Carmen Sandiego

Me voy, mais uma vez

Eu gosto muito de ir, mas às vezes me pergunto se faz diferença o lugar em que vou chegar.

Estou indo hoje à noite, de novo, um mês e meio depois de ter voltado. Não é que não queira ir para onde vou, não é que a Andaluzia não pareça linda e eu não queira ver Guernica, mas acho que nunca estive tão ansiosa para uma viagem e não faz sentido.

Sei que nem sempre é preciso encher a cara no topo de um cortiço, se jogar do barranco ou trepar com um turco no alto de uma colina para que uma viagem seja boa. Sei disso. Mas ajuda.

Sei que o mundo é lindo em si, independente das merdas em que eu me meto. Sei também que me meto em merdas quando estou perto de casa. Me pergunto se faz tanta diferença para onde estou indo ou só a desculpa para sair. E parar.

Talvez eu esteja ansiosa para parar. Para não voltar com infinitas histórias aleatórias. Para só caminhar por museus, ver palácios e beber sangria. Para que a vida adote um ritmo mais lento, mais pausado, para que eu possa respirar.

Uma das coisas que mais gosto quando viajo é o como o tempo passa mais devagar. Eu não vejo as semanas passarem quando estou aqui, abro o olho e já é quinta feira, mas longe de casa as horas se alongam, se preenchem. É quase como roubar tempo e eu adoro a ideia de roubar tempo.

Eu preciso parar. Desligar as coisas. Eu me recuso muito a admitir, mas eu tenho certos limites. As vezes eu canso.

Nunca quis tanto estar longe de um lugar como agora. Nunca quis tanto sair de São Paulo como agora. 8 anos depois, já deu, já não serve, não caibo, não quero. Preciso largar muitas coisas que nunca vou largar enquanto continuar aqui.

Tenho enormes dificuldades com pausas. Tenho enorme dificuldades com abrir mão de alguma coisa. Sempre quero o que não posso ter, sempre quero estar onde não estou. Mas quando estou longe só posso estar onde estou, só posso ficar ali.

Eu preciso parar. Eu preciso ser só eu e quadros e cadernos. Então estou indo, dessa vez ainda no maravilhoso mundo do capitalismo portanto comunicável e possivelmente com textos no blog. Vejo minha vida de novo depois do carnaval.

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Na laje de um cortiço cubano, ou como eu comecei 2014

Como já foi dito aqui anteriormente, eu não acredito em muitas coisas. Claro, pode ser que eu leia a Susan Miller no início do mês quando estou muito desesperada e qualquer luz/conselho/anúncio de desgraça maior é bem vindo. Também pode ser que aos 16 anos eu tenha brincado de prever o futuro pingando cera de vela em uma bacia com água (grande incentivo a criatividade). Também pode ser que nós tenhamos ido a uma casa de Iemanjá e cantado músicas com temática de sol para ver se ele aparecia antes de chegar na praia mais linda da vida. Mas em geral, nas circunstâncias normais de temperatura e pressão (ou seja, não em Cuba), eu não acredito em muita coisa.

Mas tenho uma crença sem sentido que me é muito querida: o ano novo sempre continua como eu começo. De 2005 para 2006 tudo parecia lindo, eu estava em uma festa com comida ótima e gente querida e decidi colocar meus pézinhos semi-bêbados de muita champagne na água quando fui atingida por um barquinho de Iemanjá (passive-agressive Iemanjá) e trinquei um dedo. O ano foi exatamente assim, parecia tudo muito lindo, mas acabou sendo uma bosta sem tamanho.

2013 começou comigo sentada no sofá da casa do meu tio, de pijama, lamentando os últimos 6 anos da minha vida enquanto bebia uma garrafa de champagne que minha prima roubou do restaurante onde trabalhava. Não chegou a ser ruim, só foi completamente meh. Igualzinho o resto do ano.

Eu acho esse um fenômeno bastante útil. Nem me permito criar esperanças para anos que começam como 2012 ou 2013. Já morreu, já vai ser ruim, já esquece. Adoro avisos, adoro quando o universo permite que eu me prepare um pouco antes dele puxar meu tapete, sabe, tentar não cair com o nariz direto no chão, gosto muito do meu nariz.

