Amor

Memento mori

Eu sempre tive medo de envelhecer, medo do tempo que passa e medo, principalmente, de não ter tempo de fazer tudo que a minha pressa desenfreada deseja.

Eu me lembro bem de ter 11 anos e estar deitada na minha cama, encarando aquelas estrelinhas que brilham no escuro e tendo todo um memento mori estilo Jane Eyre no quarto vermelho porque afinal, estava logo ali o primeiro ritual que me tornaria velha.

Eu me apavorei aos 11, aos 16, aos 20, aos 26. Eu torço as mãos e viro noites e me angustio porque está tudo tão fora do lugar, eu estou tão fora do caminho e o tempo, ele passa tão cruel.

Eu tenho medo dele. Eu tenho medo de tudo que eu não vou ter feito aos 30 anos, eu tenho medo de cada desvio como se houvesse algo a ganhar nessa correria e não há, não há lugar nenhum para chegar e esse pavor me surpreende quando eu penso que tudo tem ficado solidamente melhor a cada ano que passa.

Nesses últimos quatro anos, eu reconstruí a minha vida. Esse ano tira um peso de mim porque fará mais tempo que estou sem ele do que estive com, porque finalmente isso pode parecer distante, esquecido.

A segunda metade dos meus vinte anos tem sido consideravelmente melhor que a primeira. Quando eu o deixei tudo era deserto, estéril, vazio. Quando eu fui embora, eu não tinha ninguém para andar comigo. Nos últimos anos, eu tinha cortado todas as cordas, fechado todas as portas, testado até o limite o amor de quem disse que estaria comigo até nas portas do inferno. Então eu comecei de novo.

Nesse processo eu saí do caminho várias vezes. Eu me perdi, eu quis morrer, eu me arrastei por dias fantasmagóricos. Eu abandonei sonhos, eu passei meses sem escrever uma linha. Eu achei que nunca ia sair daqui. Eu me perguntei todos os dias onde eu estava, o que eu estava fazendo, quem eu queria ser.

Quatro anos depois, eu encontrei respostas. Quatro anos depois, fugir deixou de ser tão importante. Em algum momento, sem nem perceber, eu decidi que só iria quando tivesse porque voltar.

Eu sou, talvez, uma das pessoas mais ambiciosas que andou por essa terra. Eu quero todas as coisas e eu as quero grandes, intensas, enormes. Eu quero tanto que eu me paraliso. Eu sonho tão longe que desisto antes pela impossibilidade de chegar lá. E eu passo um tempo enorme amargurada por tudo que não fiz.

Mas eu fiz sim. Eu fiz uma vida toda. Eu fiz gente demais para caber em um apartamento, ou melhor, gente que topa tentar se enfiar em um apartamento.

Eu perdi tudo e eu ganhei tudo e a primeira coisa que me pego pensando sobre ficar velha é toda essa bagagem acumulada, é toda essa bagagem, minha e do outro, que precisa ser coordenada.

Quanto mais eu trago comigo, quanto mais vezes eu vi relacionamentos acabarem, quanto mais vezes eu fui ferida, abandonada, traída, mais insustentável fica começar de novo? É possível que todas as pessoas que eu deixei entrar tenham me feito trancar a porta?

Ou quanto do que ele já viveu o torna arisco a mim? Quanto do passado o faz perceber que ele até poderia lidar com o que eu trago, mas não quer?

Tenho achado curioso esse momento, como se tivesse cruzado uma espécie de ponto de virada em que tudo é recomeço, todo relacionamento já foi feito antes, por mim e por ele. É como ganhar uma segunda chance e, ao mesmo tempo, sentir despencar na cabeça  a bigorna da condição humana e a certeza de repetir os mesmos erros até o fim.

Há muita coisa atrás de mim agora, há vidas inteiras. Já é tão complicado, tão impossível, coordenar apenas duas vidas, que dirá todas as outras que vem encaixotadas? E o medo?

Meu medo é como a fotografia esmaecida que não se joga fora, como o rastro de perfume de alguém que acabou de deixar o quarto. Como lençois amassados e cheiro de cigarro no dia seguinte. Pessoas foram embora, histórias acabaram, coisas sem fim terminaram, mas o medo fica, a lembrança irracional, do toque, da dor, da loucura, fica.

E vai ficando insustentável. Onde guardo tanto acúmulo? Eu sei que essa foi só a primeira vez que eu perdi tudo, outras virão e outros virão e onde eu coloco cada um deles? Com que coragem eu mostro tudo isso? Como posso realmente pedir para que alguém fique quando eu sei muito bem o que estou trazendo, quando eu sei que é algo que ninguém deveria querer?

Quão irônico é que quanto melhor tudo fica, mais medo eu tenho o tempo todo?

