Arte

Maré alta

Tem alguns dias em que só resta desistir.

Alguns dias em que você chega em casa, chora um pouco sentada no chão, abre uma garrafa de vinho e desiste.

Desistir é uma gentileza comigo mesma que eu levei muito tempo para adotar. Em outros tempos, eu chegaria em casa e ainda tentaria ler, ver um filme, pelo menos um episódio de série. Eu tentaria fazer jantar, dobrar as roupas, limpar a caixa de areia do gato. E eu falharia em todas essas coisas.

Tem dias em que preciso desistir para não desistir de tudo.

Há dias bons e dias ruins.

Eu repito essa frase para mim quase como um mantra. Eu lembro de todos os diagnósticos em todos os consultórios de psicanalistas. Haverão dias bons e dias ruins, sempre, dias bons e dias ruins. Para sempre dias em que minha química cerebral me passará uma rasteira, em que a solidão vai se alojar no fundo do meu estômago, em que a dor vai corroer meus ossos. Dias em que eu vou desistir. Dias em que existir vai se tornar insustentável.

Nada me incomoda mais do que a inércia, a impossibilidade de fazer qualquer coisa. Eu sempre quero tanto, eu sempre tenho tanto a fazer, livros para serem lidos, textos para serem escritos, novas teorias revolucionárias sobre a análise fílmica a serem criadas. E eu não consigo fazer nada. Minhas mãos tremem, meu cérebro me escapa, minha respiração é mais curta, a comida perde o gosto e tudo que eu coloco dentro de mim parece veneno.

De tudo, acho que o que mais assusta é o efeito no corpo, a neurônios da coisa. Talvez, e eu acredito nisso, tudo tenha a ver com o que eu senti, com minhas memórias e meus pais e a formação de estruturas completamente abstratas na minha mente. Mas nessas horas você percebe perfeitamente que seu cérebro é composto de células, impulsos elétricos e neurotransmissores desregulados. E que isso cai na sua corrente sanguínea e todo seu corpo para de te obedecer porque você não consegue tomar as rédeas do próprio cérebro.

E é um círculo. O descontrole gera pânico que gera mais descontrole que gera mais pânico. A inércia gera culpa, que gera mais inércia, que gera auto punição que gera mais inércia e a bola de ódio e insegurança e medo vai crescendo e rolando, com você, ladeira abaixo.

Até agora que eu grito chega.

Meu momento preferido de toda a literatura mundial é quando Ivan Karamazov conversa com o demônio. Oi demônio, senta aqui, pega um chá, vamos bater um papo. Eu adoraria conversar com os meus demônios. Eu adoraria que eles sentassem no meu sofá, aceitassem uma taça de vinho e falassem comigo. Oi querido, quanto tempo né? Quer dizer, não, na verdade não, ontem mesmo você apareceu aqui e agora não quer mais ir embora, qual o problema? Você não tem uma casa? Por que você precisa ficar aqui?

Às vezes, mesmo que eu saiba que não é assim que funciona, eu preciso fingir que meus demônios são algo diferente de mim, algo separado. Algo que realmente me possuí, como um diabo de filme de terror. Ainda falando em Dostoievsky, o título original de Os Demônios é algo como Os Endemoniados. Os endemoniados, aqueles tomados por um niilismo profundo e a mais completa falta de fé.

Eu gosto dessa ideia.

E se eu simplesmente aceitasse a posessão? Sentasse e esperasse que  o pequeno satã se cansasse de mim e decidisse abandonar esse corpo que não lhe pertence? Será que ele não acharia que está bastante confortável e nunca mais fosse embora?

Esse é meu medo nos dias em que desisto. É esse o pavor que minha inércia traz consigo. De que eu nunca vá me mexer de novo, de que nada disso nunca vai passar.

E não vai.

Porque os dias continuarão sendo bons e ruins e bons e ruins e os ruins são sempre mais intensos que os bons. Então a outra alternativa não seria respeitar meus próprios ritmos? Me conformar com minha tábua de marés?

