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Maré alta

Tem alguns dias em que só resta desistir.

Alguns dias em que você chega em casa, chora um pouco sentada no chão, abre uma garrafa de vinho e desiste.

Desistir é uma gentileza comigo mesma que eu levei muito tempo para adotar. Em outros tempos, eu chegaria em casa e ainda tentaria ler, ver um filme, pelo menos um episódio de série. Eu tentaria fazer jantar, dobrar as roupas, limpar a caixa de areia do gato. E eu falharia em todas essas coisas.

Tem dias em que preciso desistir para não desistir de tudo.

Há dias bons e dias ruins.

Eu repito essa frase para mim quase como um mantra. Eu lembro de todos os diagnósticos em todos os consultórios de psicanalistas. Haverão dias bons e dias ruins, sempre, dias bons e dias ruins. Para sempre dias em que minha química cerebral me passará uma rasteira, em que a solidão vai se alojar no fundo do meu estômago, em que a dor vai corroer meus ossos. Dias em que eu vou desistir. Dias em que existir vai se tornar insustentável.

Nada me incomoda mais do que a inércia, a impossibilidade de fazer qualquer coisa. Eu sempre quero tanto, eu sempre tenho tanto a fazer, livros para serem lidos, textos para serem escritos, novas teorias revolucionárias sobre a análise fílmica a serem criadas. E eu não consigo fazer nada. Minhas mãos tremem, meu cérebro me escapa, minha respiração é mais curta, a comida perde o gosto e tudo que eu coloco dentro de mim parece veneno.

De tudo, acho que o que mais assusta é o efeito no corpo, a neurônios da coisa. Talvez, e eu acredito nisso, tudo tenha a ver com o que eu senti, com minhas memórias e meus pais e a formação de estruturas completamente abstratas na minha mente. Mas nessas horas você percebe perfeitamente que seu cérebro é composto de células, impulsos elétricos e neurotransmissores desregulados. E que isso cai na sua corrente sanguínea e todo seu corpo para de te obedecer porque você não consegue tomar as rédeas do próprio cérebro.

E é um círculo. O descontrole gera pânico que gera mais descontrole que gera mais pânico. A inércia gera culpa, que gera mais inércia, que gera auto punição que gera mais inércia e a bola de ódio e insegurança e medo vai crescendo e rolando, com você, ladeira abaixo.

Até agora que eu grito chega.

Meu momento preferido de toda a literatura mundial é quando Ivan Karamazov conversa com o demônio. Oi demônio, senta aqui, pega um chá, vamos bater um papo. Eu adoraria conversar com os meus demônios. Eu adoraria que eles sentassem no meu sofá, aceitassem uma taça de vinho e falassem comigo. Oi querido, quanto tempo né? Quer dizer, não, na verdade não, ontem mesmo você apareceu aqui e agora não quer mais ir embora, qual o problema? Você não tem uma casa? Por que você precisa ficar aqui?

Às vezes, mesmo que eu saiba que não é assim que funciona, eu preciso fingir que meus demônios são algo diferente de mim, algo separado. Algo que realmente me possuí, como um diabo de filme de terror. Ainda falando em Dostoievsky, o título original de Os Demônios é algo como Os Endemoniados. Os endemoniados, aqueles tomados por um niilismo profundo e a mais completa falta de fé.

Eu gosto dessa ideia.

E se eu simplesmente aceitasse a posessão? Sentasse e esperasse que  o pequeno satã se cansasse de mim e decidisse abandonar esse corpo que não lhe pertence? Será que ele não acharia que está bastante confortável e nunca mais fosse embora?

Esse é meu medo nos dias em que desisto. É esse o pavor que minha inércia traz consigo. De que eu nunca vá me mexer de novo, de que nada disso nunca vai passar.

E não vai.

Porque os dias continuarão sendo bons e ruins e bons e ruins e os ruins são sempre mais intensos que os bons. Então a outra alternativa não seria respeitar meus próprios ritmos? Me conformar com minha tábua de marés?

Quando eu estava em Pipa, fiquei em um hotel na areia da praia. Eu acordava com as ondas na minha janela e estava sempre com meus pés na areia. Contudo, por 4 ou 5 horas todos os dias, eu ficava ilhada. Não podia sair, nem entrar, porque a maré subia e tomava tudo. Aquilo era de uma beleza incomparável, mas como todas as coisas profundamente belas, havia algo de primitivo ali, de indomável.

Eu gostaria tanto de poder domar a mim mesma. Eu gostaria tanto de estar no controle. De não em sentir trancada para fora de mim mesma assim tantas vezes. Mas talvez não me reste mais nada a não ser aceitar? Que os dias bons serão bons e os dias ruins serão horríveis e sempre, sempre existirão dias ruins. Mas talvez eles diminuam e talvez os dias bons se tornem melhores e talvez, só talvez, exista alguma beleza em tudo isso?

