Um ano

Eu nunca tive TimeHop, não gosto da ideia de algo que eu voluntariamente pedi para me devolver lembranças. Há coisas que eu não quero ver nunca mais. Há um pedaço inteiro da minha vida que eu gostaria de poder fingir que não existiu. Mas agora o Facebook tem esse recurso automático de te devolver algumas lembranças de anos anteriores e me incomoda menos, já que só vai parar lá aqueles poucos momentos da vida realmente dignos de nota, que realmente eu gostaria da lembrança.

E hoje ele me lembrou que faz exatamente um ano que eu defendi meu mestrado.

Nesse um ano, minha vida mudou radicalmente e, ao mesmo tempo, foi parar no exato mesmo lugar.

Foi irônico e quase reconfortante receber essa lembrança. Ontem mesmo, eu passei metade da noite em uma espiral sem fim de impotência,  insegurança e paralisia. De sensação de que estou sendo apenas tonta de achar que tenho capacidade para algo do que quero.

Eu quero entrar no doutorado e eu venho em preparando pra isso. Por questões de circunstância, eu saí da Academia e tenho gravitado de volta para ela devagar, gradualmente. Uma pesquisa aqui, um artigo ali, um projeto de doutorado para dar rumo a tudo. E eu digo para mim mesma que tudo bem se não der, se não der semestre que vem eu tento de novo, em mais lugares, eu preparo melhor esse projeto, eu peço mais ajuda. Tudo bem se não der, eu tinha um mestrado com apenas 25 anos, eu não tenho pressa de nada.

Mas não está tudo bem. Não está tudo bem porque eu não sei separar minha habilidade de fazer tudo certo, de nunca falhar, com meu merecimento das coisas do mundo. E é lógico que eu falho, então é lógico que eu não mereço nada.

Sempre chega um momento nos meus relacionamentos em que eu tenho que contar minha história, listar o tipo de coisa pelo que passei, confirmar a conclusão óbvia de que fiquei cheia de marcas e buracos e pedir que por favor, não vá embora, me dê pelo menos uma chance de conseguir fazer isso. Antes de começar a contar, eu peço uma promessa de que quem me escuta não pode ter dó, por favor, não tenha dó. Eu estou viva e, relativamente, inteira e não importa o quanto tudo pareça horrível, não me olhe como uma pobre garotinha de quem você precisa cuidar, porque isso vai estragar tudo.

Não tenha dó porque isso vai te levar a, inevitavelmente, querer consertar, ou compensar. E eu não tenho conserto. E a ideia de que algo em mim está intrinsecamente quebrado, errado e precisa de conserto é exatamente o que não me tira de onde estou. Sim, algo em mim está errado, sempre esteve, quanto mais eu sei que está, menos eu me sinto merecedora de todas as coisas do mundo. Talvez seja por isso que os anos em consultório de psicanalista nunca fizeram nada por mim: a ideia de conserto de algo que está errado em mim só me faz virar e dizer “viu, tem algo errado em mim, eu sou um monstro e não adianta”.

Eu abandonei as teorias de conserto. Um belo dia eu cansei de me enredar nisso porque parecia cruel demais, parecia apenas uma câmera de tortura feita para confirmar com diagnóstico o que eu sempre soube: há algo errado comigo e eu não mereço nada enquanto isso seguir errado. Gostaria de fundar uma associação dos pacientes que de cada consulta saiam se sentindo piores, mais sem saída, sem conserto e sem direitos do que quando entraram.

Eu não quero que me olhem como algo que precisa de conserto, eu quero aprender a conviver como algo falho, mas que pode existir.

A tentativa de compensação estraga tudo da mesma forma. Porque você não conseguiria me proteger de novas dores, porque você certamente não poderia me proteger de mim mesma. Porque a culpa não foi sua e qualquer tentativa de amor, cuidado ou presença nascida apenas do desejo de amenizar a minha dor seria artificial. Essas coisas não existem para tapar o buraco de ninguém.

Enquanto eu conto essas coisas, meu cérebro corre em uma lista enorme de porque é ridículo meu apelo de que alguém fique, quando eu acabei de lhe dar todos os motivos pra ir. Ele engloba tudo e costura a malha de todas as coisas que eu não consigo, de tudo que seria melhor abrir mão logo e me poupar ao trabalho, até a hora em que eu paraliso e ele respira. Pronto, missão cumprida.

E daí a internet me devolve de volta um dia em que eu consegui tantas coisas.

Um dia em que eu entreguei algo enorme que eu tinha escrito. Algo que ninguém havia feito antes. Um dia em que eu escutei que estava caminhando por um terreno novo, sem ajuda, e lógico que haveria falhas, mas eu estava fazendo parte do desenho de uma linguagem nova. Um dia em que me apontaram que coisas delicadas, complexas e elegante, que um sistema inteiro pode sair da minha mente.

E que, mais que isso, um grupo enorme de pessoas se dispôs a passar frio e chuva para beber comigo. Pessoas que eram minhas amigas há anos, pessoas que tinham entrado na minha vida a pouquíssimos meses, mas uma quantidade gigante de pessoas. Que eu não merecia.

Quando eu peço que alguém fique apesar de tudo que lhe contei é porque justamente eu não mereço. Não há motivos. Não há qualquer motivo. Mas as vezes as coisas subvertem a lógica.

A pequena devolução da internet me lembra que às vezes eu sou capaz de muita coisa.  O que não quer dizer que eu serei de novo. E que eu realmente não mereço nada do que eu tenho.

Mas que às vezes eu tenho.

 

2 comentários

  1. Isadora, fosse um livro meu, estaria devidamente maltratado.

    Eu sei que eu devia era ter vergonha de admitir isso, que alguns amantes de livros quererão reclamara ou olharão com um certo espanto por tamanho descuido aparente, mas não tenho: eu maltrato os livros que eu amo.

    Eu grifo com marca-texto, eu faço orelhas propositais quando essas canetinhas coloridas me faltam, eu dobro páginas, eu os amasso, inevitavelmente sujo de coisas que se encontram dentro da mochila, dos encontros com a chuva no passeio que demos juntos.

    E são os que mais ficam comigo, que me seguem pelos anos, que eu releio.
    Se o livrinho estiver bonitinho demais na minha estante e se ele não é um livro-objeto, vamos dizer assim, não nos apaixonamos o suficiente ou sequer o li.

    Esse texto aí tivesse num livro meu, eu maltrataria.

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