Quando eu estava em Pipa, fiquei em um hotel na areia da praia. Eu acordava com as ondas na minha janela e estava sempre com meus pés na areia. Contudo, por 4 ou 5 horas todos os dias, eu ficava ilhada. Não podia sair, nem entrar, porque a maré subia e tomava tudo. Aquilo era de uma beleza incomparável, mas como todas as coisas profundamente belas, havia algo de primitivo ali, de indomável.

Eu gostaria tanto de poder domar a mim mesma. Eu gostaria tanto de estar no controle. De não em sentir trancada para fora de mim mesma assim tantas vezes. Mas talvez não me reste mais nada a não ser aceitar? Que os dias bons serão bons e os dias ruins serão horríveis e sempre, sempre existirão dias ruins. Mas talvez eles diminuam e talvez os dias bons se tornem melhores e talvez, só talvez, exista alguma beleza em tudo isso?

Ou eu posso simplesmente desistir.

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Fins (quase) reais

Há um tempo atrás, talvez um mês ou um pouco mais, eu li um livro da Sophie Calle chamado Histórias Reais. Ou, como ela mesma diz no autógrafo que me deu, quase reais. São fragmentos muito curtos, muito secos, de pequenos traumas cotidianos, de corações partidos.

Eu tenho essa teoria sobre os corações partidos. O clichê geral é que a dor é essa coisa descontrolada, esse monstro de sete cabeças que escapa dos seus olhos e das suas unhas e você se corta e se joga no chão e grita e se contorce e faz drama e que você parece tão quieta aí no canto não pode estar tão mal. Não é verdade, a minha teoria (ou talvez a minha hipótese baseada na empiria) é que corações se partem em silêncio. Quando eles se partem mesmo, de verdade, a fundo, muito fundo, a dor retira todo seu ar e você não pode gritar, às vezes, não pode nem chorar.

Dizem que se você perde uma perna ou braço a dor é tanta que seu corpo para de sentir, porque se sentisse você morreria, é tanta dor que ela já deixa de servir como qualquer mecanismo de defesa, é tanta dor que é inútil. Sinto que esse livro da Sophie Calle é um pouco assim. Ele tem uma dor imensa, mas muda, quieta, mínima porque se ela realmente desse vazão a toda essa dor acabaria morrendo.

Quando li o livro anotei que deveria escrever um texto sobre o fragmento chamado Casamento dos Sonhos. Essa palavra ficou escrita em um post-it na minha escrivaninha esse tempo todo eu a via todos os dias e tinha vergonha de mim mesma por te-la escrito. É claro que o texto não é sobre um casamento dos sonhos, não é nem sequer sobre um casamento, é sobre um coração partido. Mas a palavra ali me dava arrepios. Tenho uma amiga que tem dito “amor” e “apaixonada” muitas vezes e minha vontade é bater na madeira sai daqui coisa ruim aquele que não deve ser nomeado. Algo assim. Virei velhinha de igreja que não pode falar “demônio”.

(válido lembrar que no judaísmo não se pode é pronunciar o nome de deus. Sai daqui parte do meu cérebro que resolveu lembrar disso, fora, xô, esse texto não te pertence).

Na verdade virei uma cínica do inferno. Como se eu não fosse antes.

Esse texto não é sobre um Casamento dos Sonhos, é claro, é  sobre como a Sophie Calle desejou se casar no aeroporto com um homem que nunca mais iria voltar. Eu sou tão óbvia às vezes que me dá até ânsia. Eu sou tão óbvia, mas tão óbvia que só pude mesmo rir da minha cara. O que Sophie desejava era casar-se com um homem no aeroporto, deixar que ele fosse, dar uma festa sem ele e voltar para casa sozinha. O casamento era um adeus cerimonializado, como um velório. Me pergunto como cerimonializamos tanto o início de relações, mas não o fim? Eu adoraria ter um velório para os meus relacionamentos, enterrar uma caixinha com as coisas que ficaram, fazer kadish e não poder sair de casa por uma semana, cobrir os espelhos e só usar preto. Cobrir os espelhos seria bastante útil, eu acho.

