.

Mas, como toda questão filosófica clássica, há algo ali. Até que ponto posso confiar em mim mesma para aprender? Até que ponto posso confiar no que sei para fazer escolhas melhores dos que as que já fiz?

Porque eu já fiz muitas escolhas ruins. E algumas dessas eu fiz plenamente consciente, mas outras eu acreditei de verdade que estava fazendo a coisa certa. E não estava.

Eu escolhi ficar, por anos, com um homem que corroía toda minha sanidade mental acreditando durante a maior parte desse tempo que ele me fazia bem, que a escolha era acertada. Como eu posso saber que não estou fazendo isso de novo? Maturidade, me dizem, tempo, eu aprendi com meus erros. Mas como eu posso ter certeza da minha, ou de qualquer um, habilidade de realmente aprender com os erros? Com a vida, com a realidade externa, com o que quer que seja? Como eu posso confiar em mim mesma para não estar cega ou distorcendo a realidade ou simplesmente muito, muito enganada?

Meu cérebro é algo frágil, além de tudo. Algo assustado e frágil e, como um animal selvagem, quase maligno nesses momentos. E ele me prega peças e coloca armadilhas. As últimas semanas têm sido pouco mais que uma tentativa de navegar as ratoeiras que ele me coloca, de ignorar cada demônio me tentando no caminho. Não dessa vez. Não hoje.

Mas e se alguma dessas armadilhas for, no fundo, a verdade? E se o que eu ouço é intuição, é segurança e não apenas medo e neurose?

Você precisa arriscar estar errada, é a resposta post de autoajuda sobre paisagem bonita no tumblr. Eu tenho vontade de rolar no chão rindo histericamente cada vez que alguém me diz que não se deve ter medo dos relacionamentos, que não se deve ter medo de sofrer, que tudo bem se eu estiver errada. Porque você não sabe o tamanho da aposta.

Eu sou, eu sempre fui, uma grande partidária de que há algo fundamentalmente errado na forma como as pessoas hoje em dia fogem do sofrimento. Eu me chocava e me irritava com as amiguinhas da minha adolescência que achavam que se algo terminava e alguém sofria aquilo era ruim e tinha dado errado. A vida nada mais é do que um monte de sofrimento. E umas coisas boas jogadas ali no meio pra você achar que vale a pena não desistir. Não faz sentido tentar blindar o sofrimento, tentar apenas entrar em apostas certeiras de felicidade, não é sequer possível fazer isso.

Mas também é preciso medir o quanto se pode pagar.

Eu, hoje, não saberia essa resposta para mim. Ano passado eu não podia. Ano passado, eu paguei muito caro por uma aposta muito pequena porque eu simplesmente não podia lidar, não havia sobrado nada em mim. Eu fui como um jogador de pôquer na última partida perdida depois de meses de azar. Tudo já havia sido perdido e penhorado e vendido e foi um deslize mínimo que me fez perder tudo.

Eu poderia ter medido isso, mas eu não soube. Era uma aposta tão pequena, como poderia me custar tanto? O quanto nós podemos saber de nós mesmos, da forma como reagiremos às coisas? E, mais importante, o quanto podemos saber do outro para ser capaz de medir a aposta, para se capaz de escolher?

Eu levei bastante tempo, e infinitas perdas, para entender que pessoas são uma escolha. As pessoas que mantenho comigo, aquilo que elas sabem de mim, é tudo uma escolha. Mas é solitário demais escolher sempre. É solitário e árido controlar, filtrar, manter todo mundo do lado de fora de certas partes. E há um tipo de escolha que para mim só faz sentido se for tudo ou nada.

Mas eu já escolhi errado vezes demais. Eu demorei para entender que aquilo que me levava, aquilo que me fazia querer ficar era também uma escolha. Não é uma escolha fácil de ser mudada, mas é uma escolha. Meu instinto me faz escolher pelo perigo, pelo jogo, pela instabilidade. Meu instinto gosta demais do jogo. E eu gosto demais de me punir. Eu gosto demais de entrar em uma disputa que sei que vou perder, com eles, comigo mesma. Quais minhas chances tentando escolher diferente?

E qual a possibilidade de que eu perca para mim mesma de novo? Eu venho testando essa escolha há meses. Cruelmente. Implacavelmente. E eu ganho. Todas elas. Mas até quando? Até quando eu posso testar alguém até que justamente esse teste esgarce tudo? Qual o ponto em que eu simplesmente tenho que assumir que é um salto de fé e confiar em mim mesma? Já que estamos falando em filosofia.

Dos anos que eu passei imersa em suecos deprimidos e filosofias, eu aprendi que a escolha é sempre cega. Essa escolha, especialmente, é sempre cega. E sempre contra as probabilidades. Mas é preciso fazê-la. Porque o preço de não fazê-la é alto de mais. Mas e se o preço de fazer também for?

