Não é repetição, é obsessão artística

Acho que se algum dia, no universo pós apocalipse zumbi, invasão alienígena e epidemia generalizada de ebola (que eu tenho cá para mim que é o vírus zumbi e as autoridades estão escondendo para não causar pânico) alguém for falar sobre o que eu escrevi, acho que eu seria caracterizada com um daqueles autores obcecados que falam sempre das mesmas coisas e voltam sempre nos mesmos temas e de alguma fora contam sempre a mesma história. Não é de estranhar que meus preferidos sejam assim também.

Bergman e Woody Allen são dois grandes obcecados voltando sempre nos mesmo temas e contando sempre a mesma história. É sempre sobre a mortalidade, o universo sem sentido, a crueldade de ser jogado em um mundo de sofrimento e ainda ter que ser retirado dele quando parece cedo demais. Os dois também parecem dizer que a questão que realmente importa, aquela capaz de preencher os dias, de fornecer algum sentido ou retira-lo por completo, é a respeito de nós e dos outros. É possível viver com alguém ou não é. É possível que exista amor ou não.

Já ouço todos os milhões gritando “a questão que importa é a fome, a guerra, o aquecimento global”. Não me importa isso aqui, eu escrevi uma dissertação de 120 páginas, em algum ponto de capítulo 1 eu falo sobre isso. Aqui eu vou assumir que o que importa sim é a questão entre eu e o outro. A possibilidade de alguma comunicação, a possibilidade de amor.

O Woody Allen jovem acreditava no amor como paixão revestida de medo e egocentrismo. Desejo sexual, mais medo de morrer e, pior, de morrer sozinho, levava as pessoas a tentarem conviver umas com as outras em relacionamentos essencialmente desencontrados, impossíveis, truncados. Alvin e Annie nos anos 70 não acabaram juntos, não poderiam acabar juntos, porque ele era essencialmente um pessimista enquanto ela parecia surda ao grito angustiado do universo. E ela nunca poderia entender a angústia dele, nem ele poderia responder a sede de vida dela. Para mim, Annie Hall é um ensaio maravilhoso sobre a impossibilidade de boa parte das relações humanas.

Mas o Woody Allen velho acredita diferente. Ele acredita um pouco mais na possibilidade de mudança. Na possibilidade de abandonar as questões um pouco e ir viver, de tornar a vida menos miserável enquanto ela dura. No filme novo (eu não vou falar nada dele além desse comentário muito geral) isso fica muito claro. É claro que o universo é só um amontoado aleatório e possivelmente cruel de átomos e matéria e não existe consolo ou sentido. Mas qual a necessidade de reafirmar isso o tempo todo? Ou melhor, qual o sentido de fazer questão de viver de acordo com isso? Ele não quer dizer que seja fácil esquecer ou abandonar esse terror e essa sentença, mas não há necessidade de fazer esforço para não abandonar.

Quando eu ainda estudava o Bergman, me lembro de ter percebido que no universo do Bergman, Deus (ou o sentido) é silencioso, afastado, ou mesmo cruel. No universo do Woody Allen não há Deus. Ou sentido. Ou misericórdia. Ou bússola moral. É só acaso. Existe amor, mas ele responde as mesmas leis irônicas e impossíveis. É acaso, é milagre. No filme novo usam a palavra milagre algumas vezes.

Eu acho sinceramente que a maioria das pessoas lidam com o amor como algo que simplesmente acontece, simplesmente está ali, algo natural da vida, algo a que todo mundo tem direito. Take for granted é expressão que me vem a mente. E eu, que acho que é algo extremamente raro, frágil e em nada gratuito, tenho a fama de pessimista.

Eu entendo, acho. Para a maior parte das pessoas amor é essa coisa que elas tinham pela família e que fluia tão facilmente em casa e em casas vizinhas e estar razoavelmente feliz e não desejando que no fundo seus pais de verdade fossem piratas que um dia vem te levar embora era a situação comum. Eu não vou fazer terapia e tragédia da infância infeliz aqui, mas a verdade é que amor sempre me pareceu algo que custava muito caro. Que custava muito esforço, muita devoção, muita perfeição. No fundo, tudo isso obviamente não é amor, eu entendi depois. Mas o que eu também entendi é que ele não flui assim de fontes infinitas como querem me fazer acreditar.

Me lembro muito claramente de estar na quarta ou quinta série fazendo um exercício de interpretação de texto com uma amiga. Era uma crônica sobre filhos que queriam que seus pais se divorciassem de um jeito horroroso, queriam sofrer e ser crianças problema porque isso era “cool”. Era, claro, um texto extremamente irônico sobre o que era de fato ser uma criança problema. Eu ri, eu entendi, eu me identifiquei. Então, no exercício havia uma pergunta se você gostaria que seus pais se separassem. Achei engraçado, achei que em pleno 1998 ou o que fosse, a pergunta deveria ser “seus pais estão casados? se sim…” mas não liguei, me pus a responder com a coleguinha que me apresentou a seguinte resposta “não, gostaria que minha família continuasse feliz como é hoje”. Eu apenas aceitei.

Eu sei que já disse isso aqui (eu falei que era obcecada), mas eu sempre tenho a sensação de que não sou tão pessimista quando gostam de me pintar. Ou melhor, meu pessimismo não vem de um desprezo do amor, ou da ideia de que ele não serve para nada, ou só traz infelicidade. Vem da consciência da raridade da coisa de verdade. Daquele que realmente faz as coisas terem algum sentido, que torna a existência um pouco melhor. Eu reverencio algo que me parece extremamente poderoso e, como todas as coisas poderosas, instável e difícil.

E nem é só amor romântico. O que eu aprendi nessa vida é que todo tipo de amor é difícil. É de uma dificuldade absurda aceitar o outro, acolher, compreender de verdade. Eu enlouqueço de tempos em tempos. Eu perco o controle, eu deixo meu cérebro correr em uma torrente sem fim de palavras crueis, ódio e auto-destruição. Eu viro um bicho selvagem detestável, incapaz de não ser agressiva com qualquer tentativa de aproximação, insensível a qualquer palavra de apoio. E nessa hora eu vejo o quão limitada é a compreensão e a capacidade de suporte do mundo em volta. Não é culpa de ninguém, não estou (DE JEITO NENHUM) cobrando ou acusando ou ressentida de qualquer pessoa que não conseguiu me amar em um momento desses. É o que acontece porque somos humanos e somos limitados e somos terríveis.

É o momento em que meu ex-analista infinitamente paciente e tão determinado quanto eu em me manter fora de qualquer remédio fica sem recursos e me pergunta “você não quer uma receita? você não quer pelo menos dormir?” Se ele, aquele homem médico e psicólogo, mestre na USP e doutor na França, já não sabia o que me dizer, já não aguentava mais me ver entrando lá semana após semana pra dizer a mesma coisa, imagina as pessoas que não são pagas e não são treinadas profissionalmente para isso?

Amor é condicional, sempre é. Sempre podemos quebra-lo ou perde-lo, a mágica é quando ele é elástico suficiente para aguentar uma série de golpes. Eu gosto desse Woody Allen otimista, eu gosto que ele vem permitindo que seus filmes terminem bem porque ele nunca ignora a parcela de milagre envolvida.

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