Jonathan Franzen

Em qualquer outro lugar

But by the time the first bombs fell
We were already bored

É um domingo à noite e eu empilhei os gatos e me acomodei no sofá para ver Em Qualquer Outro Lugar. Eu já vi esse filme infinitas vezes. É um filme qualquer, esquecível, um daqueles dramas de família dos anos 90, aquela época em que todo mundo chorava com Lado a Lado, tem a Natalie Portman novinha de tudo, antes dela ser tão bonita. 

Eu vi esse filme tantas vezes na vida por causa do título: Em Qualquer Outro Lugar. Eu cresci em uma cidade chata. Não pequena suficiente a ponto de todo mundo me conhecer, me vigiar e existirem histórias escabrosas sobre o padre que entalou uma garrafa de vinho no cu. Uma cidade relativamente grande, só bastante chata, mesmo que não faça sentido ser tão chata. Mas faz, quando você encontra alguém que passou um tempo por lá e conta o como esteve tão entediada por tantos anos o que você ganha é um sorriso da mais pura compreensão. 

Era um tempo pré-torrent e eu vivia esperando pelos filmes que um dia eu veria. Era um tempo de download de músicas, mas se a banda ainda fosse muito obscura eu precisava entrar em um ônibus (às vezes autorizada, algumas vezes escondida), um metrô e ir `a galeria do rock. Eu diria que o vendedor da Estrondo ainda deve lembrar da menina pequena de cabelo rosa que quase chorava de emoção quando pisava lá, mas todo mundo tem cabelo rosa na galeria do rock.

Eu joguei tênis, toquei piano, toquei baixo, dancei ballet, pintei o cabelo de rosa, roxo, azul, tive bandas, um caso, reformei camisetas, escrevi contos, pintei telas, vi shows em garagens, aprendi a fumar, comecei a beber. É uma experiência de tédio diferente, essa de ter com o que ocupar o dia, mas estar tão profundamente entediada com tudo. 

Eu tentei escapar uma vez, fui parar em um lugar menor ainda e voltei. Então esperei. Eu sabia que iria sair, eu sempre soube, todo mundo saia, era só questão de ter paciência. Era questão de esperar e ouvir minha mãe dizer tudo que ela tinha largado no Rio em troca de segurança.

Acho que eu ouvi tanto, tantas vezes, que o pagamento por estar ali era segurança, que nós estávamos ali pela segurança, para que eu pudesse ir e voltar da escola de bicicleta e passar o dia na casa de qualquer um sem avisar onde eu estava. Nós estávamos ali para que eu tivesse liberdade. 

Quando Liberdade do Franzen me caiu na mão eu entendi perfeitamente do que ele falava. De uma ilusão de liberdade pela qual as pessoas sacrificam tudo e que é tudo, menos liberdade. Eu cresci temendo essa palavra, segurança, e desconfiando da palavra liberdade. Eu aprendi que tudo que eu menos queria era segurança, era a liberdade pálida da segurança.

Quando eu saí, saímos todos, todos os meus amigos no mesmo ano. Muitos deles choraram, tiveram medo. Eu mal podia esperar. E esses dias me peguei pensando se eu choraria hoje, antes de deixar tudo para trás, a cidade que já não é chata, os amigos que já não são chatos, eu já não estou entediada afinal. Minha resposta é que sim, talvez, provavelmente, eu choraria. Eu pensaria duas vezes? não.

As pessoas querem casar e ter filhos, eu só quero ir embora. Eu só quero a possibilidade de sempre poder ir embora. Eu quero sempre poder largar tudo e ir embora, com a roupa do corpo se for o caso. Eu ando pensando muito em ir embora com a roupa do corpo, vender meus móveis, minhas roupas, e comprar uma passagem para a Índia. Eu não vou fazer isso, acho, honestamente não tenho certeza. 

Eu continuo assistindo Em Qualquer Outro Lugar. Eu continuo querendo estar em qualquer outro lugar. Às vezes eu penso em voltar para o Rio, fazer as coisas de bicicleta, correr na praia, ver o mar. Aí eu me lembro que não tem inverno. Mas é outro lugar, requer fazer as malas, reaprender, ir embora. Eu estou há 7 anos em São Paulo, é tempo demais, eu quero ir embora.