Ou eu posso simplesmente desistir.

De mãos dadas com o desastre

Cada vez que eu conto uma história desastrosa eu posso prever a reação: “isso só acontece com você!” ou “nossa, mas você tem tanto azar!” Pode ser sobre perder o passaporte, sobre o dia que o cobrador arrancou os cabos do ônibus elétrico, ou sobre algum homem que foi cuidar dos órfãos da Madre Teresa de Calcutá, ou decidiu se alistar no front rebelde da Ucrânia. Não importa muito. A reação é sempre de uma certa incredulidade misturada a espanto que um único ser humano consiga concentrar tanto azar.

O que muitas vezes meu ouvinte não nota, é que todas essas histórias tem um ponto comum muito óbvio: eu mesma.

Há uma parcela de azar totalmente fora do meu controle e independente da minha pessoa. Eu não teria como causar a greve de maleteiros em Barcelona que me fez dormir no aeroporto e comer sanduíches da cruz vermelha. Eu não poderia impedir o cobrador de ter um dia de fúria em plena véspera de carnaval e parar o funcionamento do ônibus. Mas acho que terminam aí as situações em que o desastre foi totalmente livre da minha influência.

Eu tenho o enorme e incomparável talento de estragar absolutamente tudo em que coloco as minhas mãozinhas.

Eu mesma perdi meu passaporte, isso é óbvio. Eu estava andando pelas ruazinhas de uma cidade cubana depois de ir a um cabaré de travestis, isso também é óbvio. Eu decidi ir passear alegremente por Israel quando o país estava em guerra. Eu que encho a cara e saio largando o celular em bancos de táxi aleatórios. Eu que escolho os homens com quem me envolvo. E sou eu, em última instância, que me envolvo com eles.

Tem isso que já acabou. Ou que já deveria ter acabado. Esse cara que já me disse que não sabe o que quer de mim e eu que já estou nessa vida há muito tempo para saber que se ele não sabe o que quer de mim eu deveria juntar as minhas coisinhas, amarrar minha trouxa e ir embora viver minha vida. Mas eu não consigo. Eu volto e eu volto e eu desencavo e eu analiso na esperança de entender o que deu errado. Na esperança de entender o que eu fiz errado.

Em todas as milhares de aulas de filosofia que eu já tive na vida, eu aprendi que o ser humano tem uma dificuldade imensa em lidar com sua falta de autonomia. Frente a Deus, frente ao destino, frente ao acaso, o que você preferir. O que mais nos angustia, nós, seres pequenos e trágicos, é a falta de controle, é saber que não importa o quanto a gente se bata, tente fugir, se recuse a completar profecias, nós acabamos matando o próprio pai e comendo a própria mãe porque nossos caminhos não nos pertencem.

“He had learned the worst lesson that life can teach – that it makes no sense.” Eu entendo Philip Roth, eu amei Pastoral Americana com toda a força do meu coração, eu entendi seu ponto. Não importa o que se faça, não importa os planos e as tentativas, o acaso morde seu rabo e você cai no abismo que passou a vida tentando fugir.

Mas eu acho mais fácil lidar com tudo aquilo que não fui em mesma que causei.

Não é que o acaso e a falta de autonomia não sejam assustadores. Mas são menos do que a culpa. Menos do que a consciência de que eu sou sempre portadora do meu próprio desastre e, ainda assim, não posso impedi-lo.

Eu talvez conseguisse deixar ir alguém que simplesmente não me quer. Eu não consigo soltar alguém que eu fiz não me querer. Eu não consigo parar de voltar em todas as falas, todos os gestos, todas as vezes em que eu contraí meu corpo para fora dos braços dele e o afastamento lento, gradual que eu nunca poderia julgar. Eu nunca poderia acusá-lo da autopreservação, eu nunca poderia dizer que ele estava errado de se fechar para mim quando eu parecia tão fechada para ele.

Mas eu não consigo parar de me culpar. Meses depois, eu não consigo parar de me acusar de tudo que eu causei, tudo que eu fiz ir embora.

Não é porque eu queira ele de volta. Isso me dói muito menos do que a responsabilidade. O que eu perdi é mais facilmente aceitável do que como eu perdi.

Eu baixo a guarda então. Eu hoje noto cada vez que minha mão quer fugir de um toque, cada vez que quero escapar aos dedos nos meus cabelos. Não escapo. Todos os dias eu escolho não fugir e não fujo. Não minto. Eu vou ficando porque eu só não quero ser a culpada.

Mas quais as chances de que eu não estrague? Se eu percorri minhas mãos por você, eu transformei tudo isso em um desastre.

