O Mundo a 24 quadros por segundo

Alabama Monroe, Bergman e círculos quebrados (2 de 194)

Eu tinha um plano em que, por razões de ordem alfabética, o próximo filme seria do Afeganistão. Fui atrás, pesquisei filmes e cineastas e descobri, inclusive, mais de um. Baixei todos, decidi sobre o qual falaria e… ainda não assisti. Sou realmente muito boa em manter planos.

Mas nesse blog somos muito a favor de aceitar o acaso, abraçar o que vier e o que veio foi a Bélgica. Sei que filmes belgas não são a coisa mais comum de mundo de se ver nos cinemas daqui, mas eu a classifiquei como um país fácil: já tinha assistido uns dois filmes belgas falados em flamenco, poderia baixar coisas dos mesmos diretores, e os irmãos Dardenne tem vários filmes maravilhosos. Mas também está em cartaz no cinema um filme cujo poster é uma moça com as costas todas tatuadas.

Alabama Monroe é um drama. Um drama bem drama. Daqueles que eu recomendaria levar a caixa de lencinhos e um pouco de corretivo para consertar a cara depois do filme.  Eu, no entanto, não chorei. 

-Isadora, você é uma insensível

Sem dúvidas que sou, nem argumento. Mas não é que o filme não tenha me tocado, mas justamente porque ele parece tão feito para que eu me emocione, eu não consegui.

Já tive certas discussões de mesa de bar em que afirmei que não me interessava muito a tese do Saramago em Ensaio sobre a Cegueira de que, em situações limites, e retiradas alguns alicerces básicos da civilização, nós viramos bárbaros. Isso me parece extremamente óbvio. Eu gosto mais de quem se propõe a analisar o como o excesso de segurança, de confiança em nossa própria situação, nos transforma em bárbaros. Sade, por exemplo, Lars Von Trier em Dogville.

Falo isso porque em certo momento pensei em chamar Alabama Monroe de “Cenas de Um Casamento com tatuagens” e aí pensei que não, não é isso. Vou tentar evitar spoilers, mas não me comprometo, tenho zero respeito por eles, só avisando os obsessivos. Alabama Monroe acompanha o esfacelamento de um casamento a partir de uma grande tragédia. A forma como o casal passa a se machucar, odiar, ser capaz do pior possível, a partir de uma grande tragédia.

Veja, me parece óbvio que frente a uma dor insuportável isso aconteça. Que alguém perca a fé, ou se agarre a fé, se culpe, culpe o próximo, machuque, agrida, etc, etc, etc. É dramático, sem dúvidas, é terrivelmente triste e acarreta em um filme tocante, do tipo que leva metade da sala ao choro. Mas Cenas de um Casamento é tragédia, a tragédia da inviabilidade da existência.

Usei esse termo em um texto em outro lugar e me apeguei a ele. A existência enquanto inviável, paradoxo em si, seres humanos condenados a estarem em um lugar desencontrado, trincado, pronto a decompor. Cenas de um Casamento, e todo o Bergman, é isso. São personagens que não precisam de uma grande tragédia para serem o pior que podem ser, eles o fazem simplesmente porque são seres humanos. Porque o lugar humano é de desencontro e crueldade, a não ser que alguém decida ativamente sair dele.

Para Alabama Monroe o lugar de partida do ser humano é a felicidade e o amor e uma tragédia o afasta disso. Para Bergman o lugar de partida é a violência, a indiferença e o sofrimento e é preciso fazer a escolha ativa de buscar algo distinto.

Estou com o Bergman nessa e por isso, talvez, tenha saído de Alabama Monroe com a sensação de que é um bom filme, mas falta arrebatamento.

Recentemente tenho visto muitos filmes assim: bons filmes, filmes perfeitamente bem feitos e competentes, mas que não me fazem sair da sala declarando meu amor apaixonado pelo cinema. Com vários defeitos que tem, A Grande Beleza foi o que chegou mais perto disso ultimamente.

Não me levem a mal, Alabama Monroe é um belo filme, belíssimo. Uma decupagem precisa, emocional sem ser melodramática, bem montado, com uma trilha incrível e personagens bem construídos. Mas me pareceu dizer um lugar comum.

Por outro lado, eu gosto muito da relação entre o título e a forma como o filme é construído: the broken circle breakdown. E o filme em estrutura quase circular, mas não exatamente. A princípio parece um filme em que vemos o presente e o passado e em algum momento eles se encontrarão, fechando o ciclo. Mas o ciclo não fecha. Ele está quebrado de início e está tão quebrado que se reflete na estrutura narrativa. Quando a narrativa deveria se fechar, há uma cena no futuro e agora precisaremos chegar até lá e o que se forma no final não é um, mas dois círculos, interligados, abertos, quebrados.

