Karma, tragédia grega e Philip Roth (ou Ozzy Osbourne sabe das coisas)

Eu acredito em pouquíssimas coisas nessa vida. Não acredito em Deus, não acredito no amor, não acredito na felicidade, não acredito nas pessoas, acredito apenas em álcool, extraterrestres e karma.

Um dia eu estava na Flip, na fila do autógrafo de já nem sei mais que autor, quando um daqueles hare krishnas que concorrem cruelmente com a venda de livros élficos me perguntou se eu conhecia o karma. Quis responder: “conheço e it’s a bitch”.

Me perdoem os verdadeiros estudiosos da coisa, sei que o princípio é que tudo que vai volta, que se eu for um ser humano bom, iluminado e evoluído as coisas vão melhorar. Sei também que estou muito longe de ser um ser humano bom, iluminado e evoluído, sou irônica, cínica, sarcástica, mentirosa, bêbada, irresponsável e talvez já tenha roubado um cd deliberadamente em uma lojinha alternativa de Curitiba e portanto é claro que recebo minha cota de desgraça, mas, às vezes, é muito difícil não acreditar em um princípio de retorno rancoroso e vingativo.

Ao menos é mais fácil do que acreditar que o universo é só um monte de partículas desgovernadas se chocando aleatoriamente e tudo não passa de uma enorme coincidência. Que é o que eu realmente acredito.

É mais fácil acreditar que as energias do universo se movimentam para me punir. Que em alguma vida passada eu fiz pole dance na cruz, lavei calcinha na tábua dos dez mandamentos, trepei na mesa da santa ceia, sabe-se lá. Por incrível que pareça, é bem melhor acreditar que eu mereci de alguma forma todas as coisas que acontecem comigo.

Meu orientador uma vez disse que acaso é a palavra que os pós-modernos usam para destino. Aquele destino trágico, grego, que diz que Édipo pode correr o quanto quiser, vai acabar comendo a mãe e matando o pai. Eu adoro o conceito grego de moira, destino, mas mais precisamente “o quinhão que me cabe”. Aquilo que me cabe nesse mundo, nessa vida, nesse universo. Aquilo que me cabe pode ser destino, mas pode ser acaso, porque o destino é absolutamente aleatório. Destino não é karma, Édipo não fez nada para merecer a tragédia que lhe caiu. Foi um capricho, dos deuses, das moiras.

Em American Pastoral, Philip Roth escreve a frase que talvez seja a coisa mais genial que já li em toda literatura (seria mais chique se eu disse que a frase mais genial que já li fosse de algum autor russo, francês, sei lá, mas não é, é do senhor Philip Roth que fala de morte e sexo e acaso): “He had learned the worst lesson that life can teach – that it makes no sense. And when that happens the happiness is never spontaneous again.”

A vida, meus amigos, não faz sentido. Não há plano, sistema de retribuição, ou forma de melhora-la sendo uma pessoa boa, iluminada e evoluída. A vida é tragédia grega e às vezes lhe cabe um quinhão horroroso, sem que você tenha feito qualquer coisa para merecer isso. Ou, na versão do Woody Allen, lhe cabe a maior sorte do mundo após o assassinato de dois inocentes.

Esses últimos dias, porque a morte do Mandela fez surgir o Coetzee, ando assombrada com Disgrace, um livro que li meses atrás. O livro entrou de tal forma em mim que cheguei a sonhar com ele várias vezes, acho que sonho ainda hoje. Mas fico assombrada com a profunda gratuidade da desgraça ali, com a aleatoriedade, o azar, o acaso, escolha o termo que preferir. O título em português é Desonra, não gosto, é Desgraça mesmo.

Desgraça é o que nos cabe, quase sempre, atribuído por esse conjunto de átomos desgovernados que chamamos de acaso. Gosto muito da palavra Acaso, gosto da entidade Acaso. O Acaso é um deus mais imprevisível, caprichoso e implacável do que qualquer um de qualquer mitologia antiga. Gosto muito dele.

Mas nem sempre se pode conviver com o que se gosta. Eu certamente não conseguiria ver filmes do Haneke ou ler livros do Coetzee todos os dias da minha vida. Então acredito em karma e evito dar respostas mal educadas ao hare krishnas da Flip, vai que volta.

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2 comentários

  1. Eu já acho o contrário… A vida como efeito borboleta, sabe? O espirro que você deu ali, na hora errada, viaja o mundo inteiro pra virar aquele momento em que você conhece o cara que vai partir seu coração em pedacinhos… Aí, pensando assim, certas coisas são inevitáveis mesmo. Foram provocadas por você, como o karma diz, mas invitáveis mesmo assim. O que muda é o seu jeito de reagir àquilo. Ser iluminado, pra mim, é isso: não se deixar abater tanto por coisas invitáveis, tirar o melhor possível de cada situação, aprender lições e nunca, nunca perder a bondade e a vontade de se doar. As coisas ruins não acontecem porque você é cínica, bêbada, mentirosa. Coisas ruins tb acontecem à pessoas boas, muito boas, verdadeiras e sóbrias. O que muda é o jeito de encarar…

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