Eu sei desde já dos gritos, do choro e da dor. Da destruição que eu vou deixar pra trás quando eu for embora. Da corrupção e da loucura que ele nunca pensou em ter e eu trouxe para sua vida. Da impossibilidade de que ele saia disso inteiro, inocente.

Eu finjo que não sei. Eu finjo que posso fazer diferente. Eu falo da amargura brincando, como se eu estivesse sendo irônica. Eu aviso, mas nunca a sério, do desastre que posso causar.

Eu não quero ir embora. Mas eu devia.

Mas ano que vem eu não morro

Existem anos épicos na vida. Anos que, se um gráfico de intensidade fosse feito, extrapolariam qualquer medida e seriam aquele cume muito bem delineado, o everest da história dos anos. 2014 foi esse ano para mim.

Eu sei que tenho dezembro quase todo. Sei que é cedo para esses posts clichês de balanço. Mas foi tanta coisa que eu não posso mais com esse ano e tudo que me sobra é puxar o freio um pouco antes, entender que para mim ele já acabou.

2014 foi o ano que começou com alguém dizendo “eu queria uma taça de espumante” e uma taça de espumante magicamente sendo posta na mão dela. Foi o ano dos desejos realizados. Nas primeiras horas de 2014 eu estava no topo de um cortiço/mansão em Havana, vendo a cidade toda lá do alto, completamente bêbada e pensando que eu não tinha a menor ideia de como tinha ido parar lá. Não naquela noite, embora isso também. Mas na vida. A minha vida, de alguma forma, tinha me levado a ser a pessoa no topo de um cortiço/mansão decadente cubano e seja lá como isso tivesse acontecido, eu estava satisfeita.

A primeira lição desse ano foi: eu não sei bem como cheguei aqui, mas eu cheguei em algum lugar e eu gosto dele.

Uma das primeiras coisas que fiz em 2014 foi ser roubada em um país socialista e participar de uma reconstituição criminal. É bastante coisa que um ano que já começou assim tenha só sido ainda mais aleatório ao longo dos outros doze meses.

Em 2014, eu: defendi um mestrado, visitei 14 países, perdi meu passaporte, cruzei a fronteira entre a Sérvia e a Bósnia e sobrevivi, me engracei com um bósnio, um austríaco, um australiano, um mexicano, um luxemburguês e um americano. Eu visitei o túmulo do Bergman. Eu vi a ponte de Praga iluminada sob a chuva e eu me apaixonei quase a primeira vista. Eu tive três empregos. Eu comecei um vlog. Eu decidi entrar no doutorado. Eu me joguei de um penhasco. Eu quase fiquei louca.

Não é um exagero, não é uma figura de linguagem. A dor que eu vinha guardando em mim por 25 anos de repente estourou, me sufocou, envenenou todo meu sangue, minha fala, minha pele. Minhas mãos começaram a tremer sem parar. Eu passei 56 horas sem dormir. Meu cabelo começou a cair. Eu deixei de comer. Eu quis, de verdade, morrer.

E então um dia eu entrei pela sala do meu analista e anunciei que ia embora, que eu ia embora senão ia morrer. Que eu não queria ficar ali para ouvir os diagnósticos dele, que eu queria ir embora. E chorei sem parar por quase uma hora. Ele assentiu com a cabeça, me deu três meses de receitas e me deixou ir embora.

E eu fui. Sozinha. Sozinha com toda a dor e a loucura e o medo que tinha em mim. Foi uma aposta alta. Uma aposta que eu não tinha a menor certeza.

Mas eu voltei. A minha dor voltou comigo. Mas a minha loucura não.

Em algum ponto entre o sul da França e a Escandinávia eu achei meu centro. Eu descobri quem eu queria ser. Eu lembrei das luzes de Havana se espalhando lá embaixo e me lembrei que eu ainda não tinha ido a Índia. Eu não poderia morrer antes de ir pra Índia.

Quando eu voltei eu decidi que metade das minhas roupas eu já não queria, eu cortei o café, eu voltei a dançar, eu mandei consertar minha bicicleta. Eu desenhei na minha pele a lembrança de que eu preciso ficar. E eu lembrei da sensação do lugar onde eu queria estar.

2015 eu começo em casa. Com as pessoas que são minha casa. Com meus pés na areia e todo amor do mundo. Eu quero, embora não saiba se consigo, colocar pontos finais em histórias que eu já não posso mais carregar comigo. O começo de 2015 não me promete o melhor dos mundos, daqui, ele é o ano que já começa com meu coração partido. Mas agora eu acho que tudo entrou no lugar suficiente para que ele não carregue todo o resto de mim junto. Para que ele não rache as estruturas.

Eu não sei disso, eu só acho.

