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Beginners e como queríamos que a vida fosse, mas não é

Dia desses, por pura inércia acho, o filme já estava ali no netflix, assisti Beginners, aquele com o Capitão Von Trapp saindo do armário aos 75 anos. Por algum tempo quis guardar rancor desse filme, Capitão Von Trapp levou Oscar de melhor ator coadjuvante e me roubou ver Max Von Sydow velhinho, falando inglês com aquele sotaque sueco tão querido. Adoro A Noviça Rebelde, mas Max Von Sydow é meu homem, meu companheiro de mestrado, a personificação do silêncio de Deus em 1,90, ombros curvados e cabelos muito loiros. Antonius Block e Ivan Karamazov, os dois homens que eu poderia verdadeiramente amar.

(não me surpreende que minha vida amorosa seja essa coisa que é)

Mas não pude guardar rancor de um Capitão Von Trapp gay, como alguém poderia guardar rancor de qualquer Capitão Von Trapp? E ainda tinha Mélanie Laurent então fui assistir. Não é um filme ruim, também não é um filme particularmente bom. É só mais um filme hipster consideravelmente eficiente sobre como queríamos que a vida fosse, mas não é. Ou pelo menos sobre como queríamos que a tristeza fosse, mas não é.

Eu gosto da história do Capitão Von Trapp (gente, desculpa, não consigo lembrar o nome do ator ou de qualquer outro personagem que ele tenha feito e não vou fazer esforço), gosto daquele médico croata de ER (queeee?) com cabelo horroroso. Até gosto do voice over e dos quadrinhos embora seja terrivelmente clichê (Ilha das Flores, alguém?), mas não gosto, não consigo gostar, da tal história de amor.

Um filme sobre como queríamos que a vida fosse, mas não é. Sobre como queríamos (quem?) que o amor fosse, mas não é.

Em Beginners, como em boa parte dos filmes de romance, hispters ou não, o amor vem como um Deus Ex-Machina para dar sentido a vida de alguém. Ele surge do nada, e eu estou me segurando para não fazer uma metáfora tipo meteoro da paixão, por favor me perdoem, simplesmente porque uma menina em uma festa pode ver que seus olhos estavam tristes. É sempre mútuo e transforma sua vida completamente. E não vou dizer que eu não queria que fosse exatamente assim.

Não estou dizendo que pessoas não se apaixonam do nada, por um olhar, ou um sorriso, ou um cuidado, nem que não se possa notar os olhos tristes de alguém em uma festa. Eu sei bem que todas essas coisas podem ser verdade. Infelizmente cabe a mim também uma cota de paixão absolutamente sem sentido nessa vida e tenho uma amiga que se apaixona sem motivo com tanta frequência quanto eu termino relacionamentos, o que é só um pouco menos do que a frequência com a qual eu faço piadas cretinas. Então sim, ok, pode até ser que um dia você esteja em uma festa e se conecte magicamente com uma menina que te sorriu. Mas sinceramente? Quais as chances?

Mais: quais as chances de que isso seja mútuo? Ou que vocês realmente consigam estabelecer um relacionamento, que exista algo ali que possa sobreviver a convivência, aos traumas, as brigas, ao trabalho desgraçado que é dividir a vida com alguém? Tenho um outro amigo que diz que, quando um relacionamento dá errado, ele gosta de assistir As Canções de Amor para lembrar que é um negócio complicado, bagunçado e que raramente dá certo. Concordo com ele, é impossível sair de mãos limpas.

Eu sei que para uma pessoa com tanta resistência a relacionamentos eu falo muito deles. O que talvez queira dizer que eu tenha um grande apreço pela possibilidade de pessoas se relacionarem de forma livre, autêntica e verdadeira para as duas porque sei o quanto isso é difícil. O quanto isso é quase impossível. E também porque eu acho os relacionamentos um belo ponto de vista para se pensar a humanidade.

Vejam, eu gosto de pessoas, desde que elas mantenham a distância segura estipulada e não sejam mini-seres humanos também conhecidos como crianças. Eu acho que o mundo é feito de pessoas, a arte fala sobre pessoas, o que realmente importa são as pessoas nesse mundo e então eu gosto de observa-las e me parece que a humanidade gosta muito de contar sobre si mesma histórias que falem de amor, guerra ou morte.

Eu gosto da morte, bastante até. Mas o lugar dela não é aqui, o lugar dela não é ser dissecada e analisada e refletida no meu blog. Trato dela com mais deferência.

Não estou na guerra. Às vezes até penso em me alistar na legião estrangeira, seria charmoso, ou ser voluntária no exército de Israel e aí me lembro que só estou entediada. Me pergunto quantas guerras não começaram por tédio, pensando agora, a humanidade gosta muito de falar sobre o tédio também.