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Maré alta

Tem alguns dias em que só resta desistir.

Alguns dias em que você chega em casa, chora um pouco sentada no chão, abre uma garrafa de vinho e desiste.

Desistir é uma gentileza comigo mesma que eu levei muito tempo para adotar. Em outros tempos, eu chegaria em casa e ainda tentaria ler, ver um filme, pelo menos um episódio de série. Eu tentaria fazer jantar, dobrar as roupas, limpar a caixa de areia do gato. E eu falharia em todas essas coisas.

Tem dias em que preciso desistir para não desistir de tudo.

Há dias bons e dias ruins.

Eu repito essa frase para mim quase como um mantra. Eu lembro de todos os diagnósticos em todos os consultórios de psicanalistas. Haverão dias bons e dias ruins, sempre, dias bons e dias ruins. Para sempre dias em que minha química cerebral me passará uma rasteira, em que a solidão vai se alojar no fundo do meu estômago, em que a dor vai corroer meus ossos. Dias em que eu vou desistir. Dias em que existir vai se tornar insustentável.

Nada me incomoda mais do que a inércia, a impossibilidade de fazer qualquer coisa. Eu sempre quero tanto, eu sempre tenho tanto a fazer, livros para serem lidos, textos para serem escritos, novas teorias revolucionárias sobre a análise fílmica a serem criadas. E eu não consigo fazer nada. Minhas mãos tremem, meu cérebro me escapa, minha respiração é mais curta, a comida perde o gosto e tudo que eu coloco dentro de mim parece veneno.

De tudo, acho que o que mais assusta é o efeito no corpo, a neurônios da coisa. Talvez, e eu acredito nisso, tudo tenha a ver com o que eu senti, com minhas memórias e meus pais e a formação de estruturas completamente abstratas na minha mente. Mas nessas horas você percebe perfeitamente que seu cérebro é composto de células, impulsos elétricos e neurotransmissores desregulados. E que isso cai na sua corrente sanguínea e todo seu corpo para de te obedecer porque você não consegue tomar as rédeas do próprio cérebro.

E é um círculo. O descontrole gera pânico que gera mais descontrole que gera mais pânico. A inércia gera culpa, que gera mais inércia, que gera auto punição que gera mais inércia e a bola de ódio e insegurança e medo vai crescendo e rolando, com você, ladeira abaixo.

Até agora que eu grito chega.

Meu momento preferido de toda a literatura mundial é quando Ivan Karamazov conversa com o demônio. Oi demônio, senta aqui, pega um chá, vamos bater um papo. Eu adoraria conversar com os meus demônios. Eu adoraria que eles sentassem no meu sofá, aceitassem uma taça de vinho e falassem comigo. Oi querido, quanto tempo né? Quer dizer, não, na verdade não, ontem mesmo você apareceu aqui e agora não quer mais ir embora, qual o problema? Você não tem uma casa? Por que você precisa ficar aqui?

Às vezes, mesmo que eu saiba que não é assim que funciona, eu preciso fingir que meus demônios são algo diferente de mim, algo separado. Algo que realmente me possuí, como um diabo de filme de terror. Ainda falando em Dostoievsky, o título original de Os Demônios é algo como Os Endemoniados. Os endemoniados, aqueles tomados por um niilismo profundo e a mais completa falta de fé.

Eu gosto dessa ideia.

E se eu simplesmente aceitasse a posessão? Sentasse e esperasse que  o pequeno satã se cansasse de mim e decidisse abandonar esse corpo que não lhe pertence? Será que ele não acharia que está bastante confortável e nunca mais fosse embora?

Esse é meu medo nos dias em que desisto. É esse o pavor que minha inércia traz consigo. De que eu nunca vá me mexer de novo, de que nada disso nunca vai passar.

E não vai.

Porque os dias continuarão sendo bons e ruins e bons e ruins e os ruins são sempre mais intensos que os bons. Então a outra alternativa não seria respeitar meus próprios ritmos? Me conformar com minha tábua de marés?

Quando eu estava em Pipa, fiquei em um hotel na areia da praia. Eu acordava com as ondas na minha janela e estava sempre com meus pés na areia. Contudo, por 4 ou 5 horas todos os dias, eu ficava ilhada. Não podia sair, nem entrar, porque a maré subia e tomava tudo. Aquilo era de uma beleza incomparável, mas como todas as coisas profundamente belas, havia algo de primitivo ali, de indomável.

Eu gostaria tanto de poder domar a mim mesma. Eu gostaria tanto de estar no controle. De não em sentir trancada para fora de mim mesma assim tantas vezes. Mas talvez não me reste mais nada a não ser aceitar? Que os dias bons serão bons e os dias ruins serão horríveis e sempre, sempre existirão dias ruins. Mas talvez eles diminuam e talvez os dias bons se tornem melhores e talvez, só talvez, exista alguma beleza em tudo isso?