Eu quero viajar de novo. Eu quero ir a Ásia. Eu quero entrar no doutorado. Eu quero escrever um livro. Eu quero o mundo.

Mas mesmo que eu consiga tudo que eu quero, nunca seria um ano como foi esse. 2014 foi meu melhor ano. Porque eu quis morrer, mas não morri. Porque se eu chegar a todas as vinte milhões de coisas que eu ainda quero é porque, nesse ano, eu não morri.

Passados três meses eu não fui buscar outra receita. Eu voltei a dormir. Eu voltei a comer. Meu cabelo cresceu e eu não quero cortá-lo até o limite do socialmente aceitável. Eu entendi a dimensão do inferno dentro de mim, mas eu desisti de tentar mantê-lo a portas trancadas. Eu estou aprendendo a conviver com meus demônios, fazer amizade com eles,  quem sabe jogar umas partidas de xadrez.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Em Praga chovia sem parar

Eu acordo nos domingos de manhã, faço um chá e abro o Post Secret. É sempre a primeira coisa que eu faço, é em parte porque acho o projeto bonito e poético e em parte porque ele me lembra que não sou só eu que lá no fundo sou um monstro de ser humano.

Hoje havia um segredo escrito em uma foto da ponte de Praga. É um cartão postal que pode, muito possivelmente, ser igual algum dos que eu mandei de lá. A ponte empoeirada, sob uma luz amarela claramente artificial, aquele photoshop gritante que gostam de usar em cartões postais para fazerem cidades parecerem mais bonitas e mágicas quando no fundo, já são muito bonitas e mágicas sem esses efeitos horrorosos.

A ponte de Praga, por exemplo, é mais bonita durante a noite. “Talvez seja a cidade mais bonita que eu já estive”, você me disse. Eu não conseguia decidir entre Praga, Budapeste ou Paris (você ainda não tinha chegado em nenhuma dessas, me pergunto qual sua opinião agora), mas acabei concordando porque um relógio astronômico não é algo que se ignore.

Então me irrito porque fazem quase dois meses e não é possível que eu ainda saiba seu nome ou o tom de azul dos seus olhos. Sobre a imagem da ponte, o cartão dizia “uma das coisas mais difíceis da vida é ter palavras no coração que você não pode dizer”, é uma obviedade e uma constante. Se eu fosse mais romântica talvez me permitisse pensar que esse cartão podia ser seu. Mas se eu fosse dessas eu teria me permitido te pedir um email, eu teria te escrito que talvez você seja a pessoa mais interessante que conheci e é claro que isso é fácil quando se está em Praga e chove sem parar e não temos tempo de realmente estabelecer um relacionamento.

Você me diz que, quando te perguntarem de Praga, o que você vai lembrar é que chovia sem parar e você conheceu uma mulher linda. Eu ri, disse que contaria para minhas amigas que conheci um cara e ele me levou para ver a ponte iluminada a noite e muito romântico até a hora que começou a chover e eu acabei pegando uma gripe. “So much for romantism” eu disse e você riu e deu de ombros e pegou minha mão, estava tão pouco dado a romantismos e ilusões quanto eu, talvez menos.

Eu espero que você tenha esquecido na verdade, apesar desse diálogo bonitinho. Eu espero que você não lembre mais meu nome, nem mesmo que era um nome de bailarina, nem do tom de verde dos meus olhos e muito menos que eu usava batom vermelho e vestido florido.

Que não esteja, quase dois meses depois, escrevendo qualquer tipo de carta para alguém que não vai ler. Faço muito isso aqui. Uma vez um amigo meu me disse que nunca tentaria ficar comigo porque não queria acabar post de blog, mas você não sabia disso, que ia acabar post de blog, embora eu tivesse te dito que escrevia. Que escrevia e publicava as coisas, ou mandava para o editor, sem ler de novo mais do que uma única vez para pegar erros muito óbvios, se eu reler muito, se pensar demais, nunca escrevo nada. Você me disse que nunca seria capaz. Eu disse que então cabia a mim um dia escrever um livro, ou fazer um filme, sobre você e te encontrar em uma leitura em Nova York e você gosta dessa ideia, gosta desse filme, diz que vai ficar atento para coisas feitas por jovens brasileiras. Não lembro mais por que você me fez dizer o nome de alguns escritores brasileiros para anotar e eu contei de quando conheci um deles em um bar. “Você é fascinante”, você me diz e eu digo que vou pegar outra cerveja antes que lembre demais do tom dos seus olhos, antes que saiba identificar em que ponto exato de uma escala cromática entre azul e verde eles estão.