Alabama Monroe é um filme sobre a quebra de um ser humano. Ou de dois seres humanos. É um belíssimo filme, mas que não me ganha porque acredito que seres humanos são quebrados de início. Ao mesmo tempo, e isso me conquistou mais, é um filme sobre a vontade de ser inteiro, sobre o amor por outra terra em que se poderia ser inteiro: o além, ou a América, tanto faz. O bluegrass da banda dos protagonistas é cheio de referências a Deus e um outro lugar, além do Jordão, uma terra prometida. Pode ser o paraíso, como pode ser home of the brave, bla, bla, bla. Gosto desse paralelo entre sonhos, entre vontade de restituição e eternidade.

Achei interessante que se fiz um projeto de ver 194 filmes, de 194 países, porque quero estar em outro lugar, em lugares que não estou, escolhi por enquanto dois filmes que foram feitos em um país mas olham para o outro. Um filme francês africano, um filme belga sobre cowboys.

The-Broken-Circle-Breakdown

Kirikou não é grande (1 de 194)

Então eu disse que veria um filme para cada lugar do mundo e nunca mais falei nisso, porém o projeto (ainda) não morreu. Começamos pelo fácil, mas começamos também pelo simbólico: a França.

Eu não preciso fazer contas para saber que com certeza vi filmes americanos mais que qualquer outra coisa, mas certamente os franceses estão em segundo lugar.Eu vi Paris pela primeira vez aos cinco anos, entrei nas aulas de francês aos 13 e me apaixonei irremediavelmente pela Anna Karina aos 18. Há muito tempo atrás, antes de me chamar de Daisy, ele me chamava de francesinha. E o primeiro filme não americano e não brasileiro que eu vi foi um filme francês e eu começo com ele.

Se vamos dar a volta ao mundo simbolicamente, nada mais justo que começar sendo extremamente simbólica: Kirikou e a Feiticeira. Aos 9 anos eu empaquei em uma rua do Marrais e disse que dali não me movia, não dava mais um passo, se não fosse para entrar naquele cinema onde havia uma fila de crianças. Não me importava que eu não entendesse a língua, era um desenho, tinha uma bruxa e eu estava tão exausta que não pude ser comprada nem com kneidlers. Assim assiti Kirikou e a Feiticeira.

Agora, 15 anos depois, assisti de novo e entendi porque o cinema sempre foi minha janela. Kirikou não é apenas uma animação francesa, é uma animação francesa passada em uma tribo africana em algum lugar não especificado. É uma tribo de fábula, como aquelas histórias das mil e uma noites que se passam em algum lugar mítico do oriente médio, com um sultão que nunca existiu.

Nos Estados Unidos o filme acabou não passando porque os personagens andam nus, peitos e pintos aos montes e ele só poderia entrar em cartaz com uma censura alta, o que não faria o menor sentido, já que é uma história de crianças. Porque Kirikou e a Feiticeira é uma história para crianças, não uma animação complexa, densa e ambiciosa, é só uma história para crianças, contada de outro jeito, falando de pessoas de outro lugar.

Kirikou é a criança mais precoce do universo: nasce sem ajuda, andando e falando, mas com o tamanho de um bebê. Ele é minúsculo e extremamente inteligente e muito, muito corajoso. Mas a coragem de Kirikou é diferente da de heróis da Disney, ela é irresponsável, desenfreada, quase anárquica. Kirikou é um protagonista que é quase puro impulso, energia concentrada em um corpinho minúsculo e ao rever o filme eu não me espantei em nada que, mesmo sem entender uma palavra, ele tenha me ganhado tanto.

Quando Kirikou nasce, sua tribo vive controlada pela feiticeira Karaba, que comeu todos os homens adultos, roubou todas as jóias das mulheres e fez secar o poço. Porém, ao contrário dos outros habitantes, ele se recusa a resignar-se e vai atrás de seu avô, que vive escondido dentro de uma montanha, para obter respostas e um plano. Kirikou não vence Karaba pela força e nem tanto pela inteligência, mas por essa coragem insensata, pela disposição de se jogar em coisas com uma probabilidade de 99% de darem errada. Ah, Kirikou, como eu me identifico com você.

Embora exista a grande narrativa da derrota de Karaba, o filme funciona mais como um “as aventuras de Kirikou”, são pequenos esquetes em que ele evita que as crianças sejam sequestradas, faz voltar a àgua do poço, encontra o avô e, por fim, derrota a feiticeira. É um filme bem curto, algo como 70 minutos, então tudo é extremamente acelerado, quase como o personagem.