De mãos dadas com o desastre

Cada vez que eu conto uma história desastrosa eu posso prever a reação: “isso só acontece com você!” ou “nossa, mas você tem tanto azar!” Pode ser sobre perder o passaporte, sobre o dia que o cobrador arrancou os cabos do ônibus elétrico, ou sobre algum homem que foi cuidar dos órfãos da Madre Teresa de Calcutá, ou decidiu se alistar no front rebelde da Ucrânia. Não importa muito. A reação é sempre de uma certa incredulidade misturada a espanto que um único ser humano consiga concentrar tanto azar.

O que muitas vezes meu ouvinte não nota, é que todas essas histórias tem um ponto comum muito óbvio: eu mesma.

Há uma parcela de azar totalmente fora do meu controle e independente da minha pessoa. Eu não teria como causar a greve de maleteiros em Barcelona que me fez dormir no aeroporto e comer sanduíches da cruz vermelha. Eu não poderia impedir o cobrador de ter um dia de fúria em plena véspera de carnaval e parar o funcionamento do ônibus. Mas acho que terminam aí as situações em que o desastre foi totalmente livre da minha influência.

Eu tenho o enorme e incomparável talento de estragar absolutamente tudo em que coloco as minhas mãozinhas.

Eu mesma perdi meu passaporte, isso é óbvio. Eu estava andando pelas ruazinhas de uma cidade cubana depois de ir a um cabaré de travestis, isso também é óbvio. Eu decidi ir passear alegremente por Israel quando o país estava em guerra. Eu que encho a cara e saio largando o celular em bancos de táxi aleatórios. Eu que escolho os homens com quem me envolvo. E sou eu, em última instância, que me envolvo com eles.

Tem isso que já acabou. Ou que já deveria ter acabado. Esse cara que já me disse que não sabe o que quer de mim e eu que já estou nessa vida há muito tempo para saber que se ele não sabe o que quer de mim eu deveria juntar as minhas coisinhas, amarrar minha trouxa e ir embora viver minha vida. Mas eu não consigo. Eu volto e eu volto e eu desencavo e eu analiso na esperança de entender o que deu errado. Na esperança de entender o que eu fiz errado.

Em todas as milhares de aulas de filosofia que eu já tive na vida, eu aprendi que o ser humano tem uma dificuldade imensa em lidar com sua falta de autonomia. Frente a Deus, frente ao destino, frente ao acaso, o que você preferir. O que mais nos angustia, nós, seres pequenos e trágicos, é a falta de controle, é saber que não importa o quanto a gente se bata, tente fugir, se recuse a completar profecias, nós acabamos matando o próprio pai e comendo a própria mãe porque nossos caminhos não nos pertencem.

“He had learned the worst lesson that life can teach – that it makes no sense.” Eu entendo Philip Roth, eu amei Pastoral Americana com toda a força do meu coração, eu entendi seu ponto. Não importa o que se faça, não importa os planos e as tentativas, o acaso morde seu rabo e você cai no abismo que passou a vida tentando fugir.

Mas eu acho mais fácil lidar com tudo aquilo que não fui em mesma que causei.

Não é que o acaso e a falta de autonomia não sejam assustadores. Mas são menos do que a culpa. Menos do que a consciência de que eu sou sempre portadora do meu próprio desastre e, ainda assim, não posso impedi-lo.

Eu talvez conseguisse deixar ir alguém que simplesmente não me quer. Eu não consigo soltar alguém que eu fiz não me querer. Eu não consigo parar de voltar em todas as falas, todos os gestos, todas as vezes em que eu contraí meu corpo para fora dos braços dele e o afastamento lento, gradual que eu nunca poderia julgar. Eu nunca poderia acusá-lo da autopreservação, eu nunca poderia dizer que ele estava errado de se fechar para mim quando eu parecia tão fechada para ele.

Mas eu não consigo parar de me culpar. Meses depois, eu não consigo parar de me acusar de tudo que eu causei, tudo que eu fiz ir embora.

Não é porque eu queira ele de volta. Isso me dói muito menos do que a responsabilidade. O que eu perdi é mais facilmente aceitável do que como eu perdi.

Eu baixo a guarda então. Eu hoje noto cada vez que minha mão quer fugir de um toque, cada vez que quero escapar aos dedos nos meus cabelos. Não escapo. Todos os dias eu escolho não fugir e não fujo. Não minto. Eu vou ficando porque eu só não quero ser a culpada.

Mas quais as chances de que eu não estrague? Se eu percorri minhas mãos por você, eu transformei tudo isso em um desastre.

Eu sei desde já dos gritos, do choro e da dor. Da destruição que eu vou deixar pra trás quando eu for embora. Da corrupção e da loucura que ele nunca pensou em ter e eu trouxe para sua vida. Da impossibilidade de que ele saia disso inteiro, inocente.