Ou eu posso simplesmente desistir.

Sangue na parede

Quando eu cheguei nesse apartamento, eu não tinha nada. Eu tinha caixas de livros e malas de roupa, mas eu não tinha sequer a coragem de dizer para ele que não, ele não ia colocar minhas prateleiras, não ia ter uma chave, não ia voltar lá nunca mais. Eu não tinha sequer a coragem de pedir que ele saísse da minha vida.

Eu cheguei nesse apartamento depois de dois anos morando com um homem. Depois de dois anos em que qualquer sugestão de um quadro na parede era chamada de “expressão da minha futilidade burguesa” ou qualquer coisa parecida. Depois de dois anos em um apartamento que não era meu, da mesma forma que minha vida não era minha.

Eu cheguei aqui praticamente sem amigos, levando um mestrado com o fio de energia que me restava, sem escrever há meses, sem ler um livro direito eu já nem sabia há quanto tempo. Na minha primeira noite sozinha nesse lugar, eu sentei no chão, abracei meus joelhos e encarei minha gata. Ela ainda era minha, ela, eu tivera coragem de dizer que seria só minha. Minha gata, em uma coincidência estranha do mundo, tem os olhos exatamente da mesma cor que os meus. Eu fiquei uns minutos muito longos encarando os olhos dela, que são iguais aos meus, e respirando devagar o ar que já não estava tão envenenado dele.

Eu sempre tive essa mania de transformar lugares internos em externos. Eu estabeleço esses paralelos e esses reflexos entre onde estou e como estou. Ano passado, quando o que eu sentia era insustentável, eu fui embora. Eu saí daqui como se isso pudesse significar sair de mim mesma. O clichê diria que isso é inútil, que você leva a você mesma onde quer que vá, mas eu discordo. Lá fora, eu realmente saí de mim mesma e pude rearrumar as coisas o suficiente pra poder voltar.

Esse ano, depois de meses em que eu dormia razoavelmente bem, não bebia mais todos os dias e não apagava mais cigarros na minha própria pele, eu percebi que precisava sair daqui. Que dessa vez, quem tinha envenenado o ar era eu mesma, quem tinha manchado as paredes de sangue e vísceras era eu mesma. Que o ar aqui dentro era viciado da minha própria dor e da minha loucura e cada pedaço desse chão estaria pronto para me assombrar. Por meses, esse apartamento foi meu próprio inferno particular. Foi aqui que eu me entrincherei quando já não podia aguentar o mundo e gradualmente eu fui deixando que as portas se abrissem e o fogo, a agonia, a loucura, consumissem cada centímetro de parede, impregnassem em cada estofamento de sofá.

Então, eu precisava embora. Mas enquanto eu lacro caixas e embrulho quadros, a minha sensação é radicalmente diferente da última vez que eu fiz isso. Agora, eu tenho tudo. Ou pelo menos, eu tenho a mim.

Esse apartamento foi o primeiro espaço meu. O primeiro lugar em que minhas decisões, e apenas elas, passaram a contar. Eu chorei nesse chão mil vezes por escolhas que eu tinha feito, eu trouxe dezenas de homens pra essa cama porque eu os queria, eu enchi as estantes com os meus livros, os armários com os meus chás, as paredes com os meus quadros. Eu deixei meus sapatos espalhados e meus batons no porta lápis da escrivaninha. Eu escrevi um mestrado aqui. Eu dei incontáveis festas. Eu virei quem eu sou, enquanto morava nesse apartamento.

E eu mesma causei a hora de ir embora.

Não me escapa a minha capacidade de envenenar as coisas, o meu papel como alguém que vai sempre trazer junto uma partícula de desastre, de corrupção, de fim do que parecia funcionar tão bem. Eu tenho batido meu pé e argumentado que não, eu não vou estragar a vida de ninguém dessa vez, que eu estou calma, eu estou quieta, que eu estou tão pronta quanto jamais poderia para sossegar o rabo em algo confortável. Mas a verdade é que eu vou, por mais que eu não queira.

Eu vou porque comigo vem uma quantidade de dor e falta de sentido, uma falta de ordem das coisas como se espera que elas sejam. Porque vem comigo, sempre, uma consciência de quanto tudo pode ser tão cruel e difícil e dolorido para quem talvez não saiba disso. Eu posso ser a pessoa mais doce que possível, eu posso amar alguém, um lugar, o que quer que seja. No final, eu sempre vou embora deixando o ar intoxicado e as paredes recobertas dos pedaços de mim mesma que eu nunca paro de arrancar.