Me resta o amor. E se você pensar, Jane Austen, que falava incansavelmente sobre ele, morreu solteira em uma época que isso significava sozinha, talvez de fora seja possível ter mais perspectiva. É, mas não estou de fora, nunca estive, e de dentro ele não funciona em nada como em Beginners. Não se sai de mãos limpas e ele não dá um sentido mágico para a sua vida.

Eu sinto dizer que um relacionamento não vai fazer tudo ficar magicamente bem ou a existência parecer menos vazia e absurda do que é. Talvez nos primeiros momentos, talvez para algumas pessoas muito conscientes do que é significativo para elas, mas não com uma menina que lhe sorri na festa e te leva para um quarto de hotel. Não se as pessoas não forem mais nada além de seres apaixonados e é isso, sobretudo, que me incomoda nesses filmes. Como se nada mais importasse, ninguém lesse mais livros, ou visse filmes, ou tivesse um projeto ou quisesse ver o mundo uma vez que se apaixona. Aquilo basta, vamos ficar juntos e isso é tudo que importa.

Já fui trocada pelo mundo mais vezes do que gostaria e em todas elas minha reação foi algo como “cara… vai, o mundo é mais legal do que eu, se eu pudesse também te trocaria pelo mundo, também iria ser voluntária no orfanato da Madre Teresa ou coisa assim”. Me incomoda essa simplificação da coisa toda, esse achar que é só enfiar um pouco de amor ali no vazio que ele tampa. Não é, e eu já falei disso mesmo aqui.

Me incomoda muito essa obsessão com completude e perfeição que às vezes temos. Com uma existência que faça sentido. Com o amo como algo que acontece linearmente, simetricamente, ao mesmo tempo e dá mesma forma para os envolvidos. E isso me incomoda profundamente em um filme que não é abertamente um conto de fadas, em um filme que se propõe olhar para o amor, só que não olha. Nem em Harry e Sally as coisas são tão mágicas quanto em Beginners. Porque o amor não é mágico, ele é, provavelmente, a fazer uma emboscada além das linhas inimigas bósnias tendo apenas uma faquinha enferrujada escondida no coturno. Ou algo assim, não sou boa com metáforas de guerra.

Só sei que é impossível sair sem estar coberto de sangue.

(Ainda estou em Cuba, esse post é programado, achei que um pouco de pessimismo ia bem para todo mundo lembrar que 2014 vai continuar a mesma bosta)

Kirikou não é grande (1 de 194)

Então eu disse que veria um filme para cada lugar do mundo e nunca mais falei nisso, porém o projeto (ainda) não morreu. Começamos pelo fácil, mas começamos também pelo simbólico: a França.

Eu não preciso fazer contas para saber que com certeza vi filmes americanos mais que qualquer outra coisa, mas certamente os franceses estão em segundo lugar.Eu vi Paris pela primeira vez aos cinco anos, entrei nas aulas de francês aos 13 e me apaixonei irremediavelmente pela Anna Karina aos 18. Há muito tempo atrás, antes de me chamar de Daisy, ele me chamava de francesinha. E o primeiro filme não americano e não brasileiro que eu vi foi um filme francês e eu começo com ele.

Se vamos dar a volta ao mundo simbolicamente, nada mais justo que começar sendo extremamente simbólica: Kirikou e a Feiticeira. Aos 9 anos eu empaquei em uma rua do Marrais e disse que dali não me movia, não dava mais um passo, se não fosse para entrar naquele cinema onde havia uma fila de crianças. Não me importava que eu não entendesse a língua, era um desenho, tinha uma bruxa e eu estava tão exausta que não pude ser comprada nem com kneidlers. Assim assiti Kirikou e a Feiticeira.

Agora, 15 anos depois, assisti de novo e entendi porque o cinema sempre foi minha janela. Kirikou não é apenas uma animação francesa, é uma animação francesa passada em uma tribo africana em algum lugar não especificado. É uma tribo de fábula, como aquelas histórias das mil e uma noites que se passam em algum lugar mítico do oriente médio, com um sultão que nunca existiu.

Nos Estados Unidos o filme acabou não passando porque os personagens andam nus, peitos e pintos aos montes e ele só poderia entrar em cartaz com uma censura alta, o que não faria o menor sentido, já que é uma história de crianças. Porque Kirikou e a Feiticeira é uma história para crianças, não uma animação complexa, densa e ambiciosa, é só uma história para crianças, contada de outro jeito, falando de pessoas de outro lugar.

