Enquadrado

Quero ser John Keats

Eu disse que ia começar a falar do que eu via por aí, já que afinal não sei mais sobre o que escrever, então em janeiro eu fui ver Roma. Eu já tinha dito aqui que a Itália nunca foi aqueles lugares do topo da minha lista de vontades. Eu quero ir à Índia, à Islândia (Islândia é topo, topo da minha lista) ao Vietnã e  à Escandinávia (mas juuuuura?). A Itália era só um daqueles lugares que eu queria ir porque no final eu quero ir pro mundo todo.

Então eu fui à Roma, eu queria ir claro, mas sem que meu coração acelerasse por isso. Sim, sim, Fellini é um dos meus diretores favoritos, 8 1/2 é o melhor filme do mundo e eu sei de cor diversos (diversos) diálogos de A Doce Vida e era isso que eu esperava, uma cidade habitada pelos filmes que eu amava.

Roma foi mais que isso, mas ao mesmo tempo Roma foi aquele cara legal que você conhece no momento errado e jura pra ele que um dia, quando tudo for de outro jeito, você volta a ligar.

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Eu não gosto de arte renascentista,nem de Caravaggio, pronto falei. Agora você pode fechar o blog, me apedrejar, nunca mais sair pra tomar cerveja comigo, você escolhe. Veja bem, eu entendo o que se gosta neles, eu entendo o que é incrível, extraordinário, maravilhoso, mas não me toca. E eu vi muitos, muitos quadros que não em tocavam.

Eu também não gosto de igrejas barrocas. Eu gosto, isso sim, de igrejas góticas, eu gosto de idade média como poucas pessoas que já vi. Então eu vi mil igrejas que não me tocaram. Mas eu vi também a igreja de Santo Agostinho.

Santo Agostinho é um dos meus filósofos favoritos e a igreja dele é tão encarnada pelo que eu amo que talvez eu ache a igreja mais bonita do mundo. A igreja de Santo Agostinho tem teto baixo, sufocante, azul marinho e cheio de estrelinhas douradas. Por baixo do teto faixas de tule, etéreas, cheias de ar, como pedacinhos de Graça. Ela é escura, pequena, objetivamente muito menos bonita do que todas as outras e eu sabia disso. Mas tinha um teto de estrelinhas.

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Por outro lado eu entrei na basílica de São Pedro e nunca me senti tão longe de um Deus que eu nem acredito que existe. É tudo tão grande, tão enorme e tão, tão frio. Meu mestrado me diz que Lutero é um Deus distante e silencioso. Eu digo que a basílica de São Pedro sim é o silêncio de Deus.

Mas Roma é cheia de ruazinhas. Estreitas, apertadas, sufocantes. E de repente elas se abrem em uma praça, enorme, arejada. Eu queria me perder pelas ruazinhas. Eu queria estar sozinha e sentar em qualquer praça, café e escrever. Eu queria me perder, sozinha, sozinha de tudo. Prometo Roma, que um dia eu volto para escrever meu romance.

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Roma também é do Castelo Sant’Angelo. Eu já falei que gosto de idade média? Subi e desci todos as escadas. Olhei pelo espaço de cada um daqueles buraquinhos de arqueiro (trivia sobre mim: eu fiz um curso de história da arte em francês e aprendi o nome técnico em francês de todas as partes de um castelo da alta e da baixa idade média, esqueci, óbvio) . Subi lá em cima e Tosca eu entendo, a vista é tão bonita que você quer morrer um pouquinho.

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Eu preciso falar de Pompeia. Eu preciso falar de Nápoles. Eu preciso contar que se empilham três pedras e chamam de ruína eu quero ver. Eu perdi o fôlego com o Coliseu. Eu também fiquei sem bateria na câmera. Recomendo, eu, que tanto fotografo, gostei de ver, respirar, reparar nas quebras e não fotografar quase nada. Um dia eu ainda viajo sem câmera. Mas não agora, não tão cedo.

E a Fontana di Trevi. Que eu vi de dia, de noite, com sol, com chuva. Não vou falar dela. Deixa o Fellini fazer isso .

Eu quero voltar à Roma. Eu invejei o Keats, aquele quartinho com vista para a Pizza di Spagna, escrevendo, escrevendo, escrevendo. Eu quero voltar à Roma, mas para escrever. Para quem sabe, Fellini, que se existem anjos nesse mundo certamente é um, me ensinar como a gente afinal faz para ser tragicômico.

