A verdade é sempre mais interessante

Em Birdman, a Emma Stone é o personagem clichê que mais tenho no meu coração. Loira, enormes olhos verdes arregalados, tatuagens, um guarda roupa de peças pretas e botinhas de tachas e um problema com drogas e álcool.

Alegar qualquer senso de identificação no meu carinho é sem dúvida mentiroso. Óbvio. Claro.

Emma Stone pendura as pernas para a fora do terraço não porque pretenda pular, mas pela adrenalina. Eu gosto de uma frase em inglês que nunca consigo traduzir com exatidão: “for the rush”. O que eu acho engraçado é que o filme de alguma forma tenta escapar ao clichê da garota problemática caindo no próximo clichê da garota problemática: ela não é vazia, ela é tão repleta de coisas que precisa do vazio como defesa.

Em dado momento, o personagem do Edward Norton (que ela irá, óbvio, seduzir) diz algo como ela ser uma bagunça tão grande, tão incapaz de lidar com ela mesma ou fazer com que as coisas funcionem um mínimo que ela é como uma vela queimando nos dois lados. Mas que isso é algo lindo de assistir.

Um dia desses, alguém me disse: “ele tem obviamente medo de até onde você pode levá-lo”. Não era uma mentira, acho. Talvez seja algo de profundamente verdadeiro. Mas é uma afirmação que eu não posso processar, porque eu não tenho ideia de até onde poderia levar alguém, porque eu não tenho ideia de até onde poderia ir. Porque eu tenho um medo desgraçado de mim mesma.

Eu já estive diante de alguém que dizia que estava me deixando porque era incapaz de lidar com a incerteza, a inconstância, o furacão constante de coisas e a minha necessidade indomável da adrenalina. Do novo. Ele ficaria velho eventualmente. Toda a paixão louca que eu sentia ficaria velha. O sexo ficaria velho. E eu ia acabar deixando-o ou tentando me equilibrar entre amor e um mundo lá fora e ele não sabia lidar com isso, por mais ridiculamente hipócrita que essa afirmação fosse.

Muitas vezes eu sinto que foram essas as palavras tatuadas nas minhas costas. Ou embaixo da minha pele. Na minha carne, meu sangue, meus ossos.

Já me disseram que eu faço um tipo da minha dor. Que eu era encantada comigo mesma e a imagem que eu vejo de mim. Eu concordei silenciosamente nos dois casos. O que eu mais gosto nesses diálogos entre a Emma Stone e o Edward Norton em Birdman é que ele percebe cada centímetro do show, cada milímetro de falsidade e ao mesmo tempo a sinceridade profunda e a necessidade vital de tudo aquilo.

“Você quer se tornar invisível”, ele diz, “mas você não consegue”. Eu não sei se eu já tentei ser invisível, mas eu tento, com frequência, vestir a verdade de drag queen. Vesti-la em uma aparência tão falsa e extravagante que você não pode fazer nada além de olhar para ela e perder, ou esquecer,  o que é perfeitamente visível por trás dos quilos de cílios postiços.

Alguns dias, quando eu penteio meu cabelo, arrumo o batom e calço botas com minissaia para ir trabalhar, eu rio sozinha do cuidado da minha imagem. Da tentativa estúpida de seduzir todo mundo para que o encantamento esconda a parte de trás , ao mesmo tempo que me permite comprar esse encantamento como afeto real, proximidade. Eu posso ser gostavel, essa não sou eu tanto quanto todo o resto? Ou se eu anunciar o quanto sou detestável ao mesmo tempo que não sou, minha consciência fica mais em paz?

Tem um mundo inteiro dentro de mim que pode me levar a distâncias inimáginaveis. Um mundo do qual eu morro de medo. Porque é uma vela que queima nas duas pontas e é muito difícil, cada vez mais difícil, me equilibrar na parte que sobra. Se eu perder o medo tudo queima mais rápido? Se eu perder o medo, eu espalho essa fumaça tóxica para a vida dos outros?

Eu não gosto do medo. Eu não gosto das distâncias enormes que eu percorro justamente para não percorrer distância nenhuma.

Eu não gosto do dia em que eu bebi até você precisar me carregar para sua casa porque isso evitava meu choro. Evitava o abandono nos meus olhos e evitava que eu suavemente me encostasse em você e dissesse que eu sentiria sua falta, que eu estava completamente vulnerável e que nos próximos meses eu perderia completamente a cabeça por sua causa.

Ela me diz que você tem medo de até onde eu posso te levar. Minha vontade é gritar que eu mesma tenho esse medo e que, portanto, não é justo que você também o tenha. Que eu não quero ser nada de especial, que eu não quero o talento, ou a escrita, ou essa entrega absurda as coisas, eu não quero mais a ironia ou o sorriso que eu sei que tenho quando algo faz surgir aquela corrente de eletricidade pelo meu corpo. Eu não queria nada disso se o preço é tanto medo, se o preço é a distância constante minha e dos outros.

Álcool te afasta da realidade. Drogas te afastam da realidade. Horas insones são uma espécie de realidade alternativa. E a máscara de indiferença, a resposta arisca, a ironia que defende e a defesa mais irônica ainda de vestir a capa da garota problema para evitar que percebam que você realmente tem problemas.

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