Porém 2014 começou do jeito mais legal e sem sentido da história do universo.

Primeiro, ele começou em Havana. Eu poderia estar viajando para algum lugar mais comum, mas não, eu estava lá, na capital maravilhosa de um país que não faz o menor sentido. Além disso, capital mundial do mojito. Só que chovia. Muito. E aparentemente cubanos passam o ano novo em família, como se fosse um natal. Meh.

Bom, nós tínhamos a ceia do nosso ótimo cozinheiro-man-in-a-uniform-cubano-ou-veado Ulisses (sim), dois franceses e perto da meia noite um bar deprimente com cara de bar americano dos anos 40 e uma mulher que bebia sozinha parecendo abandonada no balcão. Muitas conjecturas sobre pés na bunda e traições e o amor da vida dela dando um bolo bem na noite de ano novo. Pelo menos eu tinha mojitos.

Ao contrário de 2006, 2014 pareceu extremamente deprimente, mas não foi.

Porque um pouco antes da meia noite nós recebemos saquinhos com serpentinas, línguas de sogra um pouco brochas, máscaras, negocinhos barulhentos irritantes e canudos de atirar bolinhas no amigo. O que eu posso dizer? são coisas divertidas. Mas de repente, não só nosso humor tinha mudado completamente, como a senhora abandonada era mulher do dono do bar e as garçonetes estavam fazendo um trenzinho. 2014 começou comigo fazendo um trenzinho com garçonetes cubanas em um bar de Havana com cara de Estados Unidos dos anos 40. Sentido, você ficou em 2013 né?

Claramente ficou, porque cinco minutos depois estávamos sendo guiados por um francês para uma festa em um hotel cinco estrelas que custava 120 cucs para entrar. Claro que não pagamos 120 cucs. Claro que só descobrimos isso quando já estávamos lá dentro bebendo champagne que aparecia magicamente quando alguém dizia “eu bem que podia ter uma taça de champagne na mão agora”. 2014, o ano em que você deseja o álcool e ele surge na sua mão.

Também o ano em que de repente estávamos conversando com uma grega que parecia a Julia Petit, uma cubana de vestido longo vermelho e Francis, o dominicano de chapeu Panamá que aparentemente é dono da cidade. Julia Petit nos chama para uma outra festa e lá vamos nós. Ela vai antes, nós vamos com nosso guia francês atrás. Chegamos lá e um segurança diz que fechou, não podemos entrar. Vem a Julia Petit grega: “eles estão comigo”. Não pode. Vem Francis: “eles estão comigo”. Agora pode. Francis, o rei de Havana.

Aliás, esqueci de mencionar que a cubana do vestido vermelho entrou em um Audi preto. Sim, existem Audis pretos em Havana, não que eu tenha andado em um, eu mesma só andei de Lada e Coco-Taxi. Mas ela andava.

Enfim, entramos no que parecia muito uma balada do Itaim, só que em Havana. E tocando reggaeton. E onde eu não paguei pelos meus mojitos porque aparentemente estava acompanhada de um amigo pessoal do Fidel, ou o que quer que seja. Mas vamos sair dessa festa porque ela é chata e ir para uma quarta. Ok…

Quarta festa da noite, senhoras e senhores, era na laje de uma mansão. Tá, possivelmente a mansão era um cortiço, mas quem se importa? Eu fui parar em uma festa na laje de uma mansão/cortiço cubano. Não só fui parar em uma festa na laje de um cortiço cubano, como quando chegamos lá havia uma fila enorme para entrar, na qual entramos, perfeitamente resignados a horas de espera. Até o momento em que alguém, não vi quem, anuncia que não, pega na mão da pessoa na sua frente porque vamos cortar. Ah, Francis, não sei quem você é, mas eu gosto muito de você.

Eu vi a morte muitas vezes nessa viagem, particularmente quando quase enfiei o carro embaixo de um trem, mas a primeira foi na escada para laje. Lembram que chovia? A essa altura já tinha parado, mas a escada, azulejada, estava molhada. E era estreita. Em caracol. E na parede tinha um milhão de gatos de energia nos quais eu não queria enfiar a mão. Sempre bom lembrar que eu já estava bêbada a essa altura.