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(as fotos são todas minhas e esse post foi escrito ao som de Nino Rota, especificamente do tema de 8 1/2, recomendo ler com a mesma trilha)

Eu não sou Zooey Deschanel

Manic Pixie Dream Girl. A gente lê um monte sobre isso ultimamente, sabe, aquela menina linda, espontânea de um jeito fofo, inteligente e que magicamente tira o cara do limbo em que ele estava. Claire Colburn, Natalie Portman em Garden State, Zooey Deschanel dia sim, dia não e toda essa gente aqui. 

Eu quis muito ser essa menina. Eu quero ainda. Eu tentei uma vez e meio que consegui. Eu fingi ser algo que não era, eu fingi não ter todas as minhas dores, falhas, cicatrizes e neuroses e tirei um cara do buraco onde ele estava. O problema é que ele não queria todos os pequenos dias em que eu me sentiria mal, os dias em que eu queimava o bolo, que meus planos davam errados, que eu sentava no chão e chorava. O problema de ser a Manic Pixie Dream Girl de alguém é que você não tem direito ao seu próprio buraco, não tem direito a colo ou dor, não tem direito a pedir atenção, toda salvação é só para ele.

Eu ainda quero salvar pessoas, eu ainda quero conseguir tocar quem sempre afasta a mão, mas eu mudei de filme. Se for para salvar alguém eu quero ser a Bibi Andersson em O Sétimo Selo, a Marianne em Morangos Silvestres. Eu quero ser aquela que, com toda dor que as personagens do Bergman sempre tem, fica apesar de tudo. Fica porque algum momento alguém tem que ficar, porque algum momento alguém tem que aceitar todas as falhas e dizer que entende.

Eu quero ser, mas não sou. Ser essa pessoa requer ser vulnerável, requer se colocar em um lugar onde você pode se machucar, onde alguém pode te machucar, conscientemente e as vezes de graça. Eu não sei mais fazer isso. Eu não sei mais ficar ali e esperar que as vezes eu vá apanhar, mesmo que no fim valha a pena. Eu não sei porque eu fiz demais. Eu não sei porque eu gastei toda vulnerabilidade e toda doçura, eu gastei a menina pequena e loira de sorriso bonito. Eu fiquei fria porque fui a Manic Pixie Dream Girl.

A gente morre um pouquinho cada vez que tenta ser o que não é. Eu tentei ser leve demais e matei a pouca leveza que eu tinha. Sobrou uma bagunça que eu não tenho coragem de pedir pra ninguém olhar de perto, muito menos me ajudar a limpar.

Cuz I know I’m a mess he don’t wanna clean up
I got to fold cuz these hands are too shaky to hold
Hunger hurts, but starving works
When it costs too much to love

(talvez eu seja Fiona Apple?)

I’m with the band

Se eu pudesse eu queria ser groupie. Bem no estilo “tudo que eu queria era ser o apanhador no campo de centeio”, totalmente absurdo, totalmente anacrônico, não faz o menor sentido e ainda assim, se eu pudesse, era tudo que eu queria fazer da minha vida.

Dito isso, eu poderia fazer uma lista “5 bandas que eu adoraria ser groupie para”, obviamente não baseada em critérios musicais, mas não, a lista vai ser 5 filmes em parte responsáveis por essa obsessão.

Né? Não é exagero dizer que toda vez que eu me visto eu olho no espelho e vejo se tem alguma coisa pra me deixar um pouco Penny Lane. E as vezes, quando o dia foi muito ruim eu danço Tiny Dancer pela casa com o que me restou do ballet (fim do oversharing). É um dos meus filmes favoritos no mundo, o início da obsessão e sim a irmã dele é a Zooey Deschanel antes de ser hipster.

Esse trailer é muito ruim. Mas enfim, não é só o início das listas, mas foi meio que o filme que me fez perceber o quão obcecada com música eu era e o como era capaz de discutir influências  e músicas como se fosse uma aula de literatura comparada, mas claro, que sendo eu essa pessoa um tanto errada isso não me fez querer ser rockstar, me fez querer ser groupie.

Mais trailer ruim, meu deus. Enfim, o filme tem 4 horas, nunca passou no cinema mas é um documentário do Scorcese sobre o Bob Dylan! (essa frase foi acompanhada de pulinhos e eu apertando seu braço sem perceber pra reforçar o pont0) . É mágica em forma de cinema e eu queria casar com o Bob Dylan (ou pelo menos ter um lugar privilegiado no ônibus de turnê dele)

Mais Bob Dylan! Mas nem é por ele, a Edie Sedgwick era mesmo groupie do Andy Wahrol e foi a própria essência da groupie. Sim, eu sei que é meio errado e doentio, mas por algum motivo eu preferiria ser musa do que ser artista e nada contra morrer no Chelsea Hotel.