Kirikou é a criança mais precoce do universo: nasce sem ajuda, andando e falando, mas com o tamanho de um bebê. Ele é minúsculo e extremamente inteligente e muito, muito corajoso. Mas a coragem de Kirikou é diferente da de heróis da Disney, ela é irresponsável, desenfreada, quase anárquica. Kirikou é um protagonista que é quase puro impulso, energia concentrada em um corpinho minúsculo e ao rever o filme eu não me espantei em nada que, mesmo sem entender uma palavra, ele tenha me ganhado tanto.

Quando Kirikou nasce, sua tribo vive controlada pela feiticeira Karaba, que comeu todos os homens adultos, roubou todas as jóias das mulheres e fez secar o poço. Porém, ao contrário dos outros habitantes, ele se recusa a resignar-se e vai atrás de seu avô, que vive escondido dentro de uma montanha, para obter respostas e um plano. Kirikou não vence Karaba pela força e nem tanto pela inteligência, mas por essa coragem insensata, pela disposição de se jogar em coisas com uma probabilidade de 99% de darem errada. Ah, Kirikou, como eu me identifico com você.

Embora exista a grande narrativa da derrota de Karaba, o filme funciona mais como um “as aventuras de Kirikou”, são pequenos esquetes em que ele evita que as crianças sejam sequestradas, faz voltar a àgua do poço, encontra o avô e, por fim, derrota a feiticeira. É um filme bem curto, algo como 70 minutos, então tudo é extremamente acelerado, quase como o personagem.

Mas apesar a história simples e da narrativa acelerada, o traço da animação é uma coisa primorosa. Repleto de detalhes e em um estilo que, de novo, se parece muito pouco com o que em geral se vê em animações infantis. O desenho enfatiza a forma das roupas, o rosto dos personagens e o contraste entre as cores muito vivas e o fundo amarelado, como se tudo fosse quase uma pintura.

Mas mais do que o traço lindo, a história eficiente, o que ainda hoje me faz amar esse filme é expor um mundo novo. É a forma como ele me marcou ao mostrar um mundo novo. O desenho era diferente, a história era diferente, as personagens, a moral da história, tudo. E eu me apaixonei. Pelo filme e pelo meio, naquele minuto. Conto que foi Réquiem Para um Sonho o filme que me levou para a faculdade de cinema, mas talvez tenha sido Kirikou e a Feiticeira e o desenlace que se recusava a me dizer que algumas pessoas eram más e outras eram boas, que era preciso ser prudente além de corajoso.

Kirikou e a Feiticeira foi meu primeiro filme de um país estranho, meu primeiro filme estranho. E aqui ele é o primeiro de 194.

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E me livre de ser o amor da vida de alguém

Há exatamente uma semana atrás, quando eu saí da sessão de Azul É A Cor Mais Quente, a única coisa que eu conseguia pensar é: não quero, por favor não quero, universo me livre de ser o amor da vida de alguém.

Algumas vezes eu devo ter dito que não acredito em “amor da vida”, porque se existir eu já encontrei e perdi. A verdade é que não acredito mesmo, na história de que há uma única pessoa verdadeiramente certa para você em algum lugar do mundo, que vocês são almas gêmeas, cara-metade, completam um ao outro. Já não acreditava quando estava com a pessoa que poderia me fazer acreditar. No fundo acho que essa frase é mais um olhem para mim vejam como eu sou irônica e engraçada e faço graça do meu pessimismo a bosta do mundo não me afeta. Sou terrivelmente auto-consciente, é minha maior tortura.

Mas não, não acredito em amor da vida nesse sentido. Não acredito em metades, em alguém que te completa. Detesto a ideia de duas pessoas que não são inteiras, exceto juntas, quase tanto quanto odeio lavar a louça, falar ao telefone e ou vislumbrar a possibilidade de um dia receber rosas vermelhas.

Acredito nos encontros de circunstâncias, acho que todo amor morre, eventualmente, porque as pessoas mudam e pessoas inevitavelmente mudarão para lados opostos. É algo triste, mas inevitável e honestamente acho que a efemeridade do amor só tem a contar em favor dele, como a da vida. Adoro cemitérios e mais medo do que ser amor da vida de alguém só o de viver para sempre.

Mas tudo isso é digressão.

Eu acredito na expressão “amor da vida” quando diz respeito àquela pessoa que foi amada mais do que qualquer outra. Me dirão que amor é algo não mensurável e eu responderei que isso é romantismo barato, amor se mede sim e todo mundo tem alguém que amou mais do que qualquer outra pessoa na vida.

Quase sempre é o primeiro, o que faz um tremendo sentido. Primeiro amor é pular de um penhasco sem ter ideia da dor que vai ser quando der com a cara lá embaixo, todos os outros são pular de bungee jumping. Nem sempre é o primeiro, porque tem gente que é masoquista, esquizofrênico, desprovido de razão ou senso de sobrevivência. Vai saber. Tem gente nesse mundo que gosta de lavar louça. Em Azul É A Cor Mais Quente, porque a proposta é realista, é o primeiro amor.