Mas sobrevivi, só precisava ir ao banheiro. Sobre o banheiro da laje de cortiço: foi possivelmente o pior da viagem, mas nem de longe o pior da minha vida (Bolívia que saudades de você, seu país horrível do cacete). Sim, tinha uma fila imensa, mas meus queridos, estávamos recobertos da aura da boa sorte naquela noite e uma cubaninha saiu amando minha tatuagem, perguntando a quanto tempo estávamos lá, passando o telefone e dizendo “não, não, não, vocês nunca vão conseguir assim, meu amigo é segurança do banheiro”. Carteirada em fila do banheiro na festa em uma laje de cortiço cubano: check.

A festa não era uma festinha de apartamento, se é isso que vocês estão pensando. Tinha DJ, luzes, uma multidão. É possível que eu tenha conversado sobre surf com uns adolescentes. Eu devia ter agarrado algum adolescente só pelo check-in em Cuba. Oi que? Foursquare mundial de putaria, sim senhores, uma brincadeira válida.

Mas não agarrei nenhum adolescente. Só fiquei lá enchendo a cara até o sono vencer e então voltamos para casa. Talvez uma boa hora para perceber que a pessoa portadora da chave tinha desistido da noite horas atrás. Duas ruivas bêbadas na porta de uma casa de Havana falando alto, rindo histericamente e tentando fazer uma ligação internacional deve ter sido uma bela visão.

Não sei se foi já aí que eu me apaixonei por Havana. Mas certamente foi quando descobri que entrei no ano mais wtf (e portanto mais divertido) da minha vida que já não faz muito sentido geralmente.

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“Está na hora de me fazer ao mar”

Existe uma sensação que me é bastante querida, embora extremamente rara: sentir que, onde quer que eu esteja no momento, é exatamente onde eu queria estar.

Muitas vezes, quase todas, eu não sei muito bem como fui parar ali. Também não importa, acho. Ou talvez eu só consiga me sentir assim nos lugares que não sei muito como fui parar.

Faz duas semanas eu estava em Cuba. Em um certo momento eu estava em um picanto imundo, em cima de uma ponte, vendo campos enormes de algo que me parecia trigo (mas eu sei que não era) cantando Shape of My Heart a plenos pulmões. Eu não sei como fui parar ali, mas era exatamente onde eu queria estar.

Muitas vezes durante a viagem, enquanto nós cruzavamos estradas que não faziam o menor sentido, enquanto era preciso fazer parkour entre as carroças, os caminhões que pareciam transformers, os cubanos de bicicleta e os maravilhosos outdoors do Chávez “nuestro mejor amigo”, eu queria colocar a cabeça para fora, sentir o vento no meu rosto e simplesmente estar ali. Eu queria estar cantando Backstreet Boys como se não houvesse amanhã enquanto cruzava um país socialista, mesmo que não tivesse a menor ideia do que estava fazendo ali.

Mas a verdade é que eu tenho.

Sempre fui fascinada com a ideia de roadtrips, com road movies, com navios, com o mar, com trens, com tudo que se movimenta. Eu sempre gostei do deslocamento pelo deslocamento, do próprio processo de se mover, de atravessar, de não estar exatamente em lugar nenhum. No meio do caminho é exatamente onde eu queria estar.

Uma roadtrip é uma viagem em que o processo de viajar é um objetivo tanto quanto os lugares que você vê. Dirigir por aquelas estradas, ver aqueles cartazes, poder parar em qualquer cidadezinha pitoresca que desse vontade, escolher uma trilha sonora, dar apelidos aos caminhões, se movimentar.

Eu gosto muito de me movimentar.

Em nenhum momento pus a cabeça para fora do carro, meu nome já tem uma tradição suficiente em mortes trágicas com carro, mas o que eu queria mesmo não era só sentir o vento, era sentir uma liberdade muito extrema de não se ter um lugar, de não dormir mais de uma noite na mesma cama. A liberdade extrema de viver dentro de um quarto, de uma mochila, dentro de mim mesma, de certa forma. Essa liberdade me seduziu intensamente.

