Cuba

Mas ano que vem eu não morro

Existem anos épicos na vida. Anos que, se um gráfico de intensidade fosse feito, extrapolariam qualquer medida e seriam aquele cume muito bem delineado, o everest da história dos anos. 2014 foi esse ano para mim.

Eu sei que tenho dezembro quase todo. Sei que é cedo para esses posts clichês de balanço. Mas foi tanta coisa que eu não posso mais com esse ano e tudo que me sobra é puxar o freio um pouco antes, entender que para mim ele já acabou.

2014 foi o ano que começou com alguém dizendo “eu queria uma taça de espumante” e uma taça de espumante magicamente sendo posta na mão dela. Foi o ano dos desejos realizados. Nas primeiras horas de 2014 eu estava no topo de um cortiço/mansão em Havana, vendo a cidade toda lá do alto, completamente bêbada e pensando que eu não tinha a menor ideia de como tinha ido parar lá. Não naquela noite, embora isso também. Mas na vida. A minha vida, de alguma forma, tinha me levado a ser a pessoa no topo de um cortiço/mansão decadente cubano e seja lá como isso tivesse acontecido, eu estava satisfeita.

A primeira lição desse ano foi: eu não sei bem como cheguei aqui, mas eu cheguei em algum lugar e eu gosto dele.

Uma das primeiras coisas que fiz em 2014 foi ser roubada em um país socialista e participar de uma reconstituição criminal. É bastante coisa que um ano que já começou assim tenha só sido ainda mais aleatório ao longo dos outros doze meses.

Em 2014, eu: defendi um mestrado, visitei 14 países, perdi meu passaporte, cruzei a fronteira entre a Sérvia e a Bósnia e sobrevivi, me engracei com um bósnio, um austríaco, um australiano, um mexicano, um luxemburguês e um americano. Eu visitei o túmulo do Bergman. Eu vi a ponte de Praga iluminada sob a chuva e eu me apaixonei quase a primeira vista. Eu tive três empregos. Eu comecei um vlog. Eu decidi entrar no doutorado. Eu me joguei de um penhasco. Eu quase fiquei louca.

Não é um exagero, não é uma figura de linguagem. A dor que eu vinha guardando em mim por 25 anos de repente estourou, me sufocou, envenenou todo meu sangue, minha fala, minha pele. Minhas mãos começaram a tremer sem parar. Eu passei 56 horas sem dormir. Meu cabelo começou a cair. Eu deixei de comer. Eu quis, de verdade, morrer.

E então um dia eu entrei pela sala do meu analista e anunciei que ia embora, que eu ia embora senão ia morrer. Que eu não queria ficar ali para ouvir os diagnósticos dele, que eu queria ir embora. E chorei sem parar por quase uma hora. Ele assentiu com a cabeça, me deu três meses de receitas e me deixou ir embora.

E eu fui. Sozinha. Sozinha com toda a dor e a loucura e o medo que tinha em mim. Foi uma aposta alta. Uma aposta que eu não tinha a menor certeza.

Mas eu voltei. A minha dor voltou comigo. Mas a minha loucura não.

Em algum ponto entre o sul da França e a Escandinávia eu achei meu centro. Eu descobri quem eu queria ser. Eu lembrei das luzes de Havana se espalhando lá embaixo e me lembrei que eu ainda não tinha ido a Índia. Eu não poderia morrer antes de ir pra Índia.

Quando eu voltei eu decidi que metade das minhas roupas eu já não queria, eu cortei o café, eu voltei a dançar, eu mandei consertar minha bicicleta. Eu desenhei na minha pele a lembrança de que eu preciso ficar. E eu lembrei da sensação do lugar onde eu queria estar.

2015 eu começo em casa. Com as pessoas que são minha casa. Com meus pés na areia e todo amor do mundo. Eu quero, embora não saiba se consigo, colocar pontos finais em histórias que eu já não posso mais carregar comigo. O começo de 2015 não me promete o melhor dos mundos, daqui, ele é o ano que já começa com meu coração partido. Mas agora eu acho que tudo entrou no lugar suficiente para que ele não carregue todo o resto de mim junto. Para que ele não rache as estruturas.

Eu não sei disso, eu só acho.

Eu quero viajar de novo. Eu quero ir a Ásia. Eu quero entrar no doutorado. Eu quero escrever um livro. Eu quero o mundo.

