Um minuto para o didatismo: eu tive um relacionamento abusivo

Interrompemos a programação normal para um texto provavelmente mais mal escrito do que a média, mas que eu achei que era hora de existir. Eu sempre soube que ia escrever sobre isso, alguma hora, em algum lugar, mas não achei que fosse aqui. Achei que daria mais tempo, mais espaço, achei que vestiria a coisa de ficção ou algo assim. Mas conversando com algumas amigas eu descobri que a minha história não é só minha e achei que talvez fosse importante tentar contar, já que é a mim que cabe esse blog tão overshare. É enorme e eu peço perdão, não me importo muito se vai ser o texto menos lido da história desse blog, eu só achei que, já que eu tenho a possibilidade de expor minha intimidade ao público, isso era importante e necessário e poderia ser útil pra alguém.

Eu passei 4 anos em um relacionamento de merda. 4 anos em um namoro que, na época eu era incapaz de perceber, não me fazia feliz. Não só não me fazia feliz como minava sistematicamente minha auto-estima e me fazia abandonar coisas que eu gostava, que eram parte de mim, que me faziam quem eu era. Hoje, 3 anos depois do término, talvez eu chamasse o relacionamento de abusivo. Foquem no talvez. Faz 3 anos que eu terminei, 3 anos que eu saí pro mundo, tive outros relacionamentos, conheci outras pessoas e eu ainda hesito em colocar rótulo em uma coisa que eu sei muito bem o que foi. Por que? Porque eu tenho vergonha, porque eu me culpo.

Do término, da minha primeira percepção de que algo estava errado naquele relacionamento, até o início desse ano, eu me culpava sem parar pelo que aconteceu. Que ele fosse um babaca, isso era problema dele, que eu tivesse deixado alguém me tratar daquela maneira, que eu tivesse me submetido aquilo, era culpa minha. Que ele era um babaca era inegável, mas eu deveria ter saído fora nos primeiros meses, no primeiro ano. Eu passei meses, e infinitas sessões de análise, remoendo porque eu deixei tanto acontecer, porque eu fiquei com alguém que hoje eu não aceitaria um encontro. Levou tempo perceber que no fundo eu não poderia sair, porque as acusações que eu tinha a ele não eram só as que eu achava que tinha, a maior acusação era que ele minava sistematicamente qualquer auto-estima que eu pudesse ter e me enredava nas minhas próprias dificuldades, ansiedades e distúrbios.

Vamos começar do começo. Eu imagino que gente mais bem resolvida, gente mais segura de si mesmo e de suas qualidades e da sua possibilidade de ser amada, entre menos nesse tipo de relacionamento. Quando eu terminei, minha mãe me disse que eu deveria ter ficado com ele mesmo porque ninguém mais ia me aguentar. Daí vocês podem começar a fazer uma ideia do quão fodida é a minha cabecinha.  Hoje, aos 25 anos, depois de ter passado por muita coisa nessa vida inclusive dois terapeutas, eu ainda preciso fazer um esforço enorme de não me odiar o tempo todo, de não me odiar, e as coisas que eu faço, de uma forma que seja paralisante e auto-destrutiva. Eu aprendi a lidar muito com isso, com a sensação de que eu não mereço coisa nenhuma nesse mundo, especialmente a atenção de alguém. Não é fácil, muitas vezes é insuportável, mas isso é hoje. Aos 18 anos, minha cabeça era a própria filial do inferno.

Aos 18 anos eu sabia muito menos e vinha de dois relacionamentos que não tinham ajudado em nada a melhorar esse quadro. Eu não tenho vontade de falar deles ou de expor os dois envolvidos nesses casos, eles não foram crueis ou abusivos da mesma forma, embora um deles tenha sido sim um filho da puta. Mas era diferente. Acontece que aos 18 anos eu tinha uma auto-estima fraca e meu coração partido de uma maneira que eu estava disposta a qualquer coisa para fazer parar de doer. Qualquer coisa. Incluindo entrar no primeiro relacionamento que me foi oferecido com alguém por quem eu não estava apaixonada.