Toda vez que falo em liberdade, me lembro do Kieslowkski. A liberdade é azul e solitária, terrível, profunda, brutalmente solitária. Claro. A liberdade real, pura, por assim dizer, só pode existir na ausência de laços. Crescemos com a ideia de que liberdade é algo essencialmente bom, sempre, como se pudessemos fazer colunas de coisas boas e coisas ruins. Mas não podemos e a liberdade não é sempre boa, ainda que, para mim, ela seja extremamente sedutora.

Enquanto eu olhava pela janela para as paisagens cubanas, que se pareciam um tanto com as brasileiras, eu não pude deixar de pensar em todas as coisas que vagam pela mente quando se tem muitas horas e muitos kilômetros. Em como eu quero ir embora. Em quem foi embora de mim. Em quem foi embora de mim querendo ser livre e nunca foi, porque tem nós (não laços) demais dentro de si; e de quem foi para esse tipo de liberdade que eu pareço sentir no sangue; de quem não foi, não precisou ir, mas diz que eu preciso.

Nas estradas cubanas eu encontrei um tipo de perdão muito libertador.

Há alguém que uma vez foi embora de mim porque eu não poderia ficar e que, ainda hoje, me diz que há em mim algo de quase selvagem, algo que é incapaz de jogar o jogo, que eu não posso dominar e que se sente constantemente sufocado, inquieto, como uma jaguatirica em caixa de transporte de gato. Há alguém que diz que tenho olhos de gato selvagem, mas insisto em achar que posso viver de arranhador.

Não vou dizer que não me sinto elogiada, mas há algo profundamente triste nessa afirmação. Porque gatos selvagens são animais que caçam sozinhos.

Há naturezas mais civilizadas, para quem a liberdade da ausência de laços é apenas isso, libertadora. Talvez porque não exista o medo de se perder, o medo de sucumbir ao lobo dentro de si, ao pequeno monstro adormecido, de tornar-se verdadeiramente intratável. Há naturezas mais civilizadas que precisam da ausência de laços para, ao contrário, não sucumbirem a própria civilidade.

Lembro de há muito tempo atrás ter lido um livro do Bauman em que ele afirma que algumas coisas são binômios: menos de uma necessariamente significa mais da outra e vice versa. Liberdade e segurança é um dos exemplos que ele dá. Eu diria liberdade e conexão.

Estar perto dos outros significa ter peso, lastro, bagagem. Conectar-se com alguém significa abrir mão dessa liberdade profunda que só pode nascer do completo desprendimento. É inocente e ridiculamente ingênuo achar que a liberdade é algo intrinsecamente bom, como é ainda mais ridiculamente ingênuo achar que o amor é algo intrinsecamente bom. Ou a vida, ou o que quer que seja.

Mas ela é sedutora. Talvez poucas coisas sejam tão difíceis quanto decidir se você realmente quer algo que lhe parece extremamente sedutor, tentar ouvir algo além do seu sangue pulsando e batendo nas paredes das artérias, fervente por algo que fala a uma parte sua mais escura, indomável, selvagem. A liberdade fala ao lobinho dentro de mim, ao pequeno monstro que eu guardo dentro da alma.

Eu protejo esse alma dos outros tanto quanto evito que os outros a vejam. Eu tenho um medo sincero de perder o animal dentro de mim e acabar não sendo nada, como tigres deprimidos em zoológicos alemães. Eu tenho medo de perder aos outros e tenho medo de perder a mim mesma. Mais de um necessariamente significa menos do outro?

Não sei responder. Talvez eu esteja presa entre o que me seduz e o que eu deveria querer em mais aspectos do que quero admitir. Talvez eu deteste as paixões sem sentido justamente porque elas deveriam falar ao instinto, mas o meu instinto quer caçar só. Talvez só possa gostar do sentimento sem freios quem tem menos violência dentro de si, eu tenho sangue demais.

Eu sou completamente obcecada com o mar. Nada no mundo me atrai com tanta força, em nenhum lugar eu me sinto tão em casa como quando ondas batem furiosas em rochedos. A frase nas minhas costas por muito pouco não foi “I account it high time to get to sea as soon as I can”

Do alto do avião, a primeira vista que eu tive de Cuba foi do mar, azul, azul, azul, transparente e imenso e eu sorri sozinha. O mar é eternamente imensidão assassina, sempre algo a se reverenciar, sempre selvagem, mesmo quando se disfarça de praias calmas e azuis do Caribe.