Mas apesar a história simples e da narrativa acelerada, o traço da animação é uma coisa primorosa. Repleto de detalhes e em um estilo que, de novo, se parece muito pouco com o que em geral se vê em animações infantis. O desenho enfatiza a forma das roupas, o rosto dos personagens e o contraste entre as cores muito vivas e o fundo amarelado, como se tudo fosse quase uma pintura.

Mas mais do que o traço lindo, a história eficiente, o que ainda hoje me faz amar esse filme é expor um mundo novo. É a forma como ele me marcou ao mostrar um mundo novo. O desenho era diferente, a história era diferente, as personagens, a moral da história, tudo. E eu me apaixonei. Pelo filme e pelo meio, naquele minuto. Conto que foi Réquiem Para um Sonho o filme que me levou para a faculdade de cinema, mas talvez tenha sido Kirikou e a Feiticeira e o desenlace que se recusava a me dizer que algumas pessoas eram más e outras eram boas, que era preciso ser prudente além de corajoso.

Kirikou e a Feiticeira foi meu primeiro filme de um país estranho, meu primeiro filme estranho. E aqui ele é o primeiro de 194.

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Um filme para cada lugar do mundo que eu não vou (e que eu vou também)

Acabou a Mostra. Foram quinze dias, 39 filmes, incontáveis saquinhos de pipoca, litros de coca cola (nem bebo coca-cola normalmente, mas não podia dispensar nenhuma fonte de cafeína), múltiplas corridas pela Augusta e pelo menos 6 olhares condescendentes da garçonete do café do Espaço Itaú Frei Caneca. Mas os números mais legais de todos são: 20 nacionalidades diferentes, falados em 16 idiomas diferentes.

Pela primeira vez na vida eu vi filmes do Cazaquistão, Afeganistão, Laos e Eslováquia e descobri uma coisa: dou um check mental cada vez que vejo filmes de um país novo, como se estivesse competindo comigo mesma para ver pelo menos um filme de cada lugar do mundo. Então resolvi me arranjar um projeto novo.

Eu sei que soa estúpido quando eu, a pessoa que vive de projetos, diz que tem um projeto. Projeto é essa coisa que vocês da vida bem estruturada fazem quando não estão trabalhando, essas coisas tipo ler e ver filmes com as quais eu misteriosamente ganho dinheiro. Mas bom, eu tenho um projeto e esse projeto é algo como a volta ao mundo em oitenta filmes. Só que o mundo tem bem mais de 80 países então verei bem mais que 80 filmes.

A ONU tem 193 estados, então serão 193 filmes. 194 na verdade porque eu resolvi contar Palestina. Por questões simbólicas e porque eu já quero ver Omar e se não conseguir só vou acabar revendo Paradise Now, absolutamente nada contra rever Paradise Now. Talvez, na verdade, um pouco mais porque eu posso resolver contar Kosovo, Escócia, umas coisas assim. Muito bem, 194 filmes, ou mais, um para cada país do mundo, sem prazo nem ordem definidos (com esse critério de nação ao gosto da autora) porque não gosto de regras. Não conta o que eu vi até agora para que eu me force a ir atrás de filmes novos, porém se não conseguir achar nenhum outro filme para lugares como Cazaquistão, Bulgária, Indonésia, Filipinas e Tailândia, revejo os que já vi mesmo. Para minha sorte, Taiwan não é um país, diz a ONU, e eu definitivamente não vou considera-lo como tal se não encontrar outro filme além de O Sabor da Melancia.

Eu poderia abrir um blog novo para isso, ou convencer o senhor Felippe Cordeiro (ooooooi Pips) a me dar uma coluna no Posfácio, mas como diz a minha muito sábia melhor amiga eu tenho ótimas ideias, pena que largo todas elas pelo caminho. Enquanto nós duas viajamos pela Turquia, eu devo ter tido umas dez ideias brilhantes diferentes. Obviamente nenhuma saiu do papel.

O que quer dizer que não vou ver 194 filmes. Em parte porque duvido muitissimo que vá achar filmes de lugares como Vanuatu, Palau e Quirguistão (embora eu tenha essa birra com o Quirguistão e queira muito achar um filme de lá), em parte porque sei que vou largar a coisa toda no meio, não sei, tenho esse apreço tão grande por desobedecer as coisas que desobedeço até minhas próprias propostas. Meu analista fica louco com isso, não sabe mais o que fazer, tem vontade de me mandar pular da ponte só porque tem certeza que aí eu não pulo. Mas começamos, com uma tag para que vocês possam achar os posts, que estarão sempre na categoria que ali do lado se chama A 24 Quadros Por Segundo.

A verdade a 24 quadros por segundo, disse o Godard. O mundo a 24 quadros por segundo, digo eu. É um bom nome para um projeto natimorto.

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