Acho que uma das maiores justificativas de pessoas que se mantem em relacionamentos abusivos era o tanto que amavam o namorado/marido/parceiro/etc. Nunca foi a minha. Eu o amei sim, de alguma forma, durante algum tempo, mas nunca foi uma paixão louca que me levasse a fazer qualquer coisa, foi muito mais o desejo desesperado de curar uma ferida minha, mais especificamente a ideia de que ninguém poderia me amar. Eu queria provar para minha mãe, para os outros caras, para mim mesma, que eu era capaz sim de ganhar e manter o amor de alguém. Eu estava disposta a qualquer coisa para não falhar nisso.

E qualquer coisa foi muita coisa. Eu não sei como começou, ou o que começou. Eu não tenho vontade de acusa-lo de ter deliberadamente falado coisas e feito escolhas que me feriam, eu não acho que foi isso. O que eu acho é que acabei com uma pessoa cuja personalidade era um misto de ego desenfreado e insegurança e essa mistura é perigosa: ele se achava melhor, mais inteligente, mais merecedor de todas as coisas, ao mesmo tempo se envergonhava da origem e da história e de outras coisas. E daí era uma guerra de tentar não fazer o outro perceber as falhas nessa pessoa tão maravilhosa que ele vendia. Eu me lembro de uma vez em que fomos ao teatro e eu não gostei da peça, o que seguiu foi uma briga porque eu era histérica, capitalista, e tinha falado isso alto quando alguém da equipe poderia estar ali. Eu não entendia que o elenco enorme era o triunfo do coletivo, bla, bla, bla… Eu não tinha direito a minha opinião sobre aquilo. Em um outro momento foi um documentário e a mesma história. A discussão nunca era sobre minha opinião em si, mas uma enxurrada de acusações sobre quem eu era e como eu fazia as coisas. E quem eu era e como eu fazia as coisas sempre estavam errados. E já vimos o quão disposta a aceitar essas acusações eu estava.

E é uma bola de neve. Eu lembro da briga porque todos os fins de semana eu tinha algum plano. Eu estava na faculdade e ainda falava com meus amigos de colégio, então sim, quase todo fim de semana eu tinha um aniversário, um evento, o lançamento de um curta, o que quer que fosse. E a briga não era porque eu não tinha tempo para ele, ou nós não nos veríamos. Era porque eu já tinha um plano e ele seria encaixado. Porque ele não era a prioridade. Porque minha vida não orbitava em volta dele. E aos poucos, de tantas brigas e de tanto ser acusada de egoísta e incapaz de me relacionar propriamente com o outro, ele passou a ser.

Eu passei um tempo muito longo me acusando disso, me culpando por esse momento em que eu vi uma briga desmedida acontecendo, em que eu vi uma pessoa incapaz de admitir a autonomia do outro na minha frente, mas eu fiquei. Eu fiquei porque, para mim, a acusação de que eu era egoísta, incapaz, de que a forma como eu fazia as coisas era errada, era poderosíssima, era destruidora. E a forma como eu fazia as coisas estava sempre errada. Da minha forma de ver o mundo a cortar a pizza (EU NÃO ESTOU EXAGERANDO! houve um comentário sobre minha falta de otimização no cortar da pizza e o que isso significava sobre mim). Meu gosto musical, a música, uma das coisas que eu mais amo na vida e que mais me salvou de mim mesma em anos de uma existência problemática, era alienante, entretenimento barato, shows eram o culto da personalidade e representavam o que havia de pior na sociedade atual. Eu não deixei de ir em shows, mas era um custo, era uma briga, era ouvir essas acusações toda vez. Eu parei de descobrir bandas novas e eu diminuí drasticamente o quanto o ouvia música, porque ele não tolerava.

O problema não é o que ele achava da música. O problema é que a opinião e a visão dele não admitiam ser a opinião e a visão de alguém. Elas eram A VERDADE e se eu descordava eu estava, por consequência, errada. Sendo esse portador da verdade, a vontade dele não assumia que a vontade da outra pessoa era tão autônoma, válida e digna de consideração quanto a dele. Quando íamos no meu (repetindo, meu) carro para a casa da minha mãe, ele não aceitava que eu ligasse o rádio. Não havia a negociação de talvez podemos ouvir algo baixo, ouvir por metade do caminho, ouvir na ida e não na volta, qualquer negociação entre duas pessoas que querem coisas diferentes. Não, ele não queria e isso era final. E as minhas tentativas de negociação acabavam na acusação de como minha vontade era fruto da minha ignorância e egoísmo e etc, etc.

