Woody Allen

Talvez, só talvez, a arte ainda salve alguém

Logo que eu publiquei o último texto aqui a maioria das pessoas que vieram falar comigo me chamaram de corajosa. Admiraram ou agradeceram a coragem que era necessária para se expor assim, para contar sem muitos disfarces as merdas por que passei. Eu agradeci a todos, mas eu não me sentia corajosa.

Quando eu apertei em publicar, as minhas mãos tremiam. As minhas mãos tremem quando eu fico nervosa, quando eu fico com medo, quando eu tenho muita dor, física ou psicológica. Quando eu falo em público eu torço as mãos, quando eu defendi o mestrado, eu as escondi embaixo da mesa. Quando eu percebi o leve tremor naquela festa eu fiz questão de beber o suficiente para que ele parasse.

Eu não sei quando começou. Eu lembro de uma vez em que minhas mãos começaram a tremer e aquilo foi subindo, quando eu percebi, eu estava sentada no chão, abraçando meus joelhos e meu corpo todo tremia. Foi assim que eu descobri que podia perder o controle.

É um ciclo vicioso. Meu corpo responde ao meu medo, meu medo aumenta porque vejo meu corpo respondendo e ele responde ainda mais e quanto mais eu perco o controle físico, mais medo eu tenho. Você só precisa de uma crise de pânico para passar a vida com pânico de crises de pânico.

Você só precisa de um relacionamento deturpado para ter medo de todos os relacionamentos.

Em Short Term 12, quando Grace fica nervosa, ou se sente ameaçada, ela inconscientemente corta a lateral do seu polegar com a unha de seu indicador. Ela não percebe, sua unha só se movimenta repetidamente enquanto ela fala, a câmera sabe, seu namorado sabe, mas ela se fere sem perceber até que aquilo se abre e sangra.

Ao menor nível de stresse, a reação automática do organismo de Grace é se ferir. Foi nesse pequeno plano detalhe, muito rápido, quase imperceptível, em que a câmera mostra ao espectador esse gesto, em que conta pra ele que há algo de significativo nas mãos de sua protagonista, que eu entendi a que profundezas aquele filme desceria.

Quando eu olhei para minhas mãos sobre o computador e elas tremiam, eu sabia que minha única chance era apertar publicar naquele momento.

A maioria dos posts desse blog é agendado. Eu escrevo, agendo, depois de alguns dias entro aqui e reviso. Às vezes percebo que se eu revisar demais vou desistir, então deixo. Aceito alguns erros de português e frases mal escritas em favor da honestidade, o bom de ter um blog é que leva só algumas horas para um texto virar papel de peixe.

Eu não sei bem do que eu tive medo.  Eu tive um medo definido, claro e honesto de que ele viesse tirar satisfações. De que quisesse discutir que o difamei, que não era assim, ele fez isso por um comentário qualquer no twitter tempos atrás. Tive medo do meio de comunicação que eu ainda não tivesse pensado em bloquear. Não pela presença, mas porque ter que defender o que eu senti seria sofrido, eu não queria argumentar um abuso, não existem argumentos.

Mas meu maior medo foi a percepção dos outros, acho. Cada vez que alguém expressou preocupação ou tristeza por mim, eu corri em assegurar que estava tudo bem agora. Que eu estou bem, que passou. Meu maior medo era ser vista como alguém a quem se deve cuidado e preocupação, alguém cuja história pode ser olhada com pena.

Grace, voltando a Short Term 12, esteve na frente de um tribunal e contou as diversas formas pelas quais o pai abusava dela. Mandou-o para cadeia por dez anos. Mas nunca contou ao namorado. Nunca deixou que ele compartilhasse com ela da profundidade da sua dor e seus traumas, nunca dividiu com ele o espaço infernal dentro da sua cabeça. O filme estabelece um paralelo entre ela e Jayden, uma das garotas de que toma conta. É muito mais fácil expor de forma sistemática, oficial e organizada o que fizeram com você, difícil é pedir ajuda.