Isadora, você nunca ia usar nada além de preto, nem nunca mais sair de casa. Ha Ha Ha, essa piada já perdeu a graça.

Eu me lembro da data de início da maior parte dos relacionamentos relativamente significativos que tive, mas não me lembro do fim. Bom, teve um que durou exatos 365 dias então ficou fácil, mas, tirando esse, não me lembro. Gostaria de lembrar, gostaria que fins fossem tão exatos, marcados e limpos quanto inícios. Algo começou ali, você pode não saber bem o que é, como é, mas começou. Quando aquilo termina? Que me importa saber quando começa? Quero saber quando termina. Quando deixo de receber emails, quando deixo de querer contar o que me aconteceu ou comentar um livro, quando quebramos o laço e viramos estranhos.

Fins deixam ranço. Deixam uma memória no ar, no corpo. O quanto é apropriado encostar naquele cara com quem você não exatamente terminou, só deixou de ver? A resposta deveria ser: absolutamente não encoste, porque você o faz e seu corpo esquece, vai quase sozinho e o dele responde mesmo que ele não queira, você nem sabe se quer na verdade, nada disso importa muito exceto o maldito ranço de tensão sexual que ficou entre vocês. E porque aquilo nunca teve um fim limpo você não sabe o como se sente, o quão estúpida se sente, se deveria se sentir estúpida, se parece a menina idiota obcecada, mas é só esse caralho de eletricidade, onde desliga? A essa altura você nem quer mais desligar, se for só isso mesmo, por que não?

Até porque não, não desliga, infelizmente.

Querida Sophie Calle não basta se casar no aeroporto. Não acaba porque você decidiu que acaba. Não se pode acabar, recolher as xícaras, limpar a mesa, apagar a luz e não deixar nada lá. Há um outro fragmento em que você diz que um homem lhe disse que você comia como uma porca, você mal se lembra dele, mas ele está sempre lá, sentado a sua mesa. Achei essa frase tão genial! Uma vez um homem me disse que eu andava como um elefante, eu mandei ele embora há muito tempo e já quase não me lembro do rosto dele, a voz dele há muito esqueci, mas ele está todas as terças e quintas sentado no chão da minha aula de ballet.

Quando voltei ao fragmento para escrever esse texto, percebi que ele se chamava Casamento de Sonho e não Casamento dos Sonhos. Agora sim faz sentido.

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Van Gogh e madeleines

A memória funciona de um jeito estranho. Eu fui a Amsterdam quando criança e não lembro de nada além de ovelhas, moinhos na estrada para Delft e a casa da Anne Frank.

Lembro bem da casa da Anne Frank e de como achei muito, muito legal que alguém morasse atrás de uma estante, em um esconderijo secreto. Na época, eu não conhecia o horror. Li o livro uns anos depois, quando eu acho que já tinham me contado sobre o horror, mas quando eu ainda não podia entender. O livro não fez muito para que eu entendesse, acho que porque é um livro sobre isso: a inocência que não pode entender o horror que ela mesma vive.

Acho que aprendi a palavra holocausto aos sete anos de idade, quando fiquei esperando no jardim do museu de Jerusalém, mas levei anos para entende-la. Quando entendi, passei mal ao ver uma pilha de sapatos.

Mas voltando à memória, que funciona de maneiras tão estranhas que me fez discorrer dois parágrafos sobre algo que absolutamente não era o assunto do texto: eu não lembrava nada de Amsterdam além dessas poucas coisas e com certeza não me lembrava do museu Van Gogh, até ver o quadro do quarto.