Mas mesmo que eu consiga tudo que eu quero, nunca seria um ano como foi esse. 2014 foi meu melhor ano. Porque eu quis morrer, mas não morri. Porque se eu chegar a todas as vinte milhões de coisas que eu ainda quero é porque, nesse ano, eu não morri.

Passados três meses eu não fui buscar outra receita. Eu voltei a dormir. Eu voltei a comer. Meu cabelo cresceu e eu não quero cortá-lo até o limite do socialmente aceitável. Eu entendi a dimensão do inferno dentro de mim, mas eu desisti de tentar mantê-lo a portas trancadas. Eu estou aprendendo a conviver com meus demônios, fazer amizade com eles,  quem sabe jogar umas partidas de xadrez.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Na laje de um cortiço cubano, ou como eu comecei 2014

Como já foi dito aqui anteriormente, eu não acredito em muitas coisas. Claro, pode ser que eu leia a Susan Miller no início do mês quando estou muito desesperada e qualquer luz/conselho/anúncio de desgraça maior é bem vindo. Também pode ser que aos 16 anos eu tenha brincado de prever o futuro pingando cera de vela em uma bacia com água (grande incentivo a criatividade). Também pode ser que nós tenhamos ido a uma casa de Iemanjá e cantado músicas com temática de sol para ver se ele aparecia antes de chegar na praia mais linda da vida. Mas em geral, nas circunstâncias normais de temperatura e pressão (ou seja, não em Cuba), eu não acredito em muita coisa.

Mas tenho uma crença sem sentido que me é muito querida: o ano novo sempre continua como eu começo. De 2005 para 2006 tudo parecia lindo, eu estava em uma festa com comida ótima e gente querida e decidi colocar meus pézinhos semi-bêbados de muita champagne na água quando fui atingida por um barquinho de Iemanjá (passive-agressive Iemanjá) e trinquei um dedo. O ano foi exatamente assim, parecia tudo muito lindo, mas acabou sendo uma bosta sem tamanho.

2013 começou comigo sentada no sofá da casa do meu tio, de pijama, lamentando os últimos 6 anos da minha vida enquanto bebia uma garrafa de champagne que minha prima roubou do restaurante onde trabalhava. Não chegou a ser ruim, só foi completamente meh. Igualzinho o resto do ano.

Eu acho esse um fenômeno bastante útil. Nem me permito criar esperanças para anos que começam como 2012 ou 2013. Já morreu, já vai ser ruim, já esquece. Adoro avisos, adoro quando o universo permite que eu me prepare um pouco antes dele puxar meu tapete, sabe, tentar não cair com o nariz direto no chão, gosto muito do meu nariz.

Porém 2014 começou do jeito mais legal e sem sentido da história do universo.

Primeiro, ele começou em Havana. Eu poderia estar viajando para algum lugar mais comum, mas não, eu estava lá, na capital maravilhosa de um país que não faz o menor sentido. Além disso, capital mundial do mojito. Só que chovia. Muito. E aparentemente cubanos passam o ano novo em família, como se fosse um natal. Meh.

Bom, nós tínhamos a ceia do nosso ótimo cozinheiro-man-in-a-uniform-cubano-ou-veado Ulisses (sim), dois franceses e perto da meia noite um bar deprimente com cara de bar americano dos anos 40 e uma mulher que bebia sozinha parecendo abandonada no balcão. Muitas conjecturas sobre pés na bunda e traições e o amor da vida dela dando um bolo bem na noite de ano novo. Pelo menos eu tinha mojitos.

Ao contrário de 2006, 2014 pareceu extremamente deprimente, mas não foi.

Porque um pouco antes da meia noite nós recebemos saquinhos com serpentinas, línguas de sogra um pouco brochas, máscaras, negocinhos barulhentos irritantes e canudos de atirar bolinhas no amigo. O que eu posso dizer? são coisas divertidas. Mas de repente, não só nosso humor tinha mudado completamente, como a senhora abandonada era mulher do dono do bar e as garçonetes estavam fazendo um trenzinho. 2014 começou comigo fazendo um trenzinho com garçonetes cubanas em um bar de Havana com cara de Estados Unidos dos anos 40. Sentido, você ficou em 2013 né?