Mas as vezes é preciso tornados, furacões, tempestades. São as mesmas correntes do azul elétrico, da beleza plácida. Eu adoraria ver um furacão. Eu adoraria comprar a aposta de soltar o gato selvagem dentro de mim e correr para o mar.

Nos poucos momentos em que eu me senti perfeitamente livre, eu entendi tanta coisa, perdoei tanta coisa que decidi comprar a aposta (eu gosto de apostas afinal). Talvez lobos também voltem para casa.

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Havana, meu amor

Eu gosto de coisas desencontradas, partidas, desfeitas. Dos homens atormentados. Da minha própria inquietude um pouco selvagem. Das pessoas assombradas, do passado, de ruínas. E sendo assim, eu não poderia, mesmo que tivesse tentado resistir, não me apaixonar por Havana.

Mas não tentei, não ofereci resistência, não mantive distância. Eu me deixei ir ansiosamente, feliz por ser carregada, com todos os sons e cheiros que entravam por baixo da minha pele, com o vento bagunçando meu cabelo.

Havana é uma cidade assombrada, uma cidade que existe em vários tempos e vários mundos. Que existe em ruínas e detalhes intrincados, em 1920, 1959 e 2014. Em camadas e contrastes, em prédios do centro histórico que me lembram a Espanha, a Europa, os cassinos, escritores e easy living dos anos 40 e prédios que me lembram, não pobreza, mas decadência, como ruínas. Ruínas vivas, habitadas, pulsantes. Havana me lembrou Pompeia.

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Havana é assombrada por Hemingway, Capote, mafiosos e dinheiro de um passado em que tudo ali era luxo, brisa do mar e litros de rum. É quase como ouvir um sussurro por baixo de uma música, como aqueles aparelhos de som que começavam a captar a rádio com antena mais perto. Como ver sombras e espectros o tempo todo.

Como eu poderia não amar um lugar verdadeiramente habitado por fantasmas?

Mas Havana é mais do que uma cidade assombrada. É uma cidade com um verdadeiro espírito que permanece, desencontrado, partido, relutante, resistente na pintura descascada e nos ornamentos destroçados. Ali o ritmo é outro, bebe-se um mojito em cada parada, os almoços são longos e pedimos ao garçom maços de cigarro Cohiba que podemos fumar na mesa. Em Havana ainda se fuma nos bares, nos hoteis, nos restaurantes, como se ainda fosse 1940.

Mas os senhores que moram nos prédios destroçados também jogam dominó na rua. As mulheres veem a vida passar e fofocam. Eu não sei bem o que acho disso, em parte me sinto profundamente incomodada, mas em Havana se fotografa os cubanos quase tanto quanto a cidade. E eles se deixam registrar, cientes de sua fotogenia, de nosso interesse de safari.

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Quem acha que o Brasil é um país sensual nunca foi à Cuba. Entre policiais de minissaia, bundas incríveis de ambos os sexos, os melhores corpos que eu já vi nesse mundo (e eu andei um tanto) e essa leveza, essa lentidão, há algo de muito sexual. Talvez seja o calor, o rum, o cheiro de cigarros ou charutos, não sei. Mas muitas vezes eu tinha a sensação de que pessoas trepavam furiosamente por trás de cada uma daquelas janelas que eu fotografava.

Em Havana há algo de profundamente estrangeiro que é e não é culpa do socialismo. Fotografamos as pessoas porque elas nos parecem de outro mundo, porque a cena de garotinhos jogando baseball parece tão interessante e queremos achar que é a consciência do mundo diferente, ou consequências dos mil relatos de pobreza e dificuldade, como se cada cubano que sorri ou joga bola fosse uma raridade. Mas não sei. Não consegui me saber por que eu fotografava aquelas pessoas, porque elas me fascinavam. Talvez sejam, como a cidade, assombradas.

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Caminhei por suas ruas de sandálias de verão, vestidos leves e saias compridas. Senti o cheiro de mar e vi como suas ondas estouravam naquele azul inconfundível do Caribe. Amei o vento nos meus cabelos, precisei de um chapeu pelo sol implacável. Achei que o cemitério branco, imaculado, é o mais lindo que já vi. Tomei incontáveis mojitos, fumei cigarros na mesa do almoço e charutos em um hotel onde não pertencia. Depois de viajar pelo resto do país voltei e me senti em casa e terrivelmente estrangeira. Não consegui entender Havana, não consegui acreditar que minhas sensações correspondiam a realidade, não consegui estar tranquila e isso é a melhor definição que conheço de se apaixonar.