Eu estudei em uma escola bem hippie, sempre conto isso, e nossa aula de artes era uma mistura de fazer desenhos com história da arte: nós aprendíamos sobre Chagal e fazíamos anjinhos de argila, sobre impressionismo e pintávamos impressões do por-do-sol, sobre Van Gogh e desenhávamos nosso quartos.

Eu não lembrava disso, mas quando vi o quarto exposto em uma parede vermelha, eu lembrei. Do meu quarto de criança, das aulas de artes, de quando ouvi pela primeira vez que Van Gogh tinha cortado a orelha, da primeira vez que ouvi que aquele quadro, ainda hoje meu preferido, ele pintou antes de se matar com um tiro.

Eu adorava a professora que me ensinou sobre Chagal, eu adoro Chagal até hoje. Eu adorava como ela não pensou duas vezes antes de contar para crianças de dez anos que um pintor tinha se matado, que talvez ele fosse homossexual, o como ela queria que nós entendêssemos o tormento naquela arte. Talvez ela tenha sido responsável por meus caminhos posteriores, pela minha afinidade com a arte que é tormento.

Há tanta coisa que eu não me lembro e que de alguma forma é tão parte de quem eu sou. Eu tinha esquecido dos carnavais deitada na grama do clube, dos pasteizinhos de catupiry que a gente comprava quando chegava no Rio, do primeiro dia que eu toquei piano. Talvez eu não lembre até hoje do real primeiro dia que eu toquei piano e esse que tenha me voltado seja o segundo, ou terceiro, não sei.

É bobagem pensar que nos lembramos do que é importante. Nos lembramos do que o acaso decide lembrar. Lembramos do que conexões químicas aleatórias decidiriam armazenar, de fragmentos, cacos, pedaços.

Quando me serviram café na Turquia, eu me lembrei de American Gods: “black as night and sweet as sin”. Adoro essa frase, mas ela tinha completamente escapado da minha memória.

Se não lembro de mim mesma, se não lembro dos livros que eu amo, me pergunto o que vou lembrar de você.

Keith Haring, The Political Line

Entre as muitas coisas nas quais eu não sou boa está terminar coisas. Ir até o fim, concluir, não deixar para lá em uma curva qualquer da vida. Eu largo textos, projetos, relacionamentos como quem perde as chaves, o isqueiro, as canetas. Claro que também perco essas coisas, exceto isqueiros, sou razoavelmente boa em manter isqueiros até o fim, por meses usei um verde de oncinha horroroso só porque era bom. Mas perdi o isqueiro que o amigo que mora em Israel me deu. Claro que esse eu perdi.

Enfim, sou tão ruim em terminar coisas que minha melhor amiga me manda mensagens diárias perguntando como anda aquele ensaio/dissertação/relacionamento. Agradeço ter uma melhor amiga com paciência para cuidar de mim e não deixar que eu saia abandonando membros vitais como um braço, uma perna e um coração por aí.

Tudo isso para dizer que encontrei esse texto nos rascunhos do blog. Eu me lembro que quando voltei de Paris eu tinha uma série de textos para escrever, sobre ver o “túmulo” (caixinha, na verdade) da Isadora Duncan, a exposição do Jaques Demy, meu amor por arte contemporânea, mas acabei só falando de como minha alma gêmea é uma cidade em que o vinho custa dois euros (inclusive, ótimo vinho, me rendeu a melhor noite de sono da minha vida).

Mas eu estava em Córdoba (!), vendo uma exposição de arte contemporânea e lembrei daquele texto que eu queria fazer sobre a exposição do Keith Haring que eu vi no museu de arte moderna (não o Pompidou, um outro) de Paris.  Faz tempo, então perdoem se já não lembro de tudo que eu senti e pensei quando estava lá, mas foi um dos momentos em que a arte teve significado, em que eu entendi por que alguém, em algum lugar do mundo, precisa fazer arte.