O início da minha obsessão com o Trent Reznor (ele assina a trilha) e bom…

 

Talvez eu ainda faça uma lista das 5 bandas que eu entraria no ônibus em 30 segundos se tivesse a chance, mas agora vou lá pintar meu cartaz de “Julian, me sequestra!” pro Planeta Terra

Risco de giz

O primeiro desfile que eu fui na vida, assim ao vivo, envolvendo brindes e modelos e os fotógrafos todos empoleirados, foi do Ronaldo Fraga, aquele da Disneilânda, do verão 2009 se não me engano. E mudou a minha vida.

As cores, o efeito das rendas cortadas a laser, a mise-en-scêne, as caras lânguidas, sofridas, exploradas das modelos, a trilha do Jorge Drexler (que vamos lembrar, ganhou um Oscar) pra mim tudo aquilo era a tradução perfeita daquela frase do Zeca Baleiro “Disneilândia Eldorado vamos nós dançar na lama”. Eu nunca achei que moda fosse arte, por mais que goste, mas naquele dia eu tive vontade de dizer que o Ronaldo era um artista e depois de ver a exposição dele sobre o Rio São Francisco eu tenho mais ainda.

Ronaldo é artista porque seus vestidos são sensações traduzidas em outras sensações eu olhei para essas peças e me parecia exatamente que o tule era feito pra vestir como a água do rio molhando você, o algodão como se fosse  o vento ou os tecidos que você tocaria naquele lugar.

E se Ronaldo vive de criar sensações essa exposição é a obra prima dele… da sensação da cidade alagada e da força de ver no vídeo um Wagner Moura tão menino e já tão intenso contando como é não poder nunca voltar pra casa.

A milhões de outras sensações que não parecem recriar o que é o São Francisco, mas o que ele, Ronaldo, sente no São Francisco.

E me lembrou ao mesmo tempo aquele outro desfile dele… sobre a transitoriedade de tudo, sobre como tudo é risco de giz, porque tudo isso já não parece estar lá no Rio, como sempre, o Ronaldo Fraga parece falar de um tempo que já passou, ou que nunca existiu.

 

Mesmo que você não goste de moda, mesmo que o tema não te pareça interessante, tem que ir! Porque é ali no Ibirapuera, é de graça e é uma das coisas mais lindas que você vai ver em toda vida.

Francesinha

Como eu já disse aqui (e no twitter mais 1319393 de vezes) semana passada foi a semana do inferno, mas pelo menos eu comecei com o café da manhã de graça no Paris 6 (é só seguir no twitter  @Paris_6 e vai até o fim dessa semana).

Eu gosto de lá, da decoração francesinha (haha, lógico!) e da varanda e o café da manhã  tinha pain au chocolat e macarrons! #blairwaldorffeelings.

[Eu sei que super não dá pra ver, mas só pra constar: Vestido Handbook/ Meia Calça Express/Sapatilha: Arezzo/Bolsa: Prüne (uma marca argentina)]

[Esmalte: coque/ Batom: Natura Acácia (é tão velho que a linha dele nem existe mais na Natura, mas é um nude ótimo)]

In a World of my Own

Eu sempre gostei de minúncias, provavelmente desde que comecei a brincar com aquelas Polly Pockets bem pequenininhas (as muito pequenininhas mesmo!). Ultimamente eu ando atraída tanto pelas minúncias quanto por tudo isso que é muito feminino, talvez porque desde que eu pintei o cabelo de um loiro meio Courtney Love elas tem feito um bom contraste.

Ainda essa semana vem um post com tudo que tem me inspirado ultimamente, por enquanto livros queridos de escritoras, esmaltes, minha revista preferida e a gata mais linda do mundo (tudo nesse lindo tom de rosa que é tão Virgens Suicidas!)

[Cleo: a gata/ Livros: Ariel, Sylvia Plath; Mutações, Liv Ullman; Emma, Jane Austen; Save me the waltz, Zelda Fitzgerald; O Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë/ Esmaltes: Chanel Paradoxal; Eyeko Rain/ Echarpe: Farm/ Nylon de fevereiro com a Leighton Meester e de março com a Kate Bosworth]