“Cinema como sonho, cinema como mágica…”

Eu não sei se isso acontece com todo mundo, em todas as áreas, mas eu respondo muito a “por que cinema?” As pessoas me conhecem na mesa de bar, na casa de alguém, no trem, na fila do museu e perguntam “nossa, cinema, por que?” Porque quando eu tinha 16 anos eu assisti Réquiem Para Um Sonho e eu entendi que podia se contar uma história com sons, imagens, ritmo, atores. Que cinema não era só aquilo que eu tinha conhecido até então. Que aquela história não estava sendo contada para mim apenas na narrativa que eu via, mas nos closes frenéticos, na trilha angustiante, na beleza imaculada da Jennifer Connely.

Eu lia, eu escrevia, mas ambas as coisas pareciam faltar, pareciam etéreas, fantasmas. O cinema tinha uma concretude angustiante.

Carrego Aronofsky, carrego seu formalismo, comigo até hoje. E respondo que cinema porque um dia eu fiquei obcecada.

Mas ontem, enquanto eu lia sobre o Robbin Williams, eu percebi que, voltando mais, talvez Sociedade dos Poetas Mortos seja a resposta. Não é um bom filme. Não é de jeito nenhum um bom filme. E eu desconfio que devo ter torcido um pouco o nariz, revirado um pouco os olhos, mesmo na primeira vez que o vi, aos 13 anos. Eu nunca fui chegada a otimismos e se tem algo que pode ser dito a meu favor é que minha versão atual é um unicórnio cor de rosa cintilante de felicidade comparado com o que já foi.

(quero dizer isso de uma forma boa, mas é um tanto triste. Também é um pouco triste que eu já não tenha nenhuma testemunha da diferença.)

Eu devo ter revirado os olhos, devo ter achado clichê e de um otimismo barato. Mas eu sei que, de alguma forma, o filme me levou. Além do meu julgamento, do meu racional, da minha vontade. Algo no filme me pegou pela mão e me fez chorar nas horas certas, rir nas horas certas e querer sair de lá aproveitando o dia e lembrando que a vida é intensa e curta e toda aquela leitura meio errada de poetas românticos que não estavam falando nada disso.

Isso é o que faz o cinema ser uma indústria gigantesca, gerar milhões de dólares e entregar 1029012910 filmes todos iguais para o público rir na hora certa e chorar na hora certa. Mas isso é também um pouco mágico. Aliás, isso é pura mágica. Como toda, ela pode ser usada para qualquer objetivo, inclusive ganhar rios de dinheiro sendo não original.

Bergman chama sua autobiografia de “A Lanterna Mágica” e conta de quando era criança e de seu fascínio ao ver imagens que se moviam, como se fossem vivas, como se fossem assombradas. Reza a lenda (falsa, mas adorável) de que quando os Lumière apresentaram o cinematográfo, a plateia teve medo de realmente ser atropelada por um trem. Nos primórdios, as apresentações de imagem em movimento eram muitas vezes chamadas de fantasmagoria.

Bergman, ele de novo, desculpem, diz que o cinema é “como mágica, como sonho”. Diz ainda que em alguns de seus filmes tocou verdades profundas que apenas a linguagem cinematográfica, não as palavras, poderiam tocar.

A literatura é de um poder imenso. Palavras mudam o mundo e constroem mundos e livros já me salvaram, destruíram, mostraram verdades brutais sobre o universo. Mas eu acho que o cinema fala a algo mais primitivo, primário, algo antes das palavras. Talvez Bergman esteja certo, há uma camada anterior, mais obscura, mais indesejada, que só as imagens tem o poder de tocar. É como se o cinema pudesse ser a manifestação do nosso inconsciente.

Eraserhead, do Lynch, não é a representação de um pesadelo. Eraserhead É um pesadelo. O material do cinema é imagem, tempo e som. O material do cinema é o mesmo do qual se faz a vida cotidiana. Tarkovsky chama filmes de “moisaicos feitos de tempo” e mais tarde ele usa a imagem de “esculpir o tempo”. Esculpir o tempo, molda-lo, manipula-lo para que ele responda a realidade ou construa a sua própria de forma concreta, material. Isso é o mais perto da mágica que podemos chegar.

Eu costumo ficar triste quando gênios morrem por puro egoísmo. Quando Philip Seymour Hoffman morreu, eu doí porque nunca mais o veria na tela, fazendo aquilo que me embasbacava. Robbin Williams nem fazia filmes bons, quando ele morreu eu fiquei tão terrivelmente triste não porque não veria filmes com ele (não devo ter visto um em anos), mas porque eu gosto muito das pessoas que lembram e reverenciam que o cinema é um pouco de mágica. Eu gosto muito de mágica. Eu gosto demais de tudo aquilo que desafia as leis de como as coisas deveriam ser e também de tudo aquilo que eu não entendo. Eu gosto de livros de fantasia, eu gosto de ver fotos de telescópios espaciais e não me preocupar em ler sobre a física e a química deles. Eu guardo carinho pelos cientistas que me contaram que não se entende tudo, que eles ainda se fascinam porque o universo é inexplicável. Mágico.

Eu gostava dele porque foram tantos filmes dedicados a contar que o mundo é um bom lugar o que é, claro, uma gigantesca mentira. Mas quando um filme te faz acreditar nisso por algum tempo, ele está fazendo mágica. Eu acho o mundo um lugar terrível e posso viver com isso, mas eu detestaria que ele fosse completamente desencantado.

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