Eu finjo que não sei. Eu finjo que posso fazer diferente. Eu falo da amargura brincando, como se eu estivesse sendo irônica. Eu aviso, mas nunca a sério, do desastre que posso causar.

Eu não quero ir embora. Mas eu devia.

Sangue na parede

Quando eu cheguei nesse apartamento, eu não tinha nada. Eu tinha caixas de livros e malas de roupa, mas eu não tinha sequer a coragem de dizer para ele que não, ele não ia colocar minhas prateleiras, não ia ter uma chave, não ia voltar lá nunca mais. Eu não tinha sequer a coragem de pedir que ele saísse da minha vida.

Eu cheguei nesse apartamento depois de dois anos morando com um homem. Depois de dois anos em que qualquer sugestão de um quadro na parede era chamada de “expressão da minha futilidade burguesa” ou qualquer coisa parecida. Depois de dois anos em um apartamento que não era meu, da mesma forma que minha vida não era minha.

Eu cheguei aqui praticamente sem amigos, levando um mestrado com o fio de energia que me restava, sem escrever há meses, sem ler um livro direito eu já nem sabia há quanto tempo. Na minha primeira noite sozinha nesse lugar, eu sentei no chão, abracei meus joelhos e encarei minha gata. Ela ainda era minha, ela, eu tivera coragem de dizer que seria só minha. Minha gata, em uma coincidência estranha do mundo, tem os olhos exatamente da mesma cor que os meus. Eu fiquei uns minutos muito longos encarando os olhos dela, que são iguais aos meus, e respirando devagar o ar que já não estava tão envenenado dele.

Eu sempre tive essa mania de transformar lugares internos em externos. Eu estabeleço esses paralelos e esses reflexos entre onde estou e como estou. Ano passado, quando o que eu sentia era insustentável, eu fui embora. Eu saí daqui como se isso pudesse significar sair de mim mesma. O clichê diria que isso é inútil, que você leva a você mesma onde quer que vá, mas eu discordo. Lá fora, eu realmente saí de mim mesma e pude rearrumar as coisas o suficiente pra poder voltar.

Esse ano, depois de meses em que eu dormia razoavelmente bem, não bebia mais todos os dias e não apagava mais cigarros na minha própria pele, eu percebi que precisava sair daqui. Que dessa vez, quem tinha envenenado o ar era eu mesma, quem tinha manchado as paredes de sangue e vísceras era eu mesma. Que o ar aqui dentro era viciado da minha própria dor e da minha loucura e cada pedaço desse chão estaria pronto para me assombrar. Por meses, esse apartamento foi meu próprio inferno particular. Foi aqui que eu me entrincherei quando já não podia aguentar o mundo e gradualmente eu fui deixando que as portas se abrissem e o fogo, a agonia, a loucura, consumissem cada centímetro de parede, impregnassem em cada estofamento de sofá.

Então, eu precisava embora. Mas enquanto eu lacro caixas e embrulho quadros, a minha sensação é radicalmente diferente da última vez que eu fiz isso. Agora, eu tenho tudo. Ou pelo menos, eu tenho a mim.

Esse apartamento foi o primeiro espaço meu. O primeiro lugar em que minhas decisões, e apenas elas, passaram a contar. Eu chorei nesse chão mil vezes por escolhas que eu tinha feito, eu trouxe dezenas de homens pra essa cama porque eu os queria, eu enchi as estantes com os meus livros, os armários com os meus chás, as paredes com os meus quadros. Eu deixei meus sapatos espalhados e meus batons no porta lápis da escrivaninha. Eu escrevi um mestrado aqui. Eu dei incontáveis festas. Eu virei quem eu sou, enquanto morava nesse apartamento.

E eu mesma causei a hora de ir embora.

Não me escapa a minha capacidade de envenenar as coisas, o meu papel como alguém que vai sempre trazer junto uma partícula de desastre, de corrupção, de fim do que parecia funcionar tão bem. Eu tenho batido meu pé e argumentado que não, eu não vou estragar a vida de ninguém dessa vez, que eu estou calma, eu estou quieta, que eu estou tão pronta quanto jamais poderia para sossegar o rabo em algo confortável. Mas a verdade é que eu vou, por mais que eu não queira.

Eu vou porque comigo vem uma quantidade de dor e falta de sentido, uma falta de ordem das coisas como se espera que elas sejam. Porque vem comigo, sempre, uma consciência de quanto tudo pode ser tão cruel e difícil e dolorido para quem talvez não saiba disso. Eu posso ser a pessoa mais doce que possível, eu posso amar alguém, um lugar, o que quer que seja. No final, eu sempre vou embora deixando o ar intoxicado e as paredes recobertas dos pedaços de mim mesma que eu nunca paro de arrancar.

