Vício

“O problema é que você tem tendência demais a alguns vícios. Que você gosta demais deles.” Você me diz isso enquanto reviro a cama atrás dos cigarros que certamente estão no bolso das suas calças. Encontro. Acendo um lentamente e te ofereço o maço com um olhar de insolência, minha forma de dizer que você não é nenhum pouco, nenhum nada, melhor do que eu.

Talvez meu problema seja, na verdade, que eu travo batalhas demais com os homens. Que eu transformo camas demais em campos de guerra.

Você aceita minha oferta, sorri, concorda com a cabeça. “Eu também, mas, nesse caso, eu sou melhor que você.”

Quero rir, mas não rio. Quero rir batendo nas minhas pernas cruzadas e deixando cair no meu rosto a massa enorme de cabelos loiros. Mas não rio. Porque o desdém seria só a confirmação de que você está certo. Porque você está.

Então não falo nada. Arregalo meus olhos e te encaro, esperando. Seus olhos são quase verdes, mas não realmente. Como você quase fica comigo, mas não realmente. Parecidos com os olhos do meu gato, meio amarelos.

“Eu sou o alcoólatra reabilitado, aquele que não toca em uma gota de álcool. Você ainda gosta demais da adrenalina, da espera, do jogo. Você gosta demais do jogo.”

O Jogador. Aleksei Ivánovitch em algum momento conta que o que vicia o jogador não é o ganho. Nem a perda, a vontade de reverter a perda. É o momento anterior. Aquele segundo em que tudo é possível, quando a bolinha roda com um barulho irritante pela roleta.

O Jogador não é um dos meus livros favoritos, certamente não é um dos meus Dostoievskis favoritos, mas eu me pego voltando a ele de novo e de novo. Eu não volto a Irmãos Karamazov como volto a O Jogador.

“Por que você não pediu a ele, se queria alguma coisa? Por que você não foi embora? Por que você simplesmente deixou que as coisas ficassem como uma bolinha girando na roleta por tanto tempo?”

Por tanto tempo. Por um tempo insuportavelmente longo. 12 meses. 365 dias. Exatos. Precisos. Até a bolinha cair fora da minha aposta.

Por que eu gostava da espera? Porque eu gostava do lugar de suspensão em que eu poderia ganhar ou perder? Por tudo era possível? Por que eu gostava do jogo e da adrenalina e dos infinitos detalhes e sutilezas que se perdem quando as coisas se estabelecem?

Eu dei uma conferência sobre Amor à Flor da Pele um outro dia. “Não é um filme sobre amor, é um filme sobre desejo”, eu comecei dizendo. É um filme como um tango, em que personagens se aproximam e se afastam e rodopiam e por fim se afastam porque a música acabou, “aquele tempo passou, tudo que era dele não existe mais.”

Me pergunto muito se nosso tempo passou. Se o que vamos fazer agora, porque sei que faremos, é um ensaio ralo de algo que já morreu. Me pergunto também se foi tudo um problema de timing. Se eu tivesse te conhecido agora, seria tudo diferente? Nós poderíamos ter trocado as mãos e você quem teria perdido tudo?

“Eu perdi tudo”, eu falo, sem responder as perguntas. Você assente. “Mais de uma vez”, completa.

“Você aposta sua sanidade com homens e pra que? Nem é algo que você quer tanto assim, você só não consegue ficar sem.”

Então eu finalmente rio. Em parte sardônica, em parte doce, quase compreensiva. “É por isso que você nem joga. Você tem medo demais de gostar desse momento, da espera, da dor, da possibilidade. Eu nem nego. Talvez se ele tivesse ficado comigo eu tivesse cansado em dois meses. Talvez se você tivesse ficado comigo eu teria cansado em uma semana. Talvez eu realmente goste da eletricidade que passa a cada sinal de alguém que você não sabe o que sente por você. Talvez eu esteja aqui procurando por uma coisa que eu vá desistir assim que ganhar. Pode ser. Mas qual a alternativa?”

Qual a alternativa?

Eu tentei. Eu fechei as portas, as janelas. Eu não respondi mensagens. Eu não fui atrás. Eu ignorei a forma como o cabelo escuro dele caía no rosto por mais que minhas mãos parecessem magneticamente grudadas a eles. Eu resisti a química. E eu morri de tédio.

Eu me propus a ser mestre do meu corpo, a não seguir fascinada a cada arrepio que sobe pelas minhas pernas. Eu até considerei parar de beber.

Curioso é que você não me alerta, nunca, sobre o quanto eu bebo. Só sobre os homens. Sobre o amor e o sexo e o como eu uso ambos como uma droga. Jamais sobre o álcool, ele, é claro, não te preocupa.

Não me lembro se disse isso alto. Devo ter dito porque você me responde “o álcool não vai ser o seu fim. Ou melhor, vai. Por causa de algum homem. Você não bebe porque é o que você prefere, você bebe porque é o que você tem.” Eu aponto que nunca bebi tanto quanto como estava com você e nunca usei o amor mais como uma droga também. Você dá de ombros. Eu não preciso dessa resposta e você sabe.

Eu temo quando você for embora. Eu temo as noites em que não vou brigar comigo mesma para não te ligar. Na maioria das noites eu realmente não te ligo, mas na maioria das noites eu bebo. Algumas noites eu reviro hábitos que eu disse que tinha parado. A adrenalina. A eletricidade que sobe pela espinha antes da dor. Você está terrivelmente certo, é claro, eu não posso largá-la.

Eu flerto abertamente, intensamente, sempre. Eu nunca neguei que gostasse do jogo, mas eu me conheço melhor do que você pensa. Eu tomo o isqueiro da sua mão e começo aquela brincadeira que há tanto tempo te irrita: eu acendo e aproximo meu dedo, o máximo possível sem me queimar. Nunca, nem uma única vez, eu errei a medida.

 

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