O “amor da vida” é aquele que, mesmo que você saiba que não iria mais dar certo, que acabou, que morreu, carrega para sempre um gosto amargo de perda. Não é uma perda que se possa dar de ombros e dizer “é a vida, é uma pena, aconteceu”. Como a Summer (sim, a de 500 Dias Com Ela) que tem uma frase maravilhosa quando o Tom lhe pergunta o que aconteceu com um determinado ex-namorado: “o que sempre acontece, a vida”. Amores acabam, de muitos, mesmo que na época você não quisesse que acabasse, é possível dizer que foi a vida, acabou, é triste, mas assim acontece.

Do tal amor da vida não. Ele vai ser para sempre aquele que você não se conforma com a perda, aquele que você vai confundir com a ideia idiota de que existe uma pessoa única no mundo que te completa e foi aquela e você perdeu. Para sempre a tentação de imaginar que se vocês tivessem continuado juntos a vida seria ótima e toda a merda que aconteceu, mesmo a merda que nada tem a ver com relacionamentos, seria evitada.

Quando as protagonistas do filme terminam, o relacionamento já é uma bosta. Temos uma Adèle que nunca conseguiu desenvolver uma personalidade autônoma, uma Emma que não consegue sair de si mesma e entender as escolhas da namorada como tão válidas quanto as suas, duas traições, tédio, sufocamento e claustrofobia. Ainda assim, quando tudo acaba, temos Adèle para sempre imaginando que seu lugar era ao lado de Emma, que tudo seria melhor com ela e de alguma forma sabendo que nenhum relacionamento nunca vai ser como aquele.

Talvez isso seja algo bom. Talvez nenhum relacionamento vá ser como aquele porque em nenhum ela vai ter a mesma sensação de ser completada, preenchida, una com o outro. Eu consigo entender como isso parece ruim, mas só consigo ver como algo maravilhoso. Dolorido, mas maravilhoso. Como um filme do Bergman, um livro do Coetzee, um quadro do Pollock, as coisas verdadeiramente maravilhosas desse mundo são sempre doloridas. E incompletas.

Seres humanos são incompletos, insuficientes, incapazes. Somos feitos de angústia, somos ser para morte, somos almas vagantes com um buraco do lado de dentro que tentamos sempre tampar. E se tampamos? Alguns filósofos dirão que nem vale a pena se fazer essa pergunta, dado que é totalmente impossível. Não acho que seja, mas acho justamente que algo de maravilhoso se perde se você é capaz de tampar o vazio.

A angústia, Camus por exemplo diria, não é algo ruim. A incompletude é uma parte da condição humana é o que nos faz humanos, o buraco que nos move, a busca, o movimento, a angústia de tentar fazer um sentido da existência e mergulhar na própria existência para achar esse sentido. Tenho a mesma tendência de todo filósofo a explicar o mundo pelas minhas próprias angústias, meu próprio ser. Camus e Sartre e um milhão de outros não fizeram mais do que elaborar um sistema que respondesse ao que lhes movia e quem sou eu para poder fazer diferente. Julgo o mundo pelo que sinto, mas pelo menos avisei vocês disso naquele link do lado direito chamado “quem”.

Há um buraco em mim que é meu e eu rejeito tampa-lo com outro. E meu medo maior é que alguém passe a vida acreditando que eu poderia tampar o dele.

Ao ver o filme o que me bateu é que talvez não exista dor maior do que aquela de imaginar que já se possuiu o objeto capaz de tampar o vazio e ele se perdeu. Ou foi embora. E passar a vida toda sentido saudades desse estado de completude e de união, imaginando que o mundo faria mais sentido com aquela pessoa. Eu tenho um medo terrível de causar esse tipo de dor.

Tenho um medo terrível, imenso, gigantestco, de que alguém possa acreditar que se sentirá mais inteiro estando comigo. Não sei explicar, é o tipo de fobia irracional que algumas pessoas tem de barata, acho. Talvez tenha a ver com a minha claustrofobia. Ou com a minha recusa de me sentir inteira. Tenho medo apenas. Me perturba profundamente a ideia de que alguém ande pelo mundo incapaz de se conformar com a minha ida, com a minha perda.

Assisti o filme e consegui sentir toda a dimensão da dor da Adèle porque eu também já tive um amor da vida e me aterrorizou a ideia de que alguém sinta isso por mim.

 

 

Planejando uma rota de fuga

Eu acho que preciso me planejar melhor antes de entrar em relacionamentos.