A verdade é sempre mais interessante

Em Birdman, a Emma Stone é o personagem clichê que mais tenho no meu coração. Loira, enormes olhos verdes arregalados, tatuagens, um guarda roupa de peças pretas e botinhas de tachas e um problema com drogas e álcool.

Alegar qualquer senso de identificação no meu carinho é sem dúvida mentiroso. Óbvio. Claro.

Emma Stone pendura as pernas para a fora do terraço não porque pretenda pular, mas pela adrenalina. Eu gosto de uma frase em inglês que nunca consigo traduzir com exatidão: “for the rush”. O que eu acho engraçado é que o filme de alguma forma tenta escapar ao clichê da garota problemática caindo no próximo clichê da garota problemática: ela não é vazia, ela é tão repleta de coisas que precisa do vazio como defesa.

Em dado momento, o personagem do Edward Norton (que ela irá, óbvio, seduzir) diz algo como ela ser uma bagunça tão grande, tão incapaz de lidar com ela mesma ou fazer com que as coisas funcionem um mínimo que ela é como uma vela queimando nos dois lados. Mas que isso é algo lindo de assistir.

Um dia desses, alguém me disse: “ele tem obviamente medo de até onde você pode levá-lo”. Não era uma mentira, acho. Talvez seja algo de profundamente verdadeiro. Mas é uma afirmação que eu não posso processar, porque eu não tenho ideia de até onde poderia levar alguém, porque eu não tenho ideia de até onde poderia ir. Porque eu tenho um medo desgraçado de mim mesma.

Eu já estive diante de alguém que dizia que estava me deixando porque era incapaz de lidar com a incerteza, a inconstância, o furacão constante de coisas e a minha necessidade indomável da adrenalina. Do novo. Ele ficaria velho eventualmente. Toda a paixão louca que eu sentia ficaria velha. O sexo ficaria velho. E eu ia acabar deixando-o ou tentando me equilibrar entre amor e um mundo lá fora e ele não sabia lidar com isso, por mais ridiculamente hipócrita que essa afirmação fosse.

Muitas vezes eu sinto que foram essas as palavras tatuadas nas minhas costas. Ou embaixo da minha pele. Na minha carne, meu sangue, meus ossos.

Já me disseram que eu faço um tipo da minha dor. Que eu era encantada comigo mesma e a imagem que eu vejo de mim. Eu concordei silenciosamente nos dois casos. O que eu mais gosto nesses diálogos entre a Emma Stone e o Edward Norton em Birdman é que ele percebe cada centímetro do show, cada milímetro de falsidade e ao mesmo tempo a sinceridade profunda e a necessidade vital de tudo aquilo.

“Você quer se tornar invisível”, ele diz, “mas você não consegue”. Eu não sei se eu já tentei ser invisível, mas eu tento, com frequência, vestir a verdade de drag queen. Vesti-la em uma aparência tão falsa e extravagante que você não pode fazer nada além de olhar para ela e perder, ou esquecer,  o que é perfeitamente visível por trás dos quilos de cílios postiços.

Alguns dias, quando eu penteio meu cabelo, arrumo o batom e calço botas com minissaia para ir trabalhar, eu rio sozinha do cuidado da minha imagem. Da tentativa estúpida de seduzir todo mundo para que o encantamento esconda a parte de trás , ao mesmo tempo que me permite comprar esse encantamento como afeto real, proximidade. Eu posso ser gostavel, essa não sou eu tanto quanto todo o resto? Ou se eu anunciar o quanto sou detestável ao mesmo tempo que não sou, minha consciência fica mais em paz?

Tem um mundo inteiro dentro de mim que pode me levar a distâncias inimáginaveis. Um mundo do qual eu morro de medo. Porque é uma vela que queima nas duas pontas e é muito difícil, cada vez mais difícil, me equilibrar na parte que sobra. Se eu perder o medo tudo queima mais rápido? Se eu perder o medo, eu espalho essa fumaça tóxica para a vida dos outros?

Eu não gosto do medo. Eu não gosto das distâncias enormes que eu percorro justamente para não percorrer distância nenhuma.

Eu não gosto do dia em que eu bebi até você precisar me carregar para sua casa porque isso evitava meu choro. Evitava o abandono nos meus olhos e evitava que eu suavemente me encostasse em você e dissesse que eu sentiria sua falta, que eu estava completamente vulnerável e que nos próximos meses eu perderia completamente a cabeça por sua causa.

Ela me diz que você tem medo de até onde eu posso te levar. Minha vontade é gritar que eu mesma tenho esse medo e que, portanto, não é justo que você também o tenha. Que eu não quero ser nada de especial, que eu não quero o talento, ou a escrita, ou essa entrega absurda as coisas, eu não quero mais a ironia ou o sorriso que eu sei que tenho quando algo faz surgir aquela corrente de eletricidade pelo meu corpo. Eu não queria nada disso se o preço é tanto medo, se o preço é a distância constante minha e dos outros.