Eu não me senti corajosa ao postar o texto anterior porque tudo que eu fiz foi expor, acusar. É como se eu também me levantasse na frente de um tribunal e recitasse, como um rosário, o que foi feito comigo. A diferença é que eu não queria punição, eu queria deixar isso ali para que quem sabe, alguém, no meio de tanta gente que leu aquele texto, se identificasse, percebesse padrões e reconhecesse o que estava sofrendo. Eu queria declarar minha liberdade de falar disso, a impossibilidade dele de me mandar mensagens questionando o que eu dizia.

Short Term 12 é um filme sobre um tipo de abuso muito pior do que o meu. Um tipo de abandono muito pior do que o meu. Sobre crianças realmente violentadas, espancadas, colocadas para vender drogas com dez anos. Crianças cujas vidas familiares eram tão ruins que precisavam ser retiradas de suas casas.

Ninguém nunca teria me retirado da minha casa. Nenhuma assistente social teria achado que um pai ausente e uma mãe neurótica eram motivos para se retirar uma criança. Eu tive babá, fiz aulas de ballet e piano, estudei em escola construtivista, tive um gato, joguei tênis, fui umas 4 vezes para a Disney, no meu primeiro passaporte eu nem era alfabetizada e minha bicicleta era roxa brilhante com pneus brancos.

Mas o sentimento de profundo abandono daquelas crianças me tocou. Eu percebi o quanto eu desejava que alguém agisse comigo como Grace agia com elas, que alguém tivesse tido a paciência de sutilmente arrancar de mim mesma o que eu queria dizer. É fácil recitar a lista de seus abandonos e injustiças, é fácil contar acuradamente a narrativa de cada uma das vezes que minha mãe me chamou de monstro. Muito mais difícil é assumir que preciso de ajuda por causa disso.

Eu fiz naquele texto o que era mais fácil e fiz porque para algumas pessoas talvez ainda não seja, porque eu só tomei consciência de mim mesma através da arte.

Esse ano tem sido um processo de descobrir o direito que eu tenho a minha dor. As faltas enormes e a raiva. E que tudo bem, elas tem um motivo para estar ali, eu passei por coisas terríveis, talvez não terríveis a ponto de uma assistente social me tirar de casa, mas terríveis a ponto de eu viver com um constante ruído branco de dor e medo. Medo de mim mesma.

Foi na arte que eu aprendi sobre mim mesma. Muito mais do que em divãs de terapeuta, mais do que em qualquer lugar. Foi Bergman que me ensinou o quanto é devastadora a indiferença, Henry James que me mostrou o tamanho do desejo de ser amada de uma garotinha. Em Short Term 12 eu vi nas crianças a criança que eu fui e o desejo imenso, enorme, devorador, de ter simplesmente alguém que sentasse ao seu lado e te esperasse você levar seu tempo.

Eu também vi no tique de Grace o tremor das minhas mãos.

Short Term 12 é um filme terrível, daqueles que mostram o quão fodido é esse mundo. Ao mesmo tempo é um filme de um otimismo profundo, um filme que reconhece que o difícil não é falar, é assumir as consequências do que é falado. Eu posso contar sobre quatro anos de sofrimento, mas não posso dizer que esses quatro anos deixaram marcas e que sim, estou bem, mas não tão bem quanto gostaria, não totalmente bem, melhor, mas não curada e sim, eu gostaria de ajuda.

Não é preciso coragem para contar sobre abuso na frente do tribunal. É preciso coragem para assumir para um namorado que aquilo deixou marcas e por isso é difícil confiar nele e ainda se tem pesadelos e ainda se corta a lateral do polegar sem perceber.

Eu não me senti corajosa quando aquele texto entrou e tanta gente disso isso pra mim. A cada preocupação que eu afastava eu me sentia mais fraca, tanto por não aceitar mãos amigas quanto por precisar delas. E eu precisei de um filme para entender o que eu estava fazendo.

Em um texto sobre o Bergman, Woody Allen diz “in the end your art doesn’t save you” ele fala da mortalidade, de como ser lembrado não é em nada parecido com realmente viver para sempre. Uma vez que estou morto, foda-se que lembram de mim. Faz sentido. Fazer arte também não cura ninguém das próprias dores, dos próprios transtornos, das próprias mãos que tremem. Fazer arte é só fazer arte, é só por pra fora, pode ajudar, mas não salva.