Dos lugares sonhados

Eu nunca entendo muito bem por que os lugares entram dentro de mim. Por que a obsessão com a Índia, o Nepal, a Islândia. Por que, se dinheiro e distância fossem questões suspensas, meus pés me levariam ao Vietnam antes da Austrália, à Mumbai antes de Roma e à Havana antes de Machu Pichu.

Eu coloquei uma mochila nas minhas costas e saí para ver o mundo pela primeira vez aos 19 anos. Não que a essa altura eu já não tivesse visto muita coisa, não que eu já não tivesse me perdido no Louvre, aberto a testa em Punta Del Este e morresse de saudades do sorvete com balinhas de Israel (você sabe que sua relação com o país é de um afeto de criança quando até hoje sente falta das porcarias de comer) . Mas aos 19 anos pela primeira vez foram meus próprios pés, e não ser carregada por aí.

Eu saí pra América Latina, sem motocicleta porém com ônibus cheios de cabras, e me lembro de em uma viagem infinita entre Lima e Nazca comentar com o então namorado o como eu gostaria de ir à Cuba.

Bom, aqui estou, em um dos meus lugares sonhados.

Acho que Cuba entrou em mim pela primeira vez em 2001, quando eu assisti Buena Vista Social Club. Não era a música, embora fosse também, mas foi o close no rosto do Ibrahim Ferrer no fim do filme. Eu ainda não sabia o que era close, e revi esse filme muitas vezes depois de aprender até do que se trata um plano americano, e sempre me fascina esse último take. É o fim do show deles no Carnagie Hall e a câmera se aproxima do Ibrahim Ferrer, de terno vermelho, e ele tem um tipo de fascínio nos olhos, de calor, de felicidade, de espanto mesmo que eu nunca vi igual.

No início do filme o Ry Cooder diz que se lembra de quando o viu pela primeira vez, como “um Nat King Cole cubano, poucas vezes na vida se vê alguém assim”. Acho que a Cuba que entrou em mim foi a de um lugar onde se possa ver essa gente, essa gente que poucas vezes na vida se vê igual.

Depois vieram outras coisas, Orishas e o tempo em que a gente se achava melhor por conhecer uma banda de hardcore cubano, Soy Cuba, o Hemingway e aquela montagem tão linda de Don Quixote que vi com o Ballet Nacional, o Pedro Juan Gutierrez. Mas o cinema foi sempre minha primeira janela para o mundo e os lugares sempre entraram em mim sem eu saber por que, talvez nem tenha sido o filme, mas os piratas, aqueles por quem eu era tão fascinada quando nem tinha altura para andar de montanha russa.

Nunca me apaixonei a primeira vista. Nunca sequer me apaixonei em um primeiro encontro. Mas me apaixonei por lugares que nunca vi, me apaixonei por Havana antes de jamais ter posto os pés aqui.

É a primeira vez em muito tempo que piso em um lugar com o qual sonhei tanto e, briguem com o Fidel, vocês provavelmente terão que esperar minha volta para saber como foi. Tenho certeza que vai ser igualzinha, e completamente diferente, de tudo que eu imaginei. Costuma ser assim quando eu me apaixono, parece que faz todo sentido, mas é sempre um desastre completo, embora eu nunca me arrependa. Não sou chegada em me arrepender. E sei que em algum lugar desse país tem um forte pirata, nunca poderia me arrepender de um lugar em que existe um forte pirata e onde mojitos são a bebida nacional.

Mas sei que nunca me senti tão próxima daquela vez, seis anos atrás em que, tendo recém-lido “De Motocicleta Pela América do Sul”, fechei minha mochila e fui andar quatro dias até Machu Pichu.

