Disseram por aí que eu era a Taylor Swift dos blogs

Há muitas coisas nessa vida das quais eu não me orgulho. A frequência com que tenho postado aqui. A quantidade de livros que compro. Aquele ex namorado desgraçado. A frequência com que ouvi Taylor Swift na semana passada.

Eu poderia pedir perdão. Eu poderia ter fotografado o olhar de julgamento das pessoas que trabalham no mesmo recinto que eu. Mas eu vou apenas me justificar.

Dia desses eu dei carona para uma amiga saindo do ballet. Talvez um bom termômetro de amizade seja o fato de que você simplesmente coloca um cd (sim, inteiro) da Taylor Swift para tocar mesmo com alguém de carona no seu carro. Esse alguém certamente a ama apesar de qualquer vacilo. Enfim, dei carona para um amiga que me disse: “é porque você é a Taylor Swfit dos blogs.”

Hum…

Eu lembro desse outro amigo que um dia me disse “eu jamais tentaria ficar com você porque não quero acabar post de blog.” Justo” foi a única coisa em que consegui pensar. Às vezes me pergunto quantos relacionamentos meus foram estragados pela consciência que eles podiam ter que, mais cedo ou mais tarde, menos ou mais poeticamente, iam acabar expostos para toda a internet.

Eu tive esse namorado que se incomodava profundamente com eu fazer do overshare profissão. Com os pedaços dele que iam parar em roteiros, ensaios, contos. Ele lia obsessivamente uma intenção no roubo, um desejo oculto nas tramas. Anos atrás, matei meu melhor amigo no meu primeiro conto publicado e até hoje  tenho um gosto amargo no fundo da boca, um medo da culpa que vai me corroer quando ele for embora (porque algumas pessoas nesse mundo existem para ir embora cedo demais).

Meu projeto de arte é uma exposição extrema. A exposição tão extrema faz com que nenhum potencial assunto desse site seja desavisado. Você, ao tomar minha mão pela primeira vez, assina uma espécie de pacto com o diabo em que aceita tornar-se palavra, texto, personagem.

Taylor Swift dos blogs.

Mas minha paixão não justificada (só acredito em amor irracional, perdão, qualquer ser com um mínimo de senso sabe que vai dar merda) não é bem por isso. É aquela identificação real, brega, honesta, “de raíz”, com as letras das músicas.

Meu relacionamento com a Taylor Swift começou no momento em que notei uma letra que dizia basicamente “the haters gonna hate, the players gonna play e ¯\_(ツ)_/¯”. Eu lidei muito mal da primeira vez que alguém me odiou gratuitamente (gratuitamente as in eu não estava pegando regularmente o namorado dela, quando esse foi o caso eu apenas aceitei meu destino). Eu demorei muito tempo para assimilar o fato de que não importa o que eu fizesse, quão simpática ou civilizada eu fosse, uma certa fulana me odiava e deixaria isso claro para todo mundo.

Eu ainda hoje me incomodo que meu nome surja  em mesas de bares, com os julgamentos. Com os conselhos de “você não deveria chegar muito perto” que caras que eu honestamente queria receberam. “And I know you’ve heard about me”, mas eu preferia que não. Esse ano eu fui embora e uma das coisas que eu busquei foi descobrir como era não ter uma história, não ser a garota-problema, não ter lidado com seu último fora bebendo cada gota de álcool da casa, não ter levado para cama absolutamente cada cara que te apresentaram nos últimos dois anos.

Mas a verdade é que você não se livra da própria história e talvez a sabedoria popular esteja muito correta quando te manda deitar na cama que você mesmo armou. Você pode aceitá-la, pode rir, pode achar razoavelmente irônica a ideia que fazem de você e da infinita lista de homens, de vexames, pode vestir a carapuça e torná-la de uma honestidade quase desconcertante ” I’ve long list of ex-lovers, they’ll tell you I’m insane.”

E daí talvez esse cd ridiculamente chiclete tenha me ganhado em “it’s like I’ve got this music in my mind saying it’s gonna be alright”. Eu fui a adolescente mais esnobe do mundo com gosto musical. Eu fiz mestrado em cineastas suecos. Mas ultimamente minha maior identificação é com algo que me diga que tudo vai dar certo. Aliás, que diga que uma música no fundo da sua mente te fala que tudo vai dar certo. O que provavelmente quer dizer que os fatos não apontam exatamente nessa direção.

Eu tenho dias bons e dias ruins. Por muito tempo eu achei que os dias ruins no meio dos bons seriam menos perigosos. Não são. Eles te pegam de surpresa, eles puxam seu tapete, eles se tornam piores pela sensação de recaída, de fraqueza, de estar equilibrada em fundações de madeira podre. É em um dia ruim no meio de dias bons que se pula da janela. Que se passa a gostar de Taylor Swift porque é preciso acreditar que vai ficar bem, que uma hora vai ficar bem.

Mas de todas as músicas do cd, talvez a que eu mais goste é uma que diz “we found wonderland, you and I got lost in it”. Há poucas coisas que me interessam mais do que essa perspectiva obscura do prazer, do amor. Há um perigo  gritante em se isolar em um universo muito próprio, em achar que o amor basta. Ele nunca basta e ele te mergulha em você mesmo. Nem todo mundo pode mergulhar em si mesmo.

Eu gosto da pequena pílula de obscuridade, da honestidade em dizer que “somebody lost their mind”, em assumir que o amor é uma espécie de droga que te leva a lugares em que você não queria ir. Acho que nenhuma bad trip que eu tive na vida foi tão intensa quanto ter que perceber que o universo meu e dele nada mais era que isso, só meu e dele, e não podíamos continuar existindo ali. Que havia dor demais e dependência demais e escuridão demais para que se pudesse respirar ali. Levei pelo menos dez anos para perceber isso e admiro, um pouco que seja, qualquer um que pode perceber também.

Se falamos em esnobes de música, eu poderia ser como Rob Gordon e me perguntar “eu sou miserável por que ouço música pop ou ouço música pop por que sou miserável?” Eu faço esse overshare terrível porque cantoras me ensinaram a fazer assim ou eu gosto de cantoras completamente overshare porque é como eu seria de qualquer maneira? Eu seria capaz de gostar desse maldito álbum da Taylor Swift se não soubesse que ela provavelmente passou por tudo que está contando ali?

Eu acredito na identificação completamente instintiva e quase vergonhosa da música pop. Sendo assim, sobrava pouca coisa para o blog mais overshare dessa internet além de vir falar da cantora mais overshare dos tempos atuais. E se identificar com “I go on too many dates, but I can’t make then stay, at least that’s what people say”

4 comentários

  1. Isa❤

    Acho que o mundo precisa de overshare. Seja na música, na literatura, em um blog. E é justamente por causa dessa identificação que ocorre, de você ver algo que você sempre quis dizer mas não consegue sendo dito publicamente, vendo que não é a única pessoa que sente essas coisas ou viveu essas coisas. Acho que existe uma carga grande de conforto no overshare (para quem desabafa e para quem lê/escuta). Óbvio que muitos vão se chatear nesse caminho por serem o motivo e assunto desses desabafos, mas poxa, ninguém é imune a isso. Se não em um post aberto num blog, que seja numa roda de conversa ou mesmo só na cabeça da pessoa. Acabo pensando assim: sei que falam que não sou a melhor pessoa do mundo e que faço muita cagada, mas quando essas coisas realmente chegarem aos meus ouvidos vai ser tipo "ok, já imaginava, não é nenhuma novidade". E segue.

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