(não, esse não é um texto surrealista, não estou tentando captar o absurdo da existência ou das interações interpessoais, embora elas sejam absurdas, nada assim)

Não quero dizer me planejar no sentido de tentar medir o potencial de merda de uma coisa antes de começar. Afinal, o que seria desse blog se eu parasse de levar foras? O que seria da minha, já falida, carreira artística se eu não tivesse mais relacionamentos disfuncionais, maníacos obcecados ou ex psicopatas? Imagina se um dia eu tenho algo estável e saudável com um cara que não beire a loucura diagnosticada? Tenho medo que eu derreta tipo a Malvada Bruxa do Oeste, prefiro não arriscar.

Não, obviamente não é disso que eu falo. Há poucas coisas nessa vida que rejeito mais do que a ideia de medir os riscos e evitar sofrimento. Essa coisa toda já é longa e entediante o suficiente com eu me enfiando em todo tipo de erro.

Mas por exemplo, há um tempo atrás eu comprei um vestido para sair com um cara (ok, talvez não tenha sido por isso, mas vou tomar uma licença artística pelo didatismo), a coisa toda já acabou faz tempo e eu ainda estou aqui pagando parcelas. Cada vez que vem minha fatura do cartão e eu vejo aquela parcela da Farm é como se tomasse um tapa na cara me lembrando de tudo aquilo que podia ter sido e não foi. Quer pagar em crédito ou débito? Quero em arrependimento, esprit d’escalier e frustração em cinco parcelas, por favor.

No fundo do meu quartinho de empregada tem um dvd que um ex-namorado me deu de um filme que nem é bom, mas tinha a ver com um apelido que ele me chamava. Nunca mais verei esse filme, nunca mais posso ver a caixa do dvd sem pensar em todo aquele longo relacionamento arrastado e entediante que eu levei anos pra terminar. Poderia passar o dvd para frente, mas estou guardando para o museu dos relacionamentos partidos, aquele onde minha vó diz que eu teria uma exposição de sucesso. Sorte que o filme nem é bom.

Acontece que às vezes os filmes são bons, as músicas são ótimas, a cidade é adorável. E eu não consigo mais voltar a eles.

É uma mania irritante e terrível essa de associar coisas às pessoas. Músicas, principalmente músicas, sou como um cachorrinho de Pavlov que nunca mais poderá ouvir Adeus Você sem querer chorar. Sou alguém que nunca leu On The Road. Que não sabe se vai rever Adeus Lênin. Não é tudo relacionado aquela pessoa, mas é aquela coisa que por algum motivo me lembre da parte dele que faz falta. Ou da parte que eu odeio em mim.

O filme italiano que nem é bom me lembra da parte que eu odeio em mim. Adeus Lênin me lembra do meu aniversário de dezesseis anos. On The Road é tudo que há de encantador e profundamente frustrante nele. E eu realmente queria ter lido On The Road.

Nunca quis passar um ano inteiro sem ouvir Foo Fighters. Nunca quis perder meu ponto de fuga. Mas perdi. Porque não sei me planejar, porque misturo e confundo e tenho sempre aquilo que me lembra de algo que eu perdi no exato ponto em que mais dói.

Eu sou uma pessoa de cicatrizes mal fechadas. De cortes que eu teimo em abrir de novo e ficar cutucando porque dói, por motivo nenhum, apenas porque dói. Eu fiz uma tatuagem no pulso porque precisava da dor. E porque tive medo. O problema é que cada um desses fragmentos é como se eu sem querer errasse a mão e, em vez roçar de leve a faca naquela casquinha, eu a enfiasse de novo e rodasse dentro daquela ferida infeccionada e nojenta porque está lá há anos e eu não deixo fechar.

Não deixo nada fechar. Deixo as pessoas irem, mas não deixo a ferida fechar.

Como vinagre que jogaram em cima eu queria chorar todos os dias, o tempo todo. Comecei chorando no taxi, desejando aquele trânsito, aquele atraso, a chuva, o cancelamento, qualquer coisa. Era uma dor e uma falta em cada fibra do meu corpo.

Faz dez anos que eu abri um certo corte. Se fosse uma ferida concreta, ela já teria se infestado de vermes, virado uma escara e me obrigado a amputar o braço. Não acho que seja diferente com feridas emocionais, talvez o que tenha acontecido é que essa ferida apodreceu e precisei amputa-la, faz sentido, hoje em dia dói menos. Incomoda, como uma cicatriz que pulsa às vezes, mas não chega realmente a doer. Não mais, acho que por um tempo eu estava com aquelas pessoas que perdem um braço e ainda podem senti-lo, mas passou. Finalmente. Talvez eu até reveja Adeus Lênin.

Ainda não estou pronta para ler On The Road. Para voltar. Preciso realmente me planejar melhor.