Talvez a sua arte não te salve, mas a dos outros sim. Sua arte não salva a você mesmo, mas a alguém. Vir aqui e falar de um namoro horrível não conserta o tempo que passei nele, não conserta minha distância, minha hesitação, meu medo. Mas talvez ajude outra pessoa e entender os seus. Talvez eu possa salvar alguém pela arte, talvez ela seja a única forma de me salvar.

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Não é repetição, é obsessão artística

Acho que se algum dia, no universo pós apocalipse zumbi, invasão alienígena e epidemia generalizada de ebola (que eu tenho cá para mim que é o vírus zumbi e as autoridades estão escondendo para não causar pânico) alguém for falar sobre o que eu escrevi, acho que eu seria caracterizada com um daqueles autores obcecados que falam sempre das mesmas coisas e voltam sempre nos mesmos temas e de alguma fora contam sempre a mesma história. Não é de estranhar que meus preferidos sejam assim também.

Bergman e Woody Allen são dois grandes obcecados voltando sempre nos mesmo temas e contando sempre a mesma história. É sempre sobre a mortalidade, o universo sem sentido, a crueldade de ser jogado em um mundo de sofrimento e ainda ter que ser retirado dele quando parece cedo demais. Os dois também parecem dizer que a questão que realmente importa, aquela capaz de preencher os dias, de fornecer algum sentido ou retira-lo por completo, é a respeito de nós e dos outros. É possível viver com alguém ou não é. É possível que exista amor ou não.

Já ouço todos os milhões gritando “a questão que importa é a fome, a guerra, o aquecimento global”. Não me importa isso aqui, eu escrevi uma dissertação de 120 páginas, em algum ponto de capítulo 1 eu falo sobre isso. Aqui eu vou assumir que o que importa sim é a questão entre eu e o outro. A possibilidade de alguma comunicação, a possibilidade de amor.

O Woody Allen jovem acreditava no amor como paixão revestida de medo e egocentrismo. Desejo sexual, mais medo de morrer e, pior, de morrer sozinho, levava as pessoas a tentarem conviver umas com as outras em relacionamentos essencialmente desencontrados, impossíveis, truncados. Alvin e Annie nos anos 70 não acabaram juntos, não poderiam acabar juntos, porque ele era essencialmente um pessimista enquanto ela parecia surda ao grito angustiado do universo. E ela nunca poderia entender a angústia dele, nem ele poderia responder a sede de vida dela. Para mim, Annie Hall é um ensaio maravilhoso sobre a impossibilidade de boa parte das relações humanas.

Mas o Woody Allen velho acredita diferente. Ele acredita um pouco mais na possibilidade de mudança. Na possibilidade de abandonar as questões um pouco e ir viver, de tornar a vida menos miserável enquanto ela dura. No filme novo (eu não vou falar nada dele além desse comentário muito geral) isso fica muito claro. É claro que o universo é só um amontoado aleatório e possivelmente cruel de átomos e matéria e não existe consolo ou sentido. Mas qual a necessidade de reafirmar isso o tempo todo? Ou melhor, qual o sentido de fazer questão de viver de acordo com isso? Ele não quer dizer que seja fácil esquecer ou abandonar esse terror e essa sentença, mas não há necessidade de fazer esforço para não abandonar.

Quando eu ainda estudava o Bergman, me lembro de ter percebido que no universo do Bergman, Deus (ou o sentido) é silencioso, afastado, ou mesmo cruel. No universo do Woody Allen não há Deus. Ou sentido. Ou misericórdia. Ou bússola moral. É só acaso. Existe amor, mas ele responde as mesmas leis irônicas e impossíveis. É acaso, é milagre. No filme novo usam a palavra milagre algumas vezes.

Eu acho sinceramente que a maioria das pessoas lidam com o amor como algo que simplesmente acontece, simplesmente está ali, algo natural da vida, algo a que todo mundo tem direito. Take for granted é expressão que me vem a mente. E eu, que acho que é algo extremamente raro, frágil e em nada gratuito, tenho a fama de pessimista.