Parece bobo, parece trivial que eu venha contar de música no carro. Mas não é. É o reconhecimento do desejo do outro como válido. Anos depois quando eu me acertei com outro homem sobre o ar condicionado do quarto dele, eu vi a diferença absurda que era ser tratada como um ser humano, que era ter minha vontade e minha queixa reconhecidas.

E já que falei em desejo do outro, vamos ao sexo. Eu estava descobrindo o sexo ali, minha experiência anterior era basicamente nula. Era suficiente para saber que nós não tínhamos uma química extrema, que eu não o desejava como já havia desejado outros, mas eu não sabia da importância disso para mim (honestamente, a importância e o poder do desejo físico sobre mim é algo que só fui descobrir há muito pouco tempo). O sexo não era ruim no início porque tinha o fator novidade, eu estava descobrindo uma coisa que eu não sabia quão boa poderia ser. Mas ele rapidamente se tornou e pedidos meus de trocas de posição ou de experiências novas (assistir um pornô juntos, por exemplo) encontravam a resposta: “isso é desespero, coisa de gente que não se ama de verdade, como nosso relacionamento é autêntico e verdadeiro, o sexo vai ser natural”. Não é muito curioso que a primeira coisa que eu parei de fazer quando percebi que não queria estar ali foi sexo e que essa também foi o primeiro (e único!) sinal de que havia algo errado que ele captou.

Hoje, o que mais me perguntam é por que eu fiquei ali. Ouço com frequência “nossa, mas eu não teria aguentado dois dias”. Hoje, eu também não. A pessoa que eu sou hoje dificilmente teria ficado com ele uma segunda vez. Mas quem eu era 8 anos atrás, estava desesperada para tampar traumas e inseguranças e acabou com alguém que predava nelas. Minha grande dificuldade, o provável problema formador de todos os meus outros problemas psíquicos é o ódio a mim mesma, a percepção, não de que não sou boa, mas de que sou, no fundo, algo de monstruoso. E cada vez eu tentava exercer minha vontade eu encontrava essa acusação. E ele estava certo, ser eu mesma era ser um monstro e a única maneira de não sê-lo era anular tudo e continuar ali, provar que alguém poderia conviver comigo e me amar. Foi só quando entendi isso, a dinâmica entre como ele me tratava e como eu me tratava e como uma cosa alimentava a outra e me prendia, que eu parei de me culpar e assumi o ódio que eu queria ter desse período.

Eu não sei quando saí disso e decidi terminar. Não sei como, quando ou por que, decidi que não queria mais estar ali. Dessa decisão até o término real, levei seis meses, porque eu não conseguia me convencer a causar essa dor em alguém, eu não tinha esse direito. Eventualmente não consegui aguentar mais e o fiz. E foi um término feio, lógico. Terminar exigiu que eu desafiasse essa vontade que não aceitava desafios. O resultado foi que ele invadiu meu email, leu meus diários, revirou minha gaveta e eventualmente (consciente ou inconscientemente) bateu meu carro.

Depois de eu ter deixado muito claro que não tinha interesse em qualquer contato, ele me mandou emails até que eu o filtrasse; curtiu coisas no meu facebook até que eu o deletasse; me mandou mensagens tentando tirar satisfações sobre coisas que eu tinha escrito no twitter até que eu fiz um jailbreak no celular apenas para bloqueá-lo (na época o ios não fazia isso sem jailbreak). Semana passada, três anos após o término, ele apareceu em uma aula que eu dei e veio perguntar se poderia falar comigo me chamando pelo apelido de quando namorávamos. Eu disse que não e me senti suja, violada. Menos pela tentativa de aproximação, que agora estou bem suficiente para julgar apenas inadequada, mas pela tentativa de me arrastar de novo para dentro de uma relação com ele. Eu não quero uma relação com ele, nenhuma, não quero qualquer vínculo com uma época que foi tão dolorida. Depois disso, eu o bloqueei o facebook para que possíveis divulgações de eventos não pudessem ser vistas.

E daí eu escrevi esse texto, menos por mim, embora tenha sido de alguma forma catártico, e mais por todas as amigas incríveis que disseram ter vivido o mesmo tipo de coisas. Porque é comum, porque relacionamentos abusivos e disfuncionais acontecem e eu achei que descobrir que a experiência não era só minha ajudava a aceitar e seguir em frente.

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