Fossa das Marianas, Tatuagem e aquilo que queremos ser

A Fossa das Marianas é o ponto mais profundo da Terra, ela fica no Pacífico, entre as Filipinas e a Nova Guiné, tem 11.034 metros de profundidade e seu fundo foi tocado por humanos apenas duas vezes (uma delas pelo James Cameron que está pesquisando para fazer Aquaman Azul Avatar 2). Para comparação, o Everest fica a 8.848 metros de altitude e já foi escalado 5.104 vezes por 3.142 indivíduos. Creio que o frio, a pressão e a presença de formas de vida abissais desconhecidas e potencialmente perigosas tornem a descida ao fundo do mar algo mais improvável do que a subida ao topo do mundo.

Mais profundo, obscuro, inacessível e repleto de animais estranhos e letais que a Fossa das Marianas, só o espaço entre quem somos e quem queremos ser.

Não falo da distância entre eu, sentada na minha escrivaninha, fumando um cigarro atrás do outro e escrevendo em um blog que ninguém lê (mentira! muita gente lê esse blog! eu amo vocês, não me abandonem, não me desesperem, que eu não posso ficar sem voceeeeees. Tá, desculpa, parei, voltando) e eu ganhadora do Nobel. Se bem que atualmente tenho pretensões muito mais modestas, quero apenas um Urso de Cristal em Berlim e uma exibição na A Certain Régard em Cannes. Quem nunca fez um filme? Eu? Oras, mas isso é absolutamente irrelevante.

Mas não, não é disso que eu falo.

Falo da diferença entre o que nos identificamos racionalmente como sendo, o conjunto de ideias, valores, identidades que escolhemos ativamente e como nossas entranhas querem se comportar. Dou um exemplo: em Tatuagem (filme maravilhoso, aliás), temos dois protagonistas que são um casal, Clécio e Fininho. Clécio é um ator, diretor de um cabaré anarquista, partidário da mais profunda liberdade, da vida fora das caixinhas, do amor livre. Porém, quando em uma festa, Fininho transa com outro cara do cabaré, ele sente ciúmes. Porque assim é a vida. Porque é abissal e impenetrável o espaço entre quem somos e quem queremos ser.

É uma cena delicada e um trabalho de atuação primoroso que nos mostram o quanto o próprio Clécio se sente mal por sentir ciúmes. Ele sente ciúmes e ainda se sente pior porque rejeita racionalmente esses ciúmes. Fininho argumenta que foi ele mesmo quem lhe ensinou que ninguém é de ninguém. Clécio sabe, ele sabe. Mas dói mesmo assim.

Cheio de animais famintos e desconhecidos esse espaço entre quem somos e quem queremos ser. Cheio de bichos pré-históricos, monstros que se instalaram ali anos atrás e permanecem escondidos, vivendo em zonas que a ciência diria que a vida se torna impossível. Na época em que eu ainda tinha Discovery Channel, nada me fascinava mais do que documentários sobre peixes de zonas abissais, aquelas coisas horrorosas com dentes para fora e lanterninhas na cabeça, nem mesmo documentários sobre gatos grandões (o que é um tigre senão um gato grandão, não é mesmo?).

Entre as muitas coisas pelas quais eu nutro uma obsessão estranha, estão monstros de todos os tipos e formatos. Zumbis, especialmente, mas ets, vampiros, lobisomens, chtulus, monstros marinhos, etc, etc. Me fascina essas representações do que a humanidade tem de mais repulsivo e obscuro, dessas coisas obscuras que vivem dentro de nós, mas precisamos manifestar na forma do outro assustador. Romero nunca se enganou, os zumbis somos nós.

A Fossa das Marianas, obscura, misteriosa e impenetrável, é o espaço entre meu eu estudado, minha opinião na questão Israel-Palestina e meu medo ao ler lista de mortos em um atentado. Entre a crença de Clécio no amor livre e o ciúmes que sente de Fininho. Entre o discurso feminista daquele cara e a vontade que ele teve de chamar de vadia a menina que o trocou por outro.

Nós escolhemos valores nos quais acreditamos. Escolhemos um ser humano que queremos ser. Lemos, pensamos, discutimos, sabemos tanto, almejamos tanto. Mas somos feitos de uma matéria desgovernada, de átomos e hormônios e células e poeira de estrelas e o que quer que seja. Somos feitos de passado, de sombras, de traumas, de sonhos, de coisas que entram por baixo da nossa pele e nem vemos.

Eu quero acreditar no amor, mas não consigo. Ela quer não ser monogamica, mas não pode. Ele quer acreditar que não almeja mais do que tempo para tomar cerveja a noite, mas é mentira. Ela quer fazer algo inconsequente e trava. Caímos em um buraco de 11.034 metros cujo último visitante foi um cineasta dos piores que infelizmente não foi comido por um peixe pré histórico.

