Ballet

Uma pessoa iluminada volta ao ballet (ou quase isso)

Eu demorei muito tempo, muito mesmo, para aprender que a vida já vai me obrigar a fazer coisas que eu não quero, não preciso colaborar.

Eu nunca fui muito gentil comigo mesma. Tem um momento em Girls em que a Hannah diz que ninguém pode dizer algo ruim sobre ela que ela mesma já não tenha dito para si mesma, antes, mais vezes e pior. Isso é morar no meu cérebro. Morar no meu cérebro é ser constantemente lembrada de cada pequeno erro, cada vez que eu gaguejei, cada defeito, do fato de que sou desorganizada, inconstante, não tenho 1,80, não peso 40 kilos, não escrevo bem, não tenho talento para ser cineasta, não sou boa o suficiente para você.

Até a hora em que alguém vê a coisa errada. Até a hora em que eu sei que uma pessoa olha para mim, mas não sou eu, é ela, ele, quem quer que seja, mas não sou eu. E eu não gosto dessa pessoa que ele vê. Eu quero ser eu mesma.

Eu demorei muito tempo para descobrir que mesmo que eu seja um desastre, mesmo que eu seja impossível de se gostar, mesmo que tudo que dê errado nessa vida seja culpa minha, o universo vai se encarregar de me punir, eu não preciso fazer isso. Eu não preciso repetir para mim mesma o quanto sou inútil quando perco a hora e acordo atrasada, eu vou acabar enfiando o pé na lama, caindo no chão e rasgando a meia, encontrando o ex e possivelmente quebrando a cabeça no caminho. Sem nenhum esforço extra da minha parte!

Eu já vou ter que lidar com frilas chatos, trabalhos longos, gente estúpida, horários escrotos. Tudo isso porque o mundo funciona do jeito que funciona e eu preciso pagar as contas. Só porque eu sou um ser humano detestável, ele também mandou uma cota extra de azar para que eu pudesse me livrar da árdua tarefa de punir a mim mesma. Me diz, quem mais é acusada de roubar agendas pela louca invasora de aulas? Quase apanhei da mulher, por que preciso bater em mim mesma?

Demorei um tempo longuíssimo para descobrir tudo isso.

Eu precisei que olhassem para mim e não me vissem para descobrir que prefiro ser eu mesma. Que talvez eu mesma fosse acabar do mesmo jeito, mas pelo menos era por eu ser quem sou e não porque tive tanto medo de ser quem sou que deixei que vissem outra. Eu percebi que eu não preciso me odiar e me punir e repetir para mim mesma infinitas vezes o quanto faço tudo errado, as circunstâncias fazem isso para mim. Acho que encontrei algum tipo de iluminação.

Eu larguei a academia e voltei para o ballet. Eu reorganizei meu feed abandonado há meses. Eu quero arrumar a máquina de costura, voltar a fazer bolinhos, só manter no meu armário as roupas que eu ame. Eu estou perdendo tempo moendo cardamomo para fazer chai e não me importo.

Eu descobri que gosto da minha própria companhia e dos meus gostos e das minhas manias, mesmo que ninguém mais goste. Eu respirei. O mundo já é um imenso desconforto, eu não preciso ficar desconfortável comigo mesma.

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(apesar disso tudo, confesso que não gostei muito desse texto)

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Cisne Negro

Eu sinceramente acho que devia ver o filme mais uma vez antes de falar dele, mas não resisto então vamos lá. Acho que a primeira coisa a ser dita aqui é que eu gosto demais do Aronofsky, tanto que até hoje encontro argumentos pra dizer que A Fonte da Vida não é tão ruim assim (mas sim, infelizmente, é ruim). Além disso, Réquiem para um Sonho foi, junto com Clube da Luta*, o primeiro filme não clássico que eu assisti. E eu pirei. Na narrativa que não tinha arco (não que eu soubesse o que era arco na época), no close nas pupilas contraindo, na forma como ele misturava alucinação e realismo, eu nunca tinha visto nada daquilo e, mesmo hoje, depois de todos os Bergmans e Godards e Fellinis e Antonionis, eu ainda acho Réquiem um filme absurdamente bom.