Claramente ficou, porque cinco minutos depois estávamos sendo guiados por um francês para uma festa em um hotel cinco estrelas que custava 120 cucs para entrar. Claro que não pagamos 120 cucs. Claro que só descobrimos isso quando já estávamos lá dentro bebendo champagne que aparecia magicamente quando alguém dizia “eu bem que podia ter uma taça de champagne na mão agora”. 2014, o ano em que você deseja o álcool e ele surge na sua mão.

Também o ano em que de repente estávamos conversando com uma grega que parecia a Julia Petit, uma cubana de vestido longo vermelho e Francis, o dominicano de chapeu Panamá que aparentemente é dono da cidade. Julia Petit nos chama para uma outra festa e lá vamos nós. Ela vai antes, nós vamos com nosso guia francês atrás. Chegamos lá e um segurança diz que fechou, não podemos entrar. Vem a Julia Petit grega: “eles estão comigo”. Não pode. Vem Francis: “eles estão comigo”. Agora pode. Francis, o rei de Havana.

Aliás, esqueci de mencionar que a cubana do vestido vermelho entrou em um Audi preto. Sim, existem Audis pretos em Havana, não que eu tenha andado em um, eu mesma só andei de Lada e Coco-Taxi. Mas ela andava.

Enfim, entramos no que parecia muito uma balada do Itaim, só que em Havana. E tocando reggaeton. E onde eu não paguei pelos meus mojitos porque aparentemente estava acompanhada de um amigo pessoal do Fidel, ou o que quer que seja. Mas vamos sair dessa festa porque ela é chata e ir para uma quarta. Ok…

Quarta festa da noite, senhoras e senhores, era na laje de uma mansão. Tá, possivelmente a mansão era um cortiço, mas quem se importa? Eu fui parar em uma festa na laje de uma mansão/cortiço cubano. Não só fui parar em uma festa na laje de um cortiço cubano, como quando chegamos lá havia uma fila enorme para entrar, na qual entramos, perfeitamente resignados a horas de espera. Até o momento em que alguém, não vi quem, anuncia que não, pega na mão da pessoa na sua frente porque vamos cortar. Ah, Francis, não sei quem você é, mas eu gosto muito de você.

Eu vi a morte muitas vezes nessa viagem, particularmente quando quase enfiei o carro embaixo de um trem, mas a primeira foi na escada para laje. Lembram que chovia? A essa altura já tinha parado, mas a escada, azulejada, estava molhada. E era estreita. Em caracol. E na parede tinha um milhão de gatos de energia nos quais eu não queria enfiar a mão. Sempre bom lembrar que eu já estava bêbada a essa altura.

Mas sobrevivi, só precisava ir ao banheiro. Sobre o banheiro da laje de cortiço: foi possivelmente o pior da viagem, mas nem de longe o pior da minha vida (Bolívia que saudades de você, seu país horrível do cacete). Sim, tinha uma fila imensa, mas meus queridos, estávamos recobertos da aura da boa sorte naquela noite e uma cubaninha saiu amando minha tatuagem, perguntando a quanto tempo estávamos lá, passando o telefone e dizendo “não, não, não, vocês nunca vão conseguir assim, meu amigo é segurança do banheiro”. Carteirada em fila do banheiro na festa em uma laje de cortiço cubano: check.

A festa não era uma festinha de apartamento, se é isso que vocês estão pensando. Tinha DJ, luzes, uma multidão. É possível que eu tenha conversado sobre surf com uns adolescentes. Eu devia ter agarrado algum adolescente só pelo check-in em Cuba. Oi que? Foursquare mundial de putaria, sim senhores, uma brincadeira válida.

Mas não agarrei nenhum adolescente. Só fiquei lá enchendo a cara até o sono vencer e então voltamos para casa. Talvez uma boa hora para perceber que a pessoa portadora da chave tinha desistido da noite horas atrás. Duas ruivas bêbadas na porta de uma casa de Havana falando alto, rindo histericamente e tentando fazer uma ligação internacional deve ter sido uma bela visão.

Não sei se foi já aí que eu me apaixonei por Havana. Mas certamente foi quando descobri que entrei no ano mais wtf (e portanto mais divertido) da minha vida que já não faz muito sentido geralmente.

IMG_8362

“Está na hora de me fazer ao mar”

Existe uma sensação que me é bastante querida, embora extremamente rara: sentir que, onde quer que eu esteja no momento, é exatamente onde eu queria estar.

Muitas vezes, quase todas, eu não sei muito bem como fui parar ali. Também não importa, acho. Ou talvez eu só consiga me sentir assim nos lugares que não sei muito como fui parar.

