Sobre promessas e narrativas. Ou sobre crianças prodígio

Tem essa cena na minha cabeça desde que eu vi Gone Girl, quase um mês atrás. Não tem a ver com viradas supostamente geniais ou o discurso da cool girl, que sim, eu gosto muito, mas não, não é a cena que ficou na minha cabeça quando eu saí do cinema. Não é sobre ela que eu sabia que viria falar aqui assim que decidisse voltar pra cá.

É sobre a parte que a Amy e o Nick vão a festa para comemorar o casamento da Amazing Amy, a personagem que os pais da Amy criaram inspirados nela. “Amazing Amy era um prodígio do cello, eu larguei aos 10 anos. Amazing Amy jogou voley com bolsa na faculdade, eu saí no primeiro ano do ensino médio”, Amy vai contando enquanto passa pelas figuras. Amazing Amy está sempre um passo a frente, um lugar acima, ela é sempre melhor que a Amy real. Porque ela é uma promessa que se cumpriu.

Promessas muito raramente se cumprem. A realidade se recusa muito teimosamente e nos dar o que esperamos, a condizer com o cenário criado nas nossas cabeças. A frieza do real é algo que nossos cérebros meio que se recusam a conceber.

Ser uma criança talentosa, por exemplo, é um negócio horroroso. Eu fui uma criança particularmente talentosa. Eu tocava piano bastante bem, eu jogava tenis lindamente, eu dirigia e escrevia peças, eu pintava quadros, eu antes dos 15 já falava francês. Não importa se eu queria fazer alguma dessas coisas minha vida, importava a considerável facilidade com que eu ia tomando cada coisa que decidia fazer. Aos olhos da mini-Isadora não havia muito que ela não pudesse fazer, o mundo era só esse lugar que eu escolheria tomar do jeito que quisesse.

E ninguém se deu ao trabalho de me dizer que não era assim. Todas as pessoas em volta incentivaram, elogiaram, promoveram todas as capacidades artísticas da criança talentosa. Todas as promessas.

Acontece que a potencial pianista que eu fui aos 8 anos será sempre melhor que a pianista que não fui. Os livros que nunca escrevo são melhores que aqueles que de fato escreverei. O relacionamento que eu acho que poderia ter dado tão certo é muito mais bonito do que o que arriscamos realmente ter.

Não é que crianças prodígio sempre falhem. Eu me sentiria muito ingrata se dissesse que falhei, me sentiria terrivelmente egoísta se não concordasse que consegui levar com certa proeza quase todas as coisas que me propus a fazer. Mas eu vivo no eterno medo da potencialidade das coisas. Na eterna consciência de que a realidade nunca pode atender o que se espera dela.

Eu escrevo muito pouco, comparado com o que eu gostaria. Eu nunca, jamais, em hipótese alguma, penso duas vezes antes de publicar algo aqui. Eu encaro dois parágrafos seguidos de páginas em branco e não me convenço a continuá-los. Porque eu não consigo lidar de uma forma serena suficiente com a escritora que eu queria ser, com a expectativa, o desejo a, quem sabe, promessa na minha mente.

Eu tive esse relacionamento que durou um ano e às vezes as pessoas me perguntam porque ele nunca virou algo de concreto, estabelecido, por que nunca se chamou nada. Por vários motivos, um deles o medo que eu tinha da realidade e do cotidiano se aquilo virasse algo de verdade. Como era, era como caminhar no ar. Exatamente como caminhar no ar. Incômodo, perigoso, mas de uma poesia intensa. De possibilidade pura. Sabem desenhos do Pernalonga que só cai no penhasco se perceber que já está sobre o penhasco? Quando eu percebi que caminhava no ar eu caí, feio. Mas o melhor relacionamento da minha vida continua existindo só na minha cabeça.

Eu não preciso de lições de mora sobre arriscar as coisas, sobre aceitar a possibilidade da dor para ter felicidade, bla, bla, bla, etc, etc, etc. Não falo disso. Acredito nisso até, de certa forma, em algum grau, supondo que eu acreditasse me felicidade. Não, o que quero dizer é que sempre postulamos mais felicidade do que há no mundo. E mais talento. Mais sorte. Nada nunca é do jeito que prometido.

Em Gone Girl a criança prodígio não é a única promessa não cumprida. Há diversas promessas. De amor, de cumplicidade, de relacionamento, de identidade. Ninguém é quem gostaria de ser, no filme ou fora dele.

Parece simples de aceitar. Parece melhor do que tantas coisas que eu já consegui enfiar na minha cabeça. Mas não consigo. De todos os meus mesmos, talvez o da coisa que poderia ser seja o maior. Das promessas que murcham como aqueles balões de hélio depois de alguns dias.

Mas não consigo. Porque narrativas são sedutoras. Porque as histórias que contamos dentro das nossas cabeças são boas demais para deixar passar. Eu tenho um medo gigantesco dessa ilusão, do tombo que eu tomo quando salto em uma promessa irreal.

Mas nunca é demais repetir que todas as promessas são irreais.

 

(voltamos aos pouquinhos com um texto que, simbolicamente, não é tão bom quanto poderia ser)

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