Na minha tendência a imaginar cenários improváveis, a me sentir atraída pelo estranho e o obscuro, eu imagino os animais das zonas abissais do oceano como mágicos relatos de uma outra época, como capazes de viver um milhão de anos. Ou como ets. Ou posso mesmo acreditar que exista ali embaixo uma comunidade de seres humanos digna de um romance de Júlio Verne. Posso fantasiar mil vezes o estranho e posso fazer o mesmo com o espaço escuro dentro de mim. Porque não posso descer ao fundo de nenhum deles. Precisaria de um batiscafo do exército americano (por que não russo?) para isso e ainda assim o que eu poderia ver? O que se pode ver a 11.034 metros de profundidade?

3.142 seres humanos tocaram o ponto mais alto da Terra. 3 o mais profundo.

 

(esse texto é um ensaio para um ensaio, uma tentativa de jogar ideias que eventualmente virarão um texto mais longo, elaborado e possivelmente menos engraçadinho.)

Meu primeiro sutiã, ops, filme iraniano

Às vezes eu me pergunto de quem raios foi essa ideia de viver de escrever, mais precisamente quando são 2 da manhã e acabei de terminar um seminário sobre cinema, pós-modernidade e religião, ainda preciso escrever a crítica de um filme passado no Laos, sou encarada por incontáveis post-its com os textos que estou devendo e aceito um frila em que preciso escrever um roteiro contando a história de um heroi (com cliffhangers  e plot twists) para uma marca de infusores de aroma. Sim, isso mesmo, um roteiro sobre um heroi para vender infusores de aroma e o público alvo são donas de casa. No momento que me mandaram o email confirmando eu nem cabia em mim de felicidade: meu primeiro roteiro pelo qual serei paga!

Pois é.

Você acha que a pessoa saudável, bem ajustada e normal um dia acorda e diz “acho que vou fazer faculdade de cinema, por que não? Parece uma boa ideia testar os limites da dignidade humana”? Não, a pessoa era estragada desde cedo, não recomendo escolas hippies e criações alternativas. Me lembrei disso porque nesse projeto de ver um filme para cada lugar do mundo decidi rever Kirikou e a Feiticeira (que é francês, mas é um pra cada lugar do mundo oras, não só os lugares exóticos) e fiquei pensando se realmente contava como rever. Explico: o ano é 1998, eu tenho, portanto, 9 para 10 anos de idade e estou sendo puxada muito delicadamente pela minha mãe pelas ruas de Paris. Estou, obviamente, injuriada e entediadíssima e puta porque aquela mulher do Louvre não me deixava ficar sentada sozinha no canto da sala enquanto minha mãe andava por aí (sim, minha mãe me largava no canto de lojas, museus, restaurantes, etc, acho que ela pensava que eu era tão chata que ninguém ia querer roubar, bad parenting ftw).

Bem, estou sendo arrastada violentamente como uma noiva das cavernas puxada delicadamente pela rua quando vejo uma fila de crianças em um cinema de rua. É uma fila enorme de crianças e tem um pipoqueiro e elas parecem tão felizes! Bom, pelo menos mais felizes do que eu. Estaciono na frente da fila e informo que quero ir ao cinema. Minha mãe argumenta que eu não vou entender nada, já que não falo francês, mas absolutamente não me importo, quero ir ao cinema e começo a chorar porque tenho saudades de casa, do meu gato, de guaraná, das minhas amigas, estou fora de casa a pelo menos um mês e não aguento mais.

A tendência a ser rainha do drama e ameaçar pular da ponte por qualquer coisa também começou cedo.

Deve ter sido um choro doído, eu tenho talento pra sofredora, porque a resposta foi ok. E assim, aos 9 anos de idade, entrei saltitante em uma sala de cinema para ver Kirikou e a Feiticeira, em francês. Me digam se esse ser humano pode dar certo na vida?

Vi meu primeiro filme iraniano aos dez anos de idade. Mas calma, não precisa chamar  o juizado porque, embora eu fosse largada para ser sequestrada em lugares públicos, o filme era adequado: vi Filhos do Paraíso e O Balão Branco quando não era mais velha que os protagonistas. Vi A Viagem de Chihiro no cinema e me lembro de um filme holandês em um vhs emprestado. Encontrei o filme na internet recentemente, mas nenhuma legenda em nenhuma língua que eu entenda, eu já fui mais hipster, vejam só. Vi O Balão Vermelho e desejei mais que tudo um balão vermelho.