Faz duas semanas eu estava em Cuba. Em um certo momento eu estava em um picanto imundo, em cima de uma ponte, vendo campos enormes de algo que me parecia trigo (mas eu sei que não era) cantando Shape of My Heart a plenos pulmões. Eu não sei como fui parar ali, mas era exatamente onde eu queria estar.

Muitas vezes durante a viagem, enquanto nós cruzavamos estradas que não faziam o menor sentido, enquanto era preciso fazer parkour entre as carroças, os caminhões que pareciam transformers, os cubanos de bicicleta e os maravilhosos outdoors do Chávez “nuestro mejor amigo”, eu queria colocar a cabeça para fora, sentir o vento no meu rosto e simplesmente estar ali. Eu queria estar cantando Backstreet Boys como se não houvesse amanhã enquanto cruzava um país socialista, mesmo que não tivesse a menor ideia do que estava fazendo ali.

Mas a verdade é que eu tenho.

Sempre fui fascinada com a ideia de roadtrips, com road movies, com navios, com o mar, com trens, com tudo que se movimenta. Eu sempre gostei do deslocamento pelo deslocamento, do próprio processo de se mover, de atravessar, de não estar exatamente em lugar nenhum. No meio do caminho é exatamente onde eu queria estar.

Uma roadtrip é uma viagem em que o processo de viajar é um objetivo tanto quanto os lugares que você vê. Dirigir por aquelas estradas, ver aqueles cartazes, poder parar em qualquer cidadezinha pitoresca que desse vontade, escolher uma trilha sonora, dar apelidos aos caminhões, se movimentar.

Eu gosto muito de me movimentar.

Em nenhum momento pus a cabeça para fora do carro, meu nome já tem uma tradição suficiente em mortes trágicas com carro, mas o que eu queria mesmo não era só sentir o vento, era sentir uma liberdade muito extrema de não se ter um lugar, de não dormir mais de uma noite na mesma cama. A liberdade extrema de viver dentro de um quarto, de uma mochila, dentro de mim mesma, de certa forma. Essa liberdade me seduziu intensamente.

Toda vez que falo em liberdade, me lembro do Kieslowkski. A liberdade é azul e solitária, terrível, profunda, brutalmente solitária. Claro. A liberdade real, pura, por assim dizer, só pode existir na ausência de laços. Crescemos com a ideia de que liberdade é algo essencialmente bom, sempre, como se pudessemos fazer colunas de coisas boas e coisas ruins. Mas não podemos e a liberdade não é sempre boa, ainda que, para mim, ela seja extremamente sedutora.

Enquanto eu olhava pela janela para as paisagens cubanas, que se pareciam um tanto com as brasileiras, eu não pude deixar de pensar em todas as coisas que vagam pela mente quando se tem muitas horas e muitos kilômetros. Em como eu quero ir embora. Em quem foi embora de mim. Em quem foi embora de mim querendo ser livre e nunca foi, porque tem nós (não laços) demais dentro de si; e de quem foi para esse tipo de liberdade que eu pareço sentir no sangue; de quem não foi, não precisou ir, mas diz que eu preciso.

Nas estradas cubanas eu encontrei um tipo de perdão muito libertador.

Há alguém que uma vez foi embora de mim porque eu não poderia ficar e que, ainda hoje, me diz que há em mim algo de quase selvagem, algo que é incapaz de jogar o jogo, que eu não posso dominar e que se sente constantemente sufocado, inquieto, como uma jaguatirica em caixa de transporte de gato. Há alguém que diz que tenho olhos de gato selvagem, mas insisto em achar que posso viver de arranhador.

Não vou dizer que não me sinto elogiada, mas há algo profundamente triste nessa afirmação. Porque gatos selvagens são animais que caçam sozinhos.

Há naturezas mais civilizadas, para quem a liberdade da ausência de laços é apenas isso, libertadora. Talvez porque não exista o medo de se perder, o medo de sucumbir ao lobo dentro de si, ao pequeno monstro adormecido, de tornar-se verdadeiramente intratável. Há naturezas mais civilizadas que precisam da ausência de laços para, ao contrário, não sucumbirem a própria civilidade.

Lembro de há muito tempo atrás ter lido um livro do Bauman em que ele afirma que algumas coisas são binômios: menos de uma necessariamente significa mais da outra e vice versa. Liberdade e segurança é um dos exemplos que ele dá. Eu diria liberdade e conexão.