Mas eu lembro. E lembro das rugas em volta deles e me intrigo porque nunca te perguntei sua idade e percebo que não conseguiria dizer. A mesma que a minha, talvez? Ou mais, você só parece novo exceto pelas pequenas rugas em volta dos olhos? Às vezes me sinto culpada porque não demos atenção para as pessoas no bar, era minha amiga afinal de contas, mas eu estava tão absorvida por você, não me lembro a última vez que alguém fixou minha atenção desse jeito. Nunca, talvez.

“Você sequer anotou o nome dele?” Não, nem um nome inteiro, nada, absolutamente nada. Eu não sei quantas vezes desejei ser menos prática, menos cínica, menos desesperançada e realista em matéria de relacionamentos. Ou mais. Mais o suficiente para dois meses depois não lembrar de você por causa de um postal. Como se eu não lembrasse dia sim dia não. Como se eu não lembrasse sempre. Mas eu espero de verdade que você tenha esquecido.

Noite passada foi a madrugada mais curta do ano

Em algum momento você me pediu desculpas porque tinha fumado demais, estava com gosto de cigarros. “Não tem problema”, eu disse. Queria ter dito “eu gosto de gosto de cigarros. Gosto ainda mais do gosto de cigarros diferentes dos meus, mais fortes que os meus. Eu gosto de como o cheiro de fumaça mistura com o perfume, nunca mistura da mesma forma, mesmo em homens que usam o mesmo perfume e fumam os mesmos cigarros.”
“Eu gostaria de acreditar em algo, como aquele homem saindo agora da igreja”, você me diz. Eu concordo, eu também. Invejo as pessoas que vejo beijarem as portas das catedrais ortodoxas, invejo os homens que batem a cabeça até sangrar no kotel, invejo esse homem saindo da igreja as 5 da manhã, em uma madrugada gelada do verão em Sarajevo.
Invejo as pessoas menos conformadas com a ordem do mundo. Menos conscientes de que uma madrugada de verão é só uma madrugada de verão. Menos lúcidas e racionais quanto a insignificância das coisas. Pessoas que teriam por 5 segundos achado que valia a pena anotar seu nome inteiro.
Eu não anotei. Mesmo bêbada, vendo o sol nascer nas ruas de uma capital europeia, há um tipo de ilusão que não me permito. “E se nós ficássemos mais uma noite aqui?” Você me pergunta, sem qualquer pingo de seriedade. Eu sorrio, solto da sua mão, examino os furos de bala nas paredes de um prédio, me viro e respondo “e se nós fossemos para o meu quarto agora?”
Drina, você me contou, é o nome de um rio. Também é a marca de cigarros que você fuma quando está na Bósnia. Ivo Andric escreveu um livro chamado a ponte sobre o Drina. Interrompo, comprei um livro dele uma vez, ainda não li, mas não é esse. Esse é realmente muito bom, você me diz, e você costuma ser exigente com as coisas, os livros que lê ou as meninas que beija no meio da rua, então eu deveria confiar.
Rio. Mas não, o que eu comprei se chama “The Damned Yard”, provavelmente porque me lembrou graveyard e tenho uma certa obsessão com cemitérios. Não faz sentido, você diz. Não, não faz, eu sorrio de novo, balanço a cabeça em negação por trás do copo de cerveja e então trago meu próprio cigarro, que é só o último marlboro light de um maço escrito em húngaro.
Você gosta do meu sorriso. Reparou em mim porque eu ria alto no meio da rua e batia palmas como uma criancinha. “You smile like you mean it”. Rio mais ainda, digo que isso é uma música do The Killers. Que banda ruim, você diz, rindo. Concordo, rio de novo. Você não ri tão fácil quanto eu, mas gargalha quando o americano que anda com a gente imita um inglês aristocrata. Eu não consigo dizer porque é tão engraçado, mas nós dois concordamos que é terrivelmente engraçado e não conseguimos parar de rir.
Concordamos também que The Killers é uma banda ruim. Você pergunta se gosto de jazz, não, não gosto, mas ouvi você e o americano falando sobre um bar de jazz e podemos ir. Vamos e no telão tem Tina Turner, voz e cabelão, no auge dos anos 80. Desconfio que o lugar tenha sido um bunker nos anos 90, também desconfio que saímos sem pagar. Você pede uma cerveja preta, diz que preciso experimentar e pede uma pra mim, também pede um copo de rakia. Pergunta se já provei rakia, sim, conto do meu aniversário na Capadócia, de como fiquei amiga do garçom e virei uma dose de raki, que me disseram, é a mesma coisa,
Sim e não. Sim, mas eu preciso provar o desse lugar. Dou um gole do seu copo, é melhor sim. Você se vira e me beija de repente, muito rápido, antes que o gosto da bebida tenha a chance de sair da minha boca. Gosto disso. Quando você faz isso, decido que quero te levar para cama.
Também decido que quero te levar para cama porque é isso que isso é. Sexo. Porque quero mandar mensagens contando como transei com um bósnio, não como passei uma madrugada inteira trocando de bares e me perdendo pelas ruas de Sarajevo até o sol nascer.
Quando fui comprar cigarros hoje vi um maço de drinas. Quase comprei apenas para lembrar do gosto. Percebi que nem te pedi para experimentar um. Seria um gesto inofensivamente poético, comprar cigarros da marca que o moço da noite passada fumava. O que não vou ver de novo e não me permiti, nem por um ínfimo tempo, imaginar que seria diferente.
Quando o sol começou a nascer, você se espantou. O jogo começou meia noite, que horas você achou que seriam? Tempus fugit, você me diz. Time flies, eu traduzo, mais para mim mesma, enquanto estou muito compenetrada lendo sobre o bombardeio a essa rua. E se nós ficássemos mais uma noite em Sarajevo? E se fossemos para o meu quarto agora?