Eu entendo, acho. Para a maior parte das pessoas amor é essa coisa que elas tinham pela família e que fluia tão facilmente em casa e em casas vizinhas e estar razoavelmente feliz e não desejando que no fundo seus pais de verdade fossem piratas que um dia vem te levar embora era a situação comum. Eu não vou fazer terapia e tragédia da infância infeliz aqui, mas a verdade é que amor sempre me pareceu algo que custava muito caro. Que custava muito esforço, muita devoção, muita perfeição. No fundo, tudo isso obviamente não é amor, eu entendi depois. Mas o que eu também entendi é que ele não flui assim de fontes infinitas como querem me fazer acreditar.

Me lembro muito claramente de estar na quarta ou quinta série fazendo um exercício de interpretação de texto com uma amiga. Era uma crônica sobre filhos que queriam que seus pais se divorciassem de um jeito horroroso, queriam sofrer e ser crianças problema porque isso era “cool”. Era, claro, um texto extremamente irônico sobre o que era de fato ser uma criança problema. Eu ri, eu entendi, eu me identifiquei. Então, no exercício havia uma pergunta se você gostaria que seus pais se separassem. Achei engraçado, achei que em pleno 1998 ou o que fosse, a pergunta deveria ser “seus pais estão casados? se sim…” mas não liguei, me pus a responder com a coleguinha que me apresentou a seguinte resposta “não, gostaria que minha família continuasse feliz como é hoje”. Eu apenas aceitei.

Eu sei que já disse isso aqui (eu falei que era obcecada), mas eu sempre tenho a sensação de que não sou tão pessimista quando gostam de me pintar. Ou melhor, meu pessimismo não vem de um desprezo do amor, ou da ideia de que ele não serve para nada, ou só traz infelicidade. Vem da consciência da raridade da coisa de verdade. Daquele que realmente faz as coisas terem algum sentido, que torna a existência um pouco melhor. Eu reverencio algo que me parece extremamente poderoso e, como todas as coisas poderosas, instável e difícil.

E nem é só amor romântico. O que eu aprendi nessa vida é que todo tipo de amor é difícil. É de uma dificuldade absurda aceitar o outro, acolher, compreender de verdade. Eu enlouqueço de tempos em tempos. Eu perco o controle, eu deixo meu cérebro correr em uma torrente sem fim de palavras crueis, ódio e auto-destruição. Eu viro um bicho selvagem detestável, incapaz de não ser agressiva com qualquer tentativa de aproximação, insensível a qualquer palavra de apoio. E nessa hora eu vejo o quão limitada é a compreensão e a capacidade de suporte do mundo em volta. Não é culpa de ninguém, não estou (DE JEITO NENHUM) cobrando ou acusando ou ressentida de qualquer pessoa que não conseguiu me amar em um momento desses. É o que acontece porque somos humanos e somos limitados e somos terríveis.

É o momento em que meu ex-analista infinitamente paciente e tão determinado quanto eu em me manter fora de qualquer remédio fica sem recursos e me pergunta “você não quer uma receita? você não quer pelo menos dormir?” Se ele, aquele homem médico e psicólogo, mestre na USP e doutor na França, já não sabia o que me dizer, já não aguentava mais me ver entrando lá semana após semana pra dizer a mesma coisa, imagina as pessoas que não são pagas e não são treinadas profissionalmente para isso?

Amor é condicional, sempre é. Sempre podemos quebra-lo ou perde-lo, a mágica é quando ele é elástico suficiente para aguentar uma série de golpes. Eu gosto desse Woody Allen otimista, eu gosto que ele vem permitindo que seus filmes terminem bem porque ele nunca ignora a parcela de milagre envolvida.

Karma, tragédia grega e Philip Roth (ou Ozzy Osbourne sabe das coisas)

Eu acredito em pouquíssimas coisas nessa vida. Não acredito em Deus, não acredito no amor, não acredito na felicidade, não acredito nas pessoas, acredito apenas em álcool, extraterrestres e karma.

Um dia eu estava na Flip, na fila do autógrafo de já nem sei mais que autor, quando um daqueles hare krishnas que concorrem cruelmente com a venda de livros élficos me perguntou se eu conhecia o karma. Quis responder: “conheço e it’s a bitch”.