Estar perto dos outros significa ter peso, lastro, bagagem. Conectar-se com alguém significa abrir mão dessa liberdade profunda que só pode nascer do completo desprendimento. É inocente e ridiculamente ingênuo achar que a liberdade é algo intrinsecamente bom, como é ainda mais ridiculamente ingênuo achar que o amor é algo intrinsecamente bom. Ou a vida, ou o que quer que seja.

Mas ela é sedutora. Talvez poucas coisas sejam tão difíceis quanto decidir se você realmente quer algo que lhe parece extremamente sedutor, tentar ouvir algo além do seu sangue pulsando e batendo nas paredes das artérias, fervente por algo que fala a uma parte sua mais escura, indomável, selvagem. A liberdade fala ao lobinho dentro de mim, ao pequeno monstro que eu guardo dentro da alma.

Eu protejo esse alma dos outros tanto quanto evito que os outros a vejam. Eu tenho um medo sincero de perder o animal dentro de mim e acabar não sendo nada, como tigres deprimidos em zoológicos alemães. Eu tenho medo de perder aos outros e tenho medo de perder a mim mesma. Mais de um necessariamente significa menos do outro?

Não sei responder. Talvez eu esteja presa entre o que me seduz e o que eu deveria querer em mais aspectos do que quero admitir. Talvez eu deteste as paixões sem sentido justamente porque elas deveriam falar ao instinto, mas o meu instinto quer caçar só. Talvez só possa gostar do sentimento sem freios quem tem menos violência dentro de si, eu tenho sangue demais.

Eu sou completamente obcecada com o mar. Nada no mundo me atrai com tanta força, em nenhum lugar eu me sinto tão em casa como quando ondas batem furiosas em rochedos. A frase nas minhas costas por muito pouco não foi “I account it high time to get to sea as soon as I can”

Do alto do avião, a primeira vista que eu tive de Cuba foi do mar, azul, azul, azul, transparente e imenso e eu sorri sozinha. O mar é eternamente imensidão assassina, sempre algo a se reverenciar, sempre selvagem, mesmo quando se disfarça de praias calmas e azuis do Caribe.

Mas as vezes é preciso tornados, furacões, tempestades. São as mesmas correntes do azul elétrico, da beleza plácida. Eu adoraria ver um furacão. Eu adoraria comprar a aposta de soltar o gato selvagem dentro de mim e correr para o mar.

Nos poucos momentos em que eu me senti perfeitamente livre, eu entendi tanta coisa, perdoei tanta coisa que decidi comprar a aposta (eu gosto de apostas afinal). Talvez lobos também voltem para casa.

tumblr_mq8kvughe91raw451o1_500

Havana, meu amor

Eu gosto de coisas desencontradas, partidas, desfeitas. Dos homens atormentados. Da minha própria inquietude um pouco selvagem. Das pessoas assombradas, do passado, de ruínas. E sendo assim, eu não poderia, mesmo que tivesse tentado resistir, não me apaixonar por Havana.

Mas não tentei, não ofereci resistência, não mantive distância. Eu me deixei ir ansiosamente, feliz por ser carregada, com todos os sons e cheiros que entravam por baixo da minha pele, com o vento bagunçando meu cabelo.

Havana é uma cidade assombrada, uma cidade que existe em vários tempos e vários mundos. Que existe em ruínas e detalhes intrincados, em 1920, 1959 e 2014. Em camadas e contrastes, em prédios do centro histórico que me lembram a Espanha, a Europa, os cassinos, escritores e easy living dos anos 40 e prédios que me lembram, não pobreza, mas decadência, como ruínas. Ruínas vivas, habitadas, pulsantes. Havana me lembrou Pompeia.

IMG_8211

Havana é assombrada por Hemingway, Capote, mafiosos e dinheiro de um passado em que tudo ali era luxo, brisa do mar e litros de rum. É quase como ouvir um sussurro por baixo de uma música, como aqueles aparelhos de som que começavam a captar a rádio com antena mais perto. Como ver sombras e espectros o tempo todo.

Como eu poderia não amar um lugar verdadeiramente habitado por fantasmas?