Álcool te afasta da realidade. Drogas te afastam da realidade. Horas insones são uma espécie de realidade alternativa. E a máscara de indiferença, a resposta arisca, a ironia que defende e a defesa mais irônica ainda de vestir a capa da garota problema para evitar que percebam que você realmente tem problemas.

Vício

“O problema é que você tem tendência demais a alguns vícios. Que você gosta demais deles.” Você me diz isso enquanto reviro a cama atrás dos cigarros que certamente estão no bolso das suas calças. Encontro. Acendo um lentamente e te ofereço o maço com um olhar de insolência, minha forma de dizer que você não é nenhum pouco, nenhum nada, melhor do que eu.

Talvez meu problema seja, na verdade, que eu travo batalhas demais com os homens. Que eu transformo camas demais em campos de guerra.

Você aceita minha oferta, sorri, concorda com a cabeça. “Eu também, mas, nesse caso, eu sou melhor que você.”

Quero rir, mas não rio. Quero rir batendo nas minhas pernas cruzadas e deixando cair no meu rosto a massa enorme de cabelos loiros. Mas não rio. Porque o desdém seria só a confirmação de que você está certo. Porque você está.

Então não falo nada. Arregalo meus olhos e te encaro, esperando. Seus olhos são quase verdes, mas não realmente. Como você quase fica comigo, mas não realmente. Parecidos com os olhos do meu gato, meio amarelos.

“Eu sou o alcoólatra reabilitado, aquele que não toca em uma gota de álcool. Você ainda gosta demais da adrenalina, da espera, do jogo. Você gosta demais do jogo.”

O Jogador. Aleksei Ivánovitch em algum momento conta que o que vicia o jogador não é o ganho. Nem a perda, a vontade de reverter a perda. É o momento anterior. Aquele segundo em que tudo é possível, quando a bolinha roda com um barulho irritante pela roleta.

O Jogador não é um dos meus livros favoritos, certamente não é um dos meus Dostoievskis favoritos, mas eu me pego voltando a ele de novo e de novo. Eu não volto a Irmãos Karamazov como volto a O Jogador.

“Por que você não pediu a ele, se queria alguma coisa? Por que você não foi embora? Por que você simplesmente deixou que as coisas ficassem como uma bolinha girando na roleta por tanto tempo?”

Por tanto tempo. Por um tempo insuportavelmente longo. 12 meses. 365 dias. Exatos. Precisos. Até a bolinha cair fora da minha aposta.

Por que eu gostava da espera? Porque eu gostava do lugar de suspensão em que eu poderia ganhar ou perder? Por tudo era possível? Por que eu gostava do jogo e da adrenalina e dos infinitos detalhes e sutilezas que se perdem quando as coisas se estabelecem?

Eu dei uma conferência sobre Amor à Flor da Pele um outro dia. “Não é um filme sobre amor, é um filme sobre desejo”, eu comecei dizendo. É um filme como um tango, em que personagens se aproximam e se afastam e rodopiam e por fim se afastam porque a música acabou, “aquele tempo passou, tudo que era dele não existe mais.”

Me pergunto muito se nosso tempo passou. Se o que vamos fazer agora, porque sei que faremos, é um ensaio ralo de algo que já morreu. Me pergunto também se foi tudo um problema de timing. Se eu tivesse te conhecido agora, seria tudo diferente? Nós poderíamos ter trocado as mãos e você quem teria perdido tudo?

“Eu perdi tudo”, eu falo, sem responder as perguntas. Você assente. “Mais de uma vez”, completa.

“Você aposta sua sanidade com homens e pra que? Nem é algo que você quer tanto assim, você só não consegue ficar sem.”

Então eu finalmente rio. Em parte sardônica, em parte doce, quase compreensiva. “É por isso que você nem joga. Você tem medo demais de gostar desse momento, da espera, da dor, da possibilidade. Eu nem nego. Talvez se ele tivesse ficado comigo eu tivesse cansado em dois meses. Talvez se você tivesse ficado comigo eu teria cansado em uma semana. Talvez eu realmente goste da eletricidade que passa a cada sinal de alguém que você não sabe o que sente por você. Talvez eu esteja aqui procurando por uma coisa que eu vá desistir assim que ganhar. Pode ser. Mas qual a alternativa?”

Qual a alternativa?

Eu tentei. Eu fechei as portas, as janelas. Eu não respondi mensagens. Eu não fui atrás. Eu ignorei a forma como o cabelo escuro dele caía no rosto por mais que minhas mãos parecessem magneticamente grudadas a eles. Eu resisti a química. E eu morri de tédio.

Eu me propus a ser mestre do meu corpo, a não seguir fascinada a cada arrepio que sobe pelas minhas pernas. Eu até considerei parar de beber.