O Keith Haring é um artista plástico que trabalhou principalmente na Nova York do fim dos anos 70, início dos anos 80. Mesma geração do Basquiat, Mapplethorp, Patti Smith linda e jovem escrevendo Just Kids (um livro que eu comprei a tradução apenas por motivos de capa prateada). Ele é o cara daqueles bonequinhos de linha que viraram chaveiro e moleskine e é também uma das maiores forças criativas que eu já vi.

Existe um documentário sobre o Basquiat (recomendo o documentário, recomendo Basquiat) que se chama “Radiant Child” e para mim a alcunha vai para o Keith Haring também. Os desenhos do Haring são enérgicos, brilhantes, encarnados de força e desejo de mudar o mundo. Encarnados mesmo, não representativos. Ele não demonstra o que quer dizer. Ele coloca aquilo na essência da tela, aqueles quadros enormes e coloridos vibram com tudo aquilo que aquele menino queria dizer.

Porque ele era um menino, morreu em 90 com 32 anos de idade, de aids. Como o Basquiat, que foi aos 28 pelo mesmo motivo. Meninos, moleques, fazendo arte como meninos fazem, de brincadeira, mas muito séria.

A exposição em Paris se chamava “the political line, um belo trocadilho. A linha política, a orientação ideológica, mas a linha desenhada imbuída de política, a vida transformada em ato político. Keith Haring era gay, foi gay sem esconder, sem disfarçar, provavelmente morto de medo, mas sem olhar para o lado. Haring viveu politicamente e pintou em seus quadros os problemas que lhe inquietavam pessoalmente, há muita crítica social em seu trabalho, ele fala da África, da Aids, do Muro de Berlim, mas não como quem olha de fora e aponta problemas, como quem sente o sangue ferver e borbulhar. Como quem vive seu tempo nos ossos e o expressou em linhas simples e fortes, cores vibrantes, urgência e minimalismo, algo quase primitivo e perfeitamente pop.

A exposição me emocionou por isso. Não era a arte teórica, a arte que senta em seu gabinete e decide o que vai dizer sobre o mundo, era a arte viva, pulsante, de alguém que precisava por pra fora tudo que lhe doía no mundo em que estava. Um inconformado dos melhores, não do que rejeita simplesmente ou que se fortifica na hipocrisia, do que vive intensamente e transforma. Eu entendi porque ele fazia arte, eu que nunca entendo por que se faz arte, ou que sempre me bato com os motivos profundamente egocêntricos, narcisistas e autocentrados da arte.

Eu vi a arte capaz de mudar e nunca ela me tocou tanto quanto nos 40 minutos que passei naquele museu. Nunca admirei tanto um ser humano. Obrigada pela chance Keith Haring. Eu queria falar mais, mas já não há mais nada a dizer, no fim eu acabei me lembrando de quase tudo que senti e como seria inútil um post que ficasse falando e falando sobre Keith Haring e Basquiat, eu prefiro deixar apenas o título de radiant children.

IMG_7224“Art becomes the way we define our existence as human beings. We know that ‘humans’ determine the future of this planet. We have the power to destroy and create.”

 

 

 

Esperando ser salva por um filme do Antonioni

Existe um livro chamado “Imagens” em que o Bergman revisita, explica e analisa toda a filmografia dele. Na minha edição colocaram como prefácio um texto que o Woody Allen escreveu quando o Bergman morreu e que chama “The Man Who Asked Hard Questions”. É um texto maravilhoso, doce, completamente apaixonado e que toca exatamente nas questões difíceis que o Bergman perguntava.

Mas teve uma frase, logo no início, que vem me assombrando há uns dias. Sem anunciar, sem preparo, quase com um soco (porém um soco delicado, o texto todo é delicado) no seu estômago, o Woody Allen diz “in the end, you’re art doesn’t save you”.

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O que ele quer dizer é que não importa quantas coisas sublimes você faça (e ele reforça que o Bergman fez muitas coisas sublimes) você continua mortal, humano, falho, vulnerável, etc, etc, etc. Ele ri na cara da noção de que obras de arte são um caminho para a imortalidade, imortalidade é não morrer, ele diz. Por mais que suas obras fiquem você vai, foi, não faz diferença que elas ficarão na hora que você tem que se conformar com a sua finitude.