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Amsterdam, minha experiência com um maníaco sexual com ar de George Michael

Eu vivo dizendo que sou azarada, mas acho que não é exatamente isso. Na verdade, meu campo gravitacional para aleatoriedades que é maior do que o de um ser humano médio. As coisas chegam perto de mim e param de fazer sentido, as pessoas também, o tempo, tudo, tudo para de fazer sentido se chega perto demais.

Vocês duvidam, mas eu desafio: quem já teve um homem quase morrendo em um chuveiro explosivo? Quem já teve os cabos do ônibus elétrico desligados em plena sexta pré-carnaval tendo um vôo pro Recife? Quem foi passear em Israel e acabou no meio da guerra? Quem foi acusado de roubar agendas por uma louca invasora de salas? Sou Grande Líder Não Democrática da aleatoriedade, é minha sina.

A sina é tal que no dia 01/09/2013 eu desembarquei em Amsterdam, peguei um trem, desci do trem e fui andando feliz, contente e serelepe pela cidade com minha mala e minha companhia responsável pelo mapa (por motivos mais que óbvios). Vejam, holandês não é uma língua muito fácil e cidades com ruas de nomes quase iguais só muda uma letra em uma língua que soa tipo um alemão piorado são piores ainda. Ou seja, nos perdemos. Não foi muito, algo como duas ou três quadras a mais, podia não ter feito diferença se não fosse meu enorme e deformado campo gravitacional para a aleatoriedade.

Enquanto nós duas sujas, suadas, com a cara amassada e a roupa possivelmente suja de jantar do avião pós voo de 12 horas andávamos pela rua um cara em uma loja começou a chamar. Vejam, eu digo não para muito poucas coisas, talvez isso explique porque acumulo tantas histórias ridículas, mas isso não vem ao caso, experiências são importantes, eu poderia inserir aqui aquela cena da Jessa gritando “I’m going to look 50 when I’m 30!”. Um homem em uma loja de cosméticos chamou, quem diria não?

Pausa para o contexto: existe o Mar Morto, no Mar Morto existe lama e minerais e uns negócios ótimos para a pele dos quais as pessoas fazem cosméticos. Em Israel (mas dá pra achar na França e nos Estados Unidos) tem uma marca amor chamada Ahava, no resto do mundo é mais fácil achar uma marca que faz a mesma coisa pelo triplo do preço chamada Premier (fim do momento blogueira de beleza) . O homem da loja de cosméticos vendia Premier, o que resultou que nos primeiros cinco minutos eu disse “não vamos comprar, tem outra marca que faz o mesmo e custa muito menos”.

Mas o vendedor era um homem com uma missão e, apesar da minha leve cara de ceticismo, ele pegou a mão da Aninha (que a essa altura vocês já sabem é a personagem coadjuvante de maior frequência nesse blog, depois de um ou outro ex) e começou a passar um esfoliante. Vamos, de novo, parar um minuto e nos perguntar o seguinte: há algo de sexual em um esfoliante? Algum de vocês tem fetiche com esfoliante? Alguém efetivamente sente tesão por passar esfoliante em alguém? Se esse for o caso, por favor, manifeste-se na caixa de comentários (pode ser como anônimo) ou no meu email, prometo sigilo, privacidade e seu amor de volta em três dias, mas fiquei realmente curiosa.

Porque o senhor vendedor começou a passar esfoliante na mão dela como quem lambuza uma atriz pornô com calda de chocolate. Ao contrário da revista Nova, não sou adepta do sexo comestível, mas já estive rindo do xvideos de madrugada, inclusive já vi um pornô com pterodátilos. Muito sexualmente vendedor passa esfoliante e diz, em um tom digno de George Michael em Careless Whisper, your hands will be soft, like a baby’s butt *insira aqui um olhar levemente psicopata, levemente maníaco, meu deus esse homem diz baby’s butt fazendo carinha sexy”.

É claro que não termina aí. Ele segue com movimentos sexuais e olhares sugestivos e diz “imagine that, all over your body” em uma entonação como aaaaall-over-your-boooody” e uma leve reboladinha a lá George Michael. Eu devo estar com uma cara de choque, foi todo aquele vinho barato do avião certeza, é o vinho barato e a brisa da cidade, estou alucinando, eu juro que nunca mais vou beber vinho barato no avião. Não, mentira, nunca juraria uma coisa dessas.