Mas Havana é mais do que uma cidade assombrada. É uma cidade com um verdadeiro espírito que permanece, desencontrado, partido, relutante, resistente na pintura descascada e nos ornamentos destroçados. Ali o ritmo é outro, bebe-se um mojito em cada parada, os almoços são longos e pedimos ao garçom maços de cigarro Cohiba que podemos fumar na mesa. Em Havana ainda se fuma nos bares, nos hoteis, nos restaurantes, como se ainda fosse 1940.

Mas os senhores que moram nos prédios destroçados também jogam dominó na rua. As mulheres veem a vida passar e fofocam. Eu não sei bem o que acho disso, em parte me sinto profundamente incomodada, mas em Havana se fotografa os cubanos quase tanto quanto a cidade. E eles se deixam registrar, cientes de sua fotogenia, de nosso interesse de safari.

IMG_8219

Quem acha que o Brasil é um país sensual nunca foi à Cuba. Entre policiais de minissaia, bundas incríveis de ambos os sexos, os melhores corpos que eu já vi nesse mundo (e eu andei um tanto) e essa leveza, essa lentidão, há algo de muito sexual. Talvez seja o calor, o rum, o cheiro de cigarros ou charutos, não sei. Mas muitas vezes eu tinha a sensação de que pessoas trepavam furiosamente por trás de cada uma daquelas janelas que eu fotografava.

Em Havana há algo de profundamente estrangeiro que é e não é culpa do socialismo. Fotografamos as pessoas porque elas nos parecem de outro mundo, porque a cena de garotinhos jogando baseball parece tão interessante e queremos achar que é a consciência do mundo diferente, ou consequências dos mil relatos de pobreza e dificuldade, como se cada cubano que sorri ou joga bola fosse uma raridade. Mas não sei. Não consegui me saber por que eu fotografava aquelas pessoas, porque elas me fascinavam. Talvez sejam, como a cidade, assombradas.

IMG_8291

Caminhei por suas ruas de sandálias de verão, vestidos leves e saias compridas. Senti o cheiro de mar e vi como suas ondas estouravam naquele azul inconfundível do Caribe. Amei o vento nos meus cabelos, precisei de um chapeu pelo sol implacável. Achei que o cemitério branco, imaculado, é o mais lindo que já vi. Tomei incontáveis mojitos, fumei cigarros na mesa do almoço e charutos em um hotel onde não pertencia. Depois de viajar pelo resto do país voltei e me senti em casa e terrivelmente estrangeira. Não consegui entender Havana, não consegui acreditar que minhas sensações correspondiam a realidade, não consegui estar tranquila e isso é a melhor definição que conheço de se apaixonar.

Dos lugares sonhados

Eu nunca entendo muito bem por que os lugares entram dentro de mim. Por que a obsessão com a Índia, o Nepal, a Islândia. Por que, se dinheiro e distância fossem questões suspensas, meus pés me levariam ao Vietnam antes da Austrália, à Mumbai antes de Roma e à Havana antes de Machu Pichu.

Eu coloquei uma mochila nas minhas costas e saí para ver o mundo pela primeira vez aos 19 anos. Não que a essa altura eu já não tivesse visto muita coisa, não que eu já não tivesse me perdido no Louvre, aberto a testa em Punta Del Este e morresse de saudades do sorvete com balinhas de Israel (você sabe que sua relação com o país é de um afeto de criança quando até hoje sente falta das porcarias de comer) . Mas aos 19 anos pela primeira vez foram meus próprios pés, e não ser carregada por aí.

Eu saí pra América Latina, sem motocicleta porém com ônibus cheios de cabras, e me lembro de em uma viagem infinita entre Lima e Nazca comentar com o então namorado o como eu gostaria de ir à Cuba.

Bom, aqui estou, em um dos meus lugares sonhados.

Acho que Cuba entrou em mim pela primeira vez em 2001, quando eu assisti Buena Vista Social Club. Não era a música, embora fosse também, mas foi o close no rosto do Ibrahim Ferrer no fim do filme. Eu ainda não sabia o que era close, e revi esse filme muitas vezes depois de aprender até do que se trata um plano americano, e sempre me fascina esse último take. É o fim do show deles no Carnagie Hall e a câmera se aproxima do Ibrahim Ferrer, de terno vermelho, e ele tem um tipo de fascínio nos olhos, de calor, de felicidade, de espanto mesmo que eu nunca vi igual.

No início do filme o Ry Cooder diz que se lembra de quando o viu pela primeira vez, como “um Nat King Cole cubano, poucas vezes na vida se vê alguém assim”. Acho que a Cuba que entrou em mim foi a de um lugar onde se possa ver essa gente, essa gente que poucas vezes na vida se vê igual.