Uma das coisas que eu mais gosto do Aronofsky, e na maioria dos meus cineastas favoritos aliás, é que ele parece ter um projeto: falar das obsessões humanas. E uma das melhores coisas em Cisne Negro é que esse projeto se desdobra em uma espécie de teia de símbolos muito bem montada. A obsessão de Nina não é a dança, é a perfeição e nenhuma obsessão é mais contemporânea que esta. A perfeição, como nós a entendemos, pressupõe simetria e equilibrio e por isso mesmo, controle. Controle de si, do corpo, dos instintos, um corpo que come dificilmente é perfeito (Nina sabe disso) e o tempo todo está escrito por aí como controlar o sexo para torná-lo melhor, como controlar o sono, como controlar tudo aquilo que faz de nós, afinal, bichos.

Há algum tempo, naquela temporada que todas as sobrancelhas apareceram apagadas eu li um texto (tentei muito achar, mas perdi no buraco negro da internet) sobre como a moda tentava cada vez mais apagar os indícios de que, no fundo, somos bichos: a depilação a gente nem fala, mas fora isso tem as unhas de esmalte cor da pele, a boca apagada e por fim, os únicos pelos ainda aceitáveis, a sobrancelha. Eu acho que em moda isso talvez vá e volte, mas me parece bem claro que vivemos em uma sociedade que tem fobia de seus instintos, de sua parcela animal e, principalmente, da sua parcela obscura.

Exatamente como a Nina. E exatamente o contrário da Lily, que é puro instinto, tanto que tem asas de cisne tatuadas nas costas. É por isso que Nina se sente ameaçada, não exatamente pela Lily, mas pelo que ela reconhece da outra em si mesma, os instintos que ela sabe que tem, e parece saber que não pode controlar e por isso prefere manter enterrados. É clássico, Freud escreveu o Mal-Estar na Civilização pra dizer (e aqui eu vou simplificar de uma forma horrenda) que nós temos consciência da nossa brutalidade e criamos mecanismos para contê-la, isso fragmenta o indivíduo. Nina é tão fragmentada que toda vez que sua imagem aparece em um espelho ela é distorcida, a integridade do seu eu está desde o início completamente destruída.

Não tem saída, se a arte requer entrega total é preciso recompor essa unidade. É preciso virar cisne.

Mas tem mais que isso, pra tornar o filme genial: a narrativa do filme é uma adaptação da história do Ballet. Nina é o Cisne Branco, Lily o Cisne Negro e Leroy ao mesmo tempo o príncipe e o feiticeiro. Além, é claro, daquelas firulas cinematográficas e tal, a atuação da Natalie Portman  e a caracterização da personagem como um todo lembram muito a da Catherine Deneuve em Repulsa, outro filme sobre o processo de enlouquecimento de uma garota, a montagem, o ritmo e o clima de paranóia são uma referência clara ao Bebe de Rosemary e por aí vai… Aliás, a montagem de Cisne Negro é uma das melhores coisas que eu já vi na minha vida. E claro, a escolha da Rodarte para os figurinos do Ballet, não só pelas roupas em si, mas pela carga de estranheza, onirismo e macabro que as estilistas carregam.

Talvez, tenha mais a ser dito, eu posso ver o filme uma segunda vez e ler por outro lado, acho até que você pode não ler nada mais profundo e ainda achar um ótimo filme.  Agora eu acho uma metáfora incrivelmente bem feita (com várias outras pequenas leituras que eu ainda não processei muito bem ) sobre uma sociedade de controle do corpo e dos instintos e sobre a vontade de se reunir com pedaços fragmentados de nosso próprio ser de uma forma, obviamente, impossível. Aliás eu acho que outro filme que fala um pouco disso mas de uma forma totalmente diferente é Onde Vivem os Monstros, eu escrevi sobre ele aqui. E aliás, achei a crítica do Pílula Pop sobre Cisne Negro muito boa (a do Escorel, pra Piauí, tá nos favoritos pra ler depois ).

Agora assim, Cisne Negro é um filme que me arrebatou mais, por ser construído pra isso, mas eu ainda acho A Rede Social um filme mais maduro, por ser menos moralista e mais bem construído cinematograficamente e que merece sim todos os prêmios de melhor do ano (caso ganhe).

*Quão irônico é que esses dois filmes entraram no cinema com censura 18 e uma menina de 14 anos podia alugar os dvds sem maiores complicações?