“Just ‘cause you feel it doesn’t mean it’s there”

Eu tenho certeza que um dia desses morrerei no meio da Paulista, vou cair dura, sem mais nem menos, com fones de ouvido na cabeça. Causa mortis: coração destroçado por excesso de Radiohead.

Eu não preciso ouvir a voz do Thom Yorke, eu só preciso reconhecer o primeiro acorde para sentir meu sangue correr mais devagar, meus músculos contrairem e uma eletricidade passar pela minha pele, a espera da dor que vai vir. E ela sempre vem.

Eu poderia parar de ouvir música no shuffle, me proteger dessa onda de sofrimento que pode vir a qualquer momento, quando eu menos espero, me desconcertando quando preciso atravessar a rua. Poderia deletar todos os álbuns do meu computador e do meu ipod, ninguém precisa voluntariamente se expor a um espancamento desses. Ninguém precisa correr o risco de ter essa bigorna caindo na cabeça a qualquer momento do dia, justamente quando tenta não enganchar o salto no vão do metrô, ou não colocar fogo no cabelo ao acender um cigarro.

Mas quando meu cadáver for encontrado no meio da Paulista, muitas horas depois e já pisoteado pelos pedestres, eu terei um sorriso no rosto. É puro masoquismo. Como quem precisa de mais dor para sentir mais prazer, como quem só vai gozar com as costas em carne viva de chicotadas. A felicidade que eu sinto cada vez que Thom Yorke me inunda de dor me impede de parar, a imensa felicidade cada vez que acho que meu coração não vai aguentar.

Nem todas as músicas são iguais. True Love Waits é como destruir meu coração com um martelo de carne, é golpea-lo até que tudo que sobre é uma massa nojenta de carne vermelha, sangue e veias, completamente disforme e repulsiva. High and Dry é senti-lo se encolhendo, ficando menor e menor até deixar de existir, consumido pelo espaço que ocupam os meninos que essa música me lembra. E There There é como se uma agulha muito fininha fosse introduzida devagar bem no centro do meu coração. É uma dor aguda, pontual e agonizante quando ouço “just ‘cause you feel it doesn’t mean it’s there”

O quanto do que a gente vive existe fora da nossa cabeça? É uma questão epistemológica antiquíssima: o quanto posso saber do mundo? como posso ter certeza que tudo não é só uma peça, uma ilusão, que nada de concreto existe? E se no fundo tudo isso, toda essa vida é só uma viagem muito louca de ácido que alguém tem em 2050? E se somos só o sonho na mente da velhinha?

Ok, fui longe demais no ceticismo, mas a questão continua válida: quanto do que a gente vive não existe apenas na nossa cabeça? A vida é um eterno interpretar as coisas. Interpreto desde o homem andando na minha direção na rua a noite, ao aceno de cabeça do meu aluno ao whatsapp do cara em que estou interessada. Interpreto o tom da minha melhor amiga no email que ela me mandou e da secretária do médico quando ligo pedindo uma consulta. Preciso interpretar, é o processo de fazer o mundo exterior passar para dentro da meu cérebro e se tornar inteligível, mas quanta objetividade existe nesse processo? Quanta objetividade pode existir nesse processo quando se trata da comunicação entre duas pessoas cujos sentimentos são, em algum nível, desconhecidos?

Eu já me vi diante de uma situação que me fez pensar que dessa vez eu realmente tinha ficado louca, esqueça depressão ou ansiedade, algo dessa vez deu muito errado na química do meu cérebro e eu passei um ano vendo algo que não existia. Quer dizer, tudo existia, concretamente os fatos existiam, só não existia a narrativa que eu imaginava ligá-los. Eu alucinei? Eu quis tanto que algo acontecesse que vi mesmo que não tivesse acontecendo? Revisei a história histericamente, pedi confirmação de cada trecho, repeti para meu analista até ele concordar que não, eu não estava tão louca assim e por mais que eu tivesse interpretado errado, havia alguma base na minha interpretação. Mas qual a possibilidade de se interpretar certo?

Cada vez que eu tenho a impressão de estar flertando com um cara eu me pergunto “será que estou alucinando e ele não tem nenhum interesse em mim?”. Por mais que eu sinta o interesse, isso não quer dizer que ele está lá. O que dizer quando esse interesse é mais do que puro “eu queria te beijar”? Do sentimento de alguém gostar ou se importar com você e não, não é porque você sente que ele é real.

A comunicação humana é em si um abismo. Nos centímetros de ar entre quem fala e quem ouve há tantos infinitos processos microscópicos, tantas variáveis de neurotransmissores, vibrações do som, repertório, que eu me surpreendo que nós possamos nos comunicar com qualquer grau, mesmo que mínimo, de eficiência. Eu me lembro bem dessa parte das aulas de teoria da comunicação, a comunicação é a dinâmica entre quem enuncia e quem recebe e o espaço que os separa. E os espaço que os separa pode ser infinito.

Eu e um habitante do Quirguistão somos ambos humanos, mas eu não duvidaria que seja mais fácil me comunicar com meu gato ou com um eventual venusiano que baixe aqui na Terra. Começa na língua, mas é mais que isso, é a radicalidade absurda da diferença de vivências. Comunicar requer compartilhar alguma experiência comum, algum lugar comum onde possamos nos entender. E se cada um viveu a mesma coisa de forma completamente diferente? E se minha experiência e a dele nada tem a ver uma com a outra? E se o que eu sinto não está lá? E se o que está lá ele não sente?

Cada vez que Thom Yorke me lembra disso, uma agulha pontuda e fina é enfiada no meu coração. Ela vai abrindo caminho devagar, afastando sentimentos e me lembrando que não, não é porque eu sinto que está lá.

There’s always a siren
Singing you to shipwreck
Steer away from these rocks
We’d be a walking disaster

4 comentários

  1. Oi, Isadora.

    Dessa vez eu não li o texto inteiro, acho que estou de mau humor. Só queria te dizer que seus posts são a dose de melancolia e reflexão pesarosa que como boa pisciana eu pareço farejar/precisar semanalmente.

    Um beijo e obrigada.

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