Curioso é que você não me alerta, nunca, sobre o quanto eu bebo. Só sobre os homens. Sobre o amor e o sexo e o como eu uso ambos como uma droga. Jamais sobre o álcool, ele, é claro, não te preocupa.

Não me lembro se disse isso alto. Devo ter dito porque você me responde “o álcool não vai ser o seu fim. Ou melhor, vai. Por causa de algum homem. Você não bebe porque é o que você prefere, você bebe porque é o que você tem.” Eu aponto que nunca bebi tanto quanto como estava com você e nunca usei o amor mais como uma droga também. Você dá de ombros. Eu não preciso dessa resposta e você sabe.

Eu temo quando você for embora. Eu temo as noites em que não vou brigar comigo mesma para não te ligar. Na maioria das noites eu realmente não te ligo, mas na maioria das noites eu bebo. Algumas noites eu reviro hábitos que eu disse que tinha parado. A adrenalina. A eletricidade que sobe pela espinha antes da dor. Você está terrivelmente certo, é claro, eu não posso largá-la.

Eu flerto abertamente, intensamente, sempre. Eu nunca neguei que gostasse do jogo, mas eu me conheço melhor do que você pensa. Eu tomo o isqueiro da sua mão e começo aquela brincadeira que há tanto tempo te irrita: eu acendo e aproximo meu dedo, o máximo possível sem me queimar. Nunca, nem uma única vez, eu errei a medida.

 

Horário de óbito: desconhecido

Eu não sei quando parei de notar sua casa toda vez que passava por ali. Quando parei de imaginar a pessoa que agora dorme na sua cama, os livros com os quais ele agora povoa sua estante. Não sei bem quando parei de tentar calcular o fuso horário de onde você estava, ou reunir pistas, como naquele jogo da Carmen Sandiego, sobre o seu paradeiro.

Ironicamente, Carmen Sandiego é como às vezes meus amigos me chamam. Mas quem foi não fui eu.

Eu não sei bem quando foi, mas eventualmente eu só parei. Em algum momento, que eu nunca soube qual, algo morreu em mim.

Quando foi que eu comecei a esquecer o você que eu conhecia? Quando eu esqueci sua voz e as piadas ruins? Quando eu parei de esperar?

Eu ouço risadas ecoando histericamente por eu dizer que parei de esperar. Mas eu não sei, eu não sei se algo (algo que eu poderia chamar de amor, mas prefiro não) se retirou demim e o que deixou foi a teimosia, a curiosidade, a necessidade de pagar pra ver. Os planos racionais de que se eu listasse as coisas que eu quero de alguém nessa vida, eu não poderia conseguir mais do que tinha em você.

Eu não sei quando meu corpo perdeu a lembrança do seu. Mas ele perdeu. Eu já não saberia reconhecer seu perfume se ele estivesse no homem que se senta ao meu lado do ônibus. Eu não poderia revisitar a sensação da sua língua na minha, dos seus dedos nos meus cabelos.

Eu lembro vagamente de como você apoiava a mão na minha cintura e dos olhares no início, muito no início. Daquela vez que você ficou na ponta dos pés para me olhar uma última vez pela tela do elevador.

Há muito tempo atrás, da primeira vez que alguém foi embora de mim, eu percebi que tudo começava a morrer quando já não lembrava da voz dele. Quando já não era capaz de imitar o sotaque. Quando uma história morre afinal? Quando é que tudo termina?

“História”, que palavra estranha de se escolher. Minha mãe fala “história”: “ah, eu e fulano tivemos uma história”. Eu prefiro caso, relacionamento. Eu pensei em usar amor, mas eu não saberia achar onde estava o amor nessa história, se ele morreu, se ele chegou a nascer. Quando foi que tudo acabou?

Não foi, e acho que podemos concordar nisso, quando “a gente acabou”. Eu tentei. Tentei dizer “foi divertido”, mas você, deus sabe porque, não me deixou fechar as portas. Terminou quando seus emails pararam de chegar todos os dias? Quando eu parei de ter medo da dinamarquesa de pernas longuíssimas em uma praia em Bali? Quando esqueci sua voz?

Eu sou obcecada com marcar a morte de relacionamentos. Já falei sobre isso aqui um milhão de vezes. Me importa pouco quando começa, mas quando eu posso sair por aí livre de você? Quando eu vou parar de tentar montar cenários, prever conversas, ter medo?

Eu tenho dificuldade demais de entender o fim das coisas. Não porque eu não me conforme. Mas eu quero linhas, postos, marcas. Quero um carimbo de fronteira: pronto, agora você não está mais nesse relacionamento. Gosto dessa metáfora. Algumas fronteiras se cruza fácil, oi, oi, carimbo, carimbo, acabou. Outras você passa aproximadamente 2 horas sendo interrogada por um sérvio muito pouco amigável.

