Caçada

Houve muito pouco sangue quando nós acabamos.

Talvez, eu devesse ter atirado seus livros no chão, ou atirado-os contra você. Eu deveria ter amaldiçoado sua contenção, sua ingenuidade, sua hipocrisia. Eu deveria ter gritado quando você me disse que não queria machucar ninguém. Gritado o quanto aquilo não era possível.

E você deveria ter acusado meu cinismo, minha distância, minha crueldade. Você deveria ter desenhado para mim o jogo que eu perdi, a teia que eu mesma não soube fazer. Você deveria ter jogado em mim a minha farsa.

E eu teria rido. Sentado no chão e rido. Sardonica. Histérica. Rido sem parar. Rido do seu idealismo, da sua incapacidade de escolha. Eu teria dito coisas horríveis. Teria eviscerado sua covardia. E você ficaria ali, preso entre o homem que é e a vontade de me fazer parar, de me puxar pelo braço, de me machucar.

Eu sou muito pior do que você, mas você nunca soube. Meu medo de te perder era tanto que eu guardei pra mim a minha língua, a minha mal-criação, o meu hábito de criança mimada de testar até o limite, de dizer coisas que são vazias, mas cruéis, para medir o quanto você acreditaria em mim. E você acreditaria.

Ou talvez houve muito pouco sangue enquanto nós éramos algo.

Se eu fosse outra pessoa, eu teria chorado na sua frente. Eu teria te pedido para ficar. Eu teria pedido uma garantia. Eu teria perguntado o que eu era. Eu nunca quis saber o que eu era, tamanho era meu medo de não ser nada.

Se você fosse outra pessoa, você teria sido menos contido. Menos cauteloso. Você talvez tivesse visto por trás de mim, por trás do jogo. Mas você não era capaz.

Você talvez tivesse me puxado pela cintura e arrancado a minha indiferença. Mas você não o fez.

Outro fez.

Deveria ter havido sangue quando terminamos porque ele segue aqui. Pisado, arroxeado, podre. Eu, pelo menos, chorei, parei de comer, rasguei minha pele, bebi, fui parar na cama de tanta gente que já nem me lembro. E pedi que me batessem. Que me xingassem. Fui para cama de tanta gente que eu nem queria ir. Eu sangrei sozinha, mas sangrei. Eu sangrei você todo, para fora da minha vida.

Mas você não.

Você, às vezes, ainda acha um fio de cabelo loiro, muito fino, enroscado nos seus lençóis. Tanto tempo depois. Você ainda encontra um grampo caído embaixo da cama. As manchas que eu deixei nos seus livros. E eu sigo ali. Assombrando. E você não sangrou.

Primeiro eu me perguntei por que, se era eu que tinha acabado abandonada, nua, ferida e chorando no chão. Você me deixou como quem deixa uma planta, um peixinho dourado, qualquer coisa insignificante da qual não se sente falta. Você me deixou tão facilmente, então por que?

Porque você me levou com você de alguma maneira, não foi? Nas moças loiras e pequenas. Nas moças com desenhos na pele. Nas moças que falavam francês fazendo graça, definidas apenas por aquele adjetivo tão antigo: coquete. Nas unhas que arranharam suas costas.

Porque você foi traído por você mesmo, creio. Porque não foi tão fácil. Mas você não queria não é? Você foi embora como se nada fosse, você sabia que não era nada, você, que sabe tanta coisa.

Você não sabe, como eu, que a razão trai sempre. Sempre. A razão trai a humanidade criando fornos de gente. Ela te traiu com a minha presença nos seus sonhos, nas suas noites em claro, nas suas transas. Ela te traiu em punhetas apressadas que você bateu lembrando de mim.

E agora você me odeia. Porque eu não te deixei. Porque talvez você ainda lembre do meu perfume quando uma menina senta ao seu lado no metrô, mas eu já não me lembro do seu. Você agora me odeia porque eu te arranquei de mim, porque eu, finalmente, te abandonei. Por outro.

Você me odeia porque não pode me odiar. Porque eu nunca te fiz nada. Porque eu não gritei, não esperneei, não fui mimada, irônica, cruel, violenta. Você me odeia pela minha ausência de violência. Eu sei, eu te odiei por isso também.

Se tivesse havido sangue, tudo teria acabado, morrido. Nós teríamos nos ferido até a morte e poderíamos partir, os dois, vazios de tudo isso. Mas só eu me feri, só eu sangrei, só eu expurguei isso tudo de mim. Você não. Você não sofreria por mim. Você foi traído pela sua vontade de sofrer por mim.

Mas eu fui embora. E o que você está fazendo é farejar uma trilha velha, de um animal bem mais selvagem que você.

 

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