Um maço de marlboro lights, por favor.

There’s too much love to go around these days

Há pouco mais de duas semana longe de casa, há nem sei quanto tempo longe daqui, eu começo a querer escrever nos meus postais: “me desculpem, eu fugi”

É uma fuga glamurosa, sem dúvidas. Escrevo isso sentada em um trem italiano e por uma janela vejo campos de trigo, pela outra o Adriático (ou seria o mediterrâneo? Mediterrâneo é meu mar preferido, em parte porque ele não tem a mesma cor dos meus olhos e não me lembra da minha própria inconstância). Mas uma fuga é sempre uma fuga e há sempre um gosto amargo lá no fundo da boca.

Estou feliz, claro. Estou mais feliz do que me lembro de ter estado nos últimos 9 anos.

Não, mentira. Estive tão feliz assim em praias da Turquia e estive tão feliz assim mais perto de casa também, é dessa lembrança que eu fugi.

Eu fui embora porque podia ir, foi fácil ir embora, pouca coisa (para não dizer absolutamente nada) me prendia em casa. Mas eu teria ido mesmo que precisasse revirar tudo e desmontar minha vida. Era isso ou ficar louca.

Ainda não sei se vai me impedir de ficar louca, a razão é algo muito frágil, afinal. Há essa frase em Através de um Espelho que gosto muito “é horrível ver sua própria confusão e entendê-la.” Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald, Virginia Woolf falaram disso: pior do que perder a razão é o momento anterior, a consciência muito aguda, perfeitamente clara e lúcida de estar perdendo o controle.

Eu perdi o controle.

Sobre mim mesma, sobre a minha mente, sobre o efeito que os outros tem sobre mim, sobre o que era real ou não.

É como se eu vivesse muito perto das portas do inferno e elas estivessem muito mal fechadas. As vezes eu simplesmente não tenho mais forças e deixo abrir.

No museu Rodin eu vi as portas do inferno. Um milhão de pequenas figuras de bronze torturadas, retorcidas, seus rostos repletos de agonia. Gosto da palavra agonia, acho preciso e interessante o conceito de algo que está em processo de morrer, sentindo a vida se esvair de tal forma que a morte parece uma benção. Uma misericórdia ao menos.

A agonia é pior do que a morte. Pior do que a loucura completa.

Acho irônico quando esses textos surgem, quando eu deixo de lado a ironia e as gracinhas e torno público algo brutalmente honesto. Eu faço tanto esforço para esconder a agonia. Já citei Bergman, então estou liberada para citar Game of Thrones, existe um episódio em que o Tyrion vira para o Jon Snow e o aconselha a vestir a falha como uma armadura. Ninguém nunca vai esquecer quem você é, dói menos se você lembra primeiro.

Eu não posso me livrar do tormento da minha própria cabeça, então eu a visto como uma armadura. Eu faço tipo, eu rio irônica, eu faço um charme de fazer péssimas escolhas e ter uma tendência a pouca autropreservação como se fosse uma escolha. Não é. Eu bebo como se não tivesse medo da minha relação com o álcool. Eu tenho.

Eu fujo pra Europa quando minha vontade era fugir pro fundo do mar. Muito literalmente, mais de uma vez.

Eu fujo sozinha, não passo mais de 5 noites no mesmo lugar, saio de manhã muito cedo sem me despedir. Eu preciso fechar feridas que a proximidade com os outros alimenta. Eu preciso do isolamento para costurar devagar os meus pontos. Pelo menos eu costuro bastante bem, se me dão o tempo.

Eu falei sobre isso aqui já, sobre a tendência que temos de esquecer que cicatrizar é um processo, da mesma forma que eu talvez não deva beber após uma intoxicação alimentar, eu não deveria ter chegado perto antes das coisas fecharem.