Me perdoem os verdadeiros estudiosos da coisa, sei que o princípio é que tudo que vai volta, que se eu for um ser humano bom, iluminado e evoluído as coisas vão melhorar. Sei também que estou muito longe de ser um ser humano bom, iluminado e evoluído, sou irônica, cínica, sarcástica, mentirosa, bêbada, irresponsável e talvez já tenha roubado um cd deliberadamente em uma lojinha alternativa de Curitiba e portanto é claro que recebo minha cota de desgraça, mas, às vezes, é muito difícil não acreditar em um princípio de retorno rancoroso e vingativo.

Ao menos é mais fácil do que acreditar que o universo é só um monte de partículas desgovernadas se chocando aleatoriamente e tudo não passa de uma enorme coincidência. Que é o que eu realmente acredito.

É mais fácil acreditar que as energias do universo se movimentam para me punir. Que em alguma vida passada eu fiz pole dance na cruz, lavei calcinha na tábua dos dez mandamentos, trepei na mesa da santa ceia, sabe-se lá. Por incrível que pareça, é bem melhor acreditar que eu mereci de alguma forma todas as coisas que acontecem comigo.

Meu orientador uma vez disse que acaso é a palavra que os pós-modernos usam para destino. Aquele destino trágico, grego, que diz que Édipo pode correr o quanto quiser, vai acabar comendo a mãe e matando o pai. Eu adoro o conceito grego de moira, destino, mas mais precisamente “o quinhão que me cabe”. Aquilo que me cabe nesse mundo, nessa vida, nesse universo. Aquilo que me cabe pode ser destino, mas pode ser acaso, porque o destino é absolutamente aleatório. Destino não é karma, Édipo não fez nada para merecer a tragédia que lhe caiu. Foi um capricho, dos deuses, das moiras.

Em American Pastoral, Philip Roth escreve a frase que talvez seja a coisa mais genial que já li em toda literatura (seria mais chique se eu disse que a frase mais genial que já li fosse de algum autor russo, francês, sei lá, mas não é, é do senhor Philip Roth que fala de morte e sexo e acaso): “He had learned the worst lesson that life can teach – that it makes no sense. And when that happens the happiness is never spontaneous again.”

A vida, meus amigos, não faz sentido. Não há plano, sistema de retribuição, ou forma de melhora-la sendo uma pessoa boa, iluminada e evoluída. A vida é tragédia grega e às vezes lhe cabe um quinhão horroroso, sem que você tenha feito qualquer coisa para merecer isso. Ou, na versão do Woody Allen, lhe cabe a maior sorte do mundo após o assassinato de dois inocentes.

Esses últimos dias, porque a morte do Mandela fez surgir o Coetzee, ando assombrada com Disgrace, um livro que li meses atrás. O livro entrou de tal forma em mim que cheguei a sonhar com ele várias vezes, acho que sonho ainda hoje. Mas fico assombrada com a profunda gratuidade da desgraça ali, com a aleatoriedade, o azar, o acaso, escolha o termo que preferir. O título em português é Desonra, não gosto, é Desgraça mesmo.

Desgraça é o que nos cabe, quase sempre, atribuído por esse conjunto de átomos desgovernados que chamamos de acaso. Gosto muito da palavra Acaso, gosto da entidade Acaso. O Acaso é um deus mais imprevisível, caprichoso e implacável do que qualquer um de qualquer mitologia antiga. Gosto muito dele.

Mas nem sempre se pode conviver com o que se gosta. Eu certamente não conseguiria ver filmes do Haneke ou ler livros do Coetzee todos os dias da minha vida. Então acredito em karma e evito dar respostas mal educadas ao hare krishnas da Flip, vai que volta.

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Esperando ser salva por um filme do Antonioni

Existe um livro chamado “Imagens” em que o Bergman revisita, explica e analisa toda a filmografia dele. Na minha edição colocaram como prefácio um texto que o Woody Allen escreveu quando o Bergman morreu e que chama “The Man Who Asked Hard Questions”. É um texto maravilhoso, doce, completamente apaixonado e que toca exatamente nas questões difíceis que o Bergman perguntava.

Mas teve uma frase, logo no início, que vem me assombrando há uns dias. Sem anunciar, sem preparo, quase com um soco (porém um soco delicado, o texto todo é delicado) no seu estômago, o Woody Allen diz “in the end, you’re art doesn’t save you”.