Enquanto estou lembrando de tudo isso e considerando que “vejo filme iraniano desde os dez anos de idade” seria uma boa biografia nova em algum lugar,  chega o email de um frila de tradução de um texto de contabilidade. Eu não sei se choro, ou se rio e está tocando o interfone. São 2:20 da manhã. Achei que era um psicopata, eu atraio alguns. Na verdade achei que, pela milésima vez, tinha esquecido de deixar a chave para o cara que estaciona atrás de mim na garagem. Era o vizinho de baixo.

Tenho um novo vizinho de baixo que reclama do barulho inexistente. Não sei se maravilhosamente esquizofrênico ou um x-men que acha que o barulho de um gato andando no apartamento de cima é insuportável. Não sei qual das duas possibilidades apresenta menos riscos a minha integridade física, mas chuto que seja a esquizofrenia. Não sei o que fazer com o vizinho, já que não posso diminuir um barulho que não existe e ele me diz “vou acordar as 8 da manhã, a senhorita que não faz nada”.

Só desligo o interfone e desisto. São 2:30, me falta um texto inteiro e acordo as 7:15.

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Um filme para cada lugar do mundo que eu não vou (e que eu vou também)

Acabou a Mostra. Foram quinze dias, 39 filmes, incontáveis saquinhos de pipoca, litros de coca cola (nem bebo coca-cola normalmente, mas não podia dispensar nenhuma fonte de cafeína), múltiplas corridas pela Augusta e pelo menos 6 olhares condescendentes da garçonete do café do Espaço Itaú Frei Caneca. Mas os números mais legais de todos são: 20 nacionalidades diferentes, falados em 16 idiomas diferentes.

Pela primeira vez na vida eu vi filmes do Cazaquistão, Afeganistão, Laos e Eslováquia e descobri uma coisa: dou um check mental cada vez que vejo filmes de um país novo, como se estivesse competindo comigo mesma para ver pelo menos um filme de cada lugar do mundo. Então resolvi me arranjar um projeto novo.

Eu sei que soa estúpido quando eu, a pessoa que vive de projetos, diz que tem um projeto. Projeto é essa coisa que vocês da vida bem estruturada fazem quando não estão trabalhando, essas coisas tipo ler e ver filmes com as quais eu misteriosamente ganho dinheiro. Mas bom, eu tenho um projeto e esse projeto é algo como a volta ao mundo em oitenta filmes. Só que o mundo tem bem mais de 80 países então verei bem mais que 80 filmes.

A ONU tem 193 estados, então serão 193 filmes. 194 na verdade porque eu resolvi contar Palestina. Por questões simbólicas e porque eu já quero ver Omar e se não conseguir só vou acabar revendo Paradise Now, absolutamente nada contra rever Paradise Now. Talvez, na verdade, um pouco mais porque eu posso resolver contar Kosovo, Escócia, umas coisas assim. Muito bem, 194 filmes, ou mais, um para cada país do mundo, sem prazo nem ordem definidos (com esse critério de nação ao gosto da autora) porque não gosto de regras. Não conta o que eu vi até agora para que eu me force a ir atrás de filmes novos, porém se não conseguir achar nenhum outro filme para lugares como Cazaquistão, Bulgária, Indonésia, Filipinas e Tailândia, revejo os que já vi mesmo. Para minha sorte, Taiwan não é um país, diz a ONU, e eu definitivamente não vou considera-lo como tal se não encontrar outro filme além de O Sabor da Melancia.

Eu poderia abrir um blog novo para isso, ou convencer o senhor Felippe Cordeiro (ooooooi Pips) a me dar uma coluna no Posfácio, mas como diz a minha muito sábia melhor amiga eu tenho ótimas ideias, pena que largo todas elas pelo caminho. Enquanto nós duas viajamos pela Turquia, eu devo ter tido umas dez ideias brilhantes diferentes. Obviamente nenhuma saiu do papel.

O que quer dizer que não vou ver 194 filmes. Em parte porque duvido muitissimo que vá achar filmes de lugares como Vanuatu, Palau e Quirguistão (embora eu tenha essa birra com o Quirguistão e queira muito achar um filme de lá), em parte porque sei que vou largar a coisa toda no meio, não sei, tenho esse apreço tão grande por desobedecer as coisas que desobedeço até minhas próprias propostas. Meu analista fica louco com isso, não sabe mais o que fazer, tem vontade de me mandar pular da ponte só porque tem certeza que aí eu não pulo. Mas começamos, com uma tag para que vocês possam achar os posts, que estarão sempre na categoria que ali do lado se chama A 24 Quadros Por Segundo.

A verdade a 24 quadros por segundo, disse o Godard. O mundo a 24 quadros por segundo, digo eu. É um bom nome para um projeto natimorto.

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