Depois vieram outras coisas, Orishas e o tempo em que a gente se achava melhor por conhecer uma banda de hardcore cubano, Soy Cuba, o Hemingway e aquela montagem tão linda de Don Quixote que vi com o Ballet Nacional, o Pedro Juan Gutierrez. Mas o cinema foi sempre minha primeira janela para o mundo e os lugares sempre entraram em mim sem eu saber por que, talvez nem tenha sido o filme, mas os piratas, aqueles por quem eu era tão fascinada quando nem tinha altura para andar de montanha russa.

Nunca me apaixonei a primeira vista. Nunca sequer me apaixonei em um primeiro encontro. Mas me apaixonei por lugares que nunca vi, me apaixonei por Havana antes de jamais ter posto os pés aqui.

É a primeira vez em muito tempo que piso em um lugar com o qual sonhei tanto e, briguem com o Fidel, vocês provavelmente terão que esperar minha volta para saber como foi. Tenho certeza que vai ser igualzinha, e completamente diferente, de tudo que eu imaginei. Costuma ser assim quando eu me apaixono, parece que faz todo sentido, mas é sempre um desastre completo, embora eu nunca me arrependa. Não sou chegada em me arrepender. E sei que em algum lugar desse país tem um forte pirata, nunca poderia me arrepender de um lugar em que existe um forte pirata e onde mojitos são a bebida nacional.

Mas sei que nunca me senti tão próxima daquela vez, seis anos atrás em que, tendo recém-lido “De Motocicleta Pela América do Sul”, fechei minha mochila e fui andar quatro dias até Machu Pichu.

tumblr_myckyefeSW1so3eg4o1_500

Canção de amor e ódio

Acho que a grande definição desse ano é: eu ia pra Índia, mas acabei em Cuba.

Oi, bom, dia, estou aqui na terra do Fidel, esse post é programado, estou bêbada de mojitos, espero encontrar o homem que vá me levar pra escalar o Kilimanjaro. Na verdade não, quando esse post entrar estarei em um avião a caminho do Panamá, para então fazer uma conexão e chegar em Havana onde ficarei bêbada de mojitos. O importante é que meia noite vou estar dançando salsa e me esfregando em um dos “handsome guerrilla bearded boys” que o Lonely Planet prometeu que eu ia achar (voltem alguns meses e descubram porque eu nunca, NUNCA, deveria acreditar no Lonely Planet, mas enfim).

Mas voltando: a grande definição de 2013 foi eu achar que estava indo para algum lugar e acabar em outro completamente diferente. Eu achei que ia ter um emprego, desisti e comprei mais uns meses para saber quem eu sou; eu “fiz uma escolha” dei a volta e acabei com o que não tinha escolhido daquela vez; eu perdi o chão e ainda não descobri muito bem o que fazer com isso.

2013 foi mais que tudo um ano longo, um ano terrivelmente longo, tão longo que aqui, no fim de dezembro  eu mal reconheço a pessoa que eu era em janeiro. É um ano tão longo que me custa dizer que não foi um ano ruim, embora esses últimos dois meses tenham sido, no mínimo, complicados. Mas a verdade é que não foi mesmo.

Em 2013 eu escrevi, eu escrevi muito, eu escrevi feito uma doente. E eu achei minha voz. Aquilo que eu mais sofria quando tentava escrever que era soar como eu mesma. A quando eu achei minha voz, as pessoas passaram a ler, os acessos desse blog deram um salto de ginasta ucraniana, eu publiquei na França, meu nome saiu pela primeira vez em um livro (não era o contexto mais ideal do mundo, mas saiu). Eu descobri o prazer imenso que eu tenho quando escrevo, sejam críticas de filme, seja o tipo de coisa que vem parar aqui, eu me encontrei, eu perdi todas as dúvidas se era isso mesmo que eu queria fazer da minha vida.

Eu li muito, mas li menos do que escrevi. Eu li Ulysses, Cem Anos de Solidão, Anna Karenina, No Coração das Trevas, quatro livros do Philip Roth (haja judeu neurótico nesse meu ano). Eu escrevi no meu diário menos do que escrevi para o público e acho que essa também é uma boa definição de 2013.