Enquanto eu ainda estou decidindo se o vinho barato mais o cheiro de maconha estão me dando alucinações, ele se inclina no ouvido da Aninha e diz “that’s also good for relations”. É isso, meus amigos, um maníaco por mãos, um tarado do esfoliante, é Amsterdam afinal, mas eu esperava uma coisa mais masmorra medieval, não armário de cosméticos.

Dez minutos na cidade. Dez minutos. Eu não tinha conseguido chegar ao hostel. Mas encontrei um quirofílico (precisei procurar essa palavra o google, ao faze-lo descobri que existe o fetiche por amarrar pedras no pênis, precisei compartilhar a informação). A única coisa que eu achei mais rápido que o maníaco sexual foi o cheiro de maconha.

Falando em maconha, pode ser que um meio brownie induza alguém a ficar repetindo “aaaaal over your boooody” e “like a baby’s butt” enquanto rebola até o chão. Pode ser.

Contemplando a aleatoriedade da existência na noite de Amsterdam

Contemplando a aleatoriedade da existência na noite de Amsterdam

Van Gogh e madeleines

A memória funciona de um jeito estranho. Eu fui a Amsterdam quando criança e não lembro de nada além de ovelhas, moinhos na estrada para Delft e a casa da Anne Frank.

Lembro bem da casa da Anne Frank e de como achei muito, muito legal que alguém morasse atrás de uma estante, em um esconderijo secreto. Na época, eu não conhecia o horror. Li o livro uns anos depois, quando eu acho que já tinham me contado sobre o horror, mas quando eu ainda não podia entender. O livro não fez muito para que eu entendesse, acho que porque é um livro sobre isso: a inocência que não pode entender o horror que ela mesma vive.

Acho que aprendi a palavra holocausto aos sete anos de idade, quando fiquei esperando no jardim do museu de Jerusalém, mas levei anos para entende-la. Quando entendi, passei mal ao ver uma pilha de sapatos.

Mas voltando à memória, que funciona de maneiras tão estranhas que me fez discorrer dois parágrafos sobre algo que absolutamente não era o assunto do texto: eu não lembrava nada de Amsterdam além dessas poucas coisas e com certeza não me lembrava do museu Van Gogh, até ver o quadro do quarto.

Eu estudei em uma escola bem hippie, sempre conto isso, e nossa aula de artes era uma mistura de fazer desenhos com história da arte: nós aprendíamos sobre Chagal e fazíamos anjinhos de argila, sobre impressionismo e pintávamos impressões do por-do-sol, sobre Van Gogh e desenhávamos nosso quartos.

Eu não lembrava disso, mas quando vi o quarto exposto em uma parede vermelha, eu lembrei. Do meu quarto de criança, das aulas de artes, de quando ouvi pela primeira vez que Van Gogh tinha cortado a orelha, da primeira vez que ouvi que aquele quadro, ainda hoje meu preferido, ele pintou antes de se matar com um tiro.

Eu adorava a professora que me ensinou sobre Chagal, eu adoro Chagal até hoje. Eu adorava como ela não pensou duas vezes antes de contar para crianças de dez anos que um pintor tinha se matado, que talvez ele fosse homossexual, o como ela queria que nós entendêssemos o tormento naquela arte. Talvez ela tenha sido responsável por meus caminhos posteriores, pela minha afinidade com a arte que é tormento.

Há tanta coisa que eu não me lembro e que de alguma forma é tão parte de quem eu sou. Eu tinha esquecido dos carnavais deitada na grama do clube, dos pasteizinhos de catupiry que a gente comprava quando chegava no Rio, do primeiro dia que eu toquei piano. Talvez eu não lembre até hoje do real primeiro dia que eu toquei piano e esse que tenha me voltado seja o segundo, ou terceiro, não sei.

É bobagem pensar que nos lembramos do que é importante. Nos lembramos do que o acaso decide lembrar. Lembramos do que conexões químicas aleatórias decidiriam armazenar, de fragmentos, cacos, pedaços.

Quando me serviram café na Turquia, eu me lembrei de American Gods: “black as night and sweet as sin”. Adoro essa frase, mas ela tinha completamente escapado da minha memória.

Se não lembro de mim mesma, se não lembro dos livros que eu amo, me pergunto o que vou lembrar de você.