Sendo sincera, tenho poucas esperanças de realmente fecha-las, mas se pararem de soltar sangue e pus amarelo repugnante, já é alguma coisa.

Ao mesmo tempo me sinto egoísta, me sinto quase culpada que eu precise me afastar de todo tipo de proximidade, não só daquela que é nociva. There’s too much love to go around this days. Há muito amor, eu nunca consegui agradecer com a sinceridade merecida a todo mundo que realmente foi ser feliz comigo no frio e na chuva.

É por isso que minha vontade é pedir desculpas. Desculpas por não sentir falta, não ainda, por não querer voltar pra casa, embora eu ache que vá. Guardo a pequena possibilidade de não no fundo do meu cérebro como um torturado que guarda um pouco de veneno.

No fundo ele não quer morrer, no fundo eu não quero ir embora assim. Não fugida, não dessa forma. Não como quem se levanta e se veste muito silenciosamente e parte deixando para o outro apenas uma cama ainda quente.

Quando eu for, eu não quero fugir. Há uma tremenda teimosia nessa decisão, a teimosia de prova-los errados e de não ser como ele, não ter tanto medo, não ser tão covarde. Nós somos terrivelmente parecidos, é claro, nós fomos almas gêmeas, mas eu não quero.

Em algum lugar, deuses gregos riem de mim. Moira, eles dizem. O quinhão que me cabe. Se o quinhão que me cabe é fugir, então eu vou apenas rodar e rodar e acabar como Édipo. Cego por ter tentado fugir da própria tragédia.

As vezes acho que quero me consolar da dor transformando-a em tragédia. Outras, creio que todo ser humano é trágico e pego um livro do Philip Roth em busca de confirmação do velho amargurado e misógino. A literatura dele é exatamente sobre isso, o que há de trágico no que é cotidiano e ordinariamente humano.

Pastoral Americana é a tragédia de querer ser normal. Complexo de Portnoy a tragédia (uma tanto engraçada) do desejo.

Me pergunto se estou condenada a um velho detestável e mocinhas que escreveram sobre estar nas raias da loucura.

Depois de pouco mais de duas semanas de fuga, eu sinto o controle voltar. Minhas mãos pararam de tremer, eu parei de chorar de forma convulsiva, eu voltei a dormir, eu diminui os cigarros, eu bebo um pouco menos. Eu fui capaz de dizer para mim mesma que não entraria em pânico e não entrei. Sentir que cérebro e corpo são uma coisa só é uma sensação reconfortante, nunca a subestimem.

Eu falo devagar porque tenho medo das minhas palavras. Eu ainda tenho meu corpo tenso porque tenho medo dele, da determinação em se ferir que ele tem as vezes.

Já que tenho nome de bailarina

Na Mostra do ano passado, vi um filme grego chamado Todos os Gatos São Brilhantes (melhor nome, sim, eu sei) que era sobre uma moça com um pouco menos de 30 anos, um diploma de artes de uma faculdade importante, mas que não sabia bem o que queria da vida. Não que ela não pudesse ir estudar fora, ou ser indicada pra um trabalho na faculdade ou em alguma galeria pelos pais, professores universitários, ela só não sabia se era isso que queria.

Ela vai flutuando pelo filme, vagando pela vida dela, sendo  babá de um garotinho fofo, encontrando pessoas e desencontrando como se estivesse apenas se deixando levar. Na cena final, que eu procurei no youtube, mas não consegui encontrar, ela está em uma festa e começa a dançar, um pouco tímida, um pouco desconfortável, olhando para fora e tentando entender o que os outros estão fazendo. Até que ela entra por completo em si mesma. Fecha os olhos e balança a cabeça e dança, só dança, sozinha, imersa na música e nela mesma.

Gosto muito desse final e dessa metáfora sobre encontrar seu próprio ritmo.

Me lembra a cena da festa em Azul É a Cor Mais Quente  que resume tudo que eu mais gosto no filme: um espectador da vida, a câmera que observa, silenciosa, a Adele. Eu disse algumas vezes que gosto mais do título francês, La Vie D’Adele, porque resume mais o que é o filme, o estudo, o registro miuncioso e obsessivo, da vida de alguém. Não é sobre a relação das duas moças, é sobre perseguir obsessivamente uma delas.

Eu gosto dessa cena mais do que de todo o resto do filme (que, não me levem a mal, eu gosto muito!) porque resume esse espírito que me interessa muito. Ela está sozinha, em um misto de feliz e desconfortável, sexy, entregue. Consigo imaginar a Adele Exarchopoulos ignorando a câmera, as luzes infernais, o set de filmagem, tudo, e só dançando.

Poucas coisas te permitem um isolamento tão grande do mundo exterior quanto dançar.