Nesses últimos 12 meses eu pisei em 7 países diferentes, 4 dos quais eu nunca tinha ido; aprendi a ler cirílico; andei de balão; pulei de paraglider; cantei Total Eclipse of the Heart no karaokê (alias, cantei muito em karaokês, montes de coisas aconteceram em karaokês, foi o ano do karaokê); provei comida indonésia; voltei pro ballet; peguei um muçulmano (na verdade fiz um bom rolê pelas religiões minoritárias, mas guardaremos a privacidade do povo); fiz duas tatuagens; vomitei no elevador do prédio de um cara; viajei sozinha;andei por 5 horas com mais sabe-se lá quantos milhões de pessoas naquele dia que todo mundo saiu na rua; vi o túmulo da Isadora Duncan; chorei na ponte aérea; tirei um gato da sarjeta, trouxe pra casa e chamei de Gatsby; quase morri no barranco; fui atacada pelo maníaco das mãos; sobrevivi a estradas turcas; comprei um vibrador de uma vendedora tatuada enquanto chupava um pirulito de maconha.

Li 57 livros, vi 130 filmes.

Fui ao Mont Saint Michel e me senti em um sonho de obcecada por idade média.

E fiz amigos. Muitos amigos. E não me permitiria nunca dizer que 2013 foi um ano ruim porque nunca, na minha vida, tive tanta gente tão querida em volta de mim. Em certo ponto da minha festa de aniversário, em que eu me dividia entre duas mesas lotadas, eu só pude parar e rir, feliz e correr para abraçar a pessoa mais perto de mim. E de lá para cá existe ainda mais gente.

A diferença é que eu resolvi, pela primeira vez, deixar que as pessoas entrassem. Eu até me deixei ficar com alguém sem pensar muito se eu ia ou não me apegar, se eu ia ou não me machucar, só fui me deixando ficar. Fui para todo e qualquer convite de bar, respondi com sinceridade ao interesse das pessoas por mim, me interessei por elas, engoli em seco e conversei com estranhos.

Pode ser que para tudo isso eu tenha bebido um pouco demais, nem sempre com bons resultados. Pode ser que eu tenha bebido demais por diversos motivos, nem sempre com bons resultados. Mas a questão é a seguinte: para se matar um leão é preciso uma arma não? Vodca ou espingarda, é tudo a mesma coisa. Inclusive, eu e a cachaça melhoramos muito nosso relacionamento, somos íntimas agora, melhores amigas até. Para o ano que vem pretendo finalmente desenrolar aquele relacionamento com o whiskey.

No fim de 2013 eu tenho um pouco a sensação de que quando tinha 16 anos, cabelo rosa, e passava meus verões entediada na varanda lendo Salinger e esperando a vida começar a acontecer era exatamente por isso que eu estava esperando. Isso sendo essa coisa desorganizada e intensa e ridícula que é na maior parte das vezes.

E aí, eu resolvi não fazer concessões. No fim de 2013 eu ia pra Índia, mas acabei em Cuba. Eu ia seguir o caminho esperado, mas disse não. Disse não para um emprego e decidi defender esse mestrado e ir viver de brisa do mediterrâneo, vinho de dois euros e subemprego no sul da França, pelo menos por uns meses. Eu decidi que preciso ir embora, preciso ver o mundo, preciso me preocupar em fazer pouca coisa além de viver, pelo menos por um tempinho.

Também enfiei meus dois pézinhos em histórias que não podem, não tem como, não acabar em desastre. Mas eu cansei de ter medo. E honestamente, ter medo não em poupou de nada, certamente não me poupou de chorar em meios de transporte.

2013 talvez tenha sido o ano que eu fugi menos e vivi mais. Só agora, doze meses depois, eu consigo entender o peso e a dimensão do que eu deixei em 2012, daquela enorme possibilidade que eu abandonei, da dor que não é mais minha. Pobre soldado sentado do meu lado naquele ônibus em que eu chorava compulsivamente.

No fim, apesar de tudo, eu gosto muito de quem me tornei esse ano, de tudo que eu deixei pra trás e do que eu decidi não ser. Agora estou aqui, fazendo uma roadtrip socialista sob o sol do Caribe. Me parece um bom prêmio. Pretendo dançar salsa, fazer topless e voltar com um bronzeado latino caliente. Veremos. Tenho a impressão que mereci esse mar azul, essa garrafa de rum, esses charutos.

tumblr_ly0eo4fS7e1qf6rvbo1_500