Provavelmente não vou voltar para o Rio. Nem comprar uma passagem para a Índia. Acho que não. 

Suburban War, do Arcade Fire, me parte o coração. “Before your war, against the suburbs began”, sim, eu vivo em guerra com a vida que eu tive, com as escolhas dos meus pais, com o lugar onde eu cresci. Eu vivo em guerra com a ideia de segurança, com a ideia de planejar uma vida em torno dos filhos a serem criados, em guerra com uma vida em que cabem filhos. Com a cidade limpa, organizada, em que eu podia andar de bicicleta. A música também diz que o passado não dorme enquanto você não pular a cerca e deixa-lo para trás.

In the suburbs I, I learned to drive
And you told me we would never survive
So grab your mother’s keys we leave tonight

Correções

… cada família infeliz é infeliz à sua maneira 

Eu não sou boa com pontualidade, qualquer um que já saiu pra tomar cerveja comigo sabe disso. Eu tenho alguns talentos: senso de humor sarcástico, fazer doces e consolar pessoas, mas pontualidade e organização definitivamente não fazem parte deles. Assim, eu venho aqui agora falar de The Corrections, quase um mês depois de ter lido o livro.

O engraçado de falar de um livro um mês depois de ler é que eu não lembro mais o que queria originalmente vir falar. Não lembro há ponto de ter passado os últimos dez minutos encarando a página em branco do WordPress e considerar “deixa, demorei demais”. Mas não, não. The Corrections, vamos lá.

The Corrections é um livro longo. Longo, com vários narradores, várias histórias e aquela história tradicional de “o que há por baixo do subúrbio americano” que aliás eu gosto muito. Talvez seja ter crescido em um lugar que, se você parar pra pensar, parece um pouco os subúrbios americanos de livro, mas algo nessas histórias me atrai. Me lembra ouvir que eu estava ali porque minha mãe tinha escolhido estabilidade, segurança e calma e então descobrir que a ex-namorada do cara com quem eu ficava pulou da janela.

Ou talvez seja meu simples desgosto por tudo que é organizado, limpo, “como se deve”. E talvez por isso eu tenha gostado tanto de The Corrections.

Em Freedom (que eu gostei até mais) o Franzen trata de personagens que querem escapar, aqui eles querem se conformar, se corrigir. É um livro sobre uma mulher que só gostaria que seus filhos fossem como deveriam ser, sobre um homem que teme ser deprimido mais do que tudo porque isso não é como ele deveria ser, sobre outro que foge de tudo que o pai acha que ele deveria ser porque isso é que ele acha que deveria ser e sobre uma moça que faz todo o esforço para ser algo, mas nem sabe bem que raios deveria ser.

Eu me identifiquei com ela. Eu grifo livros e eu recobri de asteriscos e setas as partes da Denise. Não que eu seja idêntica a ela (ela é, afinal, organizada), mas a sensação de que há um padrão a ser seguido mesmo que você não saiba exatamente qual é ele soou bem familiar.

The Correction é um livro sobre uma família infeliz. Infeliz como todas as famílias são infelizes, embora cada uma à sua maneira. Mas The Corrections é um livro bem próximo da maneira da minha família de ser infeliz, aquela maneira que espera que você seja algo e é claro que você (ninguém) nunca é. É um livro sobre querer se corrigir, de que, por que, ninguém sabe.

No fim de The Corrections os personagens acabam bem. Porque querer ser o que você deveria não é um grande drama e o Franzen é realista: há algo por baixo da existência de subúrbio, há algo por baixo de toda família, mas no fim nós estamos aí, razoavelmente bem, a maior parte da humanidade. Talvez seja um livro sobre isso, sobre ser ordinariamente infeliz como todo mundo o é, e talvez por isso eu tenha gostado tanto.

(esse não é absolutamente o texto que eu tinha planejado, mas oh well)