Esperando ser salva por um filme do Antonioni

Existe um livro chamado “Imagens” em que o Bergman revisita, explica e analisa toda a filmografia dele. Na minha edição colocaram como prefácio um texto que o Woody Allen escreveu quando o Bergman morreu e que chama “The Man Who Asked Hard Questions”. É um texto maravilhoso, doce, completamente apaixonado e que toca exatamente nas questões difíceis que o Bergman perguntava.

Mas teve uma frase, logo no início, que vem me assombrando há uns dias. Sem anunciar, sem preparo, quase com um soco (porém um soco delicado, o texto todo é delicado) no seu estômago, o Woody Allen diz “in the end, you’re art doesn’t save you”.

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O que ele quer dizer é que não importa quantas coisas sublimes você faça (e ele reforça que o Bergman fez muitas coisas sublimes) você continua mortal, humano, falho, vulnerável, etc, etc, etc. Ele ri na cara da noção de que obras de arte são um caminho para a imortalidade, imortalidade é não morrer, ele diz. Por mais que suas obras fiquem você vai, foi, não faz diferença que elas ficarão na hora que você tem que se conformar com a sua finitude.

Essa frase vem vivendo como um demoninho de desenho animado no meu ombro há tanto tempo porque eu espero, eu sempre esperei, que a arte fosse me salvar. Não da mortalidade exatamente, mas da dor, da loucura, dos abismos, da incompreensão.

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Eu mantenho diários desde que me lembro e se alguém me perguntar para que a resposta vai sempre ser “para não ficar louca”. Eu sempre tive a sensação de que se algumas coisas não saíssem de mim, se eu não ordenasse meus pensamentos fora de mim mesma eles iriam me consumir, virariam uma bola desforme e intragável dentro de mim e eu nunca mais conseguiria funcionar direito. Eu mantenho diários porque sou uma pessoa que tem medo, efetivamente tem medo, de um belo dia ficar louca.

Eu escrevo aqui porque quero me comunicar. Eu escrevo aqui como um pequeno grito que espera uma resposta de “você não está sozinha”, eu faço todo esse overshare das minhas neuroses e dos meus medos e de mim mesma porque eu espero as respostas que de alguma forma digam “eu te entendo, eu posso entender, eu te ouvi”. Parece estúpido gritar coisas para a internet quando eu tenho tanta gente em volta de mim, mas eu tenho (de novo, sempre tive) uma dificuldade enorme em dizer as coisas. Eu gosto de escrever, eu gosto do papel (ou da tela, que seja), eu uso o jeito que eu sei.

Eu escrevo ficção, ensaios, coisas que existem fora daqui por uma mistura dos dois motivos anteriores.

Eu escrevo, eu faria filmes, sempre como uma forma de externar o que me consome e pedir para que alguém ouça, entenda e, sim, me salve.

Eu faço “arte” (muitas aspas aqui) porque eu quero ser salva.

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Ao mesmo tempo eu leio tanto, vejo tantos filmes, ouço tantas músicas porque eu também espero encontrar ali aquela centelha de compreensão, aquela mão, uma corda. Eu tenho um texto aqui no blog de que gosto muito, sobre quando eu redescobri Nick Cave, sobre como eu chorei ouvindo aquelas músicas mesmo que no fundo eu estivesse bem. Eu chorei porque a voz dele teve quase o efeito de um aquecedor nas minhas entranhas, de algo que me aqueceu e derreteu um gelo que eu estava tentando criar. Eu chorei porque me senti menos sozinha.

É um clichê repetido por qualquer adolescente de 14 anos e é estúpido, eu sei que é. Mas eu ainda acho que se repito vezes suficientes as frases iniciais de The Bell Jar eu consigo me livrar do sentimento de estar “very still and very empty”, como se a Sylvia Plath ter vivido e escrito sobre isso pudesse me livrar da minha própria depressão, melancolia, eventual vontade de morrer.

Não pode, é o que o Woody Allen está me dizendo. Não importa quantas vezes eu vi Annie Hall naquela semana, eu ainda tive que terminar um namoro, e tudo que ela passou não evitou que eu passasse pelas mesmas coisas. Fez eu sair da minha bolha de egoísmo e me conformar que eu não era a única, que tudo ia ficar bem eventualmente, mas não me livrou das coisas pelas quais eu precisava passar.

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Eu ainda não me conformei muito com essa frase, eu ainda quero bater o pé, escrever uma carta para o sr. Allen e dizer “escuta aqui, mas é claro que a arte salva!”, mas não salva e a prova disso é o quanto essa afirmação me incomodou. A arte preenche vazios e isso ajuda, ela serve de abraço, consolo, empurrão para fora de nós mesmos. Mas ela não salva.

E eu, que tão ingênua espero que a arte vá me salvar de tudo que eu tenho medo dentro de mim sei muito bem que qualquer arte que presta só vai me empurrar mais ainda para tudo isso.

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2 comentários

  1. Não salva porque salvação não existe, mas ajuda um bocado. A arte, eu digo.
    Blog legal. Cê tem bom gosto. Se um <> tem alguma serventia, aí está: oi, achei legal, continue escrevendo.

  2. Não salva porque salvação não existe, mas ajuda um bocado. A arte, eu digo.
    Blog legal. Cê tem bom gosto. Se um “oi, achei legal, continue escrevendo” tem alguma serventia, aí está: oi, achei legal, continue escrevendo.

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