Horário de óbito: desconhecido

Eu não sei quando parei de notar sua casa toda vez que passava por ali. Quando parei de imaginar a pessoa que agora dorme na sua cama, os livros com os quais ele agora povoa sua estante. Não sei bem quando parei de tentar calcular o fuso horário de onde você estava, ou reunir pistas, como naquele jogo da Carmen Sandiego, sobre o seu paradeiro.

Ironicamente, Carmen Sandiego é como às vezes meus amigos me chamam. Mas quem foi não fui eu.

Eu não sei bem quando foi, mas eventualmente eu só parei. Em algum momento, que eu nunca soube qual, algo morreu em mim.

Quando foi que eu comecei a esquecer o você que eu conhecia? Quando eu esqueci sua voz e as piadas ruins? Quando eu parei de esperar?

Eu ouço risadas ecoando histericamente por eu dizer que parei de esperar. Mas eu não sei, eu não sei se algo (algo que eu poderia chamar de amor, mas prefiro não) se retirou demim e o que deixou foi a teimosia, a curiosidade, a necessidade de pagar pra ver. Os planos racionais de que se eu listasse as coisas que eu quero de alguém nessa vida, eu não poderia conseguir mais do que tinha em você.

Eu não sei quando meu corpo perdeu a lembrança do seu. Mas ele perdeu. Eu já não saberia reconhecer seu perfume se ele estivesse no homem que se senta ao meu lado do ônibus. Eu não poderia revisitar a sensação da sua língua na minha, dos seus dedos nos meus cabelos.

Eu lembro vagamente de como você apoiava a mão na minha cintura e dos olhares no início, muito no início. Daquela vez que você ficou na ponta dos pés para me olhar uma última vez pela tela do elevador.

Há muito tempo atrás, da primeira vez que alguém foi embora de mim, eu percebi que tudo começava a morrer quando já não lembrava da voz dele. Quando já não era capaz de imitar o sotaque. Quando uma história morre afinal? Quando é que tudo termina?

“História”, que palavra estranha de se escolher. Minha mãe fala “história”: “ah, eu e fulano tivemos uma história”. Eu prefiro caso, relacionamento. Eu pensei em usar amor, mas eu não saberia achar onde estava o amor nessa história, se ele morreu, se ele chegou a nascer. Quando foi que tudo acabou?

Não foi, e acho que podemos concordar nisso, quando “a gente acabou”. Eu tentei. Tentei dizer “foi divertido”, mas você, deus sabe porque, não me deixou fechar as portas. Terminou quando seus emails pararam de chegar todos os dias? Quando eu parei de ter medo da dinamarquesa de pernas longuíssimas em uma praia em Bali? Quando esqueci sua voz?

Eu sou obcecada com marcar a morte de relacionamentos. Já falei sobre isso aqui um milhão de vezes. Me importa pouco quando começa, mas quando eu posso sair por aí livre de você? Quando eu vou parar de tentar montar cenários, prever conversas, ter medo?

Eu tenho dificuldade demais de entender o fim das coisas. Não porque eu não me conforme. Mas eu quero linhas, postos, marcas. Quero um carimbo de fronteira: pronto, agora você não está mais nesse relacionamento. Gosto dessa metáfora. Algumas fronteiras se cruza fácil, oi, oi, carimbo, carimbo, acabou. Outras você passa aproximadamente 2 horas sendo interrogada por um sérvio muito pouco amigável.

Eu levei anos para ver o fim de um outro relacionamento. Ele estava lá antes. Ele estava lá muito antes. Também não sei quando. Sei que não foi quando sentei no chão do aeroporto de Guarulhos e chorei compulsivamente até o segurança achar que o pacote de drogas pesadas no meu estômago tinha estourado. Foi em algum ponto depois disso. Mas antes de quando eu olhei nos olhos dele e disse “não é mais isso, não é mais você”, no ato mais cruel já realizado na minha existência.

Eu queria saber se a gente acabou para saber de onde se parte. De onde, caso o caso seja esse, se começa de novo. Eu sou outra pessoa hoje, eu imagino (espero) que você também. Somos outro “nós dois?” É um novo filme com os mesmos atores, ou um remake? É Woody Allen em infinitos filmes com a Diane Keaton ou é Antes do Amanhecer/Pôr do Sol/Meia Noite?

Tenho plena consciência do absoluto ridículo que sou eu, a essa altura da coisa, querendo limpar essa história. Querendo entender. Querendo coisas as claras. Eu sei, eu sei. Se eu fosse você, estaria rolando no chão e rindo até os pulmões falharem. Mas acontece que eu não posso mais, com essa sombra, com esse ar, com essa espera.

Quando eu parei de notar sua casa, quando eu esqueci sua voz, quando eu deixei de saber onde você estava, eu achei que tinha acabado. Que tinha morrido. Que eu estava livre. Que eu tinha parado de esperar.

Eu não parei. Algo foi embora, mas a sombra ficou. A marca dos móveis que você desencosta da parede. O rastro de perfume de alguém que acabou de sair do elevador. Aquele horário irritante de um sábado a noite sem programa que você não consegue saber se já é hora de colocar o pijama e desistir.

Eu só queria que tudo isso tivesse sido suficiente para eu desistir. Para eu saber se queria desistir. Para eu finalmente entender o que quero de você.

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