Eu matei um relacionamento e joguei em vala comum

Hoje eu comecei no Coursera um curso chamado “The Fiction of Relationships”. Nunca acho a internet tão genial e maravilhosa como quando ela me permite ver um curso de Brown no conforto do meu lar, sem realmente ter que fazer trabalhos e provas. Peguei o curso porque me faria ler Jane Eyre, To The Lighthouse e alguma coisa do Faulkner, coisas que venho pensando que deveria fazer, e adiando, há muito tempo, mas também porque o tema me pareceu maravilhoso: a ficção dos relacionamentos! Se tem algo sobre o que eu falo aqui é a respeito de relacionamentos e se tem algo que eu vivo tentando entender são relacionamentos. Duas pessoas conviverem, compartilharem uma vida, me parece algo tão improvável e estranho que eu me sinto incontrolavelmente atraída.

Na primeira aula, o professor (um velhinho maravilhoso, usando uma gravata incrível e esdrúxula) diz que the fiction of relationships não se refere apenas a ficção que nasce a partir dos relacionamentos, mas também da ideias de relacionamento como uma ficção. Não no sentido de que não sejam reais, mas de que são constructos, narrativas. Acho que essa me pareceu a ideia mais genial que já entrei em contato nos últimos tempos.

Para terminar um ensaio com que venho brigando há mais de um ano, aluguei Fragmentos de um Discurso Amoroso na biblioteca. O livro é de alguma forma sobre essa ideia de que relacionamentos são ficção, já que não é sobre o amor em si, mas sobre o discurso do amor, sobre aquilo que enamorados enunciam. A faceta pública, narrativa, do amor. No fundo é tudo uma grande encenação teatral, uma grande ficção. O que não quer dizer que não seja real, jamais esqueço do Bergman dizendo que o papel da ficção é justamente revelar as verdades mais profundas.

Eu gosto da ideia de que relacionamentos são narrativas particularmente para poder pensar que existe um início, um meio e um fim. Você pode trocar a ordem. Pode fragmentar. Pode mudar as regras a respeito de arco narrativo e estabelecimento do conflito. Pode escrever o Jogo da Amarelinha. Mas, bem ou mal, há sempre um início, um meio e um fim.

Já falei que acho que ritualizamos demais o início de relacionamentos e muito pouco o seu fim. Não lembramos a data de término, não fazemos tanta questão assim de marcar “aqui termina algo” como fazemos com inícios. Da mesma forma, acho que já li muito mais listas a respeito dos “melhores inícios” na literatura do que dos melhores finais, ou das melhores cenas de abertura de filmes. Entendo a importância da apresentação de uma narrativa, mas a última cena, aquilo que ela deixa em você quando se vai, deveria ser igualmente importante.

Relacionamentos são como narrativas e eventualmente eles acabam. Ah, as vezes acaba e volta. Não, daí é o Jogo da Amarelinha ou o qualquer outra narrativa pós-moderna, não acabou. Eu tenho um relacionamento que “acabou” em 2004 e voltou em 2012, são 8 anos entre uma coisa e outra, mas esses oito anos existiram no relacionamento, mesmo sem sequer saber da vida dele, algo existia ali, não é como se começássemos um relacionamento novo oito anos depois, como se pudessemos esquecer o que havia. Era uma continuidade, era diferente, mas era de alguma forma, o mesmo relacionamento. Ele não acabou em 2004, ele acabou, talvez, em 2014.

Em alguns momento, relacionamentos acabam. Eu acho importante repetir isso e eu acho o fim, a consciência de que algo chegou ao fim de que aquela relação entre aquelas duas pessoas morreu, muito importante. Acredito em casais que são amigos depois? sim. Mas acho muito importante o entendimento que, embora as mesmas pessoas estejam envolvidas, o relacionamento é novo. É outra coisa, outra relação, outro comportamento, outra variáveis envolvidas, outro comportamento.

E às vezes qualquer relacionamento entre aquelas pessoas acaba mesmo, de vez, para sempre. Você não precisa manter contato com todas as pessoas que já conheceu na vida, mesmo que uma dessas pessoas tenha transado com você, viajado, morado, etc. Você pode ter memórias disso e elas podem ser boas ou ruins ou o que quer que seja, não importa, o que importa é que memórias não significam que algo continuou a existir, que uma narrativa continuou a desenrolar.

Eu entendo, e é uma das coisas que mais lamento na vida, que os fins não são simétricos para os dois. Que o que para mim morreu ali, como sentimento, pode continuar se arrastando por anos para ele, por isso acho tão importante a marcação do fim objetivo, da morte do relacionamento, mesmo que amor, e outros sentimentos também, permaneçam. Acabou aqui, a narrativa que éramos nós dois, termina. A sua, e meu lugar nela, pode continuar, mas ela é sua, não é mais minha. Eu não quero mais, eu saí fora. Ok, eu continuo com uma narrativa minha onde você tem um lugar, mas esse lugar é outro e essa narrativa também é minha, só minha, não sua.

Eu gostaria que dizer para alguém “eu nunca mais quero olhar na tua cara” fosse assim, simples, claro e entendível como parece ser. Que quando algo morre, ele morre e nenhum dos dois fica acendendo velas no cemitério tentando conjurar os mortos (aliás, dica: não dá certo, conjurar os mortos sempre dá em merda, se você não sabe disso é porque ainda não viu filmes de zumbi o suficiente). Você pode não gostar do fim ou querê-lo, mas é sempre preciso respeitar a morte quando ela acontece.

Esses dias, alguém que eu gostaria de nunca mais olhar na cara, me chamou pelo apelido que costumava chamar quando a narrativa não era minha, mas nossa. A minha vontade foi perguntar o quão estúpido ele podia ser, mas não o fiz, só fui embora com um gosto amargo. Depois, além da minha raiva, eu queria perguntar o que ele achava que estava fazendo ali? Se ele não sabia que aquela história não era mais dele, aquela, aquilo, era minha narrativa, minha narrativa com as pessoas com as quais eu hoje tenho uma narrativa, afinal relacionamentos são de todos os tipos.

Ser chamada pelo nome que eu tinha em outra história, outro livro, outra vida, me tocou quase como uma violação. Uma violação de cadáver, um desrespeito ao tipo de lugar que é um cemitério. Eu  me senti suja e quis pegar nos ombros dele, sacudir e perguntar “você não sabe que acabou? que essa história acabou e se você quer insistir em aparecer aqui, ok, mas você não tem o direito de me chamar de nada que não seja o meu nome” . Eu não fiz nada disso, eu saí dali, para minha vida, minha história, com o gosto amargo e o desejo que ele pudesse entender que narrativas um dia terminam e ele já não fazia parte, em absoluto, da minha.

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