Eu levei anos para ver o fim de um outro relacionamento. Ele estava lá antes. Ele estava lá muito antes. Também não sei quando. Sei que não foi quando sentei no chão do aeroporto de Guarulhos e chorei compulsivamente até o segurança achar que o pacote de drogas pesadas no meu estômago tinha estourado. Foi em algum ponto depois disso. Mas antes de quando eu olhei nos olhos dele e disse “não é mais isso, não é mais você”, no ato mais cruel já realizado na minha existência.

Eu queria saber se a gente acabou para saber de onde se parte. De onde, caso o caso seja esse, se começa de novo. Eu sou outra pessoa hoje, eu imagino (espero) que você também. Somos outro “nós dois?” É um novo filme com os mesmos atores, ou um remake? É Woody Allen em infinitos filmes com a Diane Keaton ou é Antes do Amanhecer/Pôr do Sol/Meia Noite?

Tenho plena consciência do absoluto ridículo que sou eu, a essa altura da coisa, querendo limpar essa história. Querendo entender. Querendo coisas as claras. Eu sei, eu sei. Se eu fosse você, estaria rolando no chão e rindo até os pulmões falharem. Mas acontece que eu não posso mais, com essa sombra, com esse ar, com essa espera.

Quando eu parei de notar sua casa, quando eu esqueci sua voz, quando eu deixei de saber onde você estava, eu achei que tinha acabado. Que tinha morrido. Que eu estava livre. Que eu tinha parado de esperar.

Eu não parei. Algo foi embora, mas a sombra ficou. A marca dos móveis que você desencosta da parede. O rastro de perfume de alguém que acabou de sair do elevador. Aquele horário irritante de um sábado a noite sem programa que você não consegue saber se já é hora de colocar o pijama e desistir.

Eu só queria que tudo isso tivesse sido suficiente para eu desistir. Para eu saber se queria desistir. Para eu finalmente entender o que quero de você.

Um pequeno post melado sobre mulheres, amor e achar seu lugar nessa vida

A maior parte da minha infância eu passei com garotos. As pessoas que eu posso dizer que cresceram comigo, junto de quem aprendi a andar de bicicleta, caí de árvores e quebrei o braço três vezes, eram todos meninos. Eu não tive irmãos, mas minha mãe tinha um grupo de amigas, todos com filhos, e eu passei uma quantidade enorme do tempo da minha infância com eles. Convivendo, inventando jogos, ganhando no videogame e brincando de comandos em ação.

Eu não era o que se chamaria de “moleca”. Eu gostava de barbies (embora detestasse bonecas bebês), de cor de rosa, de fadas, princesas e sereias. Eu gostava de livros, jogos de tabuleiro e videogames mais do que de correr por aí. Mais do que tudo, eu sempre gostei de lápis aquareláveis e dirigir peças de teatro cujas protagonistas eram sempre meninas.

Eu aprendi muito, ao longo da vida, na minha relação com homens. A primeira pessoa que foi meu porto seguro, minha âncora, foi um homem. Foi ele que me ensinou que, na ausência de amor, carinho, colo e segurança em casa, eu podia fazer isso por mim mesma, eu poderia arranjá-los fora, e ele é, ainda, a pessoa mais importante da minha vida. Eu tive garotos que me ensinaram a andar de skate, a tocar alguns acordes de violão, que levaram a lojas de cd e me deixaram entrar no mundo deles. Eu sempre fui a confidente de algum homem na minha vida, eu sempre ouvi ao menos um me contar de amores, de inseguranças, eu já consolei no meu colo mais de um choro por coração partido.

Mas foi só esse ano que eu percebi, apesar de todo amor que eu sempre tive pelos homens da minha vida, o quanto era importante e necessário e o tamanho do bem que me faz a amizade de mulheres.

Provavelmente a coisa mais importante da minha vida é conseguir uma rede de apoio. Pessoas que vão te amar não importa se às vezes você erra, que aceitam pedidos de desculpas e te dão lugar para não ser perfeita. Que te acolhem quando o que você precisa é só saber que não está sozinha. Eu não achei isso em casa e eu não achei isso em relacionamentos amorosos, eu achei isso em grupos de amigas.

Talvez porque o mundo é construído desse jeito fodido, eu vi muitas vezes, em mim e em outras, essa resistência a “se fechar” em grupos de mulheres. A declarar girl’s night, a dizer que nessa conversa nenhum homem entrava. Acontece que é importante, que há um tipo de cumplicidade e conexão que acontece diferente quando se está entre mulheres.

Vejam, eu não estou dizendo (NÃO ESTOU) que há mais conexão entre mulheres do que entre mulheres e homens. Que é impossível ter as mesmas conversas ou mesmas intimidades. Não é. Eu já tive conversas tão explicitamente gráficas e confortáveis sobre sexo com homens, inclusive com um homem com quem já transei. Eu já chorei e pedi conselhos e falei do que eu sentia. Mas a sensação é diferente, não é mais ou menos possível ou melhor ou pior, mas é diferente.

