De mãos dadas com o desastre

Cada vez que eu conto uma história desastrosa eu posso prever a reação: “isso só acontece com você!” ou “nossa, mas você tem tanto azar!” Pode ser sobre perder o passaporte, sobre o dia que o cobrador arrancou os cabos do ônibus elétrico, ou sobre algum homem que foi cuidar dos órfãos da Madre Teresa de Calcutá, ou decidiu se alistar no front rebelde da Ucrânia. Não importa muito. A reação é sempre de uma certa incredulidade misturada a espanto que um único ser humano consiga concentrar tanto azar.

O que muitas vezes meu ouvinte não nota, é que todas essas histórias tem um ponto comum muito óbvio: eu mesma.

Há uma parcela de azar totalmente fora do meu controle e independente da minha pessoa. Eu não teria como causar a greve de maleteiros em Barcelona que me fez dormir no aeroporto e comer sanduíches da cruz vermelha. Eu não poderia impedir o cobrador de ter um dia de fúria em plena véspera de carnaval e parar o funcionamento do ônibus. Mas acho que terminam aí as situações em que o desastre foi totalmente livre da minha influência.

Eu tenho o enorme e incomparável talento de estragar absolutamente tudo em que coloco as minhas mãozinhas.

Eu mesma perdi meu passaporte, isso é óbvio. Eu estava andando pelas ruazinhas de uma cidade cubana depois de ir a um cabaré de travestis, isso também é óbvio. Eu decidi ir passear alegremente por Israel quando o país estava em guerra. Eu que encho a cara e saio largando o celular em bancos de táxi aleatórios. Eu que escolho os homens com quem me envolvo. E sou eu, em última instância, que me envolvo com eles.

Tem isso que já acabou. Ou que já deveria ter acabado. Esse cara que já me disse que não sabe o que quer de mim e eu que já estou nessa vida há muito tempo para saber que se ele não sabe o que quer de mim eu deveria juntar as minhas coisinhas, amarrar minha trouxa e ir embora viver minha vida. Mas eu não consigo. Eu volto e eu volto e eu desencavo e eu analiso na esperança de entender o que deu errado. Na esperança de entender o que eu fiz errado.

Em todas as milhares de aulas de filosofia que eu já tive na vida, eu aprendi que o ser humano tem uma dificuldade imensa em lidar com sua falta de autonomia. Frente a Deus, frente ao destino, frente ao acaso, o que você preferir. O que mais nos angustia, nós, seres pequenos e trágicos, é a falta de controle, é saber que não importa o quanto a gente se bata, tente fugir, se recuse a completar profecias, nós acabamos matando o próprio pai e comendo a própria mãe porque nossos caminhos não nos pertencem.

“He had learned the worst lesson that life can teach – that it makes no sense.” Eu entendo Philip Roth, eu amei Pastoral Americana com toda a força do meu coração, eu entendi seu ponto. Não importa o que se faça, não importa os planos e as tentativas, o acaso morde seu rabo e você cai no abismo que passou a vida tentando fugir.

Mas eu acho mais fácil lidar com tudo aquilo que não fui em mesma que causei.

Não é que o acaso e a falta de autonomia não sejam assustadores. Mas são menos do que a culpa. Menos do que a consciência de que eu sou sempre portadora do meu próprio desastre e, ainda assim, não posso impedi-lo.

Eu talvez conseguisse deixar ir alguém que simplesmente não me quer. Eu não consigo soltar alguém que eu fiz não me querer. Eu não consigo parar de voltar em todas as falas, todos os gestos, todas as vezes em que eu contraí meu corpo para fora dos braços dele e o afastamento lento, gradual que eu nunca poderia julgar. Eu nunca poderia acusá-lo da autopreservação, eu nunca poderia dizer que ele estava errado de se fechar para mim quando eu parecia tão fechada para ele.

Mas eu não consigo parar de me culpar. Meses depois, eu não consigo parar de me acusar de tudo que eu causei, tudo que eu fiz ir embora.

Não é porque eu queira ele de volta. Isso me dói muito menos do que a responsabilidade. O que eu perdi é mais facilmente aceitável do que como eu perdi.

Eu baixo a guarda então. Eu hoje noto cada vez que minha mão quer fugir de um toque, cada vez que quero escapar aos dedos nos meus cabelos. Não escapo. Todos os dias eu escolho não fugir e não fujo. Não minto. Eu vou ficando porque eu só não quero ser a culpada.

Mas quais as chances de que eu não estrague? Se eu percorri minhas mãos por você, eu transformei tudo isso em um desastre.

Eu sei desde já dos gritos, do choro e da dor. Da destruição que eu vou deixar pra trás quando eu for embora. Da corrupção e da loucura que ele nunca pensou em ter e eu trouxe para sua vida. Da impossibilidade de que ele saia disso inteiro, inocente.

Eu finjo que não sei. Eu finjo que posso fazer diferente. Eu falo da amargura brincando, como se eu estivesse sendo irônica. Eu aviso, mas nunca a sério, do desastre que posso causar.

Eu não quero ir embora. Mas eu devia.

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