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O que ele quer dizer é que não importa quantas coisas sublimes você faça (e ele reforça que o Bergman fez muitas coisas sublimes) você continua mortal, humano, falho, vulnerável, etc, etc, etc. Ele ri na cara da noção de que obras de arte são um caminho para a imortalidade, imortalidade é não morrer, ele diz. Por mais que suas obras fiquem você vai, foi, não faz diferença que elas ficarão na hora que você tem que se conformar com a sua finitude.

Essa frase vem vivendo como um demoninho de desenho animado no meu ombro há tanto tempo porque eu espero, eu sempre esperei, que a arte fosse me salvar. Não da mortalidade exatamente, mas da dor, da loucura, dos abismos, da incompreensão.

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Eu mantenho diários desde que me lembro e se alguém me perguntar para que a resposta vai sempre ser “para não ficar louca”. Eu sempre tive a sensação de que se algumas coisas não saíssem de mim, se eu não ordenasse meus pensamentos fora de mim mesma eles iriam me consumir, virariam uma bola desforme e intragável dentro de mim e eu nunca mais conseguiria funcionar direito. Eu mantenho diários porque sou uma pessoa que tem medo, efetivamente tem medo, de um belo dia ficar louca.

Eu escrevo aqui porque quero me comunicar. Eu escrevo aqui como um pequeno grito que espera uma resposta de “você não está sozinha”, eu faço todo esse overshare das minhas neuroses e dos meus medos e de mim mesma porque eu espero as respostas que de alguma forma digam “eu te entendo, eu posso entender, eu te ouvi”. Parece estúpido gritar coisas para a internet quando eu tenho tanta gente em volta de mim, mas eu tenho (de novo, sempre tive) uma dificuldade enorme em dizer as coisas. Eu gosto de escrever, eu gosto do papel (ou da tela, que seja), eu uso o jeito que eu sei.

Eu escrevo ficção, ensaios, coisas que existem fora daqui por uma mistura dos dois motivos anteriores.

Eu escrevo, eu faria filmes, sempre como uma forma de externar o que me consome e pedir para que alguém ouça, entenda e, sim, me salve.

Eu faço “arte” (muitas aspas aqui) porque eu quero ser salva.

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Ao mesmo tempo eu leio tanto, vejo tantos filmes, ouço tantas músicas porque eu também espero encontrar ali aquela centelha de compreensão, aquela mão, uma corda. Eu tenho um texto aqui no blog de que gosto muito, sobre quando eu redescobri Nick Cave, sobre como eu chorei ouvindo aquelas músicas mesmo que no fundo eu estivesse bem. Eu chorei porque a voz dele teve quase o efeito de um aquecedor nas minhas entranhas, de algo que me aqueceu e derreteu um gelo que eu estava tentando criar. Eu chorei porque me senti menos sozinha.

É um clichê repetido por qualquer adolescente de 14 anos e é estúpido, eu sei que é. Mas eu ainda acho que se repito vezes suficientes as frases iniciais de The Bell Jar eu consigo me livrar do sentimento de estar “very still and very empty”, como se a Sylvia Plath ter vivido e escrito sobre isso pudesse me livrar da minha própria depressão, melancolia, eventual vontade de morrer.

Não pode, é o que o Woody Allen está me dizendo. Não importa quantas vezes eu vi Annie Hall naquela semana, eu ainda tive que terminar um namoro, e tudo que ela passou não evitou que eu passasse pelas mesmas coisas. Fez eu sair da minha bolha de egoísmo e me conformar que eu não era a única, que tudo ia ficar bem eventualmente, mas não me livrou das coisas pelas quais eu precisava passar.

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Eu ainda não me conformei muito com essa frase, eu ainda quero bater o pé, escrever uma carta para o sr. Allen e dizer “escuta aqui, mas é claro que a arte salva!”, mas não salva e a prova disso é o quanto essa afirmação me incomodou. A arte preenche vazios e isso ajuda, ela serve de abraço, consolo, empurrão para fora de nós mesmos. Mas ela não salva.

E eu, que tão ingênua espero que a arte vá me salvar de tudo que eu tenho medo dentro de mim sei muito bem que qualquer arte que presta só vai me empurrar mais ainda para tudo isso.