Essa frase vem vivendo como um demoninho de desenho animado no meu ombro há tanto tempo porque eu espero, eu sempre esperei, que a arte fosse me salvar. Não da mortalidade exatamente, mas da dor, da loucura, dos abismos, da incompreensão.

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Eu mantenho diários desde que me lembro e se alguém me perguntar para que a resposta vai sempre ser “para não ficar louca”. Eu sempre tive a sensação de que se algumas coisas não saíssem de mim, se eu não ordenasse meus pensamentos fora de mim mesma eles iriam me consumir, virariam uma bola desforme e intragável dentro de mim e eu nunca mais conseguiria funcionar direito. Eu mantenho diários porque sou uma pessoa que tem medo, efetivamente tem medo, de um belo dia ficar louca.

Eu escrevo aqui porque quero me comunicar. Eu escrevo aqui como um pequeno grito que espera uma resposta de “você não está sozinha”, eu faço todo esse overshare das minhas neuroses e dos meus medos e de mim mesma porque eu espero as respostas que de alguma forma digam “eu te entendo, eu posso entender, eu te ouvi”. Parece estúpido gritar coisas para a internet quando eu tenho tanta gente em volta de mim, mas eu tenho (de novo, sempre tive) uma dificuldade enorme em dizer as coisas. Eu gosto de escrever, eu gosto do papel (ou da tela, que seja), eu uso o jeito que eu sei.

Eu escrevo ficção, ensaios, coisas que existem fora daqui por uma mistura dos dois motivos anteriores.

Eu escrevo, eu faria filmes, sempre como uma forma de externar o que me consome e pedir para que alguém ouça, entenda e, sim, me salve.

Eu faço “arte” (muitas aspas aqui) porque eu quero ser salva.

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Ao mesmo tempo eu leio tanto, vejo tantos filmes, ouço tantas músicas porque eu também espero encontrar ali aquela centelha de compreensão, aquela mão, uma corda. Eu tenho um texto aqui no blog de que gosto muito, sobre quando eu redescobri Nick Cave, sobre como eu chorei ouvindo aquelas músicas mesmo que no fundo eu estivesse bem. Eu chorei porque a voz dele teve quase o efeito de um aquecedor nas minhas entranhas, de algo que me aqueceu e derreteu um gelo que eu estava tentando criar. Eu chorei porque me senti menos sozinha.

É um clichê repetido por qualquer adolescente de 14 anos e é estúpido, eu sei que é. Mas eu ainda acho que se repito vezes suficientes as frases iniciais de The Bell Jar eu consigo me livrar do sentimento de estar “very still and very empty”, como se a Sylvia Plath ter vivido e escrito sobre isso pudesse me livrar da minha própria depressão, melancolia, eventual vontade de morrer.

Não pode, é o que o Woody Allen está me dizendo. Não importa quantas vezes eu vi Annie Hall naquela semana, eu ainda tive que terminar um namoro, e tudo que ela passou não evitou que eu passasse pelas mesmas coisas. Fez eu sair da minha bolha de egoísmo e me conformar que eu não era a única, que tudo ia ficar bem eventualmente, mas não me livrou das coisas pelas quais eu precisava passar.

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Eu ainda não me conformei muito com essa frase, eu ainda quero bater o pé, escrever uma carta para o sr. Allen e dizer “escuta aqui, mas é claro que a arte salva!”, mas não salva e a prova disso é o quanto essa afirmação me incomodou. A arte preenche vazios e isso ajuda, ela serve de abraço, consolo, empurrão para fora de nós mesmos. Mas ela não salva.

E eu, que tão ingênua espero que a arte vá me salvar de tudo que eu tenho medo dentro de mim sei muito bem que qualquer arte que presta só vai me empurrar mais ainda para tudo isso.