Há um acolhimento na identidade. As coisas não deveriam ser assim, mas homens e mulheres são educados de formas diferentes e tem expectativas diferentes em relação ao mundo. Não acontece tanto de eu contar algo a um amigo e a resposta dele ser “já passei por isso”, enquanto acontece de horas serem passadas entre três mulheres contando de experiências parecidas.

Esse ano não tem sido um ano fácil para mim. Eu defendi um mestrado e passei dois meses aprontando pela Europa então não posso de forma alguma dizer que tem sido ruim. Mas tem sido difícil. Os altos foram muito altos e os baixos foram muito baixos, mas eu tenho quase certeza que quando 2014 chegar ao fim o que eu vou ter como memorável são o que os dois meses sozinha pelo mundo me ensinaram e o que as mulheres que me receberam aqui me deram. Voltar é tão difícil quanto ir é maravilhoso e elas, nos mojitos de terça-feira, nas conversas retardadas do twitter, nas idas ao ballet e nas baladas, me mostraram que havia motivo para voltar, motivo para querer ficar, para querer permanecer em algum lugar.

Eu tenho uma amiga que já me acolheu em um domingo a noite só porque eu tinha voltado de Cuba e na minha casa não tinha um único pedaço de pão mofado. Que me disse não senhora, você não vai jantar miojo e me levou para casa dela, me deu álcool, lasanha e gatos o que me parece a própria definição de amor. Em troca eu dei minha casa e minha cama a qualquer hora da madrugada que ela precise, sem explicações, sem justificativas.

Quando eu me percebo dentro de um grupo de mulheres, eu me sinto profundamente agradecida. Quando há adesão quase automática a bebidas e fofocas no meio da semana, quando as histórias só precisam ser atualizadas, quando há uma certeza forte de presença, de amor, de apoio. E no fundo, todas nós precisamos disso. Todas nós viemos de famílias pouco compreensivas, ou que estão longe, a maioria de nós é solteira e você descobre um dia que é importante ter alguém que vai se preocupar se você não respondeu mensagens por um tempo longo demais.

O mundo é cruel demais com mulheres, com nossas expectativas e auto-estima, o que eu descobri me cercando delas é o quanto isso é uma arma forte para mudar essas coisas. A descoberta da riqueza, do talento e da maravilhosidade das suas amigas é uma arma forte. A possibilidade de compartilhar vulnerabilidade ou de ver outras estando profundamente em paz com a própria sexualidade ou corpo, é uma arma poderosa. Conviver, conversar, compartilhar a experiência de ser mulher nesse mundo salva muita gente, melhora profundamente a vida de muita gente. Ouvir muito claramente que se é amada e que alguém te acha maravilhosa também.

Esse post parece um ode gratuito de grupos de meninas e girl’s night out e é exatamente isso. Porque por mais que pareça óbvio que a convivência, honesta, aberta, amorosa, com outra mulheres, faz bem, por muito tempo me apegar a esses grupos me pareceu infantil, sectário quase. Mas não é. É um tipo de segurança que só a experiência compartilhada pode dar.

Eu tenho uma melhor amiga. A vida toda eu tive “melhores amigas”, pessoas em quem eu me apegava e fazíamos tudo juntas, ou nem olhavamos pro lado na hora de escolher grupo de trabalho ou a pessoa na frente de quem você começa a chorar, não importa se é o meio do bar ou do restaurante, por coisas que nem você saberia explicar. Eu percebi, quando errei com ela, que eu nunca tinha descoberto que o amor de outra pessoa não depende do quão perfeito e sem falhas você é. Eu fui criada sem desculpas e sem tolerância para comigo. Sem espaço para que minhas falhas fossem só falhas comuns e não monstruosidades de uma pessoa com defeito. A mudança de eixo enorme que ela representou quando me mostrou isso não é pouca coisa.

No fundo esse post é só sobre a possibilidade de achar amor, de achar apoio e segurança e coisas que te fazem continuar em qualquer lugar e não necessariamente naqueles que te disseram que encontraria. Eu sei o quanto muita gente encontra repouso e segurança em relacionamentos amorosos, não foi para mim. E nem só porque eles foram ruins, ou acabaram mal, eu tive um relacionamento maravilhoso e absurdamente importante pra mim com alguém que ainda está na minha vida. Mas eu percebi que era a dimensão da amizade dele que mais me segurou. Eu não sou contra namoros e relacionamentos, mas eu descobri que o centro do meu equilíbrio e da minha segurança esteja fora deles. E eu gostaria que ele permanecesse nesses grupos de mulheres.