Eu faço aulas de dança moderna e enquanto improvisamos, a professora pede diversas vezes para que a gente tome consciência umas das outras ou, ao contrário, para que cada uma se desligue da sala. `As vezes fechamos os olhos e temos que ter consciência do movimento externo. É uma sensação muito estranha de estar presente e ausente, junta e sozinha. Quando ela pede por uma composição, que cada bailarina preste atenção na outra, responda e interaja com a outra, sem perder sua vontade de movimento, eu tenho a sensação que queria meus relacionamentos assim.

Queria meus relacionamentos como aulas de dança moderna em que meu movimento é meu, só meu, expressão do que eu quero, sinto e penso naquele momento, mas ao mesmo tempo preciso olhar para as outras meninas na sala. Às vezes vou em direção a elas, as vezes recuo, respondo, encaro, às vezes rodamos uma em volta da outra, brincamos de seduzir. Tem na aula uma menina que deve ter seus dezessete anos, é alta, magrinha e tem os cabelos muito compridos e eu acho terrivelmente sexy. Imagino que ela nem saiba, que quando ela descobrir talvez se torne menos, mas fico completamente fascinada com a elegância dos movimentos dela, com a entrega, com o mundo só dela em que ela entra quando dança.

Sempre saio das aulas de dança moderna me sentindo também terrivelmente sexy. Algo a ver com a consciência do próprio corpo, com utiliza-lo como expressão, com a busca por uma organicidade. “Vocês tem que ser meio bicho”, não cansa de repetir minha professora. Tenho achado essas aulas a melhor decisão que já tomei, poucas coisas me ensinaram tanto sobre o que é a arte (ouviu bem Argan???)

Domingo fui sozinha ao show do Au Revoir Simone e em algum momento me peguei dançando como Elektra (a protagonista de Todos os Gatos São Brilhantes) ou Adele. Sozinha, jogando meu cabelo de um lado para o outro me importando pouco, na verdade, me importando nada, com tudo que não fosse eu. Foi um dos shows mais felizes, mais adoráveis que já estive. Três meninas lindas, fazendo dancinhas queridas e aquele som um pouco de sonho. O que eu mais gosto em sintetizadores é o som que não parece de verdade, que não vem de nenhum instrumento de “verdade”.

Me lembro quando era criança e tinha aulas de música na escola, uma vez tivemos aulas sobre instrumentos e eu aprendi o que era um sintetizador. As crianças insistiam em dizer que o sintetizador estava imitando algum som: “agora é som de piano/agora de gato/agora de chuva” e a professora dizia “não é som de nada, é som de sintetizador”.

Quero uma banda de synth pop. Quero uma banda de som que não é de verdade e que faça shows onde as pessoas podem balançar a cabeça, dançarem sozinhas e esquecerem que há um mundo em volta.

A entrega da dança é diferente de quando me trancafio em mim mesma. A entrega da dança é entrega mesmo, é como se eu me puxasse pela mão, suave, gentilmente, e me levasse para dentro de mim com suavidade. O eu que encontro na dança é um eu que eu gosto, é um eu que se move com graça, que cria algo interessante, que pode ser olhado sem repulsa. Acho curioso que durante toda a vida, o ballet da infância, o sapateado, o ballet agora, a dança moderna, eu ouço das professoras que tenho leveza. Que posso errar, não ser tecnicamente tão boa, mas que salto sem fazer barulho, que me movo como se não pesasse nada e isso tem pouco a ver com peso corpóreo. Muitas vezes, a professora de moderna me pede para ter peso, porque não tenho.

Nunca quis ter peso, não é mesmo? Vou tatuar uma âncora próxima ao pé para me lembrar de ter, para me lembrar de voltar.

Eu não quero voltar.

Eu estou indo embora em 9 dias. Sozinha. Estou indo ver o mundo, mas mais que isso, estou indo ver a mim mesma. Estou indo passar tanto tempo comigo mesma que não vou ter opção a não ser parar de me odiar. É um tratamento de choque. Não sei se vai dar certo, não sei se posso sair por aí tendo a mesma sensação que quando danço sozinha. Acho tão irônico que eu me odeie tanto e ao mesmo tempo me recuse tanto em perder, queira me agarrar tão fortemente ao que eu sou, quero meu movimento, minha dança, mesmo que ela olhe para o outro, quero que seja minha.

Acho que o arranjo mais delicado do universo, mais que qualquer jogo de moléculas, ou átomos que forme uma nebulosa, é esse entre eu e o outro. Entre minha dança e do outro. É saber que há alguém ali, compondo comigo, mas ser minha mesmo assim. Três anos atrás eu achei que era minha outra vez, mas não era. Estou indo ver se descubro como se faz. Estou indo ver ser aprendo a